A RVORE DO CU
III
A SEMENTE ESCARLATE
EDITH PARGETER

A RVORE DO CU
III
A SEMENTE ESCARLATE

Traduo de Fernanda Baro e Isabel Fernandes
Romance
Editorial Bizncio Lisboa, 2005

Ttulo original: The Heaven Tree III- The Scarlet Seed
(c) Edith Pargeter, 1963
1 edio portuguesa: Maio de 2005

Traduo: Fernanda Baro e Isabel Fernandes
Reviso de texto: Sandra Pereira
Capa: Cerebralidades
Gravura da Capa: Pintura a leo de Eric Harald Macbeth Robertson (1887-1941):
Robert the Bruce e De Bohun. (c) Bridgeman Art Library/AIC
Composio e paginao: Editorial Bizncio
Impresso e acabamento: Rolo & Filhos - Artes Grficas, LDA
Depsito legal n 226 475/05
ISBN: 972-53-0267-2

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CAPTULO UM

Parfois, Shrewsbury: Agosto de 1232

As espadas de torneio, de ponta boleada, entrechocaram-se, fragmentando a luz do sol em lgubres farpas azuladas. O choque sacudiu-o do pulso at ao ombro, mas Harry 
conseguiu manter a posio e, polegada a polegada, afastou da cabea a lmina do adversrio. Se o golpe tivesse atingido o alvo, no mnimo Harry teria abandonado 
o terreiro da lia atordoado, ainda que escapasse de ser retirado com a cabea partida. O velho Nicholas Stury nunca era brando. s vezes, Harry suspeitava que ele 
sentia prazer em magoar e encher de ndoas negras os jovens homens de armas que se submetiam s suas lies e no havia dvida de que muitos deles o temiam.
Sob o impulso do ataque e da parada, os dois adversrios giraram sobre si prprios, mudando de posio em dois passos rpidos. O crculo de rostos atentos dos espectadores 
acompanhou os movimentos de ambos, as vozes abafadas sussurraram previses e comentrios febris. Harry conhecia-os demasiado bem para acreditar no seu apoio. Eram 
bastante tolerantes com ele e, ao longo dos meses que passara na sua companhia, alguns haviam mesmo acabado por se tornar seus amigos mas, quando se tratava de um 
torneio, no

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podiam desejar a vitria deste prisioneiro gals, mesmo que o adversrio fosse Stury, a quem detestavam profundamente. Apesar do mau feitio, o velho Nicholas era 
um homem de Parfois, era um deles, e podia contar com o seu apoio contra um estranho.
Nicholas Stury era grande adepto daquele ataque devastador  cabea do adversrio, talvez porque gostasse de ver o efeito aterrador que este produzia, antes de atingir 
o alvo ou de ser desesperadamente parado. Se lhe dessem tempo, tentaria outra vez mas Harry conhecia mais de uma maneira de lhe fazer frente. Desviou-se prudentemente 
para a direita, repeliu dois ou trs golpes que no passavam de fintas, ensaiou por sua vez alguns no menos falsos e, ento, o ataque repetiu-se, forte e fulminante, 
destinado a p-lo sem sentidos, com uma pancada sobre o elmo de treino, acolchoado. Desta vez, porm, em vez de recuar e erguer a espada para afastar da cabea a 
arma do adversrio, Harry baixou-se, deu um salto lateral por baixo da lmina e, ao passar pelo adversrio, flanco direito com flanco direito, inverteu a posio 
da espada e desferiu um golpe nas costelas de Stury, com tal fora que este emitiu um som rouco. Em seguida, para que no restassem dvidas, enterrou a ponta romba 
da espada no sovaco descoberto do mestre de armas, a fim de mostrar que, num combate a srio, o teria facilmente ferido.
Os jovens saudaram ruidosamente o toque. Empoleirado no parapeito da janela do armeiro mais prxima, um dos pajens gritou:
- Tocou!
A alegria sincera daquele grito tocou o corao de Harry. Segundo parecia, contava com pelo menos um apoiante. Walter Langholme, o escudeiro do senhor de Parfois, 
repetiu o grito com autoridade e, quando Stury se preparou para prosseguir o combate, interps-se e encostou-lhe ao peito a ponta romba de uma lana de torneio.
- Basta. Talvace venceu, Nicholas. Reconhecei que haveis sido derrotado.
Admitir a derrota era um acto difcil para um mestre de armas experiente, em quaisquer circunstncias; mais difcil ainda quando o aluno demasiado dotado era um 
cativo estrangeiro e, para mais, um adolescente de dezassete anos que, por capricho do seu senhor,

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se pavoneava pelo castelo e estava autorizado, por merc especial, a participar nos torneios organizados pelos jovens da corte.
- Ele mal me tocou - protestou Stury, afastando a lana do peito largo, com uma mo to dura como o grs sobre o qual assentava o castelo de Parfois. - Chamais quilo 
um toque? Se o meu p no houvesse escorregado, ele nunca haveria escapado ao meu golpe.
Harry afastou-se para a sombra do armeiro e deixou cair a espada sobre o rebordo de pedra que se estendia por baixo das janelas. Desapertou o elmo acolchoado, to 
simples e destitudo de ornamentos quanto os elmos cerimoniais de torneio eram elaborados e trabalhados, descobrindo o rosto afogueado. O pajem que se encontrava 
empoleirado na janela atirou-lhe um leno e Harry limpou o suor do rosto e do pescoo, com satisfao. Em seguida, sem se voltar, desafiou Stury:
- Se pondes em causa este toque, concedei-me outro assalto. Para mim tanto faz: posso voltar a fazer a mesma coisa.
No era sensato dizer tal coisa naquelas circunstncias; a impertinncia atiou contra ele a lealdade dos presentes, mesmo das raras pessoas que lhe manifestavam 
maior simpatia, e provocou um coro agressivo de incitamento entre os partidrios de Stury. Para falar verdade, Harry no estava de modo algum seguro de ser capaz 
de honrar a fanfarronada. Uma coisa era inverter a relao de foras - era apenas uma questo de pacincia e cautela; outra bem diferente era repetir a faanha, 
pois Stury estava agora de sobreaviso e de cabea quente, devido ao revs que sofrera, e no era homem para se deixar enganar. Todavia, era demasiado tarde para 
pensar duas vezes: s lhe restava enfrentar a situao. Harry pegou no cntaro que se encontrava sobre o rebordo de pedra e bebeu com avidez, enquanto os outros 
discutiam ruidosamente e Langholme batia com a lana no solo e gritava para restabelecer a ordem.
Ento, vinda da sombra do arco que dava para o terreiro interior do castelo, uma voz forte e clara proclamou:
- Talvace foi o vencedor, no h qualquer dvida. Algum refuta essa vitria?
O clamor cessou de imediato. Como conseguira Isambard fazer-se ouvir no meio de tamanho burburinho era um mistrio para

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Harry. Talvez as suas primeiras palavras houvessem sido mais pressentidas do que ouvidas, abrindo caminho at aos nervos tensos, como um daqueles sons irritantes 
que nos fazem rilhar os dentes. Fosse como fosse, a sua interveno, embora breve, gerou o silncio  sua volta e todos os que se encontravam diante do armeiro se 
puseram de p, numa atitude respeitosa. Quando o seu senhor se aproximava, s tinham olhos para ele, fitando-o com uma ansiedade e uma ateno a que Harry se habituara 
havia muito.
Entre todos os que aqui esto, sou o nico que no tem medo dele, pensou. Mas, logo em seguida, corrigiu aquela estimativa apressada: Langholme tambm j no o temia, 
embora em tempos isso houvesse por certo sido verdade. Cuida-lhe do corpo h tanto tempo que superou o medo; ambos devem ter chegado a um tal ponto de compreenso 
mtua que o receio desapareceu. Walter no aspira a ser armado cavaleiro e no deseja obter de Isambard mais do que aquilo que j tem; e lorde Isambard sabe que 
Langholme no  ambicioso e d-lhe mais valor do que a qualquer um destes.
Harry observou a figura alta e esguia do senhor de Parfois, que, a passos lentos, se afastava da sombra do arco e se aproximava, rodeado pelo silncio que provocara. 
No se apressava por causa deles, tal como nunca se detivera nem se apressara perante reis. O calor de Agosto fizera-o desembaraar-se do pelote e da cota e abrir 
a gola da camisa larga de linho, deixando a descoberto a garganta descarnada e erecta, na qual as veias sobressaam, tensas como as cordas de um arco, sob a pele 
tisnada. Isambard adorava o Sol. Mandara abrir grandes janelas lanceoladas nas paredes da torre dos seus antepassados, para que o sol entrasse nos aposentos que 
escolhera, e tudo indicava que o Sol lhe retribua a devoo como um bom amigo: ano aps ano, o Vero tisnava-lhe a pele e reavivava a sua sombria beleza de outrora, 
libertando-o, ao mesmo tempo que ele se libertava dos brocados da Flandres, de uns bons quinze dos seus sessenta e oito anos. O Sol no podia voltar a escurecer 
os cabelos grisalhos, fortes e encaracolados como os de um adolescente, mas dourava e polia as mas do rosto e os maxilares, a rocha desgastada da testa, e expulsava 
do seu corpo a rigidez do Inverno;

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parecia pois natural v-lo mover-se como um jovem gamo e brilhar como o Sol no znite, em pleno Agosto.
- Um belo golpe - comentou. - Bem poderia haver-vos trespassado o corao. Parece que o ensinastes demasiado bem. Agora, ele conhece de cor todos os vossos movimentos.
- Ele nunca me haveria atingido, senhor, se o terreno fosse relvado. Mas no ponho em causa o toque.
No podia faz-lo, pensou Harry, descontente, porque Isambard o fitava olhos nos olhos e proclamava, num tom absoluto, aquilo que era a pura verdade. A obstinao 
de Harry contra todos os que o rodeavam tornou-se mais forte: no fundo, eram todos seus inimigos e diabos o levassem se se mostrasse disposto a pactuar com qualquer 
deles.
- Propus a Stury um novo combate, senhor, j que ele no est satisfeito. No quero uma vitria que ele diz no haver passado de um golpe de sorte. Se eu conseguir 
repetir o feito, talvez possamos chegar a acordo.
Segurando o cntaro ora com uma mo ora com a outra, Harry despejou um pouco de gua fria sobre os pulsos e deixou que o ar quente do meio da manh os secasse. Sabia 
que aquilo era uma tolice mas, ao fim de sete meses, estava farto de se mostrar sensato e de suportar pacientemente as presses do isolamento no meio de toda aquela 
gente. Se Stury fosse capaz de provar ser o melhor, que o fizesse. Ele no ia recuar perante o mestre de armas, a no ser pela fora. Nem perante o prprio Isambard. 
Todos quantos viviam no castelo tinham medo dele, mas Harry no pertencia  casa de Isambard. Ia provar-lhes que ser um estranho e um prisioneiro lhe dava uma estatura 
superior  deles. Sem pestanejar, sustentou o olhar dos olhos escuros que o perscrutavam sem sorrir, do outro lado do crculo, e limpou as mos lentamente, flectindo 
os dedos impacientes, prontos para voltar a empunhar a espada, apesar de os efeitos daquele forte impacto inicial ainda no terem passado por completo.
- Com a vossa permisso, senhor. Estou  disposio do mestre Stury.
Isambard, que tirara a espada de torneio da mo de Stury, agarrou o punho com a mo magra de dedos compridos, encostou a

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ponta romba da arma ao solo e apoiou nela o peso do corpo, experimentando-a.
- O comprimento no  o ideal para mim, mas serve. Se ests assim com tanta vontade de esgrimir, sempre podes proporcionar-me um pouco de exerccio.
Portanto, Isambard no queria que o velho Nicholas fizesse figura de tolo, pensou Harry, sem surpresa e sem grande ressentimento. E eu vou apanhar uma sova de outra 
maneira. Bem, vamos levar as coisas mais longe, j que, pela primeira vez, ele condescende em oferecer-me uma justa. Harry firmou bem os ps vigorosos no solo e 
lanou a Isambard um olhar flamejante e hostil, num desafio claro que talvez houvesse escapado aos presentes, mas que por certo no escapara ao destinatrio.
- No h qualquer litgio entre vs e mim, senhor. Foi o mestre Stury quem pediu uma satisfao.
Deu-se conta do movimento e dos sorrisos de todos os jovens escudeiros de Parfois, encantados por o verem bater to rapidamente em retirada. Um deles, prximo de 
Isambard, soltou uma gargalhada escarninha. Deix-los divertir-se, pensou Harry, sem desviar os olhos. Contudo, Isambard no se movera nem sorrira: sopesava a pesada 
espada e observava Harry atravs dos raios de luz, sem manifestar a mnima impacincia. Sabia que ele ainda no dissera tudo.
- Mas se quiserdes pr-me  prova com espadas no boleadas, senhor, ficarei encantado por vos proporcionar o melhor combate que puder.
Os presentes sustiveram a respirao, chocados por tamanha insolncia, encolerizados contra Harry em nome da dignidade de Parfois; mas tambm maravilhados perante 
a sua ousadia e vagamente apiedados da sua loucura. Por seu turno, Harry sentiu o corao apertar-se ao ouvir as prprias palavras, mas continuou a ostentar uma 
expresso impenetrvel. Apenas Isambard no deu indcios de ter ouvido mais do que uma observao normal, que qualquer dos presentes poderia ter feito. Nem por um 
instante, os dedos compridos, que seguravam o punho tosco da espada com uma delicadeza desenvolta, tremeram ou se crisparam; ergueu a

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cabea, num movimento calmo e lento, e o longo olhar pensativo que fixou no rosto de Harry no patenteou qualquer emoo aos olhos de todos quantos o observavam 
atentamente,  espera de o ver esmagar ou matar o jovem atrevido, consoante o humor do momento.
Harry esperava uma recusa pura e simples e uma parte do seu esprito, sensvel a um medo fsico bem natural, hav-la-ia aceite de bom-grado. Mas os grandes olhos 
do senhor de Parfois, que ardiam serenamente nas rbitas cavadas, sorriam ligeiramente, no deixando transparecer clera nem impacincia. No que isso eliminasse 
o perigo de o haver enfrentado: Isambard no precisava de uma nem de outra para ser capaz de matar.
- Trazei duas espadas de combate, Walter.
A voz era calma. Ningum ousou manifestar consternao. Sem uma palavra, Langholme afastou-se e, com passos pesados, dirigiu-se para a armaria.
- No h pressa, Harry - disse Isambard, ao ver o jovem estender a mo para o elmo. - Descansa. Ainda mal tiveste tempo para recuperar o flego.
- Ides usar armadura, senhor? - perguntou Harry, pronto a detectar qualquer afronta e a mostrar-se ofendido.
- No te preocupes. Vamos combater em perfeita igualdade. Aproximou-se da pilha de armaduras de couro e, com um
movimento casual do p, foi-as afastando por serem demasiado pequenas, depois do que se dirigiu  armaria, atrs de Langholme. Quando Isambard deixou de poder ouvi-los, 
os presentes voltaram por fim a respirar e lanaram, em surdina, uma chuva de insultos e conselhos dirigidos a Harry: aqueles que nutriam por ele alguma simpatia 
amaldioavam-no por haver sido um tolo e desafiado a morte em vo e incitavam-no a recuar, mesmo que de forma abjecta, enquanto era tempo; aqueles que no nutriam 
qualquer simpatia por ele prenunciavam com satisfao um resultado acima de qualquer expectativa - no mnimo uma humilhante lio de esgrima, na pior das hipteses 
uma mutilao. Nenhum deles pensava em morte. Tinham a certeza de que Isambard o queria vivo, uma vez que o deixara viver durante dois anos, quando poderia muito 
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hav-lo liquidado; e no duvidavam igualmente de que, j que a morte no fazia parte dos planos de Isambard para o rapaz, este no poderia invoc-la. Isambard faria 
dele gato-sapato, dar-lhe-ia uma tareia para que se arrependesse da sua presuno, faria correr algum sangue ou marc-lo-ia para o resto da vida, conforme lhe aprouvesse, 
e depois deix-lo-ia em paz.
Harry fez-se de surdo, curvou os ombros para se proteger tanto dos insultos como dos conselhos e ficou teimosamente  espera, a massajar a mo dormente para recuperar 
a sensibilidade. Que sabiam eles das boas razes que o levavam a ter medo do que fizera? Nem sequer eram capazes de perceber o que se passara diante dos seus olhos. 
S ele sabia at onde podia chegar aquele jogo perigoso e, em vez de recuar, sentia crescer em si o desejo de lanar nele. Tambm sentia medo, o medo de no estar 
 altura e o medo sensato de qualquer homem perante a morte. Mas Harry no queria reconhecer esses medos e, antes mesmo de Isambard voltar do amieiro, j os expulsara, 
deixando fluir apenas o dio e o orgulho.
Empunhando a lana de torneio em posio transversal, Lang-holme empurrou os corpos que se agrupavam  volta do terreiro espezinhado, para arranjar espao para os 
dois combatentes. Um e outro desferiam golpes longos. Apesar de ter mais cinco ou seis polegadas do que o pai, Harry era, ainda assim, mais baixo do que Isambard 
umas trs ou quatro e tinha uma ossatura mais leve e delicada do que a deste ltimo. Era preciso pelo menos dar-lhe espao para recuar, se lorde Isambard decidisse 
infligir-lhe um castigo. Descontente, Langholme manobrou a lana sem grande delicadeza. Quem havia de dizer que ia acontecer uma coisa daquelas, num combate sem 
importncia?
- Dai-nos espao - ordenou Isambard que, pela viseira do elmo de treino, lanou em torno de si um olhar acerado, mais eficaz do que a lana de Walter. - Vs, Nicholas, 
tirai esta porcaria de debaixo dos nossos ps - acrescentou, empurrando com o p as armaduras de couro.
Depois de estas terem sido levadas, voltou-se para Langholme:
- Vs sereis o rbitro do combate, Walter. Ento, Harry? Ests pronto?

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- At ao primeiro toque, senhor? - perguntou Langholme, com alguma esperana, fitando o seu senhor antes de este fechar a viseira.
- Dar-me-ei por satisfeito com o que o Harry decidir - respondeu Isambard.
Os seus olhos brilhantes estavam velados por uma sombra e o tom natural da sua voz nada revelava.
- At ao golpe decisivo - cortou Harry, tendo o cuidado de no dizer "at  morte".
Era um segredo entre ele e Isambard e nenhum dos dois queria revel-lo diante de terceiros.
Agora, tudo dependia deles: s havia uma sada e apenas para um dos dois. Langholme baixou o cabo de uma lana, dando o sinal para o incio do combate e ambos se 
aproximaram, num movimento duplo, flexvel e cauteloso, que fazia lembrar o de um s homem diante de um espelho. O crculo de rostos atentos, o anel de olhos vidos 
desapareceram como velas que se apagam, o murmrio de vozes tensas que no ousavam falar alto esvaiu-se no silncio; os dois ficaram sozinhos no mundo como, em certa 
medida, sempre haviam estado, defrontando-se de armas na mo, desde o dia do primeiro encontro: o jovem, reclamando um ajuste de contas pelo destino do seu pai; 
o homem, consciente das inmeras dvidas que tinha por saldar.
Enquanto observava os movimentos do brao comprido que testava as suas defesas, Harry evocava mentalmente as razes do seu dio e acalmava o corao, lutando contra 
os mpetos de vingana. Fostes vs quem trouxe para aqui o meu pai e o seu irmo adoptivo, Adam Boteler. Fizestes dele vosso mestre canteiro para vos construir uma 
grande igreja. No vos deu o que haveis pedido? No executou o que lhe fora mandado construir? Sabeis bem que no! Foi na igreja que vos encontrei pela primeira 
vez e bem vos vi olhar para a obra do meu pai. Sei que a considerais perfeita. Vs mesmo mo dissestes. Como foi ento que ele vos traiu? Como vos ofendeu? Tirou-vos 
das mos uma criana de nove anos, um prncipe gals que haveis feito prisioneiro e que eis executar, por ordem do rei Joo. E mandou o Adam lev-lo de volta ao 
seu pai

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adoptivo, o prncipe Llewelyn. Foi apenas isto! Privou o rei Joo do cadver de Owen ap Ivor e poupou-vos vs ao cumprimento de uma tarefa ignbil que vos repugnava 
mas que, no obstante, estveis disposto a cumprir. Depois disso, o meu pai regressou e entregou-se nas vossas mos porque havia jurado no partir antes de haver 
terminado a sua obra-prima. E terminou-a, acorrentado; depois, quando foi desmontada a ltima tbua dos andaimes, vs haveis ordenado que ele fosse conduzido diante 
da sua prpria igreja, para a sofrer uma morte de traidor, uma morte atroz. "Vou arrancar-te o corao do peito, vivo" dissestes. E assim haveria sido, se Madonna 
Benedetta, que haveis trazido convosco de Paris, Madonna Benedetta, que vs amveis, no houvesse em segredo cuidado de que lhe fosse dado um fim melhor, rpido 
e limpo, pela mo de John o Frecheiro, o arqueiro que a servia. Mas nem mesmo ento fostes capaz de o deixar em paz! Nem a Madonna Benedetta, porque o amava e o 
poupara a uma morte terrvel. Havei-la despido e atado o seu corpo vivo ao corpo morto do meu pai, haveis atirado ambos ao Severn, para que apodrecessem para todo 
o sempre nos braos um do outro. E assim haveria sido se John o Frecheiro no os houvesse encontrado e levado para terra, dando a uma a vida e ao outro um tmulo 
tranquilo, em Strata Marcella. Mas vs ainda no estveis satisfeito. Haveis descoberto o rasto de Madonna Benedetta e o local onde nos havia escondido, a mim e 
 minha pobre me, ainda to fraca de me haver dado  luz, e haveis-nos perseguido para l da fronteira de Gwynedd, at um refgio que no podereis haver previsto, 
at ao senhorio e  proteco paternal do prncipe Llewelyn.
Pensveis que eu no voltaria? Cuidveis que vos haveis desembaraado do ltimo Talvace? Que a histria iria acabar assim?
Mas Harry viera demasiado cedo, aos quinze anos apenas; escalara a ravina de grs e escondera-se na igreja, na esperana de entrar furtivamente em Parfois e satisfazer 
a sua sede de vingana. Mas fora na igreja que encontrara Isambard, fora a que fizera tudo o que estava ao seu alcance para o matar, custasse o que custasse, mesmo 
que para tal tivesse de morrer. Harry lembrava-se da dura luta no trifrio, do salto desesperado que dera na tentativa de arrastar o inimigo atrs de si, de uma 
altura de trinta ps, at s lajes de pedra.

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Ainda sentia a mo descarnada que lhe apertara impiedosamente o pescoo, agarrando cota, camisa e carne, puxando-o para trs e atirando-o contra a parede, abaixo 
dos modilhes que o seu pai esculpira. Com uma clera que lhe fez afluir o sangue ao rosto, recordou as trs bofetadas brutais e deliberadas, desferidas pela mesma 
mo que agora empunhava a espada diante de si e testava as suas defesas. E ouviu a voz fria dizer: "Isto  por haveres desprezado a prpria vida, grande tolo." Depois, 
veio a cela por baixo da torre e o longo cativeiro, aquele imenso tormento que ainda no tivera fim.
Desde ento, nunca mais se haviam defrontado; at quele dia, Isambard nunca consentira em enfrent-lo.
Todos os rancores acumulados ao longo daqueles anos concentraram-se na mo de Harry e propagaram-se ao metal da espada. Se desperdiasse aquela oportunidade, no 
teria outra. O enorme peso do momento fez-lhe tremer e doer o brao por um instante, antes de mo, arma e brao se fundirem num relmpago inteligente.
As espadas tocaram-se e deslizaram, silvando, giraram e bateram uma na outra  altura da cabea, voltando depois a afastar-se, inofensivas. Quantas vezes Harry observara 
Isambard enquanto ele esgrimia e contemplara aquele rosto espantoso, mais grave e mais imvel do que nunca, avaliando o esforo despendido como se fosse de outra 
pessoa e no o seu. Naquele momento, Harry entreviu os olhos que o fixavam atravs da grelha da viseira e viu-os sorrir. Conhecia este golpe, havia-o vsto centenas 
de vezes, admirara a sua subtileza, estudara-o atentamente, a fim de encontrar uma forma de o aparar. E, de pulso firme e olhar seguro, aparou-o. Nesse instante, 
os olhos negros e trocistas brilharam como ferro ao rubro. E continuavam a rir, quando Harry atacou a fundo e se voltou, acompanhando a estocada, mais rpido do 
que o eco do ao; a espada aflorou o ombro de Isambard no momento em que este recuava de um salto.
Por um instante, o crculo de rostos ressurgiu no vazio que os rodeava, soltou um suspiro tremente de espanto e admirao e voltou a desaparecer.
Harry engoliu o sangue que tinha na boca e sentiu uma nusea; a impacincia levara-o a morder a lngua. Com isso, perdera a

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oportunidade de tirar partido daquele sucesso inesperado. Nunca pares para ver o resultado do golpe que desferiste: desfere outro de imediato, depois outro, antes 
de ele ter tempo para pensar no primeiro. Isambard  um velho, tem sessenta e oito anos, podes cans-lo, deix-lo esgotado, at a mo lhe falhar ou o p lhe resvalar. 
Ele sabe que queres ir at ao fim e assentiu. Tu disseste: at ao golpe decisivo, mas ele ouviu a palavra que no pronunciaste e respondeu "dar-me-ei por satisfeito".
O brao comprido de Isambard lanou um ataque forte e rpido  cabea de Harry. Este reagiu com algum atraso, mas aparou o golpe, embora a parte chata da lmina 
lhe houvesse atingido o ombro. Os seus msculos contraram-se sob o choque, mas conseguiu controlar a dor e deu um passo atrs, para recuperar o flego. Todavia, 
o pnico momentneo transformou-se de imediato numa frieza de ao. Repeliu os violentos ataques que se seguiram com a firmeza de uma rocha; por nada deste mundo 
voltaria a recuar diante do seu inimigo. O seu olhar era to arguto como o do velho senhor, o seu brao igualmente firme e podia sem dvida contar com uma maior 
resistncia fsica. Tudo o que lhe faltava era a longa experincia dos campos de batalha, o terrvel talento que permite criar novos golpes a partir daqueles que 
se vo parando, a capacidade de inveno que permite sempre criar surpresa. Observar e estar preparado: no havia outra via. Evocar todos os ataques que vira Isambard 
desferir ao longo daqueles dois anos e, se este fraquejasse por um instante que fosse, ganhar-lhe o assalto, porque a oportunidade no se apresentaria uma segunda 
vez.
Contudo, Harry no se fiava sequer nessa oportunidade nica e ainda bem, porque Isambard nem por um instante abrandou a concentrao. Dava o melhor de si em tudo: 
mo, olhos, jogo de ps. E o mesmo olhar crtico que guiava a espada ria e aprovava a intensidade reflectida do adversrio, que no pestanejava, cruzava imperturbavelmente 
ferro contra ferro, esperando com uma pacincia feroz a mnima brecha nas suas defesas.
Os dois escorriam suor, os msculos dos seus braos gemiam sob o peso das espadas e do esforo, as coxas tensas crispavam-se e at as solas dos ps estavam doridas. 
Contudo, nenhum deles queria

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mostrar o mnimo sinal de fadiga. Os choques violentos das espadas repercutiam-se nos ombros e nos flancos, mas os olhos de ambos no se desviavam e os assaltos 
sucediam-se sem trguas.
O crculo de rostos reaparecera no seu campo de viso, os murmrios haviam-se tornado mais insistentes, quase receosos. Langholme agitava-se, inquieto, com os nervos 
 flor da pele, sem saber se devia intervir ou deixar correr. Harry tinha uma vaga conscincia de tudo isto, mas no podia permitir-se desviar a ateno. Foi Isambard 
quem, sentindo a agitao nas suas costas, lanou um breve olhar para o lado, como que para avisar os espectadores que no interviessem naquilo que no compreendiam.
Harry deu-se conta do nfimo movimento de cabea do adversrio, da desconcentrao momentnea dos olhos que o fitavam. Avanou como uma fria, com a espada em diagonal, 
mergulhando sob a lmina da espada de Isambard, que reagiu habilmente, sobressaltada, para o desviar. Apesar da rapidez da sua reaco, o senhor de Parfois no tinha 
outra parada que no fosse recuar, uma e outra vez, face quele assalto, at conseguir ter espao de manobra para manter o jovem  distncia. Seguro da sua vantagem, 
Harry manteve a presso, empurrando o adversrio, com o seu assalto, em direco ao crculo de espectadores atnitos, que se afastaram para lhes dar espao.
Ento, de sbito, Isambard caiu por terra! Um grande passo atrs, junto ao muro, e a correia de um elmo que ali ficara rolou sob o seu p, fazendo-o cair. Caiu sobre 
o joelho e a anca, na terra batida, a espada quase a saltar-lhe da mo, caiu com a agilidade inimitvel de um gato, conseguindo firmar-se nas pernas, num movimento 
vivo. Mas, com o impulso que levava, Harry caiu sobre ele sem lhe dar tempo para se levantar e apontou-lhe a espada  garganta.
Ficaram estticos por um instante e o mundo em volta deles parou, numa imobilidade e num silncio que lhes permitiu ouvir o suor a escorrer-lhes da testa e a contraco 
dos msculos do brao do jovem, que corrigia a posio da espada, e do corpo do homem que, por terra, aguardava o golpe sem pestanejar.

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As respiraes sustidas dos presentes soltaram-se num clamor sbito e Langholme correu para os dois combatentes, seguido de perto por Nicholas Stury. Todavia, a 
sua interveno no era necessria: o momento passara. Com as pernas a tremer, Harry dera meia volta e afastara-se para o extremo do terreiro da lia; com a ponta 
da espada assente na terra, esperava que o seu inimigo se levantasse. Ouviram-se gritos de protesto: no fora uma vantagem; se a correia no se encontrasse no cho, 
lorde Isambard no haveria cado. Uns dez braos estenderam-se para o ajudar a erguer-se. Como se ele precisasse de ajuda! Antes de haverem tido tempo para lhe tocar, 
j ele se levantara, recusando tal solicitude com impacincia e desprezo.
Sempre pronto a tentar cair nas boas graas do seu senhor, o jovem Thomas Blount gritou, na sua voz clara e provocadora:
- Seria melhor se o deixsseis entregue aos martelos e cinzis, senhor. Ele luta como um canteiro.
Harry ouviu o reparo  distncia, mas este no veio acrescentar nada  j longa lista dos seus ressentimentos contra Thomas. Quanto a Isambard, o mais provvel era 
no ter ouvido nada. Com a espada entretanto recuperada a balanar na mo, olhava fixamente para o jovem que aguardava, de cabea obstinadamente baixa, do outro 
lado do terreiro.
- No houve vantagem - disse Langholme, com a voz ainda vibrante de uma emoo que caminhava j para as fronteiras da irrealidade.
Em breve, todos pensariam haver sonhado com a ponta da espada encostada  garganta do seu senhor, a mo de Harry crispada sobre o punho, os corpos tensos como cordas 
de arco. Em breve, estariam convencidos de que, devido ao impulso que levava, Harry no poderia ter parado a tempo, diante do adversrio cado por terra.
- Eu no proclamei vantagem - atalhou Harry.
- Ento, senhor, se vos dais por satisfeito... - comeou Walter.
Walter Langholme queria acabar com aquilo: desde o incio que o duelo lhe desagradava. De todos os presentes, talvez fosse o nico a aperceber-se da torrente tumultuosa 
a correr por baixo da

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superfcie aparentemente calma, que arrastava consigo os dois antagonistas, ligados to fortemente pelo dio como dois amantes esto ligados pelo amor.
- Ds-te por satisfeito, Harry? - perguntou Isambard, numa voz neutra, pois no queria influenci-lo.
- Nenhum de ns levou a melhor at agora, senhor. Louco, s um louco, pensou Harry, furioso com o tremor que
lhe agitava o corpo, agora esgotado pela surpresa e pelo choque. Mal consegues segurar a espada. De que serve convid-lo a matar-te? Todavia, cerrou os dentes e 
endireitou o corpo: no queria de modo algum recuar. Morte por morte era a dvida que tinha para com o seu inimigo e ningum iria poder acus-lo de no haver cumprido 
o seu dever.
- Como queiras - replicou Isambard, com a sombra de um sorriso a iluminar-lhe por um instante o olhar, ao detectar no tom obstinado de Harry o tremor que no era 
visvel nas pernas retesadas. - Em guarda!
Harry fez o melhor que pde. O corpo obedecia-lhe, embora com menos convico do que desejaria, como seja no acreditasse no rancor dos seus intentos. Por trs vezes, 
tarde e com ansiedade, afastou a lmina que procurava atingi-lo, lutando simultaneamente contra a falta de firmeza da sua mo e contra a segurana da mo do adversrio. 
Em seguida, recuperou o alento e voltou a replicar com maior vigor. Tudo o que acontecera no podia ser em vo. No podia. O velho senhor estava cansado: j no 
levava os assaltos at ao fim, os seus movimentos eram mais lentos, evitava as aproximaes excessivas.
Harry respirou fundo e avanou. Isambard recuou deliberada-mente um passo e, sentindo-se encorajado, o jovem seguiu-o: esquivou-se  lmina que procurava o seu flanco 
esquerdo e lanou-se num assalto, com todo o seu peso. Isambard passou sob a lmina e aproximou-se, prendeu o punho da espada de Harry com o seu e f-lo desequilibrar-se, 
empurrando-o com a anca. A execuo final da manobra foi feita sem pressas. Isambard recuou com toda a calma e, enquanto Harry tentava recuperar o equilbrio, lanou 
um golpe bem calculado  espada do adversrio, arrancando-lha

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da mo sem qualquer esforo intil. A espada caiu no cho, a trs jardas de distncia, e a lmina tilintou como a corda de um arco ao rebentar.
Pela segunda vez, ouviu-se um enorme suspiro concertado, a afastar a tenso acumulada. Desta vez, um suspiro de contentamento, pois o fim fora o que desejavam. O 
jovem Thomas Blount at se riu: uma gargalhada clara e sonora, ostensiva, to estudada como a de uma rapariga. Um riso humilhante, que chegou aos ouvidos de Harry, 
no momento em que este se baixava penosamente para apanhar a espada. Contudo, quando ergueu o rosto, Harry apresentava uma expresso impenetrvel: Thomas no teria 
o prazer de o ver perder a compostura.
Ainda de espada na mo, Isambard voltou-se e fitou Thomas:
- Ah, Thomas! Achaste a exibio assim to m?
Apesar de o seu rosto apresentar uma expresso amvel e sorridente, a voz e o gesto de Isambard estalaram como um chicote.
- Sendo assim, vem mostrar ao Harry quais foram os seus erros. D-lhe uma lio de esgrima. Agradar-me-ia muito ver-vos medir foras - acrescentou, segurando a prpria 
espada pela lmina e entregando-a a Thomas. - O Harry no se furtar a aprender com um mestre.
Por entre os ombros dos homens de armas, Harry viu o rosto de Thomas empalidecer de consternao. O pajem ainda tentou sorrir, mas o sorriso transformou-se num esgar, 
que contorceu lamentavelmente os traos harmoniosos do seu rosto e logo desapareceu, ao ver que Isambard no dava indcios de retirar a espada que lhe oferecera. 
Todas as cabeas se haviam voltado para ele e muitos dos homens de armas sorriam. Haveria sido bem melhor mostrar-se prudente com o riso; este  traioeiro e muda 
facilmente de campo.
- O Harry no est em condies de travar outro combate, senhor - protestou Thomas, apelando  pouca segurana que lhe restava. - Olhai para ele! No seria justo.
- Cabe-lhe a ele decidir. Ainda te sentes com flego para mais um, Harry?
- De bom-grado, senhor! - replicou Harry, com uma expresso simultaneamente alegre e grave.

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- Ouviste, corao ousado? Aproxima-te e mostra-me o que tencionas ensinar-lhe.
- Senhor, ele tem de obedecer s vossas ordens - disse Thomas, com um trejeito nervoso no rosto plido e recuando diante da espada estendida. - Num tal combate, 
ele no perder glria e eu no a ganharei. No me pedireis para enfrentar um homem cansado e ferido, senhor!
Os olhos denotavam ansiedade, mas a voz petulante deixava transparecer uma candura indignada. Thomas conseguia sempre arranjar maneira de se furtar airosamente a 
todas as situaes que no lhe agradavam e, at ento, o seu senhor nunca deixara de rir e de o deixar escapar-se. Porque haveria de ser diferente desta vez?
- Muito bem dito, meu nobre Thomas, modelo da cavalaria. Com efeito, no posso pedir-te que cometas um tal atentado  tua honra - respondeu Isambard, com um sorriso 
que nada tinha de ameno, ao mesmo tempo que passava a espada de uma mo para a outra. - Adiemos o combate para um momento mais adequado - acrescentou, enquanto o 
seu sorriso se transformava num trejeito diablico. - Para amanh, quando o Harry estiver to fresco como tu e ambos houverem tanta glria a perder como a ganhar.
Por um instante, Isambard fitou nos olhos o seu pajem favorito, sublinhando a ameaa; em seguida, deu meia volta e, com um gesto imperioso, estendeu a espada a Walter 
Langholme.
- Amanh, no deixes de me lembrar, Thomas - disse, antes de se afastar a grandes passadas, em direco ao arco que dava para o terreiro interior.
O som seco e ameaador da sua gargalhada, lanada por cima do ombro, chegou claramente at eles.
A partida de Isambard trouxera de novo o sangue s faces de Thomas, numa onda de alvio, mas aquela gargalhada transformou o alvio em consternao, fazendo-o corar 
violentamente. O suspiro colectivo de alvio resultante da libertao das tenses transformou-se ostensivamente numa vaga de risinhos irnicos e os sorrisos abertos 
dos homens de armas atingiram a dignidade ofendida de Thomas, como cido derramado sobre uma ferida.

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- Tem calma, rapaz - aconselhou Langholme, que segurava com resignao as duas espadas de combate. - Ele no vai obrigar-te a nada. Amanh, no abras a boca, fica 
longe das vistas dele e lorde Isambard no vai importar-se de se esquecer do que disse. O mais provvel  nunca haver sido sua inteno levar as coisas at ao fim.
Nunca as palavras de conforto foram mais humilhantes. A tremer de raiva e despeito, Thomas mordeu os lbios e lanou um olhar furioso aos companheiros sorridentes. 
At ento, o seu estatuto de favorito dera-lhe um certo ascendente sobre alguns deles. Iria perd-lo sem luta? Para voltar a impor-se, antes que fosse demasiado 
tarde e o descrdito o manchasse para sempre, atacou.
- Ainda bem! Lorde Isambard pode rebaixar-se a lutar com obreiros e canteiros, se lhe aprouver, mas no pode pedir aos outros que faam o mesmo.
A voz de Thomas era aguda e vibrava de fria. Chegou aos ouvidos indiferentes de Harry, que se voltou, momentaneamente hesitante, sem saber se devia ou no ofender-se. 
Teria Thomas Blount importncia suficiente para um homem lhe dar a honra de brigar com ele? Por vezes, Harry suspeitava que era o desdm, e no a amizade, a origem 
da atitude de Isambard para com Thomas e da liberdade que lhe dava. E se Isambard era capaz de deixar passar em claro certas coisas, Harry tambm podia faz-lo. 
Para qu desperdiar em entes menores como Thomas a intensidade do dio que pertencia apenas ao seu senhor? Assim sendo, voltou as costas a Thomas.
Ao ver afastar-se a tnica de burel, Thomas interpretou mal o motivo do afastamento e, imprudentemente, comentou:
- Os canteiros so uns reles talhadores de pedra. Uns mseros cortadores de pedra! Tal pai, tal filho!
Estas palavras fizeram Harry voltar para trs: sem pressas, mas de cabea baixa, o que, nele, era muito mau sinal. Thomas no bateu em retirada. Langholme estava 
ali, tal como uns doze homens mais velhos: por certo no permitiriam que as coisas fossem demasiado longe.
- Falaste no meu pai - disse Harry, com urbanidade. - Mas no ouvi bem o que disseste. Queres fazer o favor de repetir?

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A distncia entre ambos era de trs jardas e,  laia de advertncia, Langholme avanara j um ombro e lanara um olhar ao mestre de armas, indicando-lhe que se preparasse 
para intervir, do outro lado. Thomas avaliou os riscos e resolveu aventurar-se.
- Chamei-lhe reles cortador de pedra. Como o filho. Thomas calculara mal o grau de proteco que poderia esperar
dos mais velhos. Langholme, atingido por uma cotovelada, recuou algumas jardas, a cambalear, pelo terreiro da lia, e Thomas Blount deu consigo estendido por terra, 
esmagado sob o peso de Harry. Os dois rolaram pelo solo, rosnando como ces de luta e, antes de Nicholas Stury e mais uns doze homens haverem conseguido deitar-lhes 
a mo para os separar, Isambard voltara atrs, de olhos faiscantes e sobrolho franzido, como uma nuvem de tempestade.
- Que vem a ser isto? Lanais as mos ao pescoo um do outro, mal eu viro as costas? Estveis com menos vontade de lutar, ainda h pouco. Ser que os meus terreiros 
se vo transformar em terrenos de luta para crianas turbulentas? Quem foi que comeou, Walter? Como aconteceu isto?
Langholme contou a histria com honestidade e  sua voz juntou-se mais meia dzia de outras, que descreveram o que se passara palavra por palavra.
- Ento foi isso que aconteceu - resmungou Isambard. - Acredita em mim, Thomas; h homens que no gostam que digam mal dos pais, embora eu saiba que  bem pouca 
a estima que sentes pelo teu.
- Ainda que eu possa haver expressado demasiado livremente o que penso, senhor, no era motivo para ele me atacar de surpresa.
- Ele estava a olhar-me nos olhos quando o ataquei, senhor - contraps Harry, com desprezo. - No sei onde est a surpresa.
- Poupai o flego, pois ides precisar dele.  mister que este assunto seja resolvido j e de uma vez por todas.
- Com as armas que ele quiser - lanou Harry, em tom insolente.
- Com as armas que eu quiser - corrigiu Isambard, com um olhar flamejante. - E eu quero um combate de mos nuas. No quero mortes nem feridas fatais, mas podeis 
servir-vos dos braos 

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vontade. Trs quedas por terra e o assunto fica resolvido. Afastai-vos - ordenou Isambard aos presentes, com um gesto imperioso da mo. - Recuai e dai-lhes espao. 
Coloca-os em posio, Walter.
No havia apelo para aquela voz e para aquela expresso. Harry despiu a cota alegremente e, sorrindo, dirigiu-se para o seu lugar. Com as mos a tremer, Thomas despojou-se 
dos seus brocados e em silncio, com relutncia, encaminhou-se para o seu. Era um ano mais velho do que o adversrio e mais pesado, tinha uma altura e um alcance 
comparveis, mas no era um lutador. Harry precisou apenas de dois minutos para o derrubar e pregar contra o cho pelos ombros, mesmo aos ps de Isambard.
Ao primeiro assalto, Harry esqueceu a fadiga e a dor. Ao segundo, esqueceu a clera. Ao terceiro, lanou Thomas por terra quase docemente, como haveria feito num 
treino com um adversrio bastante mais novo.
- Para um reles cortador de pedra, foi muito delicado - observou Isambard, num tom crtico. - Muito bem, Thomas. Tiveste aquilo que merecias. Isto pe termo  vossa 
querela. O assunto est encerrado.
Thomas ergueu-se lentamente e, tambm lentamente, coxeou at ao local onde deixara a cota. A dor no era grande e coxear era sobretudo uma forma de se confortar 
e justificar. Enquanto limpava a poeira do rosto, no olhou para ningum e manteve os olhos baixos.
Alguns dos seus companheiros - uns movidos por uma fidelidade obstinada, outros por mera compaixo - rodearam-no e esforaram-se generosamente por lhe fazer esquecer 
a derrota, debitando alguns lugares-comuns. Contudo, Thomas no disse uma palavra nem olhou para eles. S ergueu os olhos uma vez: quando Isambard passou por ele 
sem um olhar e se afastou em direco ao terreiro interior. Nesse momento, Thomas ergueu a cabea desgrenhada e os seus olhos azuis lanaram um longo e semivelado 
olhar rancoroso  silhueta alta. Depois, voltou a fixar os olhos no cho. Contudo, Harry surpreendera aquele olhar, glacial e amargo como o Inverno, sob as compridas 
pestanas louras. O assunto no estava encerrado. Thomas Blount nunca iria perdoar a ningum, e muito menos ao senhor de Parfois, a humilhao e a perda do seu estatuto.

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ISAMBARD ENTROU NA SALA DE DESENHO AO PR-DO-SOL,  hora a que
a luz baixa iluminava toda a superfcie da mesa de trabalho, ao p da janela, e fazia brilhar os ns dos dedos das mos de Harry, enquanto este trabalhava. A prpria 
pedra apresentava uma tonalidade idntica  da pele tisnada e bem esticada sobre os ossos, que acompanhava o ritmo dos movimentos das articulaes. Mos douradas 
e pedra dourada formavam um nico foco de luz, como que fundidas numa vida nica. Aprisionado na pedra, de asas arqueadas e pescoo estendido, um falco tentava 
freneticamente escapar quele cativeiro; as mos pacientes trabalhavam com delicadeza na sua libertao. Isambard aproximou-se, mas Harry no lhe prestou ateno. 
A cadncia dos golpes leves e ternos do macete sobre o cinzel no sofreu a mais ligeira alterao.
A pedra era um fragmento de um dos ltimos blocos que havia restado, aps a magnfica e terrvel concluso da igreja de Parfois e a morte estranha e atroz do seu 
criador. O jovem manuseava-a com amor e respeito, com uma pacincia infinita e pouco habitual, porque a pedra endurecera com os anos e trabalh-la exigia agora todo 
o seu talento, ainda no plenamente desenvolvido. Harry passou um dedo sobre os contornos da ave e soprou a leve poeira, que voou em mil partculas luminosas.
- Ento, ests contente com a tua vitria? - perguntou isambard, junto ao seu ombro.
- No, senhor.
Harry trocou o cinzel por outro mais fino e comeou a trabalhar nas penas da asa do falco.
- s difcil de contentar. Porque no? Fizeste o que era devido.
- Eu estava em vantagem. O Thomas  demasiado arrogante e acha que a luta no  um desporto digno de um cavalheiro. Mas eu poderia venc-lo com qualquer arma que 
houvsseis escolhido.
Isambard riu-se, afastou algumas das ferramentas que se encontravam sobre a mesa e sentou-se.
- O que disseste  verdade, embora no seja prova de modstia.

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- Devereis haver-nos dado espadas de torneio. Ele orgulha-se da sua habilidade como esgrimista.
- E, mesmo assim, conseguirias derrot-lo?  bem possvel mas, nesse caso, ele haveria sofrido ainda mais, s para satisfazer a tua vaidade. Onde est a piedade 
pelo teu inimigo? - perguntou Isambard, sorrindo.
Harry franziu o sobrolho para a sua obra e afastou-se um pouco, para a observar com um olhar mais crtico. Depois, sem erguer a cabea, disse abruptamente:
- Fareis bem em ter cautela com ele.
- Ter cautela com ele? Com o Thomas?
- Se, at agora, no era nosso inimigo, passou a s-lo - respondeu Harry, num tom srio. - Tanto vosso como meu.
- Ora a est pelo menos uma coisa que temos em comum. Mesmo que seja a nica.
Isambard pegara num cinzel fino e brincava distraidamente com ele, testando a ponta com o polegar, enquanto os seus olhos continuavam fixos, avaliadores, no rosto 
de Harry.
- Vamos ver se te percebo - disse abruptamente. - Tanto quanto sei, chegaste aqui faz dois anos, para vingar a morte do teu pai. E no foi culpa tua no haveres 
saldado a tua dvida no nosso primeiro encontro. Juro por Deus que fizeste tudo quanto estava ao teu alcance. Ao longo destes dois anos, estiveste  espera de uma 
nova oportunidade de aproveitares a fora que agora j possuis. Ser que estou certo? Ser que fui realmente eu quem deu a morte a mestre Harry? Ser que vieste 
mesmo procurar-me, de adaga em punho,  sua igreja? Ser que senti prazer em te reter aqui, todos estes meses, atormentando-te com falsas esperanas de liberdade? 
Ser que recorri a mil artimanhas para te arrancar o segredo do local do tmulo do teu pai?
Sem largar o martelo, subitamente silencioso, Harry disse:
- Para o desenterrardes. Como o chacal que sois.
Fora bem cruel a artimanha que Isambard usara ento contra Harry: faz-lo crer que, depois de todas as tentativas de persuaso haverem falhado, deixara escapar o 
segredo durante o sono e, depois, encarregando Thomas (com a sua enganadora cara de anjo

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e a sua simpatia hipcrita) de lhe prometer a fuga e de o levar para fora de Parfois, pela calada da noite. Na sua ansiedade desesperada, Harry cara de cabea na 
armadilha e, como um pssaro de volta ao ninho, levara-os at ao tmulo sem nome junto aos muros de Strata Marcella. Lembrava-se bem do rosto sorridente de Isambard, 
iluminado pelo luar, dos seus dedos seguindo os contornos da folha esculpida na pedra, da sua voz satisfeita, ordenando: "Levai-o. J me disse o que eu queria saber."
- Ah, bom! Comeava a pensar que havias esquecido. Estou a ver que est tudo vivo na tua memria. Como no dia em que aconteceu... quando juraste matar-me por isso. 
Lembras-te?
- Lembro-me muito bem - respondeu o jovem, em tom sombrio.
Voltando as costas ao seu interlocutor, Harry retomou o trabalho e ouviu claramente a sua voz gritar: "No h nome suficientemente vil, senhor, para aqueles que, 
como vs, se vingam at nos mortos."
- E no mudaste de ideias?
As batidas do macete quebravam o silncio a intervalos regulares.
- Ento porque no me mataste quando a oportunidade se apresentou, como faria qualquer homem sensato?
Por um instante o ritmo abrandou mas depois, obstinadamente, foi retomado. Isambard insistiu:
- Cuidas que Deus me vai atirar aos teus ps, de joelhos, todos os dias? Foi ingratido recusar a oferta que Ele te fez. Porque estou eu ainda vivo? Diz-me!
- Eu no podia aproveitar-me de um velho - respondeu cruelmente Harry.
- No vale a pena tentares ofender-me.  muito difcil, quando quero saber alguma coisa. Eu sou velho. Sabes muito bem que podes diz-lo cem vezes sem que isso faa 
de ti meu mestre de esgrima. Por enquanto ainda no! Porque estarei ainda aqui, a aborrecer-te? Hei-de descobrir.
- Foi por mero acaso que haveis cado - respondeu Harry, picado. - No queria tirar-vos a vida nessas condies.

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Isambard lanou a cabea para trs e soltou uma sonora gargalhada.
- Finalmente, palavras dignas de um Talvace. Nisso, acredito. O teu pai nunca aceitaria favores, fossem de um homem ou de Deus e, nisso, s to igual a ele como 
um carvalho  igual a outro. Todavia - prosseguiu Isambard, retomando subitamente um tom grave e seco - essa no  tambm a verdade toda. Se estivssemos num campo 
de batalha, no haverias desferido um golpe contra o teu inimigo por a cilha da sela dele se haver partido?
- No estvamos num campo de batalha - argumentou Harry.
A contragosto, afastou as mos da pedra: a luz era j fraca e o tom dourado do pr-do-sol transformara-se num ocre crepuscular. Poisou as ferramentas com todo o 
cuidado, como se temesse que um som demasiado agudo pudesse perturbar a superfcie tranquila do seu universo quotidiano e despertar os demnios da incerteza. Por 
trs dele, o silncio tornou-se mais intenso.
- Achas que no? - perguntou Isambard, em voz baixa. - Onde estamos ns desde o dia em que nos conhecemos, Harry? Quando me olhaste nos olhos e me convidaste para 
algo que era mais do que um jogo, julgas que eu no sabia que era um duelo at  morte? Deus sabe h quanto tempo esperavas por esse momento. Porque renunciaste 
a ele, quando se te apresentou?
O crepsculo mergulhara na sombra o rosto de Isambard, transformando-o numa forma lgubre sobre o fundo plido da janela. A imobilidade do seu corpo, o tom abafado 
e pausado da sua voz indicaram a Harry que ele estava prestes a enunciar aquilo que viera ali dizer.
- No precisavas de te refrear, por medo das consequncias. J dei as minhas ordens e obriguei de Guichet e Walter a jurar que as fariam respeitar. Se me matares 
num combate leal, no sers alvo de represlias. Havers ganho honestamente a tua liberdade.
Com uma expresso determinada, Harry baixou as mangas arregaadas e comeou a arrumar as ferramentas.
- Devereis haver-me dito isso antes - comentou, em tom sombrio.

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- Amanh dou-te outra oportunidade.
O momento crucial passara e a voz de Isambard comeava a voltar ao habitual tom trocista e corrosivo. Mais um minuto e voltaria a proferir as palavras como sempre, 
cada uma delas uma chicotada.
- No queres recuperar a liberdade? A princesa de Aberffraw e David, teu irmo e teu prncipe, j se encontram em casa do bispo, em Shrewsbury. A cavalo, so apenas 
duas horas de caminho. S o meu velho corpo se interpe entre ti e os braos deles.
Harry aprendera a controlar o tremor das mos e a manter uma expresso impenetrvel, qualquer que fosse a provocao. No seria por estes meios que Isambard lhe 
arrancaria qualquer reaco, embora sentisse o corao apertado, ao pensar que a princesa Joan e David se encontravam to perto e ele no podia ir ter com eles ou 
sequer fazer-lhes chegar uma mensagem de amor e lealdade. Ah, se queria recuperar a liberdade! Durante o dia, conseguia cansar o corpo e controlar o esprito com 
alguma facilidade mas, de noite, na cama, a angstia do seu desejo de liberdade dilacerava-lhe as entranhas, ao ponto de o levar a morder o brao, para substituir 
aquela dor por uma outra, mais suportvel.
Tinha dezassete anos e estava prisioneiro havia quase dois; a difcil trgua entre a Inglaterra e o Pas de Gales, a trgua de um ano que impedia Llewelyn de tentar 
fosse o que fosse para libertar o filho adoptivo, mantinha-se, apesar da longa lista de acusaes de ambas as partes e das numerosas violaes de territrio, tudo 
indicando que viria a ser prolongada por mais um ano. Naquele mesmo momento, os enviados do rei Henrique e do prncipe Llewelyn estavam a descarregar os respectivos 
animais de carga e a instalar-se em Shrewsbury, onde passariam em revista as suas causas, preparando-se para o encontro marcado para dali a trs dias, no castelo 
de Shrewsbury. Desta vez, tratava-se apenas de chegar a acordo quanto  sesso do tribunal papal que, ainda naquele ano, se pronunciaria sobre as muitas alegaes 
de violao de fronteiras. Mas claro que iam chegar a um entendimento e, no Inverno, quando o tribunal reunisse, tambm se mostrariam dispostos a concordar: o rei 
Henrique tinha outras coisas em mente, pelo que precisava que

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o Pas de Gales continuasse pacificado; e o prncipe de Aberffraw queria garantir plenamente a sucesso do filho, que no podia pr em perigo com um acto de guerra 
prematuro. Sim, a trgua era para continuar e, com ela, o seu cativeiro. Isambard encarregava-se de o manter bem-informado; sabia o pouco que havia a esperar dos 
homens. Ora, Deus apresentara-lhe a garganta de Isambard, desprotegida, ao alcance da ponta da sua espada e Harry recusara a oferta. Porqu? Saberia ele prprio 
porqu? Por medo de ser enforcado? Harry forou-se a rever o momento, a fim de apreender a verdade, mas no lhe parecia que as coisas pudessem haver sido diferentes 
mesmo se j soubesse o que Isambard acabara de lhe dizer. E Isambard, que no dizia nem fazia nada sem uma finalidade, acenava-lhe agora com algo mais sedutor do 
que a prpria liberdade. S este velho corpo se interpe entre ti e os braos deles! Harry procurava perceber que desgnio se ocultaria por trs daquelas palavras. 
Havia sido tentado a faltar  palavra dada; estaria agora a ser tentado a cometer um assassnio?
- Podereis transmitir-lhes a minha estima e os meus respeitos, quando, amanh, vos fordes juntar  corte do rei - disse, em voz firme. - No poderia desejar um mensageiro 
mais escrupuloso.
- Basta uma palavra e poders ser tu mesmo a dar-lhes a mensagem - insistiu Isambard. - Se me deres a tua palavra em como voltas comigo, poders ir a Shrewsbury 
na minha comitiva.
- No, senhor. No vos darei a minha palavra, nem agora nem nunca. Quando a ocasio e os meios de escapar se apresentarem, partirei. Sem nenhuma promessa que me 
impea de o fazer.
- Harry, Harry! Quando aprenders a seguir a direco do vento? Quantas vezes tentaste j fugir-me?
- Pelas minhas contas, cinco vezes. Mas haver outras oportunidades.
- E, nessas cinco vezes, foste apanhado antes mesmo de chegares  ravina. Alis, pelo menos de uma das vezes, foi uma sorte haveres sido puxado para terreno firme, 
com os ossos todos inteiros. H quanto tempo j no te  dada uma oportunidade para pensar sequer numa tal aventura? Com dois arqueiros colados aos calcanhares, 
para onde quer que vs? Desiste, Harry: no  possvel

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fugires de Parfois. Aproveita a possibilidade que te estou a oferecer de sares a cavalo, pela porta principal.
- No - respondeu Harry, obstinado.
E enrolou os pergaminhos, onde traara os seus esboos. Aprendera a no desperdiar energia a gritar; a recusa era to absoluta como a morte e igualmente silenciosa.
Isambard suspirou, ostensivamente.
- Como queiras. No posso dar-te aquilo que no queres aceitar. Mas lembra-te das minhas palavras. Da prxima vez, se conseguires de novo ter-me  tua merc, depois 
do susto que me pregaste, desfere o golpe. Em Parfois, ningum te cortar o pescoo por haveres cortado o meu. Alguns sero at capazes de te agradecer - acrescentou, 
descendo da bancada e sacudindo o p de pedra da cota carmesim, com um gesto firme.
Isambard dirigia-se j para a porta quando se ouviu o som cavo e profundo de ferraduras apressadas sobre as tbuas da ponte. A profunda ravina de grs, que separava 
o rochedo onde se erguia o castelo de Parfois do planalto verdejante onde fora edificada a igreja, absorvia os sons e repercutia-os em ecos cavernosos por entre 
as paredes rochosas. Mal os cavaleiros chegaram ao empedrado por baixo do arco da porta da fortaleza, o rudo das ferraduras deixou de ser audvel; os ecos, semelhantes 
a um trovo distante, foram esmorecendo e deixaram no ar uma ligeira vibrao.
Isambard parara, de ouvido  escuta. Era raro chegarem a Parfois cavaleiros apressados, sobretudo de noite; naquele momento, com a corte a instalar-se solenemente 
em Shrewsbury, devia tratar-se apenas da visita de um dos senhores das Marcas que se dirigia ao encontro do rei. Harry no se mostrara menos atento do que Isambard: 
qualquer acontecimento inesperado poderia representar uma esperana.
O resfolegar de cavalos cansados no terreiro exterior, o estalar de arreios de couro, botas a bater sobre as pedras, palavras urgentes trocadas em voz baixa. O ouvido 
apurado de Isambard reconheceu de imediato a voz familiar.
- Walter! - exclamou, erguendo a cabea, como um cervo que pressente estranhos.

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No podia ser. Porque haveria Langholme de voltar para trs, depois de haver partido para Shrewsbury ao princpio da tarde, a fim de preparar a casa da cidade sobre 
o Wyle para a chegada do seu senhor, arejar a roupa de cama e arear as travessas? E se, por qualquer razo desconhecida, houvesse sido forado a regressar, porque 
viera a toda a brida e acompanhado por pelo menos um estranho? Isambard ouvira uma voz que no reconhecia como a de um dos seus homens: uma voz spera e baixa, enrouquecida 
pela poeira do caminho e por uma enorme fadiga.
Em trs passadas alongadas chegou  porta e deu de caras com os recm-chegados. Langholme sabia onde podia encontrar o seu senhor, quela hora.
- Trago novas urgentes, senhor - anunciou, em voz entrecortada devido  pressa. - Deixei tudo encaminhado em Shrewsbury e voltei a correr para c com o mensageiro.
O rosto do homem, que se mantivera ao lado de Langholme, estava cinzento de cansao e os seus olhos eram febris. Isambard olhou bem para ele e reconheceu-o: era 
um cavaleiro menor da corte do conde de Kent, um homem de confiana. Por vrias vezes, fora portador de mensagens entre os trs castelos de de Burgh, em Gwent, e 
este posto avanado sobre o Severn, na fronteira com Gales. Mas, dessas outras vezes, envergara a libr verde e vermelha, as cores da casa do corregedor do reino. 
Agora, vinha envolto num manto annimo.
Com os olhos flamejantes, Isambard agarrou no brao do homem e puxou-o para dentro.
- Entrai para aqui! Fecha a porta, Harry.
- Posso retirar-me, senhor? - perguntou Harry, aprestando-se a obedecer  ordem que lhe fora dada.
- No, fica. No vale a pena dar j o alarme. Agora falai, homem, e depressa. Sim, podeis falar diante do rapaz: ele conhece todos os meus piores segredos. Que vos 
trouxe ao Norte, com tamanha pressa? E vestido desse modo?
A ausncia da libr falava por si.
- Hoje, senhor, ningum enverga as cores do conde de Kent, se puder evit-lo.  mais seguro! Ele caiu em desgraa e perdeu o

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cargo, senhor. H seis dias, diante de todo o conselho, o rei desautorizou-o, acusou-o de actos monstruosos, afastou-o de si e retirou-lhe todos os poderes. Foi 
destitudo para toda a vida. Stephen Segrave, que ajudou a derrub-lo,  agora o corregedor do reino.
Portanto, havia acontecido. Hubert de Burgh, o grande conde, conselheiro do rei, cara do pedestal, fora destitudo e o cho tremia debaixo dos ps de muitos outros. 
Os seus rivais do Poitou haviam alcanado os seus fins. Peter des Roches, bispo de Winchester, segurara decerto o brao do rei Henrique, dando-lhe coragem para se 
voltar contra o seu mais fiel servidor. Apesar dos seus defeitos - e este cataclismo no fazia dele um santo nem um mrtir - de Burgh fora indiscutivelmente o administrador 
mais capaz, mais devotado e honesto de Inglaterra, o homem que melhor compreendera aquilo que a Inglaterra era e devia ser. No passado, Isambard perdoara-lhe muita 
coisa por causa dessa qualidade, da viso que ele tinha de Inglaterra, que ultrapassava os limites do domnio feudal e aspirava a fazer dela uma nao, uma unidade 
indivisvel, protegida por um mar invencvel.
O cho sob os seus ps estaria tambm a estremecer levemente, sobre os alicerces de pedra de Parfois?
- Vim prevenir-vos, senhor - disse o mensageiro, cuspindo a poeira dos pulmes. - Tratai de vos precaverdes, pois todos quantos o apoiaram outrora correm hoje perigo. 
 preciso cautela!
- Assim farei - garantiu Isambard, e um sorriso de esguelha aflorou-lhe aos lbios, como um relmpago sbito.
Por instantes, manteve a cabea inclinada para trs e as sobrancelhas franzidas, a recordar melancolicamente aquela poca dourada, que agora desaparecera, como um 
cometa, num eclipse perptuo.
- Sentai-vos aqui e contai-me tudo - disse, dirigindo-se ao mensageiro. - Preciso de saber tudo. E tu, Harry, vai buscar vinho para ele.
- Trago-o eu mesmo? - perguntou Harry, inseguro.
- Pensas que quero aqui algum linguarudo como o Thomas, grande insensato? Despacha-te.

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Por que motivo, perante palavras to bruscas, se apressava ele a cumprir a ordem de Isambard? Atravessou o terreiro a correr, com o corao a bater com toda a fora, 
de excitao e espanto, atrado a contragosto pelos assuntos conturbados de Inglaterra, que o seu esprito e a sua educao insistiam em considerar um pas estrangeiro, 
mas para o qual o seu sangue o puxava irresistivelmente, numa aliana involuntria. E, porque se sentia curioso, voltou a correr, com um pouco menos de precipitao, 
trazendo o vinho e lamentando as palavras que perdera.
Os trs homens voltaram a cabea, quando ele entrou na sala de desenho e, satisfeitos ao verem quem era, retomaram a conversa. Porque haveria o facto de lhe provocar 
um estremecimento de prazer? Aqueles homens no eram seus amigos nem ele amigo deles. Porque haveria de sentir prazer por merecer a confiana dos seus inimigos? 
Serviu-lhes o vinho com uma espcie de deleite consciente nos gestos calmos e precisos, que no interromperam o fio da conversa.
-... senhorio por senhorio. Nas ltimas semanas, por cada doao feita a des Rivaulx havia outra para o meu senhor. No comeo do ms passado, encontraram-se todos 
no castelo do meu senhor, em Norfolk e, no priorado de Bromholm, o rei prometeu que tanto o meu senhor como os de Poitou conservariam todas as terras e cartas que 
lhes havia concedido. O compromisso foi selado com um juramento solene perante Deus, que vinculava tambm os herdeiros do rei.
- Isso  o que ele costuma fazer, quando tenciona renegar o juramento e o homem a quem este o liga - observou Isambard, sombriamente.
- Mas... o juramento foi feito a todos. Como poderia o conde desconfiar? Pensmos que o perigo passara e que a contenda estava resolvida. Mas mesmo que o conde houvesse 
previsto o que iria acontecer, como poderia impedi-lo? Que poderia fazer a no ser fugir, de mos vazias? E lady Margaret e a filha? Alguma vez poderia libert-las 
das mos do rei? Ouvi o que se passou depois! Para os fins de Julho, estava marcada uma grande tvola redonda e Londres estaria cheia de nobres. Que fez ento o 
rei? Preparou uma

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ordenana a proibi-la e determinou que todos quantos nela tencionavam participar deviam, em vez disso, preparar-se para o escoltar a Shrewsbury, para o encontro 
com os Galeses. Foi tudo feito  pressa e emitidos os salvo-condutos para a princesa de Gales e respectiva comitiva, para esvaziar Londres e desviar os olhos de 
toda a gente dos outros intentos do rei, at tudo estar concludo.
- E no devem ter faltado bispos dispostos a colocar-se ao seu lado, a clamar que os torneios so um pecado e apoiando a ordenana - comentou Isambard, que passeava 
de um lado para o outro, em longas passadas nervosas. - Isso partiu da cabea de Winchester, no da cabea do rei.
-  verdade, senhor. O bispo pronunciou-se contra a tvola redonda, antes de o rei haver agido.
- Depois de haver preparado o cenrio, no foi assim? H seis dias, dissestes vs, no conselho... Quem abriu as hostilidades contra o corregedor? Des Roches ou Rivaulx?
- Eu no estive presente, senhor, mas Gilbert Basset esteve e foi ele quem me contou. O bispo de Winchester permaneceu sempre sentado ao lado do rei, mas parece 
que a tempestade rebentou, num cu aparentemente sem nuvens, e foi o prprio rei quem a desencadeou. Voltou-se para o conde meu senhor, num ataque de raiva, como 
se estivesse desvairado, como quem acredita deveras naquilo que est a dizer...
- E acredita mesmo - interrompeu Isambard, imobilizado, a meio do seu vaivm frentico, por um sbito e violento ataque de riso. -  esse o seu segredo. Quando quer, 
o rei consegue entregar-se a uma clera arrebatada e acreditar nela como se fosse o evangelho. Vi-o fazer isso para satisfazer os seus desgnios, por uma simples 
jia que desejava possuir.
- ... e acusou-o de no sei quantos crimes e monstruosidades, exortando aqueles que quisessem confirmar esses crimes e enormidades ou apresentar queixas contra o 
meu senhor a falar livremente e sem medo. E no faltou quem falasse! No apenas des Roches e Rivaulx, mas muitos outros. Porque no? O sinal havia sido dado e eles 
sabiam como agradar ao rei, para subir de escalo nas suas graas... espezinhando o conde. Naquele dia, ele foi uma espcie de

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degrau para muitos ambiciosos  procura de um cargo. Em seguida, o rei declarou-o solenemente destitudo de todas as suas funes e nomeou Segrave para o cargo de 
corregedor do reino.
- Por Deus, homem! De Burgh no se defendeu?
- O rei no quis ouvi-lo.  certo que ele falou, jurou que era to leal como qualquer outro ao seu rei e senhor e que nada fizera que fosse contrrio ao seu dever 
e  sua conscincia. Mas foi vaiado. Contaram-me que o rei foi quem mais gritou.
- O divino ataque de clera estava no auge e o rei no receava nada. Des Roches deve haver gasto muita astcia e persuaso para o levar a decidir-se mas, depois 
de as velas haverem sido enfunadas pelo vento, o rei  bem capaz de navegar sozinho. J assisti a isso! E ento? Foi mandado para a Torre? Mesmo no auge da exaltao, 
o rei no ousaria!
- No, senhor, o conde continua em liberdade mas s Deus sabe por quanto tempo. O rei Henrique baniu-o da sua casa e ordenou-lhe que se mantivesse  sua disposio 
para responder s acusaes. Mas nem assim o deixaram em paz. Passados dois dias, exigiram-lhe que prestasse contas de todas as receitas do reino e de todas as suas 
possesses oficiais, desde o reinado do defunto rei Joo. Fizeram da Inglaterra um poo sem fundo e queriam contas rigorosas!
- Havia uma carta de quitao do rei Joo, que isentava de Burgh de prestar essas contas. Eu sei disso!
- Foi o que o meu senhor argumentou mas o bispo de Winchester voltou a soprar ao ouvido do rei Henrique, dizendo que por morte do rei Joo essa carta  nula. Assim, 
elaboraram uma lista de acusaes contra ele e convocaram-no para responder por elas, perante o Conselho, em Lambeth, a 14 de Setembro prximo. Depois de haver preparado 
a runa do meu amo, o rei arrastou a corte para Shrewsbury, para longe do caminho dos homens do Poitou, at estes acabarem de fechar a armadilha em volta do meu 
senhor. De que lhe serviria defender-se, quando os seus juizes so aqueles que o acusam?
- Onde est ele agora? Foi-lhe dada liberdade de movimentos?
- No, senhor.  vigiado dia e noite e no pode deslocar-se. Mas deixaram que se retirasse para o priorado de Merton, perto de

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Wimbledon, a fim de preparar a sua resposta s acusaes e, enquanto l estiver, est a salvo, pelo menos da violncia. Lady Margaret encontra-se em Bury St Edmunds 
e, graas a Deus, at agora ningum a incomodou. Espero que no se atrevam a fazer algo contra a irm do rei dos Escoceses.
- Ento, a situao  essa! Des Rivaulx detm o controlo das contas da casa real, com poderes ilimitados, e o tesouro est  merc dos seus amigos. Se no nos mexermos, 
este pas vai ficar a saque, digo-vos eu. Ainda no h muito tempo, contei o nmero de comarcas de que ele  xerife e cheguei  concluso de que so vinte e uma. 
Vamos ver os grandes cargos de Estado serem atribudos aos membros do conselho do rei e a pequena nobreza e os burgueses ficarem sem voz e sem direitos. Um dos sustentculos 
da casa caiu, ao que parece, e ningum levantou a mo para o segurar. Ningum falou em defesa de de Burgh? No houve um nico homem capaz de denunciar essas mentiras?
- Nem um. Chester no estava l, seno haveria falado alto e bom som. Odeia o conde, mas com um dio honesto. E odeia ainda mais as conspiraes e as injustias. 
Dizem que est velho e doente. No estava l.
- Quais so afinal as acusaes? - perguntou Isambard, parando abruptamente diante do extenuado mensageiro.
Harry observava a cena sustendo a respirao, estupefacto perante a calma, a quase exuberncia de Isambard. Decerto s um demnio seria capaz de fazer um repasto 
da desordem e da aflio e de sorrir diante delas com tamanha serenidade. O choque provocado pelas notcias e o choque por ver a sua Inglaterra empurrada para fora 
da sua rota j haviam sido aceites e dominados. Fosse o que fosse que decidisse fazer agora para se proteger seria feito, no de forma exaltada e irreflectida mas 
de forma determinada e precisa. Pontualmente, Harry julgara que o senhor de Parfois amava de facto a Inglaterra. Todavia, naquele momento, reunia as suas foras 
em defesa prpria e, sem escrpulos, deixava-a  deriva, ao sabor de correntes perigosas.
- Preciso de conhecer todas as acusaes para poder agir. Todas as acusaes.

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O cavaleiro de de Burgh - ningum pronunciara o seu nome, talvez por esquecimento - ergueu as plpebras inchadas e levou a mo  cabea, num esforo para se recordar 
de todos os pormenores.
- Todos os membros da sua casa so vigiados. Eu parti durante a noite e juntei-me a um dos primeiros grupos que se dirigiam para Shrewsbury, onde havia amigos que 
me dariam guarida. Assim, pude avisar trs ou quatro senhores que, como vs, podem ser acusados, por haverem partilhado a maneira de pensar do meu senhor. As acusaes... 
agora j deve haver mais, porque eles ho andado a bater os arbustos para as fazer saltar como coelhos... acusam-no de haver escrito ao duque da ustria, quando 
o rei havia em mente casar com a filha dele, a dissuadi-lo de tal aliana.
- Santo Deus! - exclamou Isambard, rindo entre dentes. - Devem pensar que a memria de todos ns  curta. A ideia do casamento caiu por si e o rei nunca se mostrou 
muito entusiasmado.
- Tambm o acusam de haver travado a aco do rei na campanha pela reconquista da Normandia.
- Ah, isso  diferente. Ambos interviemos e ainda bem para o rei que assim foi porque, seno, haveria perdido tambm o reino de Inglaterra. Prossegui!
- E de seduzir lady Margaret, quando ela estava  sua guarda, no tempo do rei Joo, por querer casar com ela para que os seus herdeiros fossem reis da Esccia.
- Cus, mesmo que isso fosse verdade, quem se podia queixar era Alexandre e no Henrique! Essa acusao no  credvel, como eles muito bem sabem.
- Mas  mais uma a juntar  lista e tudo conta. Tambm h uma histria sobre o meu senhor haver roubado uma pedra preciosa do tesouro real, uma pedra que torna quem 
a usar invencvel e invulnervel s feridas, e hav-la mandado secretamente ao prncipe de Aberffraw.
- Ah, essa  engenhosa... s pode haver sido inventada por um soldado ressabiado. Um golpe de mestre, para arranjar uma desculpa para as proezas de Llewelyn e mais 
uma flecha contra Hubert.
- H quem acredite nessa histria, senhor. E tambm vo acreditar que o conde de Kent escreveu ao prncipe Llewelyn,

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perdoando a execuo de William de Breos, depois de este haver sido apanhado com a princesa Joan.
 meno daquele acontecimento, distante no tempo e semi-cicatrizado na sua memria mas ainda doloroso ao mnimo toque, Harry estremeceu e corou. A reaco foi to 
inesperada que receou que Isambard houvesse reparado nela. Mas este limitou-se a dizer, num tom sonhador:
- No duvido que ele haja reconhecido o direito do prncipe de fazer justia. No conheo ningum que lho haja negado. Mas acho muito estranho algum haver reconhecido 
esse direito por escrito.  tudo?
- H mais uma coisa, senhor: a acusao mais perigosa e mais difcil de refutar. Foi o bispo de Winchester quem primeiro a lanou. Segundo ele, o conde andou estes 
anos todos a cuidar do aconchego do seu prprio ninho, apropriando-se indevidamente do tesouro do reino.
- Qual dos que at agora l esteve no o fez? - perguntou Isambard, com um trejeito irnico. - No nego essa possibilidade, mesmo no caso de Hubert. Ningum ignora 
o seu apetite por castelos. Mas, no conjunto, penso que roubou menos do que a maior parte e deu mais em troca. Pelo menos isso - acrescentou - no pode ser usado 
contra mim. Nunca lidei com fundos do tesouro, nem detive qualquer cargo que pudesse dar azo a pilhagens. Agora, j sei tudo. Pensar que no houve ningum que erguesse 
a voz para o defender!
- Tudo aconteceu demasiado depressa e houve muitos que seguiram a corrente. Tambm houve muitos que aproveitaram para vingar velhos rancores, sem pensar que correm 
o risco de vir a alimentar ressentimentos ainda mais graves contra os de Poitou. Espero que alguns pensem melhor, com a cabea mais fria, e venham a manifestar as 
suas dvidas.
- Que o Cu vos oia - replicou Isambard. -Agradeo-vos por me haverdes avisado, meu amigo. Amanh, poderia dirigir-me para Shrewsbury sem fazer ideia do que me 
espera e ser apanhado desprevenido. - Voltando-se para Langholme, que observava ansiosamente a expresso sombria do seu senhor, acrescentou: - Cuidai

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de que ele seja bem tratado e bem alojado, Walter. E vs, meu amigo, podeis ficar ou partir, conforme desejardes, e escolher um cavalo nas minhas cavalarias. Estou 
em dvida para convosco. Quanto  ida a Shrewsbury, Walter, mudei de planos.
- No ides, senhor? - perguntou Langholme, cheio de esperana.
- Vou sim, Walter. Com uma escolta dobrada e um esplendor trs vezes maior. Mas, primeiro, tratai de alojar o nosso hspede. Ele precisa de dormir. Depois, vinde 
ter comigo e veremos que providncias  necessrio tomar.
Langholme e o mensageiro saram e o silncio abateu-se sobre os dois que ficaram na sala de desenho. De sbito, ambos se aperceberam de que anoitecera enquanto as 
suas mentes se encontravam ocupadas em outras coisas. A noite ocultava os contornos da bancada, das mesas de desenho e dos blocos de pedra.
- Que ides fazer, senhor? - perguntou Harry, dividido entre a reserva e a curiosidade.
- Que vou fazer, Harry? Vou a Shrewsbury, servido como um prncipe, para servir o meu rei, como  meu dever. - Vinda do escuro, a voz ponderada acrescentou: - E 
hei-de falar com o rei. Quer ele queira quer no, Harry, quer ele queira quer no.

Antes da ceia, o rei Henrique concedeu audincias, nos grandes aposentos de hspedes da abadia de Shrewsbury, sentado numa cadeira dourada, colocada sobre um estrado 
ornamentado com brocados e veludos dourados e vermelhos, contra um fundo de tapearias, descarregadas menos de duas horas antes da sua imponente bagagem. Estava 
de bom humor e desusadamente elegante, mesmo para uma pessoa como ele: usava jias nas orelhas e nos dedos compridos e delicados. Depois de haverem aflorado com 
os lbios leais o seu anel de rubis, os nobres das Marcas rodeavam cautelosamente as saias das vestes sumptuosas do rei. No ar pairava ainda o eco de uma certa queda 
aparatosa e, sentindo no ambiente a poeira que esta levantara, os senhores sustinham a respirao. O rei dava-se conta da tenso e do temor que neles suscitava e 
o facto provocava-lhe uma saborosa excitao. Conseguira, era uma realidade e no apenas

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um desejo pungente, um anseio por satisfazer; eles eram a prova disso. Havia dado o primeiro passo, o mais difcil; o segundo e o terceiro seriam fceis. Quem iria 
agora ousar tentar det-lo?
Tinha vinte e cinco anos e estava livre de qualquer tutela. A embriaguez do poder espalhava-se-lhe pelo sangue como vinho e Henrique sentia-se invadido por um dio 
triunfante contra todos aqueles velhos, com a sua experincia e segurana, com a sua determinao frrea em dificultar e contrariar todas as suas aces pessoais. 
Homens velhos, cansados, cautelosos, lentos na aco mas decididos a dar-lhe conselhos, a provoc-lo, a cerc-lo de proibies e avisos. Pensou no momento em que 
se libertara das correntes e o seu corao encheu-se de uma alegria colrica, ao recordar o espanto atarantado, deprimente e ridculo nos olhos envelhecidos do corregedor 
do reino. De Burgh no queria acreditar que o seu mundo estava desfeito, que o seu passarinho havia sado do ninho, que o seu tempo havia acabado. Uma poca longa, 
urea, que finalmente terminava num ribombar de trovo.
Graas a Deus, pensava o rei para consigo, saboreando a alegria da liberdade, e ao meu santo patrono, que vela por mim e ps na minha boca as palavras da justia. 
Bendito sejas, santo Eduardo, meu bom Confessor. Este ano, no vosso dia, haver mais novos cavaleiros do que alguma vez houve e, na minha capela, os religiosos cantaro 
o "Christus vincit". Ficai a meu lado mais um pouco e mostrai-me como confundir os meus inimigos. Soprai o vento da clera de Deus nos rostos daqueles que se erguem 
contra mim e afastai-os do meu caminho, arrastai-os para a destruio, como o conde de Kent. Para a runa!
Agora, pensava o rei, exultante, a minha casa ficar em ordem e nela serei eu o nico senhor. Eu, e no de Burgh, com a sua gaiola sufocante de leis, costumes e 
direitos, nem estes velhos, enclausurados nos seus privilgios feudais, nem os meus turbulentos bares das Marcas. Eu como chefe e os oficiais da minha casa como 
instrumentos da ordem estvel que nos rodear. Oh, meu bom santo Eduardo, ficai comigo e eu mostrar-lhes-ei o que  a realeza.
Por instantes, o rei cerrou os olhos, abandonando-se ao xtase daquela prece, cego  multido colorida que enchia a sala de

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audincia. Quando voltou a abri-los, ainda a sorrir de prazer devido aos seus pensamentos, deparou com um rosto semelhante a uma mscara de morte, belo e assustador, 
que, como um pesadelo, avanava para ele, sorrindo, entre as fileiras de clrigos e cortesos.
Em silncio, Henrique invocou o seu indefectvel patrono e o esplendor que se encaminhava na sua direco e reavivava terrveis recordaes esbateu-se um pouco  
evocao do santo, materializando-se em seguida num pelote de cerimnia, reluzente de fios de ouro, sobre uma cota castanho dourada, envergados por um corpo humano 
real e no por uma imagem sonhada. Um corpo alto e magro, direito como um salgueiro, encimado por uma cabea formidvel que esboava um sorriso frio, ao inclinar-se 
sobre a sua mo. Henrique estendera a mo num gesto de terror, mas transformou-o rapidamente num gesto majestoso e estendeu os dedos cobertos de jias para receber 
o beijo do senhor de Parfois.
Um velho. Mais um velho. No era fcil escapar-lhes: apareciam-lhe para onde quer que se virasse. Ralf Isambard, senhor de Mormesnil, Erington, Fleace e Parfois 
e de uns cinquenta outros senhorios e castelos espalhados por toda a Inglaterra. Que pretenderia ele com todo aquele aparato? Com que direito se apresentava com 
aquele passo arrogante e soberbo, com a morte a espreitar pelos seus olhos pretos, profundos, preocupados, insaciveis e com um brilho vermelho? A testa alta, outrora 
lisa, deixava agora entrever o brilho polido do crnio sob a pele, as mas do rosto salientes, sobressaam nas faces descarnadas, e o queixo de ao, barbeado  
velha maneira normanda, destacava-se sob a pele tisnada. A cabea da morte. Quem haveria contudo de pensar que a ossatura austera podia ser to bela?
- Bem-vindo  nossa corte, lorde Isambard - cumprimentou o rei.
Os seus dedos encolheram-se ao contacto daqueles lbios secos, que mal lhe afloraram os anis, como se houvessem sentido a sua repulsa e a aceitassem com indiferena. 
Com raiva, lembrou-se de que aquele era mais um dos velhos cujos conselhos aceitara demasiado docilmente durante muitos anos. Em todos os assuntos relacionados com 
as Marcas do Pas de Gales, a palavra de Isambard

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havia tido o valor de um acto rgio. Ainda no ltimo ano, defendera que a tutela dos domnios de de Breos fosse retirada a Richard da Cornualha e entregue a Hubert 
de Burgh. A recordao do facto deixou Henrique tenso: estava predisposto a detectar traio em todos os velhos. Todos, excepto talvez o bispo de Winchester, que 
o ajudara a libertar-se por fim das cadeias que os velhos lhe impunham.
- Estou sempre  disposio e ao servio de Vossa Majestade - disse Isambard.
Dizendo isto, voltou a erguer-se, afastando-se da mo sensvel e irresoluta, e observou o rosto plido e gracioso do rei, um pouco melanclico quando em repouso, 
um pouco petulante quando falava. A barba castanha e curta fora cuidadosamente encaracolada como sempre, a cabeleira farta meticulosamente penteada e perfumada. 
Henrique era de estatura mediana e magro mas era foroso admitir que podia passar por rei.
Era uma pena, contudo, que aquela plpebra descada conferisse uma expresso manhosa e vulgar a uma criatura de expresso to transparente. Um jovem frvolo e tagarela, 
que passava da fria ardente  frieza de gelo, incapaz de meios-termos, que to depressa nos encostava a cabea ao ombro como nos espetava a adaga nas costas. No 
obstante, pairava ainda em volta dele uma espcie de inocncia, como uma roupagem infantil j usada, que no ficava bem num homem adulto, mas desarmava traioeiramente 
quem se sentisse tentado a trat-lo como um homem e a exigir dele uma atitude de homem.
- Espero que a viagem de Vossa Majestade haja sido agradvel - disse Isambard, com afabilidade.
Os seus olhos, emboscados no fundo das rbitas cavadas como lobos momentaneamente pacficos, passearam-se devagarinho pelos rostos dos cortesos, detendo-se com 
mais vagar nos rostos daqueles que se encontravam mais perto do rei.
- E em boa companhia - acrescentou, em voz melosa. Deviam ter deixado des Rilvaux em Londres para vigiar de
perto a caada em curso e impedir que a caa se escapasse do terreno. E Winchester era demasiado hbil para andar sempre atrs do

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rei. Mas Brian de Lisle estava presente, a fim de o representar e contribuir com o seu peso e a sua autoridade de velho vassalo fiel do rei Joo, entre os novos 
rostos jovens e ambiciosos. De Craucombe, intendente da casa real, adejava perto da cadeira de Henrique, Passelewe mantinha-se logo atrs, numa posio mais discreta: 
o escrivo do rei par excellence, a nova eminncia parda dos assuntos do reino, ainda sem terras mas ansioso por as possuir, sem os pergaminhos de um bom nascimento 
mas j a rodear-se dos meios que assegurariam um ttulo aos seus descendentes.
Os antigos baronatos estavam a ser desmembrados de mansinho, em proveito de homens como aquele. Se os bares no se erguessem para defender os seus direitos, o Grande 
Conselho da Terra seria deixado a apodrecer, inofensivamente, e ficaria  margem da corrente do governo, enquanto o caudal era desviado para fazer girar os moinhos 
desta clique que rodeava o rei, e todas as fontes de receitas do rei convergiam para as mos deles. Des Ril-vaux j era o responsvel pelo Tesouro e, tambm, pela 
bolsa comum da casa real e quem tinha essa bolsa tinha o poder. As coisas haviam sido muito bem feitas: nem um gesto contra de Burgh at tudo estar preparado e o 
rei pronto a agir e levado ao transe necessrio para passar  aco.
Tambm ali se encontravam homens honestos, pares e contemporneos de Isambard. E eram bastantes. O senhor de Parfois voltou-se para saudar trs ou quatro conhecidos, 
virou-se de novo, varrendo a sala com o olhar, e fixou mais uma vez os olhos no rei.
- Mas onde est o conde de Kent? - perguntou, elevando a voz de modo a fazer-se ouvir mesmo no recanto mais distante da grande sala. - No vi ningum no terreiro 
com as suas cores.
O silncio caiu como uma pedra, glacial e esmagador. As cabeas voltaram-se quase furtivamente e a vistosa assembleia susteve a respirao.
O rosto do rei empalideceu, de apreenso, de choque e de um assomo incipiente de raiva defensiva. Agarrou-se nervosamente aos braos da cadeira, olhou de lado para 
de Lisle,  espera de uma deixa, e forou-se a fitar Isambard, furioso, consciente da necessidade desesperada de, por uma vez, se apoiar apenas em si prprio.

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- No posso acreditar que ignoreis os acontecimentos relacionados com o conde de Kent - respondeu.
- Chegaram-me aos ouvidos certos rumores, mas no lhes prestei ateno. A menos que oia da boca de Vossa Majestade que haveis tratado desse modo o vosso mais devotado 
servidor, repugna-me acreditar no que ouvi. No seria a primeira vez que o meu rei era caluniado por rumores. Deveria eu apressar-me a concluir que Vossa Majestade 
 injusto e ingrato, presa fcil para os ambiciosos que invejam a posio que o conde alcanou?
No rosto demasiado eloquente do rei, o rubor da mortificao substituiu a palidez da consternao. Henrique sentiu o vermelho da vergonha tingir-lhe as faces e, 
no podendo permitir-se ou admitir sentir vergonha, empenhou-se, a todo o custo, em transform-la no rubro da clera.
- Em boa verdade, fui vtima dos ambiciosos - respondeu, em voz fina e aguda. - E durante demasiado tempo. Mas isso acabou, apercebi-me do meu engano. O conde de 
Kent no foi vtima de nenhum erro nosso. Recebeu aquilo que merecia e nada mais. O que merecia, disse eu? Na verdade, beneficiou at de clemncia: ainda est em 
liberdade e foi-lhe dado tempo para responder queles que o acusam.
-  ento isso que Vossa Majestade h para me dizer? Devo pois admitir que  verdade aquilo que me contaram? Que o corregedor do reino foi destitudo do cargo e 
acusado de no sei que traies?
- Assim , lorde Isambard, e com toda a justia. Com toda a justia!
- E foi privado das honras que Vossa Majestade recentemente lhe concedera? Despojado dos castelos e feudos reais que com tanta generosidade lhe haveis atribudo? 
Tambm isso  verdade? E do cargo vitalcio que lhe atribustes, h to pouco tempo, sob juramento?
Isambard viu o rosto do rei empalidecer e, por um instante, perguntou a si mesmo se o medo supersticioso poderia criar razes naquele solo frtil de autopersuaso. 
Por um instante, suavizou a dureza da sua voz, para lhe dar tempo a germinar.

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- Sou vosso vassalo, Majestade, um vassalo to leal como qualquer outro nesta terra, longe de mim querer ofender-vos. Mas, para o bem da vossa alma, no permitais 
a vs mesmo cometer ofensa. Estais a ser levado a cometer erros que o tempo voltar contra vs. Pensai melhor e desfazei o que foi feito, enquanto ainda  tempo.
Contudo, Isambard interpretara com demasiada generosidade aquilo que, afinal, era apenas o comeo de uma terrvel fria. A palidez extrema, de brancura igual  de 
uma chama pura, varreu totalmente a cor do rosto do rei e at dos olhos, que ficaram cinzentos e vidrados.  melhor assim, pensou Isambard, entregando-se a uma satisfao 
perversa. Sou demasiado velho para mudar e no seria capaz de engolir tudo isto, se no estivesse no fio da navalha,  espera de cair.
- Estais a defend-lo? -perguntou o rei, em voz entrecortada. - Um celerado que, durante tantos anos, roubou o nosso tesouro em proveito prprio? Que se atravessou 
no nosso caminho, quando queramos reconquistar a nossa provncia da Normandia? Que serviu melhor o rei de Frana do que a mim? O conde de Kent vai responder por 
tudo isto. Pensar melhor, eu? Poderei pensar melhor na clemncia que mostrei para com ele e exigir o pagamento total da sua dvida, e no apenas de metade. Ele fez 
coisas muito piores do que pilhar as minhas rendas. Prejudicou a minha reputao e o meu esprito, conseguindo ascendente sobre mim por meio de bruxarias. Bebi com 
ele, confiei nele... Duvidais de mim? Vereis confirmadas todas as acusaes, vereis como todas sero provadas.
Ora ali estava o pretexto e a justificao da sua longa tolerncia. J que era preciso algum para carregar o fardo da inconstncia e da fraqueza do rei, mais valia 
fazer recair o seu peso sobre os ombros de um s homem. Bruxaria! Aquele homem simples e realista, que se fizera  sua prpria custa, aquele coleccionador de castelos, 
aquele administrador incansvel, devotado, vido, generoso! Haveria mais acusaes? Tudo indicava que haviam andado muito ocupados a desenterrar coisas que pudessem 
ser lanadas contra ele.
- Um assassino discreto, que usou veneno. Achais bem? Envenenou o velho William de Salisbria e, tambm, Pembroke... e o nosso bom arcebispo...

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O qu? Grant tambm? Em Itlia? Eram voos cada vez mais descontrolados da imaginao e Henrique estava a lanar-se deliberadamente num frenesim do qual poderiam 
resultar imagens ainda mais fantsticas. De p diante dele, Isambard observava sem emoo os tremores e sobressaltos daquele corpo jovem, que apenas as mos crispadas 
sobre os braos da cadeira pareciam conter. O seu patrono, pensou Isambard, tinha as vises calmamente, com a simplicidade de uma criana. Este solta os demnios 
para as irem buscar contra a sua prpria vontade.
- ... para j no falar da horrvel impiedade que cometeu contra a Santa Igreja, na pessoa daqueles padres italianos, a quem ns quisemos conceder benefcios no 
nosso pas. Porque foi ele, est provado, quem incitou William Wither, aquele blasfemo do York-shire, a cometer tais actos de violncia. Foi ele quem, com tanta 
severidade e dureza, reprimiu os tumultos na nossa cidade de Londres e matou injustifcadamente, quando poderia haver mostrado piedade...
- E posto em perigo o vosso reino - replicou Isambard, secamente. - Em meu entender, Majestade, haveis motivos para vos sentirdes contente por de Burgh haver mostrado 
coragem para agir como agiu. Alis, no que se refere a esse assunto, sempre soubestes de tudo quanto pode ser invocado contra ele.  um pouco tarde para o acusar.
- Nunca  tarde demais para fazer justia. O brao da lei deve ser, e ser, suficientemente longo para atravessar os tempos. Tratarei de que lhe sejam aplicadas 
as penas correspondentes aos seus crimes. Outros h, e repito, outros h, lorde Isambard, que fariam melhor em ver onde pem os ps e em ter tento na lngua.
Os gentis-homens do squito haviam-se aproximado ligeiramente de ambos, em silncio, e observavam o rosto do rei como quem observa o espelho da prpria conduta. 
Isambard fitou-os calmamente, sem pressas, e leu neles uma reserva que de Burgh no avaliara com o devido cuidado. A antipatia no era motivo suficiente para justificar 
aquelas bocas firmemente fechadas, para que delas no sasse uma palavra de defesa. O que emudecia nelas a compaixo era o facto de de Burgh ser um estranho. De 
Burgh no

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era, nem nunca fora, um deles. As terras daqueles homens pertenciam-lhes por direito e eles usavam-nas como quem usa uma pea de roupa. A nobreza do seu nascimento 
era inquestionvel. O conde de Kent chegara ao meio deles sem terras, mas cheio de ambies, ascendendo  fortaleza at ento inviolada daqueles homens, ansioso, 
peremptrio, zeloso do protocolo. Era o primeiro e mais solitrio dos homens novos. Sendo um deles, mas mais poderoso do que qualquer deles, nunca fora aceite. A 
nobreza nunca o invejara ou reconhecera, tampouco lhe estenderia a mo, agora que cara em desgraa. De Burgh no lhes importava. E a mim?, pensou Isambard, admirado 
por se ver confrontado com a fortaleza inexpugnvel do seu nascimento e do seu sangue. Ser que me importa, santo Deus?
- Agradeo, Majestade, as vossas palavras de advertncia, pois como tal as entendi. Todavia, permitis-me mais uma palavra? H algo que gostaria de dizer a favor 
do conde de Kent, antes que tomeis a deciso final.
Isambard no esperou pela permisso do rei: mais valia considerar como concedido aquilo que podia ser negado. E, desta vez, no se dirigiu apenas ao rei. Ainda no 
chegara a meio da sua declarao e j Henrique saltara da cadeira, com o rosto to violentamente congestionado que Isambard lanou um olhar frio e avaliador  guarda 
da espada de cerimnia e  mo elegante que dela se aproximava. Ranulf de Chester no se encontrava ali para, se necessrio, proteger Isambard da espada de Henrique 
como, um dia, protegera o seu inimigo, de Burgh. A exploso de raiva por a armada com a qual Henrique pretendia invadir a Normandia - a mais cara das suas ambies 
- no se encontrar preparada apresentava-se, agora, como um vislumbre proftico de um dio profundo e formidvel e no uma exploso infantil, como ento se pensara.
Quem sabe?, pensou Isambard. Talvez eu ainda venha a morrer s mos de um rei. Num gesto desdenhoso, afastou as pregas douradas do seu pelote, a fim de mostrar que 
no trazia  cintura nem sequer uma adaga ornamental.
- ... e peo-vos, Majestade, que penseis no que isto poder parecer queles que, na Europa, tm os olhos postos em vs e no

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que podero dizer de vs nos crculos reais. Julgais que podereis faz-los acreditar que o conde de Kent vos foi desleal, quando conhecem as suas obras to bem como 
vs e as compreendem melhor? Digo-vos que o conde de Kent vos garantiu o lugar, quando mais ningum podia faz-lo, e vos dedicou muitas vezes a prpria vida. Deus 
 testemunha de que, se serviu a sua causa, serviu tambm a vossa e vos instalou solidamente no trono. Devereis agradecer-lhe por isso e lembrar-vos dele nas vossas 
oraes. Ele  um homem e, portanto, falvel. Mas creio que, de todos os homens, vs sois quem menos direito h de se queixar, pois ele no se poupou a esforos 
ao vosso servio. Ponderai naquilo que os outros iro pensar. Estais a expor-vos a que digam que o rei de Inglaterra  ingrato e desumano, por tratar assim os seus 
amigos. A menos que digam - acrescentou Isambard, erguendo a voz para se fazer ouvir sobre o grito que viu formar-se na garganta do rei - mais caridosamente, que 
nem sequer sois capaz de perceber quem so os vossos amigos.
A mo do rei tremeu e crispou-se sobre a guarda da espada. O seu p calado de veludo bateu, impotente, no estrado oco e a voz que lhe saiu da garganta era rouca 
e distorcida pela fria.
- Aconselhei-vos a no avivar demasiado bem a minha memria, lorde Isambard - disse o rei, sorvendo uma lufada de ar. - Tambm vs... tambm vs... estveis na Normandia, 
quando fui impedido de fazer qualquer tentativa para recuperar um reino perdido. Eu imobilizado no campo e os meus homens a desperdiar a coragem e a aco no jogo... 
que desonra! Lembro-me muito bem! Vs e de Burgh reis unha com carne. Sempre fostes um dos homens dele. Acautelai-vos ou podereis vir a pagar o mesmo preo por 
isso.
- Desde a morte do vosso pai, Majestade, que no sou o homem de ningum, a no ser de mim mesmo - replicou Isambard, em voz alta e clara. - Agi como considerei ser 
melhor, para vs e para Inglaterra, e se o meu julgamento coincidiu muitas vezes com o do conde de Kent, porque vos espantais por eu recordar agora os seus bons 
servios? Ainda bem que fomos  Normandia para vos impedir de praticar um acto que haveria impelido o rei de Frana para o campo de batalha. Sem isso, podereis 
haver perdido l o vosso

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reino de Inglaterra e provavelmente a prpria vida. Cuidmos de que a vossa loucura no custasse mais do que o necessrio. Sede grato por isso!
Foi ento que se ouviu o grito: um grito feroz, inarticulado. De rosto contorcido num esgar, o rei deu um salto em frente e Passelewe, por trs da cadeira real, 
inclinou-se, pegou-lhe no brao e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Vrias vozes ergueram-se num murmrio agitado e alguns fidalgos mais velhos aproximaram-se 
do trono mas, com um gesto colrico da mo, o rei mandou-os afastar. Impvido, Isambard observava a cena com o habitual sorriso oblquo.
- Lorde Isambard...
Henrique continuava a tremer, mas recuperara o controlo da voz. Sabia sempre at onde ir e quando parar os seus acessos de clera.
- Acusais-vos a vs mesmo de traio, lorde Isambard, e no evidenciais o mnimo de vergonha. Estou a mostrar para convosco uma clemncia que no pude mostrar para 
com o conde de Kent. Aceitai-a reconhecidamente e cuidai de no voltar a pr  prova a minha tolerncia, pois no voltarei a reter o brao da minha justia. No 
tolerarei possveis traidores junto de mim - acrescentou, numa voz mais alta, aguda como a de uma mulher ferida. - Estais dispensado, lorde Isambard. Regressai ao 
vosso castelo de Parfois e deixai-vos l estar, at eu vos chamar  minha presena. Pode ser que vos mande chamar, quando voltar a Shrewsbury para o tribunal papal. 
At l, reflecti nas palavras que me dirigistes e prezai o facto de ainda vos encontrardes em liberdade. Ide! - gritou Henrique, num transporte de raiva exaltada, 
como um homem invulnervel no mais slido dos seus castelos. - Sa da minha vista! Voltai ao vosso ermitrio!
- Como vos aprouver, Majestade!
Isambard fez uma vnia profunda e recuou at ao meio da sala, sem desviar os olhos. Os que o fitavam viram o sorriso oblquo transformar-se num trejeito entre o 
desdm e o puro divertimento. As faces morenas no coraram; as mas do rosto salientes e as sombras abaixo delas pareciam talhadas em pedra. Quando se virou e se 
dirigiu para a porta, com movimentos deliberados, por entre as

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fileiras de fidalgos que se afastaram para o deixar passar, as saias do seu pelote esplendoroso ondularam  sua volta, num fulgor de bordados dourados. O senhor 
de Parfois no olhou para trs. Os seus cavaleiros, que o haviam aguardado sem uma palavra e sem um gesto, alinharam atrs dele e seguiram-no. No terreiro, os palafreneiros 
da sua escolta acorreram para os servir e os jovens escudeiros seguraram-lhes nos estribos, montando a seguir. Era uma escolta disciplinada, orgulhosa, esplendidamente 
equipada: uma escolta digna de um prncipe. Parecia a partida de um exrcito.
O rei ouviu-os afastarem-se e foi percorrido por um arrepio de dio. Como ousavam? Como ousavam retirar-se, depois da sua repreenso, com a segurana e a disciplina 
de conquistadores? Como ousava aquele homem, aquele memento mori enfatuado, afastar todas as honras que os uniam com um gesto da sua mo ossuda, e deixar para trs 
o seu senhor, to atormentado e denegrido?
Isambard montava descontraidamente, com as rdeas frouxas na mo, o sorriso ainda colado aos lbios. Estavam j fora da vista de Shrewsbury, cavalgando a passo pela 
berma coberta de erva da estrada romana, quando, de sbito, lanou a cabea grisalha para trs e soltou uma gargalhada. Tudo aquilo por de Burgh!
- Pelas chagas de Cristo! - exclamou Isambard, erguendo os olhos para o cu crepuscular, suspenso sobre a sua cabea como uma teia de aranha prateada. - Dir-se-ia 
que eu gostava daquele homem!

CAPTULO DOIS

Parfois, Shrewsbury: Dezembro de 1232

Nesse ano, a neve apareceu cedo mas algo relutante, cobrindo as colinas prximas do Severn com um manto to fino que deixava transparecer a erva adormecida, de um 
verde plido e gelado. De p sobre o terrao de chumbo da Torre do Rei, Harry, embrulhado na capa de feltro para se proteger do vento cortante, olhava para o vale 
longnquo, l em baixo, do amontoado de telhados de Pool, a montante, at s paredes cinzentas de Strata Marcella, a jusante. O seu reduzido mundo no ia mais longe; 
a neve ensombrava a paisagem, parecia afastar dele as colinas e tudo quanto conseguia ver do Pas de Gales era a margem, brilhante e gelada, e a primeira linha escura 
das rvores, no incio da encosta. Os braos menos profundos do rio estavam gelados e reflectiam um brilho fosco, sob a luz mortia; s a corrente principal, ladeada 
de gelo, corria ainda, sombriamente, em direco a Breidden, rolando as guas acastanhadas e escuras ao longo do sop da Long Mountain, muito abaixo das torres de 
vigia de Parfois.
Harry olhou longamente para a margem galesa, que lhe parecia a paisagem de um sonho, sempre fora do seu alcance. Ao abrigo das paredes cinzentas daquela abadia, 
Harry abraara a campa inviolada

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do pai, denunciando-a, e permitira assim, sem se dar conta, que esta fosse violada. Que haveria Isambard feito daqueles infelizes ossos sem descanso? Hav-los-ia 
despedaado e atirado outra vez ao Severn, para consumar a sua vingana abortada? Harry atravessara o rio por aquele vau, perceptvel sob a gua castanha revolta, 
para cavalgar atrs do seu prncipe e do seu irmo adoptivo, quando Isambard alargara a comprida rdea da tentao e o libertara, para ir cumprir o seu dever na 
guerra do ano anterior. Regressara pelo mesmo vau, conforme prometera, quando a guerra acabara e a sua liberdade ficara de novo comprometida. Agora, na quietude 
gelada do Inverno, a terra desejada ficava cada vez mais longe, escondida pelas nuvens plmbeas, e Harry quase no conseguia acreditar que alguma vez pudesse voltar 
a percorrer aquelas colinas, no Vero. Estavam separados por uma simples faixa de rio mas ele no podia atravess-la. As aves que,  noite, regressavam dos campos 
galeses, onde se alimentavam, aos seus pousos nocturnos, nas terras mais quentes de Parfois, faziam a viagem sem dificuldade. Harry via-as ir e voltar e invejava 
as suas asas; l bem no fundo, o n doloroso, incessante, da saudade, ficava um pouco mais apertado.
Sem asas, no havia forma de descer daquele ninho, nem sequer at Inglaterra, nem mesmo at  clareira invisvel l em baixo, no meio dos bosques, onde Aelis continuava 
 espera de notcias dele, que nunca mais chegavam.
Devia muito a Aelis e ao pai. Quando fugira de Aber e viera rondar em torno de Parfois, procurando vingana, haviam-no recebido e alojado sem fazer perguntas, julgando-o 
fugido  Justia ou a algum amo severo. Muitos fugitivos haviam j passado pelas suas mos e no receavam os fora-da-lei. Aelis ajudara-o em tudo: dera-lhe de comer, 
remendara-lhe a roupa, mostrara-lhe os carreiros que subiam pelas escarpas por baixo do castelo. Quando soube que fora feito prisioneiro mandara uma mensagem para 
Castell Coch, para que a notcia chegasse a Llewelyn, em Aber. E enquanto fora tempo, enquanto estivera com ela, Harry nem sequer havia sido muito gentil para com 
ela! Agora, daquele ninho empoleirado l no alto revia-se a si prprio, l em baixo, infinitamente pequeno, ingrato e indigno. Mesmo quando fora liberto para poder 
tomar parte na guerra e

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dormira, naquela ltima noite, sob o tecto do pai dela, tratara-a como uma criana e contara-lhe apenas meia verdade, guardando a outra meia para o regresso. Mas 
o orgulho, a conscincia ou o que quer que o impulsionava, haviam-lhe pregado uma partida no ltimo momento e Aelis ficara sem receber conforto.
Ela nem sequer sabia, nem sequer suspeitava que ele estivesse to perto! Julgava-o livre e certamente esquecido dela. Talvez j houvesse deixado de gostar dele, 
talvez j nem pensasse nele. O corao de Harry revoltou-se, furioso com a ideia, lutando contra a dor, mas o medo continuava a domin-lo e no conseguia deixar 
de o sentir. Acaso merecia melhor sorte?
- Ento, Harry, continuas a querer deixar-me? - perguntou Isambard, com uma suavidade compungida, por detrs dele.
Quando queria, Isambard movia-se com mais suavidade do que um gato; mas j no conseguia assustar Harry. Aquele jogo cruel fora jogado demasiadas vezes. Era aquela 
a sua posio favorita: debruado sobre o seu prisioneiro, sussurrando-lhe ao ouvido como um demnio tentador.
- Ser melhor adiares esse voo at o tempo se mostrar mais clemente. No gostaria de ser obrigado a retirar-te do gelo do Severn.
- Porque no? - replicou Harry. - Atirastes o meu pai l para dentro, porque no fareis o mesmo comigo?
- Ainda no acabei contigo, Harry. Continuas a agradar-me. Por enquanto!
E devia ser verdade, porque poderia facilmente hav-lo morto naquele dia de Vero, em vez de o forar simplesmente a largar a espada.
- No deverias antes estar a olhar para Inglaterra? - perguntou Isambard, apoiando os cotovelos envoltos no manto sobre a pedra gasta pelo tempo, ao lado de Harry. 
- O prncipe David e sua me esto novamente em Shrewsbury. Daqui a dois dias a comisso papal rene-se em Sant Mary. No gostavas de l estar para ver?
- E vs, senhor? O rei Henrique est no priorado de Wenlock, segundo ouvi dizer. No querereis vestir a vossa tnica de ouro e ir prestar-lhe homenagem?

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- Boa resposta, Harry! - disse Isambard, numa gargalhada. - No deixas ningum sem resposta! Estou to perto de voltar a cair nas boas graas do meu rei como tu 
de seres devolvido ao teu prncipe. Todavia, duvido que sofras mais do que eu com este afastamento.
- At agora, senhor, at agora...
Harry lanou um olhar curioso por cima do ombro, observando o perfil aquilino que fitava tranquilamente o vale do rio, sem conseguir descortinar um estremecimento 
de pena ou de mal-estar naquelas linhas severas e delicadas. Seria verdade que no se importava? Que no sentia vergonha nem medo por haver cado em desgraa?
Parfois tremera sobre as suas fundaes de rocha, quando Isambard regressara de Shrewsbury, a meio da noite, no seu esplendor de proscrito. Harry lembrava-se bem 
das correrias e dos sussurros, das especulaes ansiosas, das tochas flamejantes. De Langholme, plido e reduzido ao silncio, ajudando o seu senhor a deitar-se. 
De como, no meio de tamanha agitao, Isambard, eficiente e calmo, parecendo no se dar conta da tempestade que semeara, se levantara, qual dolo pago dourado, 
retirara os anis dos dedos com um bocejo e chamara  ordem com aspereza o primeiro criado desatento, para demonstrar que nada mudara. A sua mo continuara a ser 
to pesada como antes, embora no mais. Ningum pagou pela sua desgraa, nem ningum se aproveitou dela: Isambard cuidou de que tal no acontecesse.
E, pouco a pouco,  medida que os dias foram diminuindo o espanto que os submergira, a histria da audincia com o rei tornara-se conhecida, quando os cavaleiros 
que haviam escoltado Isambard abriram os seus coraes perturbados aos que no haviam estado presentes. Determinada e deliberadamente, instigara a sua perda - por 
orgulho, por ira, pela sua cruzada de vingana contra a vida, que o levava a caminhar sempre  beira do abismo, desafiando a morte a lev-lo consigo. Ou talvez o 
houvesse feito a frio, com o intuito de assustar o rei Henrique - dizia-se que este se assustava com facilidade perante homens autoritrios - e de o obrigar a mudar 
de atitude, abrandando a presso sobre o conde de Kent.

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Se assim fora, haveria Isambard errado o alvo tanto como parecia? Vendo bem, de Burgh estava em muito m situao: acossado, espoliado, sem conseguir obter refgio, 
empurrado de um lado para o outro, roubado, feito prisioneiro e, por fim, fechado e guardado  vista, numa recluso austera, em Devizes. Seria isto falhar? Ou, pelo 
contrrio, seria um feito de Burgh estar ainda vivo? Dizia-se que, em tempos, as hordas de Londres haviam sido lanadas contra ele por ordem do rei e que apenas 
o velho Ranulf de Chester se opusera e obrigara Henrique a chamar a matilha. Cinco semanas depois, o velho Ranulf morria; contava-se que, no meio do seu infortnio, 
de Burgh chorara e rezara com fervor pela alma do seu antigo inimigo. E se Isambard houvesse desempenhado o mesmo papel antes e se houvesse esquivado a uma morte 
mais discreta?
- No deposites demasiadas esperanas na minha queda, Harry - aconselhou Isambard, com um sorriso irnico por cima do ombro esguio. - No duvido que o rei gostasse 
de me atacar mas o mais que se atreve a fazer j est feito e, como vs, foi bastante pouco. No sou nenhum de Burgh, para me deixar derrubar como uma rvore. No 
possuo senhorios dados por ele, que me possa tirar de cada vez que  tomado por um ataque de mau gnio. No sou guardio de nenhum castelo real nem nunca cobicei 
nenhum. Ele no me pode desapossar de um furlong (1) de terra que seja. A minha linhagem  mais antiga do que a dele e tudo quanto possuo  meu por herana. Nunca 
exerci nem me candidatei a nenhum cargo, nem administrei os impostos do rei ou os dinheiros do reino, que  a principal arma que eles detm contra o infeliz e amargurado 
Hubert. Eu sou inatacvel. A nica coisa de que o rei me pode privar  da sua presena e passo to facilmente sem ela como ele ma nega.
- E quanto  vossa vida? - argumentou Harry.
-  muito mais provvel tu vires a ser a causa da minha morte, Harry, do que o rei Henrique.

1 Presentemente, corresponde a cerca de 201 metros. A palavra arcaica furlang (furrow-long) significava "o comprimento de um sulco cavado num campo". (N. da T.)

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- Confortais-me, senhor. Meditai nessa promessa e tomai cuidado convosco.
Harry hesitou por instantes, envolvendo-se mais nas pregas do tecido de l, sem deixar transparecer se o fizera para se proteger do vento gelado ou para ocultar 
o rosto. A biqueira do seu sapato comeou a bater, irrequieta, contra as pedras do merao em que se apoiava.
- H quem j ande a lamber os beios - explodiu.
- Porque me coloquei em fase de eclipse temporrio? No duvido. Julgas que j houve algum cuja queda em desgraa no haja dado conforto e prazer a outrem? Sou to 
odiado como a maioria e muito mais do que alguns. Para mim, isso no  novidade.
Harry teria, de boa vontade, parado por ali, mas a sua lngua tinha mais coisas para dizer. A muito custo, acabou por articular:
- H pessoas, que vos so prximas, que andam muito pensativas desde o vosso regresso de Shrewsbury. A fidelidade de alguns membros da vossa casa no  l muito 
segura. Mal estejam certos de que a vossa poca acabou, sairo ao encontro dos novos senhores.
Sorridente, Isambard levantou os olhos da contemplao do rio cinzento de ao.
- Os novos senhores - repetiu, apreciando a frase.
O tom da sua voz, suave e absorto, mostrava claramente que havia entendido. Os que mais protestavam, indignados, a sua devoo, j haviam comeado a lanar olhares 
especulativos, pelo canto do olho,  estrela em ascenso dos novos homens de des Rivaulx, esses competentes escreventes e funcionrios da casa que haviam entrado 
em funes com o seu senhor. Um dos mais prximos, dizia-se, era William Isambard, o filho mais novo do velho, cujas roupas de criana haviam sido arranjadas para 
Harry, quando este ficara prisioneiro em Parfois. Havia muito tempo que Wiliam esperava pela sua herana, mas o velho no dava mostras de querer morrer to cedo, 
nem sequer de ficar senil. Na verdade, ainda nem tomara conscincia de que envelhecera. O desagrado do rei podia ser til: podia, inclusive, ser alimentado com novas 
achas, se comeasse a esmorecer.

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Ser que Isambard nunca pensara nisso? Era impossvel dizer: o seu controlo sobre o prprio rosto era to absoluto que ningum era capaz de lhe ler os pensamentos, 
a menos que ele quisesse deix-los transparecer - e ele gostava de confundir e espantar as pessoas. Harry gostaria de ter ficado calado. Porque havia de o avisar? 
Que lhe importava que Isambard fosse trado?
- Quem so essas serpentes que acolho no meu seio, Harry? - perguntou a voz suave, persuasiva. - Diz-me os nomes e vers que, como qualquer outro homem, sou capaz 
de ser grato quando me do razes para tal.
- No! - exclamou Harry, afastando-se bruscamente do olhar demasiado perscrutador daqueles olhos sem iluses. - No sou vosso espio!
- Nem mesmo a troco da tua liberdade, meu rapaz? Diz os nomes deles e poders meter a chave na fechadura e sair em liberdade. A princesa receber-te- de braos abertos 
ainda esta noite, em Shrewsbury, e voltars para casa a cavalo, ao lado de David. Que mais posso oferecer-te?
Oh, como eram doces, insuportavelmente doces, aquela voz e aquela promessa! E o olhar acariciador dos olhos profundos, to prximos, sorrindo-lhe to tentadoramente, 
to ternamente. Graas a Deus, j lhe conhecia as manhas, j se dominava, sem sequer ficar abalado.
- Perdeis o vosso tempo, senhor. Sabeis que de mim no arrancareis qualquer nome.
Noutras alturas, Harry teria ficado furioso e insultado Isambard, como se atirasse pedras a um inimigo ameaador. Subitamente, tomou conscincia disto e sentiu-se 
orgulhoso por haver amadurecido. Havia pelo menos uma coisa que devia a Isambard: depois dele, seria intil que outros, menos experientes, o tentassem.
- Recusas, Harry? Ento ouve l e vers se erro por muito. Isambard comeou a nome-los, um por um, com perfeita
exactido, at chegar a Thomas Blount, que no passou de uma simples adenda, uma nota trivial, j no fim.
- E de Guichet, evidentemente - disse, sem amargura.

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Ao ver que o jovem, que at a se mantivera impenetrvel, se virava, de boca aberta, ao ouvir o nome do senescal de Parfois, Isambard riu-se.
- No estava na tua lista? Ento faltou-te o chefe. Levantou-se da pedra fria, espreguiou-se e acrescentou:
- J estou velho demais para aprender a ser cauteloso, Harry.  preciso jogar as cartas  medida que vo aparecendo na mesa. Nunca te convenas de que me iludo acerca 
do amor que os meus homens me devotam. H muito que vivo com eles e conheo-os bastante bem.
- Vejo que no necessitais da minha ajuda - disse o jovem, magoado. - Nem em relao ao vosso senhor, nem aos vossos servos.
- O meu senhor? Ah, o rei Henrique! Para ser franco, Harry, embora eu seja seu vassalo, quer ele o creia ou no, Henrique no  senhor de ningum, nem sequer de 
si mesmo. O pai, sim, era um homem, apesar de ser como era e de todos os seus defeitos. Este  um poo de dios e preconceitos. At usa as poucas virtudes que possui, 
a piedade e a caridade, como contrapartidas para regatear com Deus.
Harry virou a cabea rapidamente, alarmado,  procura dos seus dois guardas, que deviam estar encostados nalgum recanto bem abrigado, ao cimo das escadas.
- Senhor, no faleis to alto!
- Esto demasiado longe para ouvir, Harry. Porque haveriam de seguir-te at este lugar ventoso? Sabem que no vais saltar para a morte: tu s um partidrio da vida.
- Ningum dir o mesmo de vs, senhor. Pensai bem. No vos havereis j exposto o suficiente? - Harry reprimiu o espanto, ao notar a irritao ilgica que sentia. 
- No devereis falar assim do rei em frente de ningum.
- Nunca o fao - replicou Isambard, sorrindo, enquanto lhe pegava no brao e o voltava para o poo escuro das escadas, onde os arqueiros aguardavam. - S na presena 
dos meus inimigos, Harry - acrescentou baixinho, ao ouvido deste. - Um homem est sempre a salvo junto dos seus inimigos honestos. Achas que

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no te conheo? Nunca me entregarias  justia do rei, tal como nunca me poupars  tua.
A magnfica assembleia reunida na igreja de Saint Mary, no sexto dia de Dezembro, dispersou quase ao cair da noite e todo o povo de Shrewsbury se acotovelou no adro 
para a ver partir.
Primeiro foram os legados do Papa, senhores graves e reverendos, embuados at aos olhos nos mantos e capas, pois o seu sangue italiano suportava mal o frio e a 
humidade daquele clima inspito. Os seus criados, de libr, eram mais vistosos do que os legados e desfilaram numa procisso pomposa, se se desse desconto aos seus 
passos cautelosos e incertos sobre as pedras geladas do adro. Seguiu-se o rei e o seu squito: na rua apinhada, ecoaram os nomes ilustres,  medida que os cavalos 
iam passando. Ralf Neville, bispo de Chichester e chanceler de Inglaterra; Segrave, o novo corregedor do reino; de Lacy, conde de Lincoln e alcaide de Chester, desde 
a morte do velho Ranulf. O nobre alto, de rosto franco e sorriso austero era Richard, conde marechal, o novo conde de Pembroke, que havia mais de um ano acedera 
inesperadamente ao ttulo. Era o segundo de cinco irmos saudveis e nunca pensara herd-lo, mas o irmo mais velho morrera sem filhos e Richard, instalado havia 
muito nos seus domnios franceses, fora chamado a casa  pressa, para preencher o lugar. Ainda que fosse mais estrangeiro do que ingls, j corriam rumores na corte 
de que ele no morria de amores pelos oficiais do rei Henrique originrios do Poitou e tambm acerca do seu respeito, muito ingls, pela ordem e pelos costumes do 
reino, que aqueles oficiais prometiam desmembrar.
Composta por bares, condes e funcionrios, bispos e prelados, senhores de pendo e caldeira e simples cavaleiros, a nobre cavalgada desfilou at ao Wyle, rodeando 
o jovem rei Henrique, em toda a sua glria e dignidade - aspectos que este nunca descurava.
Shrewsbury no recebera muitas personagens ilustres desde os tempos do rei Joo, a quem, em troca de dinheiro e lealdade, a cidade extorquira tantos e to teis 
forais e privilgios. Os negcios floresciam na senda da Coroa; os burgueses do burgo gritavam aclamaes com grande contentamento, batendo com os ps frios no

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solo gelado e remexido, assoprando fanfarras de vapor prateado para o ar cintilante. Mesmo quando foi a vez de os Galeses desfilarem, as gentes da assistncia no 
fizeram ares irritados e esticaram os pescoos com a mesma curiosidade. Os Galeses haviam muitas vezes semeado o terror nas fronteiras e, desde que havia memria, 
j uma vez haviam saqueado e ocupado a cidade de Frankwell. Mas faria sentido olh-los como inimigos, quando quase todas as famlias do burgo tinham parentes na 
margem ocidental do Severn? As fronteiras eram reconhecidas e zelosamente guardadas pelos reis mas a gente comum no podia fazer os seus negcios quotidianos sem 
as atravessar livremente, deixando com imparcialidade as suas pegadas dos dois lados e, uma vez por outra, descendentes acidentais.
Os Galeses vinham a p, pois da residncia citadina do abade, onde estavam alojados, at  capela real de Saint Mary era apenas uma curta caminhada. A princesa de 
Aberffraw, senhora de Snowdon, mulher de Llewelyn e filha do rei Joo, saiu do ptio de brao dado com o filho, afastando-se da sombra da torre atarracada de grs, 
e aproximou-se do porto alumiado pelos archotes, onde se deteve por momentos para apanhar a sua saia comprida e enrol-la sobre o brao. Era uma mulher alta e grave, 
de movimentos enrgicos e rosto calmo. Caminhava com segurana, sem sorrir, imperturbvel, e a sua expresso no permitia calcular se regressava para junto do marido, 
em Aber, com uma vitria ou uma derrota. Durante toda a sua vida, estivera exposta  luz dos archotes e aos olhares perscrutadores, sabendo moderar o seu prprio 
olhar naquele mundo de homens de Estado e prncipes, por amor de Llewelyn; sabia como refrear e proteger a razo e o corao. Todavia, pouco mais de um ano antes, 
como toda a gente sabia em Inglaterra e em Gales, estivera detida na priso do marido por infidelidade e o seu amante, de Breos, fora enforcado nos pauis de Aber 
- um preo demasiado elevado para qualquer mulher, mesmo uma princesa.
Esticaram o pescoo para a ver passar e consideraram que no merecia tanto risco: tinha os cabelos grisalhos, sob a coroa de ouro, as faces plidas e uns olhos tristes. 
No voltaria a ter quarenta anos. E de Breos to jovem, to galante! Que haveria ele visto nela que eles no viam?

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Joan suportou o fardo daqueles olhares, sem sentir a angstia que experimentara da primeira vez que voltara a enfrentar as luzes. Quando se ocupava dos assuntos 
de Llewelyn, passava a ser Lle-welyn: a sua voz assumia a autoridade da voz dele, escolhia as palavras que ele teria escolhido e at os gestos reproduziam o ardor 
e a magnificncia dos gestos largos e generosos do prncipe. No havendo razes para este mostrar timidez ou vergonha, ela no podia perder a compostura. Levantara-se 
diante dos legados, nos degraus da capela, e falara por mais de uma hora, em termos corajosos e ponderados, especificando, sem se alterar, as muitas violaes das 
fronteiras, as repetidas quebras das condies da trgua, de que Llewelyn acusava os seus vizinhos ingleses. Voltara a sentar-se com a mesma expresso impassvel 
para ouvir as contra-acusaes e fora a primeira a insistir em concesses e novas demonstraes de boa-vontade de ambos os lados, oferecendo compensaes sempre 
que estas fossem julgadas devidas pelo Pas de Gales, e reclamando-as com cortesia sempre que devidas pela Inglaterra. Algum dos homens presentes haveria feito melhor? 
Llewelyn estava presente no corao e no esprito de Joan, como uma guia das montanhas de Snowdon que, do seu ninho no esprito da princesa, olhasse atravs dos 
olhos dela.
David, seu filho e herdeiro confirmado de Llewelyn, caminhava  sua direita. Era alto e delgado como a me e tinha o mesmo ar grave, quase triste, mas tambm um 
sorriso sbito e radioso, raro e breve, que herdara do pai. A esquerda de Joan seguia um homem mais velho, que devia ser Ednyfed Fychan, homem de confiana e confidente 
de Llewelyn desde havia muitos anos. E o jovem robusto e moreno que vinha logo atrs deles, diziam os mais conhecedores de entre a multido, era o irmo adoptivo 
do prncipe David, Owen ap Ivor ap Madoc, ele prprio um nobre senhor dos feudos de Arfon e Ardudwy.
Avanaram sobre as pedras geladas da rua com os guardas de honra  sua frente, a abrir caminho: chegaram e passaram, seguidos pelo seu squito de nobres das tribos 
selvagens, morenos e possantes. Na curva do Wyle, a multido de espectadores agitou-se numa convulso da qual irrompeu uma figura delgada, envolta numa capa, que 
se atravessou no caminho. Um dos guardas estendeu

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a vara para a impedir de passar mas ela, rpida como um esquilo, rodeou-o e agarrou-se ao brao de Owen ap Ivor antes que algum conseguisse interpor-se.
- Esperai, senhor! Senhor Owen!
Este olhou para baixo, sobressaltado, e viu um rosto oval e alegre, rosado devido ao frio e emoldurado pelo capuz castanho. Uns olhos azuis, orlados por longas pestanas 
infantis, fitavam-no com uma expresso implorativa.
- Senhor Owen, no vos lembrais de mim? Sou a Aelis!
O guarda agarrara-a por um brao e hav-la-ia afastado com um empurro, se Owen no a segurasse pelo pulso e afastasse o homem, com uma mo tranquilizadora.
- Deixai-a,  inofensiva. Deixai-a falar.
Aquela agitao momentnea chegou aos ouvidos de Joan, que se voltou para ver o que se passava.
- O que ? Se essa criana nos quer pedir alguma coisa, que esta no lhe seja negada.
O dia correra bem para o Pas de Gales, era dever deles dar esmola a quem a pedisse. Voltou atrs, na sua passada comprida e impetuosa, e olhou com ateno para 
a cara da rapariga. Muito jovem, no mais de dezasseis anos, um corpo delgado, embrulhado e informe dentro da capa spera que todos os camponeses usavam. Agora parecia 
assustada e tentava recuar, mas Owen segurou-a, passando-lhe um brao pelos ombros com receio de que ela se escapasse das suas mos e desaparecesse na multido.
- Senhora,  esta a jovem de quem vos falei, que uma vez nos mandou notcias de uma pessoa que perdemos.
Era hbito de Owen no referir nomes. Mas algum teria ouvido falar de Harry Talvace, naquele burgo fronteirio to confiante?
- Posso convid-la a vir a nossa casa? - perguntou, muito depressa, ao ver a chama de compreenso que iluminara o rosto de Joan.
- Sim, com certeza. Acompanha-nos at aos nossos alojamentos, minha filha, e obters o que pedires, seja l o que for.
A criaturinha era to arisca como uma cora selvagem e have-la rugido se Owen no continuasse a segur-la. Joan voltou-se e

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continuou o seu caminho em passo apressado, para os deixar sozinhos. A rapariga conhecia Owen e confiaria nele: se o seu anseio fosse suficientemente forte quereria 
concretiz-lo. Aquele rosto impetuoso e inocente comovera Joan: ardente de paixo e to desesperadamente jovem... Ela acabaria por vir! Mesmo que Owen a soltasse, 
mesmo que se atemorizasse e se escondesse, como um veado na floresta, ainda assim viria ter com eles.
- Segue-nos at casa - disse rapidamente Owen, falando para a massa de cabelos cor de trigo que se escapava, em madeixas suaves, do capuz grosseiro. - Espero por 
ti no ptio, vai l ter comigo.
Os grandes olhos da rapariga lanaram-lhe um olhar arisco e desconfiado, mas a boca esboou um assentimento mudo. Em seguida afastou-se bruscamente dele e perdeu-se 
na turba. Quando olhou para trs, em direco ao porto da casa abacial, Owen viu-a deslizar silenciosamente ao longo da parede, seguindo-os, discreta, rpida e 
tmida como uma gata da cidade, a caar ao cair da noite. Quando entraram no ptio, Aelis vinha logo atrs dos pajens mais jovens e o seu passo era to leve que 
ningum a ouviu, ningum a interpelou. O porto fechou-se atrs dela, o que a fez virar-se: parecia capaz de abrir caminho s unhadas se pudesse, num ataque de pnico, 
mas era demasiado tarde.
Owen correu para ela e agarrou-a pelos ombros, segurando-a com fora ao sentir que ela queria soltar-se.
- Porqu, Aelis? Isto  uma tolice. Conheces-me, chamaste por mim. Vem comigo, diz-nos o que tens a dizer. Que fiz eu para te meter medo?
- No sabia - disse ela, atabalhoadamente. - Nunca pensei que fsseis um parente da senhora. S queria dar-vos uma palavra a ss, nunca pretendi uma coisa destas.
Sob as suas mos, Owen sentiu o corpo dela distender-se e acalmar-se, e a rapariga no ops resistncia quando comeou a conduzi-la em direco  casa.
- Tens medo da princesa? No precisas ter medo: mesmo que no fosse a bondade em pessoa ela tem para contigo uma dvida de gratido, como todos ns.

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- No tenho medo - replicou Aelis, indignada. Empurrou-o com deciso e caminhou  sua frente at ao
salo.
Os archotes, j acesos nas cavidades das paredes, assobiavam e emanavam um cheiro a resina. Na lareira, os troncos a arder lanavam reflexos de luz e sombras coleantes 
sobre os lambrins acastanhados e sobre a princesa, enquanto esta despia o manto e aproximava os ps frios das brasas. Havia duas ou trs camareiras em volta dela, 
a desatacar-lhe os sapatos e a dar-lhe o vestido de trazer por casa, mas, quando ouviu a lingueta da porta e viu a rapariga atemorizada, curiosa e envergonhada no 
umbral da porta, Joan mandou-as parar com um erguer da mo e dispensou-as.
- Senhora - anunciou Owen, mal a porta se fechou atrs das saias roagantes - esta  Aelis, filha do Robert, que, no ano passado, quando o Harry desapareceu, nos 
mandou notcias a dizer que ele fora feito prisioneiro e levado para Parfois. Ela e o pai cuidaram dele durante algumas semanas, sem saber quem ele era, e foram 
muito bons para Harry. Se no fosse Aelis, no haveramos sabido to depressa o que lhe acontecera.
Aelis fez uma vnia e desviou os olhos, lanando olhadelas rpidas, sob as pestanas louras, primeiro em direco a Joan e depois ao jovem prncipe, que sara das 
sombras e estava de p atrs da cadeira da me. Ambos estavam ricamente vestidos, ainda que com cores escuras: usavam jias, veludos e brocados, pois vinham de uma 
cerimnia de Estado, na qual o fausto era uma arma temvel na panplia de cada faco. Aelis receava que Owen a houvesse feito parecer uma mendiga que vinha pedir 
a recompensa, e que a senhora tirasse do dedo um dos seus anis para lhe pagar os servios prestados. No que Aelis no gostasse de pegar naquela pedra vermelha 
brilhante e de a enfiar no dedo mas nunca como quitao da parte de Harry Talvace que lhe pertencia.
Mas Joan disse apenas:
- Parece que contramos uma profunda dvida para contigo, Aelis. E julgo que talvez consigamos pag-la de algum modo, pois vinhas pedir-nos algo. Faz o teu pedido 
e, se estiver ao nosso alcance, ser-te- dado o que pretendes.

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- Eu s queria perguntar ao Senhor Owen se me podia dar notcias do Harry - respondeu Aelis, afastando para trs dos ombros as pregas da capa cor de ferrugem.
Notcias de Harry por notcias de Harry: era uma troca justa e digna.
- Quando ele saiu de Parfois - acrescentou a rapariga, agora com mais ardor e ansiedade - esteve na nossa casa, passou l a noite e prometeu voltar quando pudesse. 
Desde ento, nunca mais recebi notcias dele. Vim a Shrewsbury, pensando que ele pudesse vir no squito de Vossa Senhoria e que conseguisse ao menos v-lo, para 
ter a certeza de que est bem. Talvez mesmo falar com ele - continuou, corando de repente, irritada por haver mostrado o seu desejo e a sua saudade diante de todos. 
- Nem Harry me deve nada e nem eu quero pedir-lhe nada, s queria saber se est bem. Mas como no o vi e o senhor Owen passou to perto, atrevi-me a cham-lo s 
para pedir notcias.
Aelis viu a forma como se entreolhavam e interrogou-se sobre o que seria aquela sombra que passava nos olhos de todos deles. Reteve a respirao, com medo de que 
s houvesse ms notcias: num ano e meio muita coisa podia acontecer! E ela sem saber se Harry estava vivo ou morto...
- E nessa altura no soubeste de nada? - perguntou Owen. - Ele esteve contigo e no te disse nada?
Joan viu o rosto jovem ficar gelado de aflio e os grandes olhos, mais azuis do que miostis, dilatarem-se e escurecerem com um terror que ela compreendia muito 
bem. Podemos dominar o medo por ns prprios, pois chega um momento em que este deixa de fazer sentido, mas o medo por algum a quem queremos mais do que a ns mesmos 
no tem cura - por mais corajoso que seja o esprito, por mais nobre que seja a alma.
- Harry est vivo - disse Joan, procurando palavras de conforto que fossem abrangentes e imediatas - e, se Deus quiser, de boa sade. Se ainda no cumpriu a sua 
promessa  porque ainda no chegou o tempo, no porque tenha quebrado o juramento. Nunca o vi faltar  sua palavra, minha filha, e no creio que venha a faz-lo.

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Viu as faces da rapariga voltarem a ganhar cores e a luz sorridente da felicidade despontar-lhe nos olhos, aliviados, e receou o que ia continuar a dizer; mas fora 
ela quem comeara a falar e no podia deixar que fosse Owen a dar as ms notcias.
- Harry devia haver-te dito a verdade quanto  sua liberdade - prosseguiu. - Era apenas liberdade condicional, at ao fim da guerra. Ele prometera regressar ao cativeiro, 
logo que esta acabasse. Dera a sua palavra e manteve-a.
Aelis levantou a cabea, olhando-a fixamente com uns grandes olhos que no conseguiam decidir-se entre a gratido e o desgosto. A capa escorregou-lhe dos ombros 
sem que se apercebesse e ali ficou ela, de p, delgada e imvel, com o seu vestido de burel acinzentado, os cabelos despenteados pelo capuz pesado, a escaparem-se 
das tranas. As madeixas lisas tinham um brilho de ouro escuro, revestindo-a de um esplendor muito prprio.
- Voltou para Parfois! - disse Aelis, num murmrio amargo, deixando escapar um profundo suspiro.
- J h mais de um ano.
- Devia ter vindo ter comigo no regresso - acrescentou a rapariga debilmente, com desgosto. - Devia ter confiado em mim.
- Decerto que confia em ti, minha filha. Tambm no veio visitar-nos a Aber antes de regressar. No momento em que foi libertado e foi a correr ter contigo, julgo 
que lhe parecia dispor de todo o tempo do mundo. S quando chegou o momento de cumprir com a sua palavra  que o Harry se deve haver dado conta de quo pesadas eram 
as condies a que se obrigara. Havia prometido voltar para o cativeiro assim que a paz fosse firmada. E manteve a sua promessa  letra, escrupulosamente. Ainda 
que tu estivesses apenas uma milha fora do seu percurso, o seu orgulho era demasiado e estava demasiado ferido para lhe permitir desviar-se e ir ter contigo.  assim 
que os homens nos tratam - disse Joan, com um sorriso oblquo. - Se estivermos dispostas a viver com eles,  preciso aceit-los como so.
A rapariga ficou silenciosa, estremecendo ligeiramente, inconsciente da eloquncia dos seus olhos. De novo em Parfois, lamentavam-se, de novo prisioneiro - e eu 
que no ganhei nada ao fim

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deste ano de espera. To perto - e no senti nada... to desgraado - e cheguei a amaldio-lo... Mas no se esqueceu, exultavam os olhos, se no veio foi porque 
no pde.
- Senhora, que podemos fazer? - perguntou, implorativmente.
- Muito pouco, para alm de esperar e ter esperana.
Aos dezasseis anos, no h nada mais difcil, aos dezasseis anos o tempo  to pouco...
- Volta para Parfois - aconselhou Joan, com doura - e vigia o melhor que puderes tudo o que por l se passar. Se acontecer alguma coisa estranha, alguma coisa de 
que devssemos ser informados, manda um recado ao castelo de Castell Coch, como j uma vez fizeste, e ele chegar at ns.  preciso que acredites que o Harry no 
faltou  promessa que te fez: h-de cumpri-la quando lhe for possvel.
Joan observou a face radiosa, a boca vulnervel, os olhos cintilantes da rapariga, uma beleza ainda por despertar, e doeu-lhe o corao por causa da tirania do tempo 
- ela, que j deixara para trs a juventude, dispunha de todo o tempo, de sobra mesmo. No, pensou, Harry no esqueceu!
- Esse stio, essa tua courela ao p do Severn, fica muito longe daqui. Como vieste at aqui?
- Vim a p - respondeu Aelis, sorrindo.
De que outro modo julgavam eles que as pessoas pobres se deslocavam?
- Sozinha? - perguntou Owen. - Ou o teu pai tambm est aqui na cidade?
- Como poderamos vir os dois e deixar a vaca e as galinhas? No, vim sozinha. No tenho medo - disse Aelis. - Os salteadores no do ateno a pessoas como eu, 
no trago comigo nada que eles possam cobiar.
- Mas no podes regressar sozinha. Owen, diz ao Madoc que prepare um cavalo e manda dois homens de confiana acompanhar Aelis a casa. E tu, David, pede  Margaret 
que lhe d de cear antes da partida.
Os dois saram obedientemente para cumprir estas incumbncias e as duas mulheres, a ss na sala confortvel, aquecida pela

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lareira e iluminada pelas tochas, olharam longa e discretamente uma para a outra, e permaneceram em silncio durante algum tempo.
- Ama-lo assim tanto? - perguntou Joan por fim, de forma sbita e brusca, quebrando o silncio.
- De Harry s quero o que ele me quiser dar de sua livre vontade - respondeu Aelis, com altivez.
- Acredito que sim. Mas no foi isso que te perguntei, Semiescondidos pelo cabelo louro escuro, os olhos azuis ergueram-se, desafiadores, para Joan.
- Sim, amo-o - respondeu Aelis.
Os legados partiram, a ilustre assembleia de nobres, bispos e prncipes comeou a dispersar: a poca urea do Inverno de Shrewsbury terminara. Partiram com cordialidade 
e em boa ordem. O rei j aprovara e ratificara o acordo estabelecido pelo tribunal; afirmara insistentemente o desejo de paz de ambas as partes e criara uma comisso 
de arbitragem para dirimir todas as questes que pudessem surgir entre elas. Os dois lados haviam-se comprometido a aceitar as decises desta comisso e concordado 
com os nomes propostos. Os legados haviam entregue solenemente os seus poderes a esta nova instncia e partido para Londres, abenoando a continuao da paz.
Se no tivesse o esprito ocupado com outros assuntos, haveria Henrique sido to malevel? Neste momento, o Pas de Gales estava praticamente invisvel aos seus 
olhos: s via o que ele prprio e esta nova ordem das coisas podiam fazer por Inglaterra. Nunca reservara espao para mais do que uma paixo de cada vez.
Assim, havendo tirado partido das preocupaes do rei, e dado graas a Deus por tal, a representao galesa deixou a residncia citadina do abade e tomou a estrada 
de Inverno para Aber.
Nesse dia, Harry estivera a trabalhar na sua bancada at tarde, recusando-se a sair dali para ir jantar, mesmo depois de j no haver luz suficiente. O salo devia 
estar cheio, as tochas proporcionariam uma luz demasiado reveladora e ele no queria aparecer ainda. Mesmo que conseguisse disfarar o seu sofrimento aos olhos dos 
outros, no conseguia deixar de sofrer.

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Haviam estado to perto de si... mas era como se um mundo os separasse. Harry ficou sentado  bancada, enrolado sobre si mesmo, s escuras, acariciando desesperadamente 
o trabalho inacabado para preencher o esprito e ganhar coragem mas sem conseguir deixar de ver a princesa diante dos olhos. Agora, voltava a v-la como a vira pela 
ltima vez, sentada na cadeira de Llewelyn, debruada sobre as ordenanas de Llewelyn, to diferente e to quieta depois daquele ano perdido, grisalha e envelhecida, 
carecida de todas as pessoas que a amavam. Naquele momento, estava a afastar-se dele milha a milha, cavalgando ao lado de David e Owen, desmontando para passar a 
noite - talvez em Valle Crucis - e partindo de manh para uma nova jornada, arrastando com ela as cordas retesadas do corao de Harry. Voltavam para casa, para 
junto da sua me, do prncipe que fora como um pai para ele, de Adam - que, com tanto amor e pacincia, preenchera o lugar de mestre Harry desde que o filho deste 
viera ao mundo. E Harry era obrigado a ficar ali, a espernear, com o corao despedaado, numa situao sem fim  vista, sem quaisquer sinais de que um dia pudesse 
ter fim. A paz era sagrada e a herana de David no podia ser posta em perigo. Para ali estava ele, Harry, o preo desta paz... Subitamente, rompeu em lgrimas de 
frustrao, de desespero e solido, mas logo esfregou a cara com a manga spera, furioso, para apagar rapidamente aquela vergonha. Tinha de passar aqueles momentos 
na escurido mesmo que ficasse sem jantar. Ainda no se sentia capaz de enfrentar os outros.
Ento, enquanto Harry continuava agachado no meio das ferramentas, a acariciar a pedra inacabada em busca de algum conforto, soou um ribombar distante de cascos 
a atravessar a ponte, na esplanada da igreja, que o fez levantar a cabea em alerta e lhe paralisou o sentimento de tristeza, captando imediatamente a sua ateno. 
Aquela hora, alm dos guardas, no devia haver muita gente l fora, no terreiro exterior. A curiosidade foi suficiente para o fazer deslizar da bancada e procurar, 
s apalpadelas, a sada da sala de desenho, para ver quem seriam aqueles cavaleiros. A corte ainda estava na abadia de Shrewsbury. Em Parfois, havia mais de uma 
orelha atenta e ansiosa a tentar perceber se Isambard voltara a cair

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nas boas graas do rei. Se isto fosse uma convocatria do rei, haveria quem se apressasse a voltar  sua postura anterior.
Meia dzia de cavaleiros estava a desmontar no terreiro das cavalarias.  luz das tochas, s conseguiu v-los fugazmente: silhuetas trmulas contra o brilho plido 
do gelo sobre a neve fina. Homens bem agasalhados, bem montados, com vozes fortes e andar confiante: bem podiam vir da corte. Os palafreneiros acorreram para se 
ocuparem dos cavalos e dois ou trs pajens apressaram-se a segurar-lhes nos estribos. O oficial da guarda mostrava-se extremamente respeitoso e atento para com o 
chefe do grupo, que desmontara e comeara a bater com os ps gelados no cho. Harry aproximou-se, de ouvido alerta para os nomes, j que no havia esperana de identificar 
os rostos. Contudo, o rosto do desconhecido identificou-o.
O visitante era um homem alto e bem constitudo, com uma barba farta e boas roupas. Apesar da barba, apesar de os lampejos de luz e sombra s o mostrarem por instantes, 
as parecenas eram suficientes para lhe poder atribuir um nome. Era mais encorpado e no possua a mesma astcia, o mesmo fulgor ou a mesma beleza, mas parecia-se 
muito com o pai.
Ento, este era o William Isambard, cujas roupas Harry havia usado: o filho mais novo, o corteso, o novo homem - o homem de des Rivaulx. Embora cuidasse de seguir 
a tendncia ascendente, parecia que encontrara coragem suficiente para visitar o pai, que no podia ir ter com ele.
Subitamente, com um silvo de madeira resinosa, uma das tochas flamejou e, por um longo minuto, lanou um claro sobre o rosto do visitante. Uns olhos ardentes, vivos 
e decididos, abarcaram Parfois numa olhadela, pesando, medindo e avaliando at os arreios e os poiais de montar no ptio. Sorria: com um sorriso daqueles que no 
se partilham com ningum. Os breves passos que deu sobre as pedras do ptio mostravam toda a segurana de um proprietrio.
De Guichet apareceu, apressado, vindo ao encontro de William ainda fora do arco que conduzia ao terreiro interior. Que faria ele fora do salo quela hora? Ainda 
ningum correra a levar a notcia, ningum o chamara. O senescal devia permanecer ao lado do seu senhor.

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Ao lado do seu senhor? Talvez agora estivesse. Aproximou-se diligentemente, manifestando uma surpresa efusiva, fazendo uma vnia, ainda que no demasiado obsequiosa, 
ao filho do seu amo, mas a sua voz, alta e clara na primeira saudao admirada, logo se transformou num murmrio confidencial quando os dois ficaram perto um do 
outro. Isto no teria qualquer significado, no seria mais do que uma impresso, um frmito da sua imaginao, mas o facto ficou gravado a cido no esprito de Harry, 
deixando uma marca indelvel. Ainda no havia um compromisso, era cedo demais: apenas um reconhecimento tnue e prudente, para se assegurar de qual o lado para que 
pendia a balana. Esta no era, decerto, uma embaixada do rei: William vinha tratar de assuntos seus.
Inesperadamente, Harry lembrou-se de Isambard, sentado  mesa de honra no salo apinhado de gente, dos mais de mil cavaleiros, escudeiros, criados e homens de armas 
reunidos  sua volta, da luz implacvel que lhes revelaria todas as emoes, todas as alteraes do seu rosto. Isambard proclamava no se importar com o exlio, 
no era? No alimentar grandes esperanas de voltar a cair nas boas graas do rei? Todos veriam, todos se aperceberiam de como se importava! Veriam reacender-se 
a esperana, se continuava secretamente a alimentar alguma, e veriam como esta se esfumava; mesmo que conseguisse passar inclume no teste, Isambard havia de imaginar 
um castigo para Harry, para devolver o golpe.
Comeou a correr, com o corao a bater-lhe na garganta, quente e vingativo, e deslizou por baixo do arco imerso em sombras,  frente dos visitantes, chegando antes 
deles aos degraus do salo. A vozearia, o fumo e o calor submergiram-no. Escapuliu-se por entre os copeiros apressados, numa trajectria rpida em direco  mesa 
de honra.
Podia perfeitamente ter dado a volta e murmurado a mensagem ao ouvido de Isambard, mas no era esse o seu intuito. Aproximou-se dos degraus do estrado e subiu-os 
com ousadia, tomando posio num dos extremos da mesa, de onde tinha uma panormica geral do salo e deixava Isambard exposto aos olhos de todos os presentes.
- Meu senhor!...

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Fez um compasso de espera, at as vozes se calarem. Queria que todos o ouvissem: no apenas os cavaleiros, mas todos os presentes, at ao ltimo criadito, postado 
ao fundo do salo.
- Senhor, chegaram mensageiros de Shrewsbury para falar convosco. Vm da corte.
O tempo escasseava, no podia contar com mais de dois minutos antes de os visitantes entrarem e arruinarem o seu esquema, mas dois minutos seriam suficientes. A 
babel de vozes, que se calara para o ouvir, recomeou, agora num tom mais baixo e mais cauteloso, interrogativa, excitada, esperando pela confirmao. O corpo estiraado 
de Isambard no se retesou na cadeira, as mos no apertaram os braos estofados; s os olhos se dilataram ligeiramente, enquanto erguia as sobrancelhas e olhava 
para Harry, com ar especulativo, por cima da mesa atafulhada - no como se no acreditasse nele, mas como se se perguntasse o motivo que estaria por trs daquele 
anncio. Se ficara contente e aliviado, se sentira um breve e agradecido impulso de triunfo e de exaltao, escondera-o com grande mestria. Poder-se-ia dizer que 
estava a avaliar as possibilidades e esperava pelo desenrolar dos acontecimentos, com um interesse despido de iluses e sem sinais de preocupao.
No, Isambard no mordera o isco. Se Harry esperara alguma revelao, ela ali estava: relanceou um olhar em volta da mesa de honra e contou os rostos inexpressivos, 
fechados como janelas, contou os pares de olhos que brilharam por instantes de inquietao e consternao, para logo se tornarem impenetrveis, resguardando as emoes 
que lhes atravessavam o esprito. Rpida e cuidadosamente, estavam a reavaliar a situao e apresentavam uma face imperscrutvel para disfarar a agonia. Os vira-casacas 
estavam a ajeitar os casacos sobre os ombros, prontos para os virar na direco em que o vento soprasse. Harry ficou mudo de espanto quando se apercebeu de que eram 
tantos.
- Ento, convida-os a entrar. So bem-vindos - disse Isambard. A secura daquela voz fez corar o mensageiro.
- Ei-los, meu senhor.
Estava feito e no havia maneira de voltar atrs. Afastou-se Para o lado, para junto dos panejamentos do estrado, no momento

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em que de Guichet entrava pela porta principal, alegre e diligente como competia a um portador de boas novas, seguido de perto por William Isambard.
Todos os olhares se voltaram para eles, fixando-se no recm-chegado. Um enorme suspiro ecoou no ar e terminou no mais absoluto silncio,  medida que William caminhava 
ao encontro do pai, se inclinava sobre a mo estendida e beijava a face emagrecida. Os dois rostos uniram-se por momentos: as parecenas e as violentas diferenas 
entre eles foram um choque para Harry. Tudo fora feito com tanta ternura, com tanta devoo filial... Harry ouviu o cumprimento afvel, no meio do silncio reinante.
- Meu querido pai e senhor, lamento ver-vos to infeliz.
-  assim que me vs, William? - replicou Isambard, com o habitual sorriso retorcido. - Julguei que estava com um ar radiante. Pelo que vejo, tu ests de muito boa 
disposio. Agora que c vieste, vais ficar algum tempo connosco?
- Ficaria se pudesse, mas o rei deixa Shrewsbury amanh e tenho de regressar a tempo. S me foi dada licena para me ausentar por umas horas.
- Podia dispensar-te metade da minha, que  uma licena ilimitada. Senta-te aqui ao p de mim, enquanto podes, e conta-me as notcias que trazes.
Arranjou lugar para o filho  sua direita e os pajens acorreram a servir-lhe de comer e de beber. Por cima da mesa, Isambard lanou um olhar sardnico a Harry Talvace, 
mudo e quedo contra a parede.
- Vai para o teu lugar, Harry - ordenou, com suavidade. - Desempenhaste bem a tua misso. Eu prprio no haveria feito melhor.
Harry passaria muito bem sem aquele elogio, mas no podia dizer que no fora merecido. Com as pernas a tremer, afastou-se, sentindo os olhos de de Guichet a queimarem-lhe 
as costas. O se-nescal no se atrevia a perguntar ao seu amo de que misso se tratava, mas era rpido a raciocinar e a tirar concluses. Talvez se interrogasse agora 
sobre de que lado estaria aquele ser solitrio e se Isambard no estaria a esconder, sob a capa de uma pretensa intimidade,

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que o utilizava como espio, para rondar pelos terreiros do castelo. Harry sentiu as complicaes da intriga colarem-se-lhe aos dedos e a sensao teve o sabor de 
uma afronta, como se houvesse sido fisicamente conspurcado por uma sujidade que no conseguia limpar. J depois de se sentar na mesa inferior, ao lado dos jovens 
homens de armas de condio igual  sua, no conseguia deixar de ouvir as vozes que provinham do estrado. Parecia que Isambard estava apostado em manter a conversa 
num tom alto e claro, a fim de ser ouvido at ao fundo do salo, por centenas de testemunhas. Na presena deste nobre convidado inesperado, os jovens do squito 
reduziam as suas conversas a sussurros, pelo que Harry no podia deixar de ouvir tudo.
- E como estava Sua Graa quando o deixaste? - perguntou calmamente Isambard, inclinando o copo de vinho para captar a cor de rubi  luz das velas que iluminavam 
a mesa. - Est satisfeito com esta trgua prolongada?
- Est muito satisfeito e de excelente humor. Vai passar o Natal a Worcester.
- Vais com ele, William?
- Terei essa honra. Como agora sou um oficial da sua casa...
- Pois , no me havia esquecido. Mas faz-me o favor de tranquilizar a minha casa, homem: ser que ele me mandou chamar de novo  corte?
- Infelizmente no, meu pai, ainda no. Dai-lhe tempo e ele h-de acalmar. Sua Graa ficou muito magoado com as vossas censuras, mas eu sei que vieram do vosso corao 
leal e se deveram  preocupao que sentis pelo rei. Sede paciente, ele h-de perdoar-vos. Estarei sempre ao lado do rei e cuidarei de que no sejais esquecido.
- Nunca duvidei disso - respondeu Isambard, com um sorriso diablico. - Sers o meu defensor e falars a meu favor, no , meu filho? Sobre a honestidade das minhas 
intenes e a fidelidade inquestionvel que dedico ao rei?
- Sabeis que sim, meu senhor. Com grande frequncia.
- Com grande frequncia! - repetiu Isambard devagar, rolando a lngua como se elas tivessem um paladar mais forte e mais

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agradvel do que o vinho. - Estou espantado, William, por Henrique te haver autorizado a passar sequer uma hora comigo, tu, que ele tanto preza. Vejamos, j s xerife 
de trs comarcas... ou sero quatro? No consigo lembrar-me.
- So quatro, senhor.
- E Sua Graa ainda te concedeu outro castelo pelos teus servios, segundo ouvi dizer.
- Sim, senhor... Burhythe, no Suffolk. Ainda no o vi sequer. Quando a corte se mudar para o Sul, irei l v-lo.
- Palavra de honra, estou muito satisfeito por um de ns estar na curva ascendente. Nunca duvidei da tua energia nem da tua eficcia. Se continuares do meu lado, 
acabarei por conseguir recuperar a minha posio.
- Meu pai, fiz o melhor que pude e com todo o empenho, mas convm deixar amadurecer a situao. O rei est muito ressentido com de Burgh, como eu prprio muito bem 
compreendo. Aguardai com pacincia, esperai e confiai em mim. No vos decepcionarei.
-  uma grande generosidade da tua parte - disse Isambard - uma vez que no concordas comigo sobre a questo do conde de Kent.
Seria deliberada ou dever-se-ia ao hbito, aquela insistncia em empregar o antigo ttulo, agora retirado ao nome do estadista cado em desgraa?
- Pois no. Mas reconheo a honestidade dos vossos pontos de vista e sei que sois leal ao rei: isso basta-me.
- Como estava o conde de Kent quando saste de Londres? Que notcias havia dele?
Duas vezes seguidas no era um acaso, era perversidade. Isambard manifestava o seu desprezo pela sentena e o seu respeito inalterado pela vtima, em pblico e de 
modo provocador.
William contou mais do que seria necessrio, descrevendo toda a triste histria com to boa vontade que Harry no pde deixar de sentir, naquela narrativa, uma ameaa 
e um aviso velados. Por que motivo havia William de elaborar sobre a maldade e a crueldade da demorada perseguio, que proclamava de forma gritante a falta de carcter 
do rei, mesmo quando o narrador apresentava desculpas

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para toda a perfdia deste? Nunca um homem fora perseguido com tanta impiedade como de Burgh. At ao momento em que este devia ser presente ao conselho do rei, em 
Lambeth, fora reunido um tal rol de acusaes contra ele e havia tanta gente sedenta do seu sangue que no era de admirar que de Burgh temesse pela vida.
Para cmulo, haviam violado o direito de asilo e quando, num arroubo de santa indignao, os bispos os foraram a devolver de Burgh  igreja, fizeram-lhe um cerco 
durante os quarenta dias do prazo necessrio para o poderem declarar como fora-da-lei, negaram-lhe as visitas do seu confessor e proibiram os criados que lhe levavam 
a comida de falar com ele, destruram solenemente o seu selo privado, tiraram-lhe o livro de oraes e, ao cabo dos quarenta dias, triunfantes e ufanos da sua legitimidade, 
retiraram-lhe a comida e os criados, no lhe deixando outra opo seno render-se ou morrer de fome. Seria este comportamento digno de um rei ou, antes, de uma criana 
vingativa, roda pela inveja? Depois deste tratamento, a Torre de Londres devia haver-lhe parecido um doce eremitrio.
Ainda assim, Henrique no o mandara matar. E porqu? Seria por Isambard, primeiro, e Ranulf de Chester, depois, haverem falado em nome de uma enorme e temvel corrente 
de opinio, que no podia ser ignorada? Pelo menos, quando Hubert se apresentara perante a comisso de nobres e o corregedor do reino, em Cornhill, a acusao fora 
menos rigorosa do que seria de prever, tendo em conta os acontecimentos anteriores. Decerto j farto e enjoado de toda aquela luta pela sobrevivncia, parecia que 
de Burgh se recusara com firmeza a submeter-se ao julgamento e a apresentar a sua defesa, tendo-se simplesmente colocado  merc do rei, para que este fizesse o 
que entendesse. Conservara as terras que lhe pertenciam por herana ou por aquisio, mas perdera todas as que detinha em nome da coroa, tal como o ttulo de conde; 
os quatro condes que compunham a comisso - Richard de Pembroke, Lacy de Lincoln, Richard da Coraualha e o conde de Surrey - mantinham-no sob a sua custdia protectora 
em Devizes. Detido, pensou Harry, observando o rosto de William Isambard enquanto este descrevia os pormenores atrozes daquela longa perseguio, ainda

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assim mais civilizada do que o rei desejaria, se houvesse conseguido levar a sua avante.
- Fico-te muito grato, meu filho - disse Isambard, estendendo as mangas de veludo sobre as tbuas da mesa - por te dares ao trabalho de me pr a par de todos esses 
pormenores. Saberei interpretar o aviso. Sou um homem acomodado, William, estou a envelhecer.
O fulgor do seu secreto divertimento fazia-o parecer dez anos mais novo; ou ento o vinho corria com maior abundncia do que era habitual, na mesa de honra. Nunca, 
como naquele momento, o lobo vagueara com tanta liberdade e alegria nos olhos levemente sorridentes de Isambard.
- E  minha firme inteno continuar a envelhecer em sossego e em liberdade - acrescentou com alguma nfase, presenteando o filho com um arremedo, muito pessoal, 
das manifestaes de afeio e deferncia que William lhe dedicara.
A primeira vista, no havia grandes parecenas entre os dois mas, no fim do demorado jantar, depois de os haver observado com ateno Harry j no estava muito certo 
de que o filho no sasse ao pai. A sua argcia era diferente, mas tambm ele era arguto. A sua maneira, e tal como o velho sempre fizera, William ia directo ao 
que queria, com ousadia, passando por cima de quem se atravessasse no seu caminho, com a mesma falta de compaixo. Todavia, as suas ambies - terras, estatuto, 
dinheiro, poder - eram compreensveis e, por conseguinte, previsveis com alguma certeza. William nem sequer se importava que fossem conhecidas, desde que no pudessem 
ser travadas. Sabia por certo que o pai se estava a rir dele mas no se preocupava com isso, nem isso o desviaria do seu propsito. Por outro lado, quem adivinharia 
os desejos do velho lobo, quem conseguiria prever os meios tortuosos que utilizaria para conseguir os seus fins? Terras, estatuto, dinheiro e poder haviam cado 
nas suas mos havia muito tempo. Estas questes no o atormentavam e no era por causa delas que atormentava os outros.
- Lamento de todo o corao - disse William, quando por fim se levantou da mesa - no poder proporcionar-vos outro conforto ou ficar convosco por mais tempo. Preciso 
de partir com o

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primeiro grupo, amanh, para preparar tudo para a chegada do rei. Da prxima vez que vier visitar-vos espero ser portador de boas novas.
Pareceu hesitar por momentos e baixou ligeiramente a voz quando prosseguiu, mas no tanto que impedisse os convivas sentados  mesa dos cavaleiros e alguns dos que 
estavam na mesa inferior de o ouvir.
- Se desejardes enviar uma mensagem, de bom-grado serei seu portador.
Ao ouvir isto, todos os sentidos de Harry se retesaram, numa resistncia silenciosa, como se, ao enrijecer o corpo, pudesse gritar um alerta. Isambard, porm, levantou-se, 
esticou-se sem pressas, ao lado do filho - que ultrapassava em altura por duas ou trs polegadas - deixou o convite como que rolar pela sua testa, semelhante a uma 
pedra gasta pela eroso, e sorriu.
- Ora essa, j que s to gentil, podes transmitir ao rei as minhas respeitosas saudaes e a minha lealdade.
Saram juntos e a ironia desta partida foi quase superior s foras de Harry: com toda a ternura, William ofereceu ao pai o brao forte e atltico e, por pura malcia, 
o velho aceitou-o e apoiou-se pesadamente nele durante todo o percurso at ao terreiro interior e para alm dele, enquanto atravessavam a passagem gelada que levava 
ao arco e ao ptio das cavalarias.
Nem que o matassem Harry saberia dizer por que motivo os seguira. Tanto lhe fazia que um deles destrusse o outro, ele queria era ver toda a famlia morta e enterrada, 
mas no conseguia deixar de os seguir, furioso consigo mesmo, mas sem deixar de os acompanhar, com os ouvidos alerta e o corao ansioso, at ver o grupo de Shrewsbury 
partir a cavalo. Viu William dobrar-se sobre a mo do velho e, em seguida, endireitar-se e inclinar-se sobre a face ema-ciada, depositando mais uma vez o beijo respeitoso 
de um filho afectuoso e fiel.
Uma punhalada de angstia proftica pregou Harry contra a parede, fazendo-o torcer-se de agonia nas sombras que o protegiam. Enterrou as unhas na pedra, subitamente 
esmagado pela vergonha, como se tivesse visto e instigado uma traio terrvel e obscura.

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Fumo de tochas, murmrios de vozes e algum que chegara, todo ele afeio e lealdade, com um beijo e um desgnio.
Partiram. A ponte rangeu antes da sua passagem e ressoou como um trovo aps esta: durante alguns minutos, ouviram-se os ecos gelados e speros das patas dos cavalos, 
vindos da esplanada da igreja, antes de a cavalgada ser engolida pelo silncio, ao descer a rampa at ao posto avanado da guarda.
Endireitando-se com a graciosidade fluida de um gato, aps aquela imitao do andar cuidadoso de um velho, Isambard afastou os seus acompanhantes e voltou para trs, 
sozinho, atravessando o arco escuro. Quase esmagou Harry contra a parede e, num gesto de boa-vontade, estendeu um brao, bem-humorado, para o impedir de cair.
- Ento Harry, no achas que j fizeste o suficiente para uma s noite?
No havia desagrado na sua voz, apenas um leve e longnquo eco de riso, embora no estivesse a rir. Segurou-o por momentos entre as mos, observando-o de perto, 
sob a luz gelada das estrelas que os tornava, aos olhos um do outro, estranhamente prateados, mais transparentes do que  luz do dia.
- No fiques assim to envergonhado, rapaz - disse, dando-lhe uma palmada no ombro. - Por que motivo baixas a cabea? No foste tu que o educaste, fui eu.
Deu mais dois passos e deteve-se subitamente, olhando para trs. Voltara a ser ele prprio, os olhos cheios de demnios, a boca dura.
- Os desgnios de Deus so sempre justos - comentou. -Cada um tem os filhos que merece.

CAPTULO TRS

Aber, Strata Marcella: Agosto de 1233

Acima do ltimo redil de pedra, acima dos flancos arruivados pela urze, onde a erva das colinas das terras altas amarelecia ao sol, milha aps milha ondulante, havia 
um velho calvrio em madeira sob um telheiro de tbuas e, ao lado deste, dois eremitrios:  esquerda, o do santo Clydog, feito de estacas, juncos e barro, parecido 
com uma colmeia, com uma entrada estreita virada a Leste;  direita, a cela de pedra da mulher santa de Aber, com uma cantaria trabalhada e uma janela em arco, virada 
a Sul. Em toda a volta, no se avistava mais nada seno a erva tenra e as ovelhas a pastar e, nas raras depresses, os arbustos baixos e emaranhados por cima dos 
trilhos dos coelhos. No silncio daquele dia de Agosto, chegava at ali, a flutuar no ar calmo, o som do mar e o rudo longo e lento das ondas a rebentar nos pntanos 
salgados de Aber, l muito em baixo, fora do alcance da vista. Por vezes, ao fim da tarde, podiam ouvir-se, dbeis e longnquos, todos os sinos a repicar nos pequenos 
oratrios de Ynis Lanog dos santos, do outro lado do canal prateado. O santo Clydog e a mulher santa estavam sob a proteco directa do prncipe Llewelyn e podiam 
pedir-lhe tudo o que quisessem para viver confortavelmente; mas nunca pediam nada. O que

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lhes mandava todos os meses, pelo seu mensageiro, era mandado de sua livre vontade, antes mesmo de eles haverem sentido qualquer falta. Muitas coisas eram partilhadas 
com os pssaros, com os pequenos animais selvagens das colinas, com os raros viajantes que passavam ali, pelos trilhos das terras altas. O santo j quase se esquecera 
de que tinha um corpo e s se lembrava de o alimentar para o impedir de gritar com fome, pois isso perturbava as suas oraes. A mulher, que em tempos fora alta, 
intrpida e forte como uma torre, tornara-se, nos ltimos trs anos, numa labareda, pura e dura como o ao, com o corpo consumido por dentro e por fora. Os olhos 
pareciam satisfeitos e calmos, sempre fixados num ponto um pouco mais alm do que os outros conseguiam ver. Tinham a cor profunda e clara dos lrios roxos, que a 
luz forte do meio-dia transformava num cinzento lustroso. As gentes da regio diziam que o santo Clydog via o futuro, mas ningum sabia o que a Madonna Benedetta 
via, excepto que no era nada deste mundo. O resto do rosto dela, porm, no era feito para o repouso, para uma vida retirada e uma morte santa: tinha uma ossatura 
ampla e ousada, uma boca arqueada como uma flor, brilhante e determinada. Nos contos antigos, as rainhas tinham rostos assim e olhar para Benedetta trazia  memria 
os desgostos e os amores dessas rainhas, o que conferia uma nova estranheza e um novo significado ao nome que lhe atribuam, pois o grande sofrimento e o grande 
amor so terrveis e sagrados.
Benedetta nunca falava do passado. No havia necessidade, na solido e no silncio das colinas, e os pastores que lhe levavam leite e ovos  porta no eram curiosos. 
J ali estava havia dezasseis anos e, para estes, podia l haver estado desde sempre, como a urze de Moei Wnion ou os afloramentos rochosos por cima do ribeiro: 
no se interrogavam a seu respeito. Que lhes importava que tivesse vindo de Itlia para Frana com um mercador parisiense que enriquecera com as Cruzadas, ou que 
tivesse vindo de Frana para Inglaterra na companhia, mais distinta, do senhor de Parfois, e de Inglaterra tivesse por fim chegado a Gales, fugindo desse amante 
temvel? Para qu fazer perguntas, depois de a semente, transportada pelo vento, ter criado razes e florido na quietude e na santidade, entre as ervas nativas da 
regio?

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Contudo, havia coisas a respeito dela que eram conhecidas. Na sua fuga, trouxera consigo uma dama, um criado e uma criana e obtivera para eles a poderosa proteco 
do prncipe Llewelyn. A dama casara com o mestre canteiro do prncipe, que era ingls e irmo adoptivo do seu primeiro marido, e, dizia-se, era tambm havia muito 
seu amigo e protector; o filho desta tivera dois pais, o arteso e o prncipe, e fora amado e estragado com mimos pelos prncipes seus irmos adoptivos. Apesar de 
tudo, era um bom rapaz. Tinha sido um sarilho dos diabos quando o rapaz fugira da sua vida privilegiada, em Aber, para se lanar na busca tresloucada do assassino 
de seu pai. A sombra da sua perda ainda pairava sobre a corte e o seu resgate tardava.
Embora no houvesse feito votos, a mulher santa de Aber mantinha-se no seu lugar, imvel como o cume da montanha, cumprindo o compromisso silencioso que firmara 
com Deus, sem um olhar de reprovao, sem soltar uma queixa, sem deixar espao para anseios. S nas raras vezes em que a me do rapaz ia visit-la, trazendo-lhe 
de volta o seu antigo mundo, na voz fresca e vibrante e nos olhos brilhantes de desgosto, s ento o sangue subia s faces de Benedetta, devido ao agitar de s Deus 
sabia que recordaes.
Naquele momento, estava sentada sobre a erva que cobria uma depresso da colina, acima das cabanas, com Gilleis ao seu lado, a observar os homens que cortavam juncos 
frescos na curva do ribeiro, mais abaixo. Adam Boteler, mestre canteiro do prncipe, era alto, agradvel  vista e louro; a esta distncia, no era possvel distinguir 
quais dos seus espessos caracis eram louros e quais eram brancos. Cada vez que os seus olhos pousavam nele, a expresso de Gilleis suavizava-se e sorria secretamente, 
com ternura. Os segundos maridos tm o seu lugar prprio nos coraes generosos, onde h espao de sobra para eles sem que nunca os direitos do primeiro sejam infringidos. 
Em todo o caso, os dois homens haviam sido inseparveis em vida e dormido lado a lado, muito antes de alguma vez terem posto os olhos em Gilleis Otley. Havia quem 
se perguntasse se Gilleis sabia sempre qual dos dois tinha nos braos ou at se fazia distino entre eles.
- O Adam sente tantas saudades dele como eu - disse Gilleis. - Alguma vez podereis imaginar que quase desejo que haja guerra?

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Nunca quis mal a nenhuma criatura, inglesa ou galesa, mas agora at tenho vergonha de sentir o sangue correr-me mais rpido nas veias quando se fala de desordens 
no Sul, e de o conde de Pembroke estar a reunir os descontentes em Gwent. De que outra maneira havemos de recuperar o Harry? O prncipe jurou ir busc-lo pela fora 
das armas mas, enquanto durar esta trgua, no pode faz-lo.
- Mas como pode a guerra civil em Inglaterra ajud-lo? - perguntou Benedetta, levantando os olhos do bordado que tinha no colo. - Ele no pode tomar o partido do 
conde ou do rei sem algum atacar os seus territrios.
- Ah, mas os senhorios de Pembroke penetram de tal forma no Pas de Gales que dificilmente o rei poder atac-lo sem violar territrio gals. Se uma dessas escaramuas 
se transformasse num acto de guerra, haveria motivo suficiente para intervirmos. E no duvido que, mal tenha as mos livres, o prncipe h-de cumprir a sua palavra! 
Ah, Benedetta, sinto-me to mal por desejar isto... H outras mulheres que tm filhos, que lhes so to queridos como o meu me  para mim. Como posso desejar que 
sofram para eu ter o meu filho de volta?
- Deus me livre de alguma vez querer pregar pacincia a um homem - disse Benedetta. - Pode ser que Deus haja outros meios para o trazer de volta.
- Outros meios? Ele no aceita um resgate, nunca o vai dar nem vender. "Como poderia eu fazer um preo para um Talvace?", diz ele. Phillip contou-nos que disse isto 
a sorrir. O meu filho est a ficar um homem - acrescentou Gilleis, chorosa - e h dois anos que no o vejo.
Havia perto de quatro anos que Benedetta no o via, mas no o disse. De que servia medir o amor em meses e em dias? Uma hora, uma noite podia conter tanto amor que, 
mesmo que o milagre nunca se repetisse at  hora da morte, a vida haveria ficado cheia at  borda.
- Ah, agora me lembro de que Harry no veio visitar-vos da ltima vez - desculpou-se Gilleis, estendendo uma mo-cheia de remorsos para tocar na manga de Benedetta. 
- Era sua inteno

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vir, mas resolveu cumprir a sua promessa to  risca que no se permitiu qualquer indulgncia. Aquele desgraado orgulhoso! Meu pobre cordeirinho! "Fosse ele outra 
pessoa" disse-me, "mas a esse homem pagarei aquilo que devo at ao ltimo quinho, at ao ltimo real."
- Bem sei - disse Benedetta, muito calma. - O prncipe transmitiu-me o recado. Bem sei!
- "No h preo, seja em dinheiro ou outro, que o prncipe possa pagar", disse Isambard a Rhys, quando este lhe foi levar a ltima mensagem do prncipe "e que eu 
esteja disposto a aceitar em troca de Harry Talvace. No pedirei nenhum e no terei em conta nenhuma oferta, sejam terras, falces ou homens." E pensar como se diverte 
a brincar com ele! Ai, Benedetta, quando o Harry me contou da vez que ele foi  sua cela e lhe tirou a comida, a bebida e a luz, uma por uma, que mandou p-lo na 
roda...
- Mas no chegou a us-la - argumentou subitamente Benedetta, com ar estranho, levantando os olhos cinzentos lmpidos para a extremidade da pastagem, onde os falces 
descreviam grandes crculos preguiosos.
- ... sempre a tent-lo e a p-lo  prova, para conseguir que ele dissesse onde estava enterrado o pai, at ter arranjado uma artimanha para o levar a revelar o 
stio. E depois arrancou o meu amor do tmulo... Nem quero pensar que o homem que foi capaz de fazer semelhante coisa ao pai tem agora o filho nas mos e no pode 
ser obrigado a devolv-lo.
- Conta-me o que o Harry te disse sobre o seu cativeiro - pediu Benedetta de repente, cruzando as mos sobre o seu trabalho. - Conta-me tudo. O prncipe transmitiu-me 
fielmente a mensagem, mas nunca me contou essas coisas. Estou ansiosa por todas as migalhas do Harry, d-me de comer.
Gilleis aproximou-se e relatou a estranha e comprida histria. O rapaz gravara a sua acesa desconfiana, o seu dio arrebatado, no esprito da me e encontrara a 
um terreno frtil. Esta descreveu todas as provas e tentaes a que Harry fora submetido, todas as maldades, todos os vexames, mesmo aquela surpreendente libertao 
para lutar ao lado do prncipe durante a guerra, dois anos

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antes. Decerto desejara que Harry faltasse  sua palavra e nunca mais voltasse, pois seria a melhor forma de humilhar o rapaz, de levar a melhor sobre a sua famlia 
e o seu sangue, de destruir por fim, de uma s vez, o pai e o filho.
- Onde acabar isto? - lamentou-se Gilleis. - Se no consegue lev-lo a desonrar-se, que outras coisas ser capaz de lhe fazer? Se Isambard no houvesse mandado 
aquela mensagem por Rhys eu at recearia pela vida de Harry, mas apesar da promessa de no lhe fazer qualquer mal como posso estar certa de que no o far? Sei que 
nunca faltou  sua palavra,  quase a sua nica virtude, mas h uma primeira vez para tudo...
- Mas  verdade que jurou? Jurou mant-lo so e salvo?
- "Venham quando quiserem", disse ele, "venham busc-lo se forem capazes. At l, mant-lo-ei so e salvo." Mas como podemos ter a certeza de que Isambard cumprir 
este juramento?
-  demasiado tarde para mudar - disse Benedetta, voltando a pegar no trabalho.
As suas mos eram firmes, mas os olhos estavam perdidos no horizonte, fixos numa luz que os deslumbrava e cegava.
Os homens regressavam do regato, John o Frecheiro transportando ao ombro os juncos cortados, Adam balanando as segadoras. Todos os anos, a modesta cela do santo 
Clydog era arranjada, mas ele no deixava que lhe construssem um abrigo de pedra. Tambm ele estava velho demais para mudanas. Benedetta virou a cabea e desceu 
o olhar ao longo da colina, at onde o santo estava sentado a acariciar o tero e imerso nos seus pensamentos insondveis, parecendo quase um tufo de erva amarelecida 
sobre o cocuruto emaranhado de Moei Wnion. Parecia estar ali desde o incio dos tempos e l continuaria quando ela j ali no se encontrasse. No fora o que ele 
dissera, naquela noite em que uma viso irrompera dentro dele e o forara a soltar um grito que a fizera correr ao seu encontro?
O mensageiro de Llewelyn estava a selar de novo os cavalos, l em baixo, ao p da encruzilhada. Adam aproximou-se e deixou-se cair na erva ao lado das duas mulheres, 
queimado pelo sol, gentil e corado devido ao esforo.

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-  melhor no demorarmos muito, rapariga. O Sol est a comear a baixar. J acabaram essa conversa de mulheres?
Adam sabia qual fora o tema da conversa: era o que os preocupava a todos. J estavam exauridos de tanta preocupao. Adam passou o brao pelos ombros da mulher a 
puxou-a para si; ela encostou-se a ele, satisfeita e agradecida, embora ele pudesse sentir a dor que lhe provocava a falta do rapaz, cujo lugar ele no podia preencher.
- Com que ento conversa de mulheres? - brincou Benedetta. - Estvamos a discutir assuntos de Estado. Ouvi dizer que o conde marechal se retirou do conselho do rei, 
arrastando consigo muitos outros nobres, igualmente descontentes com o novo regime.  verdade que j se combate no Sul?
- Ora, depois da queda de de Burgh, e do modo como ele caiu, nenhum homem em Inglaterra acredita que a lei o possa proteger de uma sorte igual - replicou Adam. - 
Se aconteceu ao Kent, tambm pode acontecer ao Pembroke. No se lhe pode levar a mal haver-se posto fora do alcance do rei. Desde que ele se tornou no arauto dos 
que no se atrevem a falar contra os do Poitou, o rei  bem capaz de estar a planear apanh-lo e cobri-lo de acusaes, to afincadamente como fez com o outro. Os 
acusados poderiam agarrar-se ao costume e s leis feudais para se protegerem da justia sumria, mas o costume e as leis andam a ser arredados dos tribunais. Se 
as Cartas j no significam nada, ento um homem tem de defender os seus direitos o melhor que puder.
- Mas como  possvel essa discrdia haver degenerado em violncia? Parece-me que, se como disse a Gilleis, o rei mandou reunir a hoste em Gloucester, a fase das 
queixas est ultrapassada. Caminhamos a passos largos para a guerra. Que tenciona o rei fazer com o seu exrcito, a partir de Gloucester?
- Diz-se que quer lev-lo para a Irlanda e atacar Marshall atravs das suas terras de Leinster. Alguns disseram que o sobrinho do de Burgh, que est por l, tambm 
haveria desertado, tomando o partido do tio, mas parece que Marshall e esse no morrem de amores um pelo outro:  provvel que Richard de Burgh se mantenha fiel 
ao rei. Afinal, talvez Henrique possa dar que fazer ao seu

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exrcito mais perto de casa. Este incndio nasceu de uma pequena falha, mas agora est bem aceso. E a questo no  de somenos importncia, se quisermos que reste 
alguma coisa da lei. Havia um castelo que pertencia a Gilbert Basset, de Wycombe, e que o rei queria dar a um dos seus servidores: pois o Basset foi desapossado 
sem passar por nenhum tribunal. "Por ordem do rei"  lei suficiente, nos tempos que correm. Richard Marshall defendeu o Basset e, num abrir e fechar de olhos, vieram 
avis-lo de que Henrique queria confiscar-lhe os bens e arruin-lo, da prxima vez que ele se apresentasse no grande conselho. Por isso, Richard nunca mais apareceu. 
At pode no ser verdade, mas o exemplo de de Burgh a est, para mostrar como as coisas so feitas e mesmo um conde s tem uma vida para perder. Assim, ele fechou-se 
em Pembroke e convocou todos os seus aliados. Agora, o rei est metido em grandes trabalhos para manter vigias por todo o lado e pediu refns aos bares das Marcas, 
como fez o pai. E como Basset j foi alcaide de Devizes e conhece bem demais o castelo, corre tambm o boato de que ele est a preparar-se para libertar Hubert de 
Burgh do cativeiro e lev-lo para junto dos aliados do conde marechal, em Gales. O rei j colocou os seus prprios guardas em Devizes e duvido que o desgraado consiga 
gozar de algum repouso, mesmo que no o ponham a ferros. Uns dizem que o bispo de Winchester est a tentar convencer o rei a pr Hubert  sua guarda, outros que 
est a insistir para que seja executado. Duvido que uma soluo seja melhor do que a outra: foram ter com o bispo, da primeira vez que a turba comeou a perseguir 
Hubert, a pedir ajuda, e ele repreendeu-os por lhe haverem interrompido as oraes e fechou-lhes a porta na cara.
- Mas que acontecer se o rei invadir as terras galesas do conde marechal? Que far o prncipe?
Adam abanou a cabea.
- Se conseguir, penso que de bom-grado resistir  tentao. Este governo nunca o ameaou e se a paz puder ser duradoira tanto melhor para ele. Mas se o rei a quebrar 
e o prncipe for obrigado a tomar partido, decerto apoiar o conde marechal.
- Ento a questo do Harry pode ficar resolvida por si prpria - comentou Benedetta - pois Isambard decerto alinhar com o

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rei. Sempre foi fiel ao rei, mesmo quando o corao e a razo estavam no campo oposto. Joo bem se esforou por decepcion-lo, mas Isambard manteve-se fiel at  
morte dele e, se o filho de Joo apelar  sua fidelidade, ele ir, com o seu exrcito. At j deve ir a caminho de Gloucester.
- Iria, se o rei o houvesse chamado - disse Adam, em voz lamentosa. - Mas da maneira como as coisas esto, aposto a minha cabea em como a convocatria do rei no 
seria obedecida.
Viu a expresso de surpresa no rosto plido e ardente e os olhos cinzentos abrirem-se de espanto.
- No sabeis que Isambard caiu em desgraa? O rei proibiu-o de se apresentar na sua presena e ordenou-lhe que se mantivesse em Parfois at ele considerar conveniente 
cham-lo. Faz um ano por esta altura. Nunca ningum se lembrou de vo-lo dizer?
No era de admirar, ao fim e ao cabo. S iam visit-la duas ou trs vezes por ano e havia muitos outros assuntos de conversa. Isambard j lhes causara desgostos 
suficientes no passado; o seu nome nunca teria voltado a ser mencionado se o jovem Harry no houvesse renovado aquela dor antiga, trazendo-o de novo  memria e 
para o primeiro plano das suas preocupaes.
Benedetta levantou-se da erva, organizando os pensamentos como exrcitos, por trs do olhar cinzento e profundo.
- Como foi que ele chegou a essa situao?
- Segundo ouvimos, foi logo a seguir  queda de de Burgh, quando o rei Henrique veio a Shrewsbury. Isambard foi at l, com grande aparato, e disse ao rei, em audincia 
pblica, que este fora desonesto e ingrato, que o conde de Kent era um leal servidor do rei e no merecia tal tratamento. Disse-lho na cara e no retirou uma palavra 
do que dissera, apesar da fria de Henrique.
- Isso soa-me a verdade - observou Benedetta, analisando as suas prprias recordaes. - Ele seria bem capaz de o fazer e, mais ainda, se ameaado. Ento caiu em 
desgraa e foi banido da corte?
- At o rei decidir cham-lo de volta. H quem pense que nunca o far. Quanto a mim - disse Adam, enquanto os trs desciam a colina lado a lado, at onde os cavalos 
os esperavam - estou certo de que dificilmente o rei convocar Isambard para lutar

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contra o conde Richard, se achar que ele est do lado de de Burgh. Por causa da inimizade que ambos dedicam aos do Poitou, embora Deus saiba que essa  quase a nica 
coisa que os une, os partidrios de Pembroke e de Burgh so vistos como um todo. No, Isambard vai continuar a dormir tranquilo em Parfois. O rei nem se atreve a 
intim-lo a cumprir as suas obrigaes, nem a avanar contra ele.
- E o Harry vai ficar por l a apodrecer sob estreita vigilncia - acrescentou Gilleis, com amargura.
Ouviu Benedetta reter a respirao, num assomo de dor, e virou-se para a abraar, cheia de remorsos.
- Ai,  maldade da minha parte estar a queixar-me, quando vs o amais e sentis a sua falta tanto quanto eu. Os melhores anos da vida dele foram-nos roubados! Quem 
vai ajud-lo a tornar-se um homenzinho? Quem ficar feliz com os seus progressos, quem lhe desculpar os erros, quem recompensar as suas boas aces?
- Deus - replicou Benedetta, olhando fixamente a palidez longnqua do cu - se no houver mais ningum. E Deus pode mandar-lhe algum, se quiser.
Benedetta no dormiu toda a noite: o morto veio at ao seu leito e deitou-se com ela. Abraou-o e ele foi ao mesmo tempo pai e filho, duplamente querido. Acariciou-lhe 
a cabea com a face, cobriu-o com o manto do seu cabelo ruivo, agora salpicado de prata pela poeira dos anos, e a tempestade que a agitava batalhou contra a calma 
que a rodeava durante as longas horas de escurido, com palavras que no eram voz, antes silncio. Meu querido, meu amor, meu pequenino, meu doce amigo. Ser chegada 
a hora? Afinal, o mundo ainda precisar de mim? Esta criana precisar de mim? Deus precisar de mim? Haver-lhe-ei sido fiel durante todo o tempo que aqui estive 
isolada ou haverei faltado  palavra dada? Minha alma, meu amor, que devo fazer? J uma vez ajoelhei diante de Isambard: beijei-lhe os ps, supliquei pela tua vida 
e recusou-ma. Eu no podia oferecer-lhe nada que valesse a tua vida, s me restava resgatar-te  fora e assim fiz. E se agora estiver mais rica? Se lhe puder oferecer 
por esta criana um resgate que nem mesmo ele possa recusar? Se implorar mais uma vez e for ouvida? Irs dar~me

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a tua aprovao ou voltar-me as costas? Meu amor, meu querido, sinto-me perdida. Ilumina-me! Tu s a minha nica luz.
Apenas uma vez na vida o tivera nos braos como agora - na noite antes de ele morrer. Fora bastante fcil convencer o velho capelo a recordar ao seu senhor que 
sempre havia sido hbito conceder aos condenados uma ltima vontade, antes da execuo; perante o salo cheio de gente, Isambard prometera conceder tudo menos a 
liberdade. Benedetta ainda se lembrava da mscara aterradora com que Isambard ouvira a resposta trmula: "Senhor, ele pede... que Deus lhe perdoe!... ele pede que 
Madonna Benedetta passe a noite com ele." Havia prometido e no podia voltar com a palavra atrs. A sorrir... a sorrir!... ela havia-se afastado dele, devagar, tendo 
o cuidado de o deixar perceber que se regozijava com a sua angstia e a sua impotncia. " pela vossa honra. Eu no sou nada, comparada com o valor sagrado da vossa 
palavra!"
Olhava-o nos olhos agora, por cima do sono do seu amado, mantendo-o  distncia, sem sorrir. Alguma vez vos menti, antes desse dia? Disse-vos desde o princpio, 
quando me convidastes a acompanhar-vos a Parfois, que dera o meu amor a outro, para sempre, ainda que esse outro no me amasse ou desejasse, nem nunca fosse querer-me. 
Ainda assim me quisestes vs, ou aquilo que de mim restava, mesmo nessas condies. Vim convosco e cumpri o nosso acordo. "At que ele ou a morte chamem por mim", 
disse-vos eu, "ou vs me mandeis embora." Harry e a morte chamaram-me a uma nica voz e ento pensastes que haveis entendido tudo. Tolo, bastava-vos haver ouvido 
as primeiras palavras que lhe disse quando ele me estendeu as mos: "Ela est em segurana, est bem, manda-vos todo o seu amor." Se nos houvesses visto, passmos 
a noite como bons amigos - a nica noite em que tive o meu amor nos braos! S lhe falei da Gilleis e da criana que iria nascer, prometi-lhe que no seria torturado, 
que a sua morte estava nas mos de Deus e no nas vossas.
Ento, como agora, Harry dormira enquanto ela contava as horas, amorosa, livre de pecado, at de manh, quando o acordara com um beijo para que se preparasse para 
morrer. Que sabia Gilleis, Adam ou qualquer outra pessoa ao cimo da terra, sobre aquela

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inexprimvel ligao? S Deus sabia dela, s Deus podia apartar o tempo e devolver-lhe aquela hora, para lhe dar firmeza de nimo enquanto buscava o seu caminho. 
Onde estaria agora aquele corpo gil e delgado, as mos intrpidas, o rosto moreno e obstinado? Arrancado do tmulo secreto, possivelmente atirado ao Severn pela 
segunda vez para completar a vingana, segundo a convico amarga de Adam, mas ainda no perdido - talvez Deus quisesse devolver-lhe esta nfima parte dele.
Mal a escurido comeou a diminuir, antes da alvorada, Benedetta levantou-se do leito, sem haver dormido, e subiu at ao cume da colina, onde o vento principiava 
a despertar, onde os gemidos do mar lhe chegavam aos ouvidos: as ondas da mar-alta pareciam grandes suspiros, provocados por um desgosto antigo que finalmente se 
houvesse aquietado ao cabo de muito sofrimento. Soltou os seus longos cabelos e, silenciosa, concentrada, excitada,  espera de um sinal, passou o resto da noite 
a andar de um lado para o outro, como um co de caa a seguir um rasto sobre a erva descolorida. Ao amanhecer desceu da colina, aparentando uma calma to perfeita 
como uma escultura acabada de talhar, de uma forma e de um primor impossveis de ser alterados, tal a admirao suscitada pela sua absoluta integridade.
John o Frecheiro, forte, curvado e escuro como um carvalho, estava a enrolar a manta que usara para dormir, atravessado na soleira da porta dela. Benedetta passara 
por cima dele, durante a noite, e ele nem se mexera - e por isso estava aborrecido, consigo mesmo e com Benedetta. De que servia um guarda se ela conseguia evadir 
a sua vigilncia com tanta facilidade?
- Ento j a estais? - resmungou, afastando-se da entrada para a deixar passar. - Que foi que vos deu para andardes por a levantada de noite? Se precisveis de 
alguma coisa, bastava pedir-me para eu vos fazer o recado. Afinal, para que sirvo eu?
- Para me confortares e me fazeres companhia, e muito mais do que isso. Precisava de ar e de sossego: que poder haver nesta colina que me faa mal?
- Ainda por cima no calastes os sapatos, para no apanhardes frio logo de madrugada - disse John, zangado.

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Foi buscar os sapatos de couro com atacadores e obrigou-a a cal-los, aquecendo-lhe os ps com as mos calejadas antes de lhes ocultar a brancura.
- Quereis ficar doente e s me haver a mim por enfermeiro?
- Podia ficar pior entregue, John.
Havia muito tempo, John cuidara dela, com grande ternura e constncia, arrancando-a quase contra vontade ao umbral da morte. Benedetta lembrava-se das mos rudes 
que lhe seguraram na cabea e lhe enxugaram as lgrimas provocadas por aquele segundo nascimento. Tambm recordava a caneca de leite ainda quente, acabado de mungir, 
e uma camponesa de cabelo louro escuro e olhos meigos; j morrera, segundo diziam, depois de haver gerado uma filha que era o seu vivo retrato. Benedetta sentiu 
aqueles tempos passados a rode-la, como se fossem amigos chegados, iguais a si mesmos, nunca esquecidos. Este novo dia que se abria diante dela reunia todos os 
dias da sua vida, tal como acontece no momento da morte, num corao em paz.
- Mas agora tenho uma misso para ti - disse, estendendo a mo e acariciando-lhe o cabelo grisalho e espesso, enquanto ele lhe atacava os sapatos. - Preciso de escrever 
e mandar uma carta. Depois de comeres qualquer coisa, podes ir lev-la?
- At hoje, no me lembro de haverdes conseguido dizer tudo o que quereis  Senhora Boteler quando ela c vem - comentou John, tolerante. - Imagino que vos esquecestes 
de pedir aquelas linhas, com tantas outras coisas em que pensar. Eu vou l levar a vossa carta, ide escrev-la.
- Desta vez no  para a Gilleis, John. A cavalgada que te peo ser mais longa. Deixa-me escrever primeiro e j conversamos.
Ele lanou-lhe um olhar demorado e penetrante, mas no fez mais perguntas. Nunca recusaria fazer nada que ela lhe pedisse, incluindo calar-se e afastar-se, se fosse 
esse o seu desejo. Deixou-a s com uma pena acabada de afiar, que ele tinha o cuidado de manter em bom estado, e uma folha nova de pergaminho tirada da arca. Ela 
ps-se a escrever com determinao, ponderando as palavras e, quando terminou, depois de selar cuidadosamente o rolo, j ele estava  espera com leite, po fresco 
e mel de urze. Num vale mais baixo, John tinha trs

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colmeias num local resguardado e cuidava amorosamente dos enxames durante o Inverno, para que nunca faltasse mel a Benedetta.
- Quereis que sele j o cavalo? Vejo que j acabastes de escrever.
- Vais precisar de levar comida - disse ela, abordando o assunto com suavidade - e dinheiro para pagar a dormida, pelo caminho. J te disse que  uma jornada demorada.
John ficou hirto, assaltado de dvidas e temores.
- Onde quereis que v?
- A Parfois, John, ter com lorde Isambard.
Estava dito. Benedetta viu as mos nodosas fecharem-se em punhos sobre os flancos e as recordaes antigas brilharem nos olhos inteligentes como labaredas. John 
no esquecera e no perdoara coisa alguma. Outros poderiam perdoar, ele nunca. Certa vez, a sua vida estivera ameaada sem razo e ela salvara-o, mas no era essa 
cena que John via, viva e ntida depois de tantos anos, quando o nome de Isambard era mencionado. Via o Severn, a torrente forte e acastanhada abaixo da Long Mountain, 
e um homem morto atado a uma mulher viva, ambos nus, e arrastados pela corrente em direco a Breidden, enovelados numa cascata de cabelos ruivos.
- Por acaso no querereis mandar-me fazer alguma coisa ao Inferno? - perguntou. - H l melhores companhias.
- Harry est em Parfois, John - disse ela, com suavidade. - Irs?
- Bem me parecia que era isso que haveis em mente. Sabeis bem que irei onde me mandardes, mas a esse lugar no o farei de boa vontade - replicou ele, sombriamente. 
-Acho que no ganhareis nada com esse pedido. Esperai, deixai que o prncipe o v buscar  ponta de espada. Prefiro no vos ver rebaixada, a suplicar, para serdes 
repelida.
- E se no for? Como posso recusar-me a tentar, John, se, apesar do que dizes, houver uma possibilidade de ele me devolver o rapaz?
- J outros lho pediram. J outros suplicaram, ofereceram resgates e sei l que mais, e em troca s receberam desprezo. Porque haveis de sujeitar-vos ao mesmo?

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- E porque no hei-de sujeitar-me ao mesmo? Quem sou eu para me julgar acima dos outros? Ah, John - exclamou Benedetta, num grito breve e sbito - d-me o teu apoio, 
s estou a cumprir a minha obrigao.
- Eu vou - respondeu ele, resignado.
Pelo menos ela no teria de assistir ao triunfo de Ralf Isambard. Se s pudesse trazer de volta uma recusa, pelo menos pouparia a Benedetta a parte mais cruel.
- Deus bem sabe que preferia cortar-lhe o pescoo do que falar com ele, mas farei o que me pedis. E que Deus vos poupe ao sofrimento por eu haver cedido. Dai-me 
c essa carta. Que devo fazer quando chegar a Parfois?
- Diz aos guardas do posto avanado que desejas ver lorde Isambard, para quem levas uma mensagem de Benedetta Foscari. E para provar que vais realmente da minha 
parte, leva-lhe isto - disse ela.
Benedetta tirou um anel do dedo mindinho da mo esquerda. Muitas vezes se havia perguntado porque conservava aquela opala solitria no seu aro de ouro. Era a nica 
coisa que ele no lhe tirara quando a despira e mandara lanar ao rio, uma coisa to pequena que nenhum dos dois se lembrara dela, caso contrrio Benedetta decerto 
o haveria atirado aos ps de Isambard. Este dera-lhe aquele anel em Paris, antes de atravessarem o mar a caminho de Parfois, ele com o corao preso a ela, ela com 
o corao cheio de Harry Talvace.
- Isambard reconhecer esse anel, sem sombra de dvida - disse ela.
John recebeu-o na palma da mo, morena e calejada, e pegou-lhe cuidadosamente, como se tivesse medo de se queimar ou de o partir, ao apert-lo.
- E se ele me mandar matar sem mais aquelas? - perguntou, com algum fundamento.
- Se te receber na qualidade de mensageiro, no te far mal. Para o bem e para o mal, foi sempre escrupuloso. Se te deixar entrar, a tua vida ser sagrada. Ele prprio 
mataria quem te tocasse ou te ofendesse.

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- E depois de entrar?
- D-lhe a minha carta e traz-me a resposta, por palavras ou por escrito. Deus te acompanhe, John, e favorea os meus intentos.
- Amen - resmungou John, sem muita f.
Depois de ele ter tudo preparado, Benedetta seguiu-o e observou-o, enquanto amarrava as sacolas e a capa  sela. Sob o calvrio de madeira, o santo Clydog nunca 
virou a cabea idosa, mas Benedetta sentiu que ele j sabia o que se passava e daria a sua opinio quando julgasse oportuno.
- John!... - segurou-o pelo arreio do estribo, quando ele ia partir. - Ests zangado comigo?
Olhou-a l de cima: por baixo da barba hirsuta ela viu-lhe o sorriso, trmulo de carinho por ela.
- No te zangues comigo - pediu Benedetta, como uma criana. - Se no fosses tu, que seria de mim?
- Deus vos ajude! - exclamou John, emocionado. Afastou-lhe o capuz com uma mo e acariciou, desajeitado, a cabeleira farta. - Minha menina! - disse, afastando-se 
dela e, metendo as esporas ao cavalo, lanou-se pela colina abaixo.
Quando o prior de Strata Marcella regressou da Primeira Hora, algum tempo depois das sete da manh, encontrou um dos auxiliares do irmo hospitaleiro  espera  
porta da sua cela, com ar ansioso, para pedir uma audincia da parte de um hspede importuno.
- Dormiu c esta noite, padre, e no nos pediu nada. Mas, esta manh, veio ter comigo e rogou-me que o recebsseis, por causa de um assunto muito srio. Diz que 
 um caso de vida ou de morte.
- Que espcie de homem te pareceu? - perguntou o prior, franzindo a testa.
- Um criado, padre, um criado de confiana. J c pernoitou outras vezes. Serve aquela dama que trouxe o corpo do mestre Talvace para ser enterrado aqui. Chamam-lhe 
John o Frecheiro.
- Diz-lhe que entre - disse o prior.
Porque os assuntos da Madonna Benedetta, ainda que ela se esforasse por se esconder dos olhos e da memria num refgio das colinas do Norte de Gales, estavam relacionados 
com o importante

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principado de Llewelyn e interligados com o generoso patrocnio que este atribua  ordem de Cister, nesta margem do Severn. O prior no podia dar-se ao luxo de 
no receber um enviado dela.
John o Frecheiro entrou na cela de pedra fria e ajoelhou-se, para beijar a mo do sacerdote. Os dedos finos deram-lhe a bno.
- Meu filho, sei que queres pedir-me alguma coisa. Ouvir-te-ei. John levantou-se, direito, forte e moreno como o tronco de uma
rvore. Segurava a carta de Benedetta, com as duas mos, mantendo o rolo de pergaminho bem seguro.
- Padre, preciso de vos contar esta histria  minha maneira, pois necessito da vossa ajuda e deveis conhecer todos os pormenores. H trs dias, a minha ama escreveu 
esta carta, deu-me o seu anel como salvo-conduto e pediu-me que a levasse a Ralf Isambard, de Parfois, a entregasse nas mos dele e lhe trouxesse a resposta. Como 
bem sabeis, padre, este homem mantm prisioneiro o jovem Harry Talvace, que  filho adoptivo do prncipe Llewelyn e muito querido da minha ama. Foi ela que o levou 
para fora de Inglaterra, so e salvo, mais a sua me, quando ele era apenas um recm-nascido. Sei disso porque fui eu que a acompanhei nessa jornada. Sirvo-a desde 
ento e continuarei a servi-la at morrer. Que havia eu de pensar, padre, quando ela me mandou levar uma carta a Isambard?
O prior meditou por momentos na pergunta, aparentemente simples, sem se aperceber da sombra que obscurecia o rosto gasto pelo tempo que tinha  sua frente.
- Penso que a Madonna Benedetta quer interceder pela libertao do rapaz, por julgar ser capaz de comover um corao que, em tempos, dava todo o valor aos desejos 
dela. Acho que ela cuida poder convenc-lo, apesar de outros que ofereceram resgates haverem falhado.
- E achais sensata esta esperana, padre?
- No parece provvel, mas no  insensata. No h nada a perder em tentar.
- Ento, at aqui estou desculpado - disse John, sorumbtico - pois tambm pensei assim. Por isso, peguei na carta e pus-me a caminho, sem maus pensamentos, mas 
sem esperar nada de bom.

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Estava certo de que o pedido seria recusado, e de maneira cruel, pois o demnio que lhe empresta a esperteza, sempre lhe emprestou mais do que a necessria. Mas 
ainda havia uma rstia de esperana de ele se comover. Durante todos estes anos, Isambard no recebeu notcias dela e duvido que saiba com certeza se ela est viva 
ou morta. Ter outra vez na sua mo o anel dela, assim de repente, sem aviso... pensei que at uma pedra havia de se comover. Todavia, padre, precisamos lembrar-nos 
daquilo que ele fez a Madonna Benedetta. Acha que lhe daria o que ela quer, depois de a haver atirado viva ali para o Severn, com o mestre Harry nos braos, para 
ela apodrecer agarrada a um cadver insepulto? Nunca! Se ele soubesse de qualquer coisa, que ela ainda quisesse, de qualquer coisa que ela estivesse disposta a implorar, 
seria uma alegria para ele servir-se dessa coisa para a ferir e humilhar. Porque haverei confiado nela? Porque haverei acreditado? Mas, at agora, ela nunca me mentiu: 
leva a carta, disse ela, e traz-me a resposta. Fui eu que peguei naquele escrito, sem lhe perguntar o que dizia.
- Era teu dever faz-lo - disse o prior, severamente. - Continua a ser o teu dever.
- O meu dever como seu criado. Mas tambm sou um homem: antes do mais, sou um homem. Cumpro o meu dever para com ela o melhor que posso, como seu criado. Mas como 
homem, amo-a mais do que a minha vida ou o meu dever. Ela cobriu-me com o seu manto e salvou-me a vida... a vida do homem, no do criado! Devo deix-la caminhar 
para a morte para ficar livre de culpas?
- Tu leste a carta! - exclamou o padre, levantando-se, indignado.
- Padre, se soubesse ler no precisava de vir ter convosco. No preciso que me digais o que devo fazer - disse, dando um passo em direco do sacerdote, segurando 
o pergaminho  sua frente. - Padre, sonhei com a Madonna Benedetta durante a noite. Eu estava na margem do Severn, que havia subido e corria escuro, forte e rpido, 
e as pranchas do ancoradouro rangiam e separavam-se devido  corrente. J tive este sonho muitas noites, mas nunca foi to claro. E, tal como naquele dia, l vinha 
ela arrastada pela corrente, plida e nua, com um homem nos braos e, como naquele

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dia entrei na gua e puxei-os para a margem. S que desta vez, o homem levantou-se quando o desatei e afastou-se de ns vivo e so: vi que era o jovem Talvace, o 
rapaz que ela quer libertar. Desta vez, ela estava nos meus braos, e eu soprei-lhe para dentro da boca, aqueci-a contra o peito, mas ela no se mexeu. Apertei-a 
contra o meu corao e estava morta, padre. Quando acordei percebi que Deus me mandara este sonho e que levava comigo a morte dela, selada com o seu prprio selo.
A voz rouca fora diminuindo cada vez mais, at se tornar num murmrio spero; as palavras saam lentamente, to carregadas de horror e de f que no sobrava espao 
para a paixo. Quando acabou, levantou a cabea descada e fitou o prior nos olhos, aproximando o pergaminho que segurava nas mos como se fosse uma oferenda.
- Padre, lede-me isto. Preciso de saber o que ela quer fazer para poder saber o que hei-de fazer.
O padre recuou um passo para evitar o contacto.
- No posso quebrar o selo da tua ama, homem. Como podes pedir-me tal coisa?
- No h necessidade, j descolei o selo. Posso comp-lo outra vez. S preciso de uma faca afiada e de uma vela.
- Abriste a carta? Como foste capaz de trair a tua ama? Que fizeste?
O prior sabia que estava a falar para o ar: mais valia pedir a uma rvore enraizada nas montanhas para se sentir culpada por crescer, urgente e laboriosamente, consoante 
era da sua natureza. E como podia ele pretender, face a um amor e a um pavor to intensos, orientar este assunto de acordo com as regras da sociedade? Este homem 
iletrado possua, naquele momento, o dom da eloquncia: talvez fosse ele a ver a verdade com maior clareza.
- Fiz aquilo que devia. Nunca vos pediria para o fazerdes. Hei-de prestar contas a Deus pelos meus actos no dia do juzo final. Se Ele decidir condenar a minha alma, 
a minha boca no se abrir, desde que a alma dela continue no seu corpo at Deus querer vir busc-la e lev-la para Si. Achais que viria ter convosco com alguma 
coisa de que me envergonhasse, padre? Que importncia tenho

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eu? Para que me serve a honra? A minha honra  manter a minha senhora longe de perigos e sofrimentos. No possuo nem quero outra. O prior comeou a estender o brao 
para pegar na carta mas hesitou e voltou a retir-lo.
- Padre, lede-me esta carta. Podia haver pedido a um dos vossos novios para o fazer, mas vim ter convosco porque preciso da bno de Deus para a minha deslealdade, 
que para mim  lealdade. No vos escondi nada nem quero o vosso perdo. Dizei-me apenas o que ela escreveu.
- Em nome de Deus - disse o prior, agarrando no pergaminho com firmeza e desenrolando-o.
O silncio tornou-se longo e pesado, carregado pelo fardo insuportvel dos olhos ansiosos, agonizantes, daquele homem. Por aquele silncio percebeu tudo, excepto 
as palavras que Benedetta usara; conhecendo-a como a conhecia, at podia adivinh-las. Entretanto, o prior comeou a ler, numa voz baixa e calma:
"Ao mui nobre e poderoso Ralf Isambard, senhor de Mormesnil, Erington, Fleace e Parfois, digo:
"Senhor, haveis na vossa posse a pessoa de Harry Talvace, filho de Harry Talvace, de quem certamente vos recordais, mais ainda por haverdes a sua cpia fiel constantemente 
diante dos olhos. Eu sou possuidora do corpo e da vida de Benedetta Foscari, que em tempos bem conheceste. O corpo no  j um bem to raro que se possa considerar 
valioso para vs. Quanto  vida, se lhe dais algum valor, como em tempos me deste motivos para crer, est ainda intacta e posso dispor dela como entender. Se quiserdes 
aceitar a troca do vosso prisioneiro por esse corpo, concluirei um trato convosco nestes termos. No estabeleo condies para a troca,  excepo desta: quaisquer 
dvidas e queixas contra Harry Talvace sero consideradas saldadas para sempre e ele ser libertado, havendo direito a um cavalo, roupa e todos os seus pertences. 
Se aceitardes, podereis dispor da minha pessoa e da minha vida como vos aprouver. Mandai-me a vossa resposta, sim ou no, e se for sim irei de imediato para Parfois.

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"Na esperana e na expectativa de vos ver em breve cara a cara, poupo-me aos cumprimentos e acrescento apenas um voto: de que Vossa Senhoria possa viver o tempo 
suficiente e com a bondade de esprito suficiente para me abrir de novo as suas portas, depois de tantos anos.
"Entregue em mo pelo meu querido e fiel John o Frecheiro, neste dcimo dia de Agosto de 1233.
Benedetta Foscari"
A toada manteve-se ininterrupta at ao fim, embora a voz baixa houvesse vacilado ao perceber o significado da frase "Quanto  vida..."; quando chegou ao ponto "querido 
e fiel...", John ergueu as mos toscas, impotente, num gesto despropositado de dor e de saudade, e mergulhou os dedos na barba. Terminada a leitura fez-se silncio 
por momentos e os rudos do exterior comearam a ouvir-se debilmente: os cnticos da primeira missa, os balidos esparsos das ovelhas nas pastagens ao p do rio, 
os trinados agudos dos pssaros.
- Eu no vos disse? - perguntou John, a custo, atravs do n de angstia na garganta. - Ela vai dar a sua vida a algum que a tratou como ele a tratou, vai voltar 
para ele para ser despida, humilhada e afogada outra vez, s para libertar o rapaz. Ai, minha ama, achais justo utilizar-me para isto? Achais justo?
- Deus h-de resolver tudo! - observou o prior num murmrio perturbado, com o pergaminho a tremer-lhe nas mos. - Tu no vais entregar esta carta, pois no? Esta 
troca no pode acontecer.
- Deus h-de resolver tudo, mas pela minha parte farei o que puder.
Estendeu a mo, firme como uma rocha agora que j conhecia a parte pior. Por instantes, o seu corao impelira-o a virar o cavalo e voltar para trs, furioso e horrorizado, 
para enfrentar Benedetta e censurar-lhe hav-lo usado daquela maneira; mas esse impulso passara. Havia outras formas de resolver o assunto, agora que sabia tudo.
~- Dai-ma outra vez, padre. Haveis feito o vosso papel e agradeo-vos. O resto  comigo.
~- Mas no vais entreg-la, pois no?

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O prior observou-o, enquanto John enrolava cuidadosamente o pergaminho, manuseando com uma delicadeza amarga o selo quebrado que ainda havia de compor.
John no lhe deu resposta: limitou-se a esconder a carta no peito, sob a cota e a retirar-se com passos suaves e oblquos em direco  porta. Os seus olhos brilhavam 
com dureza, para l da dor; John j no precisava de ningum.
- Rezai por ns, padre - pediu, j  porta. - Rezai por ns todos, para conseguirmos sair ilesos de tudo isto.

CAPTULO QUATRO

Parfois: Agosto de 1233

Revigorado pela cavalgada e de bom-humor, Isambard descia do cume de Long Mountain, com os cabelos grisalhos descobertos, ao sol e ao vento, acompanhado por uma 
escolta de meia dzia de jovens gentis-homens que cavalgava alegremente atrs dele. Ao fundo do carreiro ascendente que ia dar a Parfois, feliz e descontrado, sem 
pressa de regressar  cavalaria, o alazo comeou a andar a passo e Isambard deixou que as rdeas pendessem sobre o pescoo do animal, para que este avanasse ao 
seu prprio ritmo. Cavalo e cavaleiro entendiam-se s mil maravilhas. Harry sentia-se sem dvida irritado por ver o seu Barbarossa trotar to alegremente, transportando 
o seu inimigo, mas conseguia dominar o desgosto e, por vezes, agradecer a Isambard pela excelente sade do animal e pelos cuidados que este recebia. Desempenhava 
essa tarefa desagradvel sem um sorriso e de cabea erguida, mas com lisura e firmeza, como convinha ao homem em que se transformara, e fitando o seu captor nos 
olhos.
Os cavaleiros chegaram ao local onde o carreiro se tornava mais estreito e o arvoredo mais cerrado, ocultando o precipcio rochoso, do lado esquerdo, e a encosta 
coberta de erva, do lado direito.

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A primeira torre acabada do posto avanado da guarda surgiu diante deles e, tambm, os materiais de construo empilhados ao lado da rampa, ao longo de umas vinte 
jardas: pedra no talhada, tbuas, vigas, armaes de andaimes, cordas, tapumes e a brancura estonteante da cal. A segunda das antigas torres j fora demolida e 
o entulho ainda estava por recolher. O espao para os alicerces da nova torre, que iria substitui-la, encontrava-se demarcado com cordas brancas, do lado oposto 
da primeira, j construda. Fora preciso escavar at  rocha para abrir alicerces suficientemente slidos para suportar todo aquele peso, mesmo junto  orla da encosta 
escarpada. Os reflexos da luz do meio da manh danavam e reflectiam-se sobre o grs esbranquiado.
Isambard recordou-se de um outro espao desobstrudo, preparado para a construo. Ao lado da grande cicatriz aberta, os primeiros carregamentos de pedra da longnqua 
pedreira de Bryn, recm-chegados da viagem de barco pelo Severn: eram cinzentos, de um cinzento plido com reflexos dourados, e continham todo aquele esplendor de 
beleza, todas aquelas formas de adorao e maravilha seladas e seguras dentro de si. A sua memria no evocava nunca a pedra talhada, j pronta; o seu pensamento 
ia sempre para as grandes folhas abertas da igreja de mestre Harry, reunidas em copas triunfantes e rgidas, que sustentavam a abbada do cu e todo o mundo para 
alm dele.
- Senhor! - chamou Thomas Blount, que se encontrava sempre ao seu lado. - A sentinela fez-vos sinal. Deve ser por mor de algum mensageiro; aquele cavalo no  nenhum 
dos nossos. Parece um cavalo de montanha.
Isambard expulsou da mente as imagens interiores que, desde a chegada de Harry, to frequentemente o assaltavam e olhou para a torre, onde o guarda segurava as rdeas 
de um animal baixo e possante, de abundante plo castanho, comprido. O cavaleiro, que se preparava para desmontar, era tambm ele baixo e possante, dotado de uma 
barba hirsuta que comeava a embranquecer e de fartos cabelos encaracolados, que tinham uma certa semelhana com a pelagem do cavalo. Os olhos, vivos e brilhantes, 
semicerrados por causa do sol, espreitavam-no por baixo das sobrancelhas grossas.

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Uma imagem fugaz atravessou-lhe o esprito, mas no pelo tempo suficiente para o fazer lembrar-se do que teria aquele campons robusto a ver consigo; todavia, o 
corao remetia-o sem apelo para o passado.
- Est aqui um homem, senhor - anunciou o guarda, aproximando-se respeitosamente - que diz trazer uma carta para vossa senhoria, de algum que conhecestes bem no 
passado. No quer dizer o nome e pretende entregar-vos a carta pessoalmente. Afirma trazer consigo uma prova que vos dar satisfao. Ides falar com ele?
Isambard fez avanar lentamente o alazo e, pensativo, fitou durante algum tempo o homem que o aguardava, sem falar nem fazer qualquer vnia. Os olhos semicerrados 
e impenetrveis sustentaram o seu olhar.
- Acaso te conheo?
- No me cabe a mim dizer se sim ou no, senhor. Mas eu conheo-vos - respondeu John o Frecheiro.
A voz cumpriu o seu papel. Duas chamas rubras acenderam-se nos olhos de Isambard. No era ainda um reconhecimento, mas apenas a sensao de que o tempo voltara para 
trs e mandara o passado bater-lhe  porta. Libertou o p direito do estribo e, num acesso de zelo, Thomas saltou do cavalo para lhe segurar no outro estribo. Nos 
ltimos tempos, mostrava-se ainda mais devotado nos seus servios; estava sempre presente, sempre pronto, sempre por perto, to por perto que quase no havia palavra 
que escapasse aos seus ouvidos atentos.
Com um franzir de sobrolho e sem desviar os olhos do rosto curtido do mensageiro, Isambard indicou-lhe que se afastasse.
- No foste um dos meus homens, outrora?
- De corpo e alma, senhor. Pertencia-vos mais do que o cavalo que montais.
A resposta fez brotar um sorriso. Isambard acariciou o pescoo reluzente do alazo, mas os seus olhos continuaram a perscrutar o rosto carrancudo e o olhar opaco, 
em busca da imagem fugidia. Avanara um grande passo: o homem conhecia o cavalo de Harry Talvace e no receava proclamar esse conhecimento.

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- Disseste ter contigo uma prova que eu reconhecerei. Deixa-me v-la.
John meteu a mo por baixo da cota e tirou de l um anel. O pequeno anel de ouro, to pequeno que at Benedetta tivera de o usar no dedo mindinho, oscilou suavemente 
na mo rude e a opala captou a luz e absorveu-a, cintilando com um brilho melanclico, velado de azul.
Antes de reconhecer o anel, Isambard estendera a mo para lhe pegar e o sbito tremor que lhe percorreu os dedos e os imobilizou no ar provocaram uma reaco de 
espanto e de receio em todos quantos observavam a cena. Prontos a defender-se, os espectadores desviaram os olhos do anel para o rosto de Isambard, em busca de indcios 
de uma exploso de clera. O senhor de Parfois era sempre imprevisvel e, neste caso, no sabiam o que pensar. A sua imobilidade era tal que eles no faziam ideia 
do que dela poderia resultar. Sustiveram a respirao, remexendo-se, inquietos, na agonia da expectativa, mas Isambard no tinha mais conscincia da presena deles 
do que da brisa que lhe agitava os cabelos. O seu rosto apresentava a rigidez da morte, contudo sem a serenidade que esta traz consigo: ainda era capaz de exprimir 
dor e raiva, amor e dio, nas suas rugas profundas, e s Deus sabia o que se ocultava por detrs das plpebras descidas.
- Reconheceis os vossos prprios presentes, senhor? - perguntou John o Frecheiro.
Sim, reconhecia, reconhecia ambos: o anel e o homem. Dezoito anos so muito tempo. O tempo faz um homem mais baixo, torna-lhe o andar menos seguro, enruga-lhe o 
rosto, embranquece-lhe os cabelos, mas no lhe rouba ao olhar o brilho que traduz a plenitude do seu dio, nem ao corao a amargura que transpira nas suas palavras.
Isambard mergulhou num poo de recordaes. Aquele era o homem que Benedetta salvara das presas do co, em Paris, e tomara ao seu servio; o mesmo que escapara com 
ela para o Pas de Gales, quando tudo acabara, que a ajudara a salvar Gilleis e o beb e a entreg-los aos cuidados de Llewelyn. Fora ainda ele quem disparara a 
flecha que roubara a presa ao carrasco gasco. Era estranho o modo como as imagens voltavam  memria: as que menos importavam

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voltavam mais rapidamente e com maior nitidez, com todos os pormenores e todas as cores. Lembrava-se perfeitamente do gasco: um homem magro e elegante, que parecia 
um prelado bem-nascido e se vangloriava de ser capaz de esventrar um condenado e de o deixar com voz suficiente para se lamentar. As imagens dos prprios guardas 
que haviam vigiado mestre Harry durante o cativeiro encontravam-se perto da superfcie da memria, prontas para emergir se fossem invocadas. S a imagem de Benedetta 
permanecia remota e vaga. Isambard conhecia de cor todos os seus traos e, todavia, os olhos do esprito procuravam e sondavam em vo: ela recusava-se a materializar-se.
A mo, que se imobilizara a meio do gesto, pegou delicadamente no anel.
- Dou-me por satisfeito - disse Isambard, em voz baixa e amena.
- Ento, concedei-me uma audincia privada, para eu vos entregar a carta da minha senhora.
- Podes seguir-me at  igreja.
No at um dos terreiros. Ainda no. Aquela hora, Harry Talvace podia andar c fora, a fazer exerccio com os mais novos ou a trabalhar ao sol, diante da sala de 
desenho, com a sua pedra e as suas ferramentas. Fosse qual fosse o contedo da mensagem trazida por aquele intruso vindo do passado, seria uma loucura deixar que 
o rapaz o visse antes de tempo.
- Deixai-o acompanhar-nos - ordenou Isambard ao guarda, voltando-se para montar Barbarossa de novo.
O zeloso Thomas apressou-se a segurar-lhe o estribo, fitando-o com os seus olhos azuis e lmpidos que to bem sabiam fingir inocncia, ainda que um pouco brilhantes 
demais, naquele momento, devido  curiosidade que a misteriosa dama do anel nele havia despertado. Mas de nada lhe serviram os olhares atentos, de esguelha, por 
baixo das pestanas compridas: o rosto do seu senhor manteve-se calmo e impenetrvel. Ao agarrar o anel entre o polegar e o indicador, Isambard quebrara a tenso 
e afastara de si, com autoridade, os estilhaos do incidente. Contudo, Thomas viu-o guardar o anel no interior da cota e achou interessante a forma como o fez.

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Subiram a rampa a trote moderado e, ao chegarem  esplanada da igreja, Isambard mandou embora os companheiros.
O Sol j ia alto e, sob a muralha ameada de Parfois, as sombras eram esguias e os telhados, que pareciam pretos quando havia nuvens, apresentavam agora uma brilhante 
cor de cobre. Quando Isambard abriu a portinhola da porta ocidental e entrou,  frente, dentro da igreja, os raios directos do sol entravam, quase na vertical, pela 
janela e derramavam jias coloridas nas paredes; a grande embarcao invertida que era a nave central estava inundada de luz reflectida, que iluminava at a mais 
remota bossagem, ao fundo da viga mestra do telhado. O ar vibrava sob a luz, como o ltimo eco, quase inaudvel, de uma nota de msica. A luminosidade e o espao 
pareciam elevar os passos dos dois homens acima das lajes do cho, fazendo-os flutuar em direco  abbada.
- D-me a carta - ordenou Isambard.
Pegou no pergaminho e quebrou o selo sem hesitar e John voltou a respirar: o primeiro obstculo fora superado. Observou o rosto grave de Isambard, at que a luz 
multicor por trs da cabea imvel se alterou sob a intensidade do seu olhar e o perfil anguloso que se recortava contra ela se tornou negro, por contraste.
Depois de ler algumas linhas, Isambard deu meia volta e dirigiu-se para o fundo da nave, com o pergaminho na mo. Ali chegado, parou, de costas voltadas, e leu a 
mensagem at ao fim, deixando-se depois ficar imvel e silencioso durante bastante tempo. No se ouvia qualquer som: apenas o tremor da luz vibrante que parecia 
entoar um cntico mudo. A certa altura, John ouviu estalar o pesado fecho de ferro da portinhola, como se esta houvesse sido tocada por uma mo ou um corpo se encontrasse 
encostado a ela. O som fora to fraco que s lhe chegara aos ouvidos porque na igreja reinava um silncio absoluto; John no lhe prestou ateno e esqueceu-o em 
seguida.
Mesmo que Isambard no conhecesse to bem aquela caligrafia - larga, ousada e decidida como a de um homem - as frases contidas na mensagem haveriam bastado para 
despertar a imagem dela na sua memria. Atrs desta vieram muitas recordaes insuportveis. Ntido e ardente, o rosto de Benedetta surgiu diante dele: os olhos 
grandes e afastados, os traos altivos, a boca apaixonada e

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audaciosa, o longo manto de cabelo ruivo escuro. Dezoito anos! Como teria o tempo passado por ela?
Em longas passadas, firmes e tranquilas, Isambard regressou para junto de John. O seu rosto no exprimia triunfo, vergonha ou desgosto: nada. Apenas se notava uma 
ligeira contraco nos lbios e as janelas dos olhos encovados estavam bem fechadas.
- Diz  tua senhora que a proposta foi aceite. Diz-lhe: sim, vinde.
-  s essa a vossa resposta, senhor?
- Bastar-lhe-. E, em troca da prova que me enviou, entrega-lhe isto.
Era o anel de rubi que usava no dedo, to raramente retirado que Isambard teve dificuldade em faz-lo passar pela articulao. Uma marca branca ficou visvel sobre 
a pele tisnada.
- Ela reconhec-lo- - prosseguiu Isambard, olhando para a mo com um sorriso sombrio. - E no precisar de mais palavras.
- J que aceitais as suas condies, senhor...
Isambard ergueu a cabea com brusquido; os seus olhos voltaram a apresentar um brilho perigoso.
- Sabes o que ela escreveu, no  verdade?
- A minha senhora confia em mim - respondeu John, em tom abrupto, revirando a faca na ferida.
-  provvel. Tanto quanto me lembro, tem boas razes para tal. E ento?
- Visto que aceitais as suas condies, atrevo-me a pedir-vos um favor que ela mesma no pediu. Sabeis que podeis confiar na sua palavra, do mesmo modo que ela confia 
na vossa. Se tencionais entregar-lhe o rapaz, entregai-o agora. Deixai-o regressar comigo e dai-lhe a alegria de o ver so e salvo, antes de se colocar nas vossas 
mos, no lugar dele.
- No - replicou Isambard, de imediato. - No posso fazer isso.
- Sabeis bem que ela cumprir o que prometeu.
- Bem sei. Mas o rapaz  outra questo. Cuidas que iria aceitar um tal acordo, entre mim e ela, sem ter uma palavra a dizer? Verias que ele haveria muito para dizer, 
alto e bom som - disse Isambard, secamente. - Eu conheo-o. Bastaria ver-te aqui e

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ouvir-me dizer: "Ests livre. Parte com ele." Cuidas que o Harry no iria perceber quem comprara a sua liberdade? E pensas que se calaria, at saber em que condies?
John ficou de boca aberta, sem argumentos. O que Isambard dissera era verdade, ele prprio devia haver-se lembrado disso. No era possvel fazer Harry sair de Parfois, 
daquela maneira. Se isto falhasse, tudo haveria falhado e apenas lhe restaria deixar Benedetta entregar-se, ou mentir-lhe, abandonando Harry ao seu cativeiro. Se 
ao menos conseguisse entregar o rapaz a Llewelyn, poderia contar com o poder do prncipe para impedir Benedetta de cumprir a sua promessa. Claro que isso acarretaria 
inmeras discusses e denncias de m-f. Mas que importava? Seria ele - e s ele - a ser acusado de faltar  palavra dada e de os trair a todos. O resto poderia 
ser resolvido atravs de um resgate, de uma arbitragem ou da mediao da comisso da trgua... por qualquer meio que no fosse entregar de novo o filho adoptivo. 
John previra todas as dificuldades, excepto a mais elementar: a recusa de Harry.
-  s um rapaz - argumentou teimosamente, apesar do que lhe dizia o corao. - No  preciso dizer-lhe a verdade, mesmo que ele faa perguntas.
- s um tolo. Crs que consegues que ele atravesse a ponte, sem lhe dares uma resposta que o satisfaa? Ou que podes faz-lo dar um passo que seja, depois de lhe 
responderes? Ele no sairia do mesmo stio. No, o Harry fica aqui at a tua senhora vir libert-lo. Vai e transmite-lhe a minha resposta.
A audincia terminara; nenhum rei poderia ser mais explcito.
- Queres entrar em Parfois para te refrescares, e  tua montada, antes de voltares a partir? - perguntou Isambard. - No podia convidar-te a entrar antes de o Harry 
se encontrar longe do nosso caminho mas, agora, j deve estar fora da vista.
- Faz muitos anos que comi a minha ltima refeio  vossa mesa, senhor. No quero o vosso tecto sobre a minha cabea nem o vosso po na minha boca.
- Como queiras - disse Isambard, com um suspiro e um encolher de ombros. - Nesse caso, no te oferecerei nenhuma recompensa pelo teu trabalho, pois receio que ma 
atires  cara. Quanto aos

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meus agradecimentos, temo que nada signifiquem para ti e no valha a pena apresent-los. Ainda assim, agradeo-te.
Estava feito. No servia de nada continuar ali a perder tempo. John afastou-se para a penumbra do prtico, deixando o senhor de Parfois na nave central da sua igreja 
- alto, imvel e sombrio - sob a luz cintilante que cantava  sua volta, um carrilho de cores trementes como as da gua batida pelo sol ou a vibrao de asas em 
pleno voo. A figura rodeada pela luz mais parecia uma figura de pedra. Como de pedra era o busto que a representava e que encimava a aduela da porta por onde saiu, 
para emergir no prado batido pelo sol do meio-dia. Das duas imagens, aquela que o mestre Harry esculpira era a mais eloquente. Mesmo ao cabo de dezoito anos de eroso, 
no era possvel dizer se a dureza da pedra poderia rivalizar com a dureza do homem de carne e osso.
A cinquenta jardas de distncia, no prado, com um brao sobre a sela do cavalo que pastava, Thomas Blount seguia os movimentos do animal; o seu rosto ameninado estava 
to sereno e inexpressivo como o cu de Vero.
Aelis voou ao encontro de John assim que este passou pela pequena porta do cercado. Estivera a ordenhar a vaca, tinha a saia arregaada at aos joelhos e os cabelos 
apanhados atrs para no a incomodarem.
- Havei-lo visto? Ele est bem?
A jovem agarrara as rdeas do cavalo e conduzia-o para o estbulo; era mais prudente no o deixar l fora, na clareira, no fosse algum ver o animal e reconhec-lo. 
Os viajantes eram poucos por aqueles caminhos, mas Parfois ficava demasiado perto e podia ser um perigo.
Carrancudo, John abanou a cabea.
- Nem de longe. Deixa-me entrar, rapariga. Preciso de falar com o teu pai. No, voltei de mos vazias. Ele no pode sair dos terreiros e no me autorizaram a entrar 
l. Pelo menos at o haverem escondido em qualquer lado.
- Mas falastes acerca dele, no falastes? - insistiu Aelis, segurando-o pelo brao. -  verdade que ele est vivo, no ? Pelo menos isso  certo?

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Seria mesmo certo? Podia algum ter a certeza de uma coisa que no vira, ouvira ou tocara com os seus prprios sentidos? Mas preferiu tranquiliz-la:
- Est vivo. E, tanto quanto sei, est bem.
- Mas no pudestes libert-lo - disse ela, num tom renitente e um pouco agressivo, apesar de no haver ficado verdadeiramente desapontada, visto que poucas esperanas 
alimentara.
- No, minha filha. Vai ser preciso esperar mais um pouco. Que mais poderia dizer-lhe? Nem ele mesmo sabia o que havia
de fazer a seguir. A nica certeza que tinha era que no ia voltar para Aber nem levar o anel e a mensagem a Benedetta, deixando que ela cumprisse o prometido. Acontecesse 
o que acontecesse, ela no voltaria a cair nas mos de Isambard. Podia regressar e mentir-lhe, dizendo que a oferta fora rejeitada, mas isso seria impedir o resgate 
de Harry. Ademais, receava confront-la com uma mentira. Ela conhecia-o havia tanto tempo que lia nele como num livro aberto; havia de ver a falsidade a enrolar-se-lhe 
na garganta, como um corpo estranho, que o denunciaria mal fosse pronunciada. Ao ver a sua expresso de co abandonado, podia mesmo adivinhar que ele a trara, que 
violara a sua carta e fizera tudo para contrariar a sua vontade. Sem a confiana da sua senhora, a vida no era vida. No podia voltar para junto dela de mos vazias. 
Se houvesse outro meio, era preciso encontr-lo. Se rezasse, iria Deus ouvir as preces de um homem cado nas malhas da traio e da deslealdade? Talvez ouvisse as 
preces da rapariga - talvez at falasse pela boca dela. Aelis, pelo menos, estava isenta de pecados.
- Mas o que aconteceu? - insistia ela. Os olhos azuis brilhavam no rosto decidido. - O que foi que vos disseram?
- Vamos ter com o teu pai, rapariga, e j te conto tudo. Recolheram o cavalo e foram para casa, onde j se encontrava
Robert. John contou-lhes a histria toda.
- No podes voltar para junto da tua senhora apenas com a palavra dele - disse Robert.
- Antes morrer. S ns os trs sabemos que ela quis comprar a liberdade do rapaz. Eu haveria dado meia volta e recusado entregar aquela carta, se no houvesse pensado 
que podia convencer

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Isambard a deixar partir o Harry, fazendo confiana na palavra dela. Quando soubesse disto, a minha senhora havia de querer pagar o preo prometido, mas eu contava 
com Llewelyn para a impedir de o fazer. Fui um grande tolo, ao pensar que tudo se poderia resolver assim. Isambard est certo: o Harry nunca deixaria que nenhum 
de ns carregasse o seu fardo. Mesmo que conseguisse engan-lo e convenc-lo a voltar para Aber comigo, ele regressaria a Parfois mal soubesse a verdade. E duvido 
que o prncipe tentasse dissuadi-lo. O mais certo era beij-lo e deix-lo partir com a sua bno. Portanto, voltamos ao ponto de partida. A nica diferena - acrescentou, 
com amargura -  que eu faltei ao meu dever para com a minha senhora. E para nada! Para nada!
- Que vais fazer? - perguntou Robert, em voz baixa.
- Sei l! Se ao menos Deus me indicasse um caminho! Tem de haver algum. E temos de o encontrar.
Aelis estava acocorada no cho, com o queixo entre as mos e os olhos fixos no vazio. Em que pensaria? Talvez houvesse vendido dez vezes Madonna Benedetta, para 
libertar Harry do cativeiro. Talvez sentisse o desdm da maior parte das mulheres pelos absurdos da honra, que levavam os homens a dar a vida em nome de escrpulos 
e foravam um rapaz obstinado a regressar voluntariamente  priso, em vez de gozar a liberdade e aceitar o descrdito por faltar  palavra dada. Mas ela amava esse 
rapaz, com os seus valores e as suas virtudes, talvez mesmo com os seus defeitos. No, nunca seria capaz de o culpar. Aceitava o facto de ele haver cumprido o seu 
dever. O seu esprito vagueava por outros caminhos.
- Se o velho lorde morresse, acabavam-se as nossas preocupaes - disse de sbito.
Aelis no teve conscincia do que dissera. Para ela, o silncio - que fazia lembrar a John o silncio que se seguia ao trovo - no tinha qualquer significado terrvel. 
Em tom melanclico, prosseguiu:
- Se ele morresse, ningum mais pensaria em manter o Harry cativo. O vosso prncipe podia pagar o resgate, sem ser preciso regatear muito.  o velho quem o retm 
para o atormentar. Se fosse o filho a decidir, haveis de ver que o deixava partir sem grandes

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problemas. O filho no conheceu o mestre Harry e no sabe nada do Harry. Que significa um Talvace para ele? Vendia-o de boa vontade, para evitar complicaes.
Aelis ergueu a cabea e fitou John, com olhos inocentes de qualquer intento malvolo, sem ver a distoro do entendimento reflectido nos olhos dele.
- Haveis dito que o rei no quer mais inimigos, pois j h os suficientes. E os novos favoritos do rei tambm no esto interessados em arranjar mais, quando tantos 
senhores pegaram em armas contra eles. O filho de lorde Isambard  um dos homens do rei. E h muito a perder, se os seus inimigos arranjarem aliados em Gales. Ele 
entregaria Harry ao prncipe Llewelyn, para lhe dar satisfao e manter a paz na fronteira.
 da boca das donzelas e das crianas que saem as verdades. John virou a cabea para o lado, para ocultar o quase insuportvel brilho de esperana que lhe queimava 
os olhos e inflamava a mente. Aelis estava certa; apontara o dedo para o nico caminho a seguir e at onde este levava. Agora, William Isambard era um oficial do 
reino, unha com carne com des Rilvaux e um dos seus conselheiros mais prximos. Se os do Poitou cassem em desgraa, ele tambm cairia e havia muito a perder: favores, 
poder e posio. Se herdasse Parfois, seria do seu interesse impedir que o prncipe de Aberffraw se juntasse aos aliados do conde marechal, reforando assim as fileiras 
dos inimigos de des Rilvaux. Bastaria um pedido de Llewelyn e o seu filho adoptivo seria libertado so e salvo. Que importava se em troca de dinheiro ou como oferenda? 
William ficaria muito contente, ao descobrir que era detentor de um trunfo to valioso e, se pedisse um resgate, seria um resgate simblico. Faria tudo para conquistar 
a gratido de Llewelyn e para o impedir de desencadear qualquer aco hostil.
Tanto quanto se sabia, pai e filho tambm no morriam de amores um pelo outro. William esperava havia demasiado tempo pela sua herana. Ficaria bastante contente, 
se o velho fosse afastado deste mundo.
- Tudo isso est muito certo, mas ningum morre s por ns querermos - observou Robert. - Sem contar com Deus, h muita

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gente  espera da sua morte. Mas receio que seja preciso esperar que chegue a hora dele.
Seria preciso? Seria mesmo preciso esperar? Aquelas mos haviam disparado a flecha que matara mestre Harry, antes que o carrasco lhe pudesse tocar. Nas aldeias, 
dizia-se que fora Deus que o levara e que a flecha partira de bem mais alto do que o cimo da torre da igreja. No poderia Deus voltar a servir-se das mesmas mos 
e da mesma destreza? Ia precisar de alguns dias para se preparar, para escolher o local e o momento. Robert e Aelis no podiam saber de nada. Que necessidade havia 
de os implicar naquilo? Se tudo corresse bem, o segredo ficava mais seguro na posse de uma pessoa do que de trs; se as coisas corressem mal, era melhor que fosse 
apenas um a sofrer as consequncias.
E pensar que, naquele mesmo dia, estivera sozinho com ele, na igreja, e no aproveitara a ocasio que se lhe apresentava: Isambard de costas voltadas, os escudeiros 
dispensados, o caminho livre para poder fugir! Todavia, a adaga que usava  cinta no atrara a sua mo; esta mantivera-se inerte e John deixara escapar a oportunidade. 
Nunca mais voltaria a ser to fcil levar a cabo a tarefa e escapar com vida. Mas que importava? Renunciaria de bom-grado  vida, se a sua morte servisse a Benedetta.
- Eu sei - disse Aelis com um suspiro. -  um pecado mortal pensar em tais coisas. Mas, de repente, dei-me conta de como tudo podia ser simples, se ele morresse.
John ficou  espera de qualquer novo sinal que lhe iluminasse o caminho, mas Deus deixara de falar pela boca de Aelis. O fardo assentava agora apenas sobre os seus 
ombros e John aceitou-o, pois sabia que tinha a fora suficiente para o suportar. Era pecado mortal pensar em tais coisas, dissera ela: mais ainda p-las em prtica. 
Sentindo-se j liberto do peso da prpria vida, libertou-se igualmente do peso da alma, no por desafio, mas com resignao e humildade. A paz de esprito de Benedetta 
valia bem a condenao eterna de um homem.
- Passas esta noite aqui? - perguntou Robert delicadamente, ao v-lo perdido nas suas reflexes solitrias.
- Passo sim, Robert, muito obrigado. Mas amanh tenho de partir.

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No disse para onde, no disse que seria para bem perto e Robert nada perguntou. Eram ambos da mesma opinio. Mais valia no saber.
Os preparativos de John demoraram trs dias. Pediu emprestado um arco na armaria de Castell Coch, usando o nome de Owen ap vor para o obter, embora o criado da 
mulher santa de Aber gozasse de crdito suficiente em todo o territrio sob o domnio do prncipe. Tambm se serviu dos alvos que ali havia, para desenferrujar os 
msculos dos braos envelhecidos e exercitar os olhos, pois pouco praticara nos ltimos anos. Para justificar o emprstimo e o empenho posto nos treinos contou uma 
histria de uma disputa e de uma aposta com um ingls fanfarro de Shrewsbury, o que bastou para lhe darem tudo quanto pediu e ainda muitos e variados conselhos, 
para o ajudar a bater o ingls. John vivia havia tanto tempo daquele lado da fronteira que todos haviam esquecido onde ele nascera; o prprio John quase o esquecera 
tambm.
A destreza das mos e a fora dos ombros voltaram com facilidade. Os olhos nunca haviam perdido a acuidade nem a capacidade de calcular distncias. Quando se sentiu 
satisfeito com a sua arma, voltou a atravessar o Severa pelo vau de Pool, escondeu o arco e as flechas num macio de arbustos junto  escarpa da rampa de Parfois 
e ps a montada a pastar, presa por uma corda, numa clareira perto do rio. Manteve-se afastado dos carreiros por onde Robert passava habitualmente e evitou os locais 
onde ele costumava montar as armadilhas. Uma vez ou duas, durante aqueles dois dias, avistou Robert esgueirando-se furtivamente entre as rvores e, de outra vez, 
viu Aelis, de madrugada, a retirar as linhas de pesca do rio. Naquele momento, j no sentia a falta deles; a sensao de solido estava to profundamente enraizada 
em si que o isolamento lhe parecia ser a sua condio natural e eterna; era como se no desejasse que o silncio voltasse a ser quebrado. Tambm no voltou a treinar 
em Castell Coch e o terreno desbravado acima do moinho no o atraa. Para alm do acto que tencionava praticar, tudo deixara de existir. Se sobrevivesse, seria o 
mesmo que regressar como estrangeiro a uma terra estranha, onde teria de reaprender tudo, incluindo a falar.

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Na primeira noite passada no bosque no sop da montanha, dormiu por baixo dos arbustos, enrolado na capa. Depois disso, no voltou a dormir. Passou os dias a observar 
os arredores de Parfois e em busca do local com melhor visibilidade, de onde pudesse cobrir o posto avanado da guarda. S escalando poderia subir at um ponto mais 
alto, mas no possua a agilidade dos nativos do Pas de Gales nem cabea para as alturas. Ademais, queria manter-se num stio que lhe desse pelo menos uma possibilidade 
razovel de bater rapidamente em retirada, depois de a tarefa estar cumprida. No sentia o menor desejo de perder a vida; se fosse necessrio oferec-la, ao menos 
que o fosse como uma coisa valiosa e apreciada como tal. Deus no poderia queixar-se de que a Sua criatura desperdiara a ddiva que lhe fizera.
Isambard montava a cavalo duas vezes por dia, pelo menos enquanto o clima estival convidasse a faz-lo. Umas vezes cavalgava com escolta, rodeado pelas cores vivas 
dos seus gentis-homens e dos seus falcoeiros, e caava na charneca junto  antiga fortaleza de terra batida. Outras vezes montava quase sozinho, com Langholme atrs, 
a alguma distncia; ocasionalmente vinham tambm dois jovens favoritos, autorizados a acompanh-lo para fazer exerccio, desde que no perturbassem o seu humor solitrio. 
Uma das vezes em que Isambard saiu assim - erecto, soturno e sozinho - John encontrava-se em boa posio, mas retraiu-se porque a distncia era demasiada para permitir 
um tiro certeiro. No terceiro dia, estaria no local escolhido e poderia disparar sem pressas, sem receio de falhar ou de provocar apenas um ferimento ligeiro.
O arvoredo era denso, na berma da rampa abaixo do posto avanado da guarda, do lado do vale, onde os alicerces da nova torre haviam sido profundamente escavados, 
atravs da turfa e da terra, at  rocha. As pilhas de pedra para a construo e o entulho que continuava  espera de ser levado dali formavam uma muralha irregular 
entre o caminho e a encosta. Nesse local, um homem podia saltar de uma das rvores e, correndo e saltando de arbusto em arbusto, descer a encosta ngreme at ao 
rio, enquanto os seus perseguidores precisariam de escalar a barreira de pedra para irem atrs dele e de abrir caminho por entre cordas, tbuas e tapumes.

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A rvore mais alta proporcionava uma visibilidade desafogada do espao delimitado pelas duas torres e do caminho para alm delas, pelo qual os cavaleiros de Parfois 
eram forados a passar. Estava-se no pino do Vero e a proteco da folhagem era suficiente para ocultar um exrcito. John escolheu um olmeiro que estendia os ramos 
sobre o caminho e sobre as pilhas de pedra cinzento-plido. A forquilha do tronco oferecia espao bastante para ali passar a noite com algum conforto e, aos primeiros 
raios da alvorada, passou para um dos ramos e postou-se numa posio firme, voltado para a rampa descendente.
O fim da tarde haver-lhe-ia dado melhores perspectivas de despistar os perseguidores nos bosques e junto ao rio; mas a cavalgada da manh garantia-lhe a melhor luz 
para a sua tarefa. Na vspera, a comitiva havia parado durante algum tempo, a observar os pedreiros, enquanto Isambard conferenciava com o mestre-de-obras. Poderia 
haver sido ento, se John estivesse bem posicionado mas, nessa altura, encontrava-se no cho, no meio de arbustos que obstruam a visibilidade e cujo restolhar o 
haveria denunciado, antes de poder disparar. Desta vez, um momento como aquele no seria desperdiado. Assim Deus lho oferecesse - John estava pronto para o aceitar.
A luz aumentava e refulgia. Primeiro, chegaram os aprendizes, depois os pedreiros; bocejando ao sol, a sentinela ficou a v-los aparelhar e medir as pedras. Sentados 
na berma do caminho, dois ou trs jornaleiros jovens talhavam pedra, salpicando as plidas ervas de Agosto de lascas brilhantes de granito, finas como geada. Uma 
carroa subiu a encosta, a ranger, para descarregar uma carrada de pedras de cal viva, que formaram um monte branco acinzentado ao lado do caminho. Mestre Edmund 
saiu do castelo com o seu escrevente, quando o Sol j ia alto, e parou para assistir  colocao das primeiras pedras sobre a rocha desnudada. A actividade diria 
de Parfois desenrolava-se a bom ritmo e o homem escondido no olmeiro aguardava sem impacincia. Com um dia to bonito, Isambard no deixaria de sair a cavalo.

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Passava das oito horas quando apareceu, uma hora tardia para ele, mas, por fim, a cavalgada matinal comeou a descer o caminho da plataforma da igreja e as cores 
vivas espalharam-se por entre as rvores, parecendo suspensas dos ramos como se fossem flores. O martelar suave das ferraduras fazia tremer o solo. Naquele dia, 
Isambard vinha muito bem escoltado por meia dzia de cavaleiros, alm dos escudeiros, pajens e homens de armas, segundos filhos de famlias de cavaleiros, jovens 
e ambiciosos, que se treinavam para uma vida dura, na qual apenas sobreviveriam os melhor preparados, pois os fracos seriam empurrados para o lado e espezinhados. 
Encaravam a dura aprendizagem com bastante despreocupao e alegria, aperfeioavam os seus talentos de cortesos e a sua destreza com as armas, esperando que lhes 
fosse atribudo um pequeno feudo, em troca dos seus servios.
Segundo parecia, ainda no haviam comeado a desertar o seu senhor. A posio deste era considerada inatacvel e os problemas actuais do rei haviam levado os indecisos 
a actuar com moderao e a ter em conta a possibilidade de Isambard recuperar o seu ascendente. Se de Burgh podia cair em desgraa de forma to rpida e estrondosa, 
o mesmo podia acontecer a Winchester, quando o vento mudasse. No havia maneira de prever como terminaria o presente confronto. Amanh, Isambard podia estar de novo 
no topo; os do Poitou podiam levar a melhor e Winchester seria final e definitivamente empurrado para o lado dos vencidos. Contudo, de momento os oportunistas vidos 
de cargos e de terras refreavam-se. Se alguma vez Isambard casse sem remisso, os sinais surgiriam algum tempo antes. Os cavaleiros sem terras seriam os primeiros 
a partir, seguidos dos segundos filhos que queriam fazer carreira. Langholme podia muito bem ser o ltimo. Por que haveria um homem de ser leal para com outro, insensvel 
 amizade?
O homem escondido no olmeiro firmou cautelosamente o joelho contra o ramo no qual estava apoiado e passou a mo por cima do ombro para pegar numa flecha, sem desviar 
os olhos da cabea altiva, que passeava com uma arrogncia natural, sobre os ombros direitos, vestidos de negro, do senhor de Parfois. A luz do sol envolvia-o, tingindo 
de bronze e ouro as arestas salientes do seu

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rosto. No parecia ter mais de cinquenta anos. O alazo que montava era o Barbarossa de Harry Talvace. Pela ltima vez, pensou John, movendo-se com cautela para 
no agitar a folhagem da rvore.
Suavemente, ajustou a flecha  corda do arco e, suavemente, esticou um pouco a corda e ficou  espera. A ponta da flecha penetrou docemente entre as folhas, avidamente 
apontada ao peito de Isambard, ao ponto onde a cota preta, aberta, deixava ver a camisa branca sobre o corao.
No havia pressa. A cavalgada descia a passo danante. Ainda dispunha de tempo para contar as cabeas dos acompanhantes mais jovens e geis, com quem seria preciso 
contar aquando da fuga, e para dar graas a Deus por haverem sado sem os ces. Com um movimento circular, certificou-se de que havia espao suficiente para os movimentos 
do seu brao de tiro.
Aproximavam-se. Langholme vinha mesmo atrs do seu senhor, os jovens espalhados  esquerda e  direita, mas nenhum deles cavalgava ao seu lado. Isambard ia sempre 
sozinho,  cabea das comitivas. As vozes alegres e as cores vivas das vestes dos membros da sua corte seguiram-no at  torre avanada da guarda. Ali chegados, 
Isambard parou para falar com mestre Edmund e depois percorreu a passo as novas fundaes. Ento, desmontou e entregou as rdeas de Barbarossa a Langholme. Ainda 
bem: assim, seria um alvo mais fcil, desde que os pedreiros no se aproximassem demasiado. Mas o medo que Isambard inspirava erguia  sua volta uma espcie de parede 
invisvel, que os deixava para trs. Portanto,  excepo de mestre Edmund, Isambard estava sozinho.
Habituados s suas paragens e desconhecendo quanto tempo iria durar aquela, alguns dos cavaleiros da comitiva haviam desmontado tambm. Isso iria dificultar os movimentos 
daqueles que ainda se encontravam a cavalo, pelo menos por alguns instantes. Todavia, o grupo integrava alguns arqueiros. Era preciso agir depressa, enquanto as 
fileiras se aproximavam tranquilamente, antes de se reagruparem junto  torre. O alcance do tiro era curto e seguro, a luz perfeita. Se ao menos o velho mestre-de-obras 
se afastasse!
Naquele momento exacto, ardendo de impacincia e orgulho, mestre Edmund afastou-se do seu senhor, a fim de medir a passos a

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base da futura muralha exterior e de mostrar a espessura desta com uma pegada sua. Isambard ficou sozinho, de cabea virada para acompanhar os movimentos do velhote, 
o peito descoberto voltado para o caminho, exposto  flecha que procurava a sua carne como se tivesse vida prpria.
- Cristo me ajude! - murmurou John, por entre os lbios secos.
E, com toda a sua fora, com toda a sua paixo e toda a sua destreza, disparou.
Foi a fora do dio que o traiu. No ltimo instante, sob a presso extrema do seu joelho, o ramo estalou e cedeu: fendendo o ar com um gemido, a flecha seguiu uma 
trajectria descendente e falhada. L em baixo, os homens ouviram a vibrao, sentiram-na na carne e olharam para cima, espantados, antes mesmo de a flecha se cravar, 
zunindo e tremendo, na terra, aos ps de Isambard. A menos de seis polegadas dos sapatos bicudos, a flecha oscilava e palpitava com um silvo furioso. Por uma vez 
incapaz de reagir prontamente ao perigo, Isambard voltara-se e olhava  sua volta. O seu esprito devia andar bem longe daquele local e dos assuntos do dia-a-dia 
para se deixar ficar ali, petrificado, exposto, vulnervel a um segundo assalto.
A voz aguda de um adolescente gritou:
- Alm! No olmeiro!
Langholme saltara para puxar o seu senhor pelo brao e o pr a salvo. Por um momento, ficaram os dois indissoluvelmente unidos e, numa agonia, John manteve o arco 
retesado,  espera que se separassem. Os seus dedos apertavam a flecha, em busca da posio mais firme, tinha os ps bem assentes e os joelhos esticados, quando, 
l de baixo, os arqueiros apontaram e dispararam. Os disparos foram quase simultneos, mas John disparou um segundo tarde demais. Poderia haver trespassado os dois, 
enquanto estavam enlaados e inseparveis, mas Langholme nunca lhe fizera qualquer mal, ou aos seus.
Uma das flechas atingiu-o no peito, numa exploso de fogo, choque e dor, que o atirou para trs, fazendo estalar as folhas da rvore. O ar fustigou-lhe o rosto, 
impedindo-o de respirar e, ao cabo

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de um instante que lhe pareceu durar um ano, um acesso de dor, de terror e escurido envolveu-lhe o corpo e o esprito, como um jacto de chamas.
Os outros viram-no cair e soltaram um grito, chocados pelo rudo atroz dos ossos que se esmagavam contra as pedras empilhadas. Dando uma volta sobre si durante a 
queda, John bateu contra a barreira de granito com um baque medonho e foi atirado como um boneco desarticulado para o monte de cal.
Isambard continuava imvel e silencioso, de olhos muito abertos e sem expresso, olhando sem compreender. Contudo, rugindo como uma matilha, os homens que o rodeavam 
correram para o local onde o intruso cara. Antes de Isambard ter conseguido arrancar-se ao torpor que o atingira, haviam cado sobre a sua vtima com pedras, paus, 
espadas - tudo quanto servisse para bater, mutilar, matar.
Isambard ouviu o grito horrvel, inarticulado e, com um empurro, libertou-se de Langholme. No seu olhar aturdido, reacendeu-se uma chama. Gritando bem alto, enraivecido, 
chicoteando com o pequeno chicote de montar aqueles que se lhe atravessavam no caminho, correu para o ferido.
- Deixai-o! Para trs! Deixai-o em paz!
Aqueles a quem a fria assassina no impedia de ouvir e compreender afastaram-se, confusos, largaram as armas e colocaram-se fora do seu alcance. Servindo-se do 
chicote, Isambard meteu-se no meio deles, furioso, mandando-os afastar-se, como se fossem ces, at eles se desviarem e fugirem, acobardados, deixando-o aproximar-se 
do pobre ser alquebrado que se agitava e gemia sobre a cal fumegante.
A volta do ferido, o sangue fervilhava e o calor bateu no rosto de Isambard quando este se inclinou para ver. Por um momento, a mscara de bronze no se mexeu e 
os olhos mantiveram-se fixos e velados. A seus ps, o destroo humano, quase despedaado, gemia lamentosamente e agitava-se em contores espasmdicas. Intactos 
no rosto esfacelado, os dois olhos azuis-claros brilhavam de loucura e fitavam Isambard com um olhar insuportvel; reconheceram-no e foram reconhecidos.

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Os artfices da morte lenta no poderiam haver concebido coisa pior e, todavia, os olhos viviam, animados por uma conscincia tenaz e ardente, que o deixaria acorrentado 
quele pesadelo de dor durante horas interminveis.
Isambard deitou a mo  adaga que trazia  cinta e lanou-se como um falco sobre a garganta exposta e palpitante.
Um derradeiro espasmo de dio agitou o moribundo, um derradeiro sobressalto de desafio f-lo erguer-se um pouco. Escavando com as unhas ao lado do corpo mutilado, 
encheu as duas mos de cal e atirou-a ao rosto que avanava para ele. Isambard ergueu o brao, mas era demasiado tarde. A cal acertou-lhe em cheio no rosto, entrando-lhe 
nos olhos, nas narinas e na boca. s cegas, a arfar, caiu e rolou sobre o corpo em convulses de John o Frecheiro. Ouviu passos, aproximaram-se a correr, sentiu 
mos agarrarem-no mas, apesar da situao extrema em que se encontrava, a cuspir espuma fervilhante e devorado pela dor, Isambard gritou:
- Para trs! Deixai-nos sozinhos!
Aparentemente, a sua voz no perdera a autoridade. Cego, com a boca a arder, os olhos abrasados, Isambard arfava sobre o corpo do inimigo, sacudindo a cabea para 
afastar a dor que o dilacerava. Apesar disso, obedeceram-lhe. Apavorados, os homens formaram um crculo  sua volta, mantendo uma certa distncia, receosos de desrespeitar 
a sua proibio.
Prximo dos seus ouvidos, uma respirao rdua e rouca e um som animal, desesperado, horrvel, f-lo estremecer de terror, por pensar que poderia estar a sair da 
sua boca. Cerrou os dentes sobre o braseiro interior que o torturava e o som pungente continuou a fazer-se ouvir. Com a mo esquerda, tacteou na direco do som 
e encontrou tecido, subiu ao longo de um ombro at ao peito dilacerado e encontrou sangue quente. Os msculos da garganta estavam tensos, a cabea mutilada atirada 
para trs. Isambard pousou os dedos sobre a carne tremente e passou a lmina da adaga entre eles, rpida e eficaz.
Um jacto de sangue molhou-lhe as mos. O lamento terrvel foi interrompido por um gorgolejo, seguido por um suspiro e depois pelo silncio. O corpo mutilado parou 
de se agitar, estremeceu

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debilmente durante um minuto interminvel, para logo se relaxar e, por fim, ficar inerte.
Isambard soltou a adaga e rolou para longe da sua presa, cobrindo o rosto com as mos. Ps-se de joelhos mas,  sua volta, o silncio e a imobilidade mantiveram-se. 
Tinham medo de se aproximar antes de ele haver dado ordem e Isambard no podia descerrar os dentes, com medo de gritar de dor. No via nada para alm da cortina 
de lgrimas ardentes que lhe queimava os olhos e escorria, fervente, atravs das plpebras cerradas, pelas cavidades da mscara dourada. Afastou uma das mos dos 
olhos e, atravs da abertura da camisa, enterrou as unhas na carne rija do peito, a fim de provocar uma dor mais suportvel e, por entre os dentes, articulou:
- Os meus olhos... gua... Os meus olhos ardem...
Ento, eles reagiram e ouviu-se um murmrio horrorizado que mais parecia o zunido de um enxame de abelhas. Alguns correram, outros gritaram aos que se encontravam 
mais perto do castelo que corressem a chamar mestre Hilliard, o mdico. Por entre aquela confuso de sons, Isambard no ouviu nenhum que lhe desse conforto e a sua 
mo cansada tacteou em volta, erguendo para a luz o rosto contorcido, os olhos fechados e molhados, os lbios inchados.
- Walter!...
- Estou aqui, senhor!
Langholme ajoelhara-se junto dele e amparava-o com os dois braos.
- Ajudai-me a levantar, Walter. Levai-me para casa... para longe da vista desta gente.
Os lbios queimados murmuravam desajeitadamente, mas as palavras eram claras. Agarrado ao brao slido do seu escudeiro, apoiou um p no cho e conseguiu erguer-se.
- Descansai aqui, senhor... deitai-vos  sombra e esperai at o mestre Hilliard chegar. No podeis andar. Vamos trazer uma liteira.
Langholme estava to emocionado e perturbado que os seus dentes batiam.
- No, levai-me para o castelo. No estou doente. Posso montar. Levai-me at ao Barbarossa e ajudai-me a subir para a sela. No quero ficar aqui,  vista de todos...

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A tremer de aflio, Langholme conduziu-o pelo brao as poucas jardas que os separavam do local onde o cavalo pastava tranquilamente, j calmo aps a breve agitao. 
Isambard caminhava como se estivesse embriagado, agitando a cabea em busca de um alvio impossvel, da frescura da brisa que, afinal, transformava em fogo tudo 
o que tocava. Os dedos ossudos cravavam-se cada vez com mais fora no brao de Langholme, at que este acabou por deixar escapar um queixume; os dedos abrandaram 
a presso de imediato, apoiando-se na manga com leveza, mas a sua rigidez - que fazia lembrar a rigidez dos dedos de um morto - era notria.
- Magoei-vos, Walter. Perdoai-me.
- No, no! - protestou Langholme, quase desejando voltar a sentir a presso. - Aqui esto as rdeas, senhor.
Tacteando, a mo de Isambard encontrou as rdeas, agarrou-as com firmeza e esboou uma carcia brusca no pescoo luzidio do animal.
- E aqui est o estribo. O vosso p... assim.
Isambard iou-se para a sela, cerrou os joelhos e, pela primeira vez desde o acidente, respirou fundo.
- Dai-me um leno, Walter. E ficai perto de mim.
De cabea baixa, levou o leno aos olhos, como uma mulher enlutada, e subiu a passo at meio da rampa. Ao seu lado, ansioso e atento, Langholme viu que os dentes 
do seu senhor mordiam com fora o leno dobrado e que o maxilar se destacava, plido e rgido, sob a pele tisnada.
Chocados e mudos, os jovens da comitiva afastaram-se do caminho para os deixar passar e colocaram-se atrs deles com conteno e disciplina, falando apenas em sussurro. 
Falcoeiros, pajens, cavaleiros e palafreneiros seguiram-nos em filas ordeiras, atravessando a plataforma da igreja e a ponte-levadia de Parfois. Escoltaram-no pelos 
terreiros at aos seus aposentos, na Torre da Rainha. O mdico corria  frente da procisso, de Guichet acorreu apressado e solcito, a amparar o seu senhor, levando-o 
quase em braos para o ajudar a subir a escadaria de pedra.
A porta fechou-se, isolando-o da multido. Agora, podiam murmurar, manifestar espanto ou gritar, conforme lhes aprouvesse, podiam mesmo exultar, se lhes aprouvesse: 
estava fora do alcance

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deles. Podia finalmente descobrir o rosto dilacerado e relaxar a presso frrea que era obrigado a exercer sobre qualquer coisa ou qualquer pessoa, para se manter 
em silncio. Podia gemer, praguejar e fazer o que lhe apetecesse: tudo, menos chorar. Se chorasse, as lgrimas salgadas far-lhe-iam arder o rosto, como pez a ferver.
Deixou que o deitassem na cama, que lavassem o sangue e a poeira com gua e a cal com leite. No conseguia comer, mas foi obrigado a engolir ovos crus, para aliviar 
o ardor da boca e da garganta. Fecharam as portadas, para o proteger da luz. Recostado em almofadas, entregou-se aos cuidados deles, aceitando docilmente as mos 
do mdico e obedecendo a todas as ordens. Todas as suas energias estavam concentradas em conter e habituar-se  dor, pois sabia que ia ter de viver com ela durante 
bastante tempo. Para alm disso, apenas uma coisa requeria a sua ateno, mas podia esperar pelo menos uma hora, at acabarem o que tinham a fazer e o deixarem em 
paz.
O velho fsico e de Guichet at falaram dele  sua cabeceira, como se Isambard estivesse a dormir ou morto, como se fosse uma criana ou um animal doente. Perante 
aquilo, os lbios inchados sorriram, mas apenas ligeiramente, para no aumentar a dor.
- Est gravemente queimado, mestre Hilliard? Vai ficar com marcas?
Que importncia tinha? Aquela velha mscara tivera os seus dias e podia muito bem viver os ltimos sem beleza.
- Sero poucas, penso eu, muito poucas. Ele  forte e no tem febre. Se seguir os meus conselhos e se se deixar ficar em repouso. Claro que os olhos...
Justia lhe fosse feita, o mdico hesitou e baixou um pouco a voz, antes de prosseguir:
- Os olhos so um problema mais srio. Ainda no se pode dizer nada. Resta-nos ter esperana.
Os olhos so um problema mais srio! Para um homem que usa o olhar como uma arma para impor a sua autoridade, os olhos so um problema muito mais srio.
Sob o tecido molhado que lhe cobria a boca, Isambard disse:
- Agora, retirai-vos. Quero descansar um pouco. Deixai-me ficar o Walter.

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- O Walter vai ficar, senhor. Algum tem de ficar convosco para manter esses panos humedecidos com leite. Banhai os olhos de lorde Isambard, mestre Langholme, e 
cuidai de que os tampes estejam sempre hmidos. Mandai chamar-me, se houver algum sinal de febre.
Saram todos, excepto Langhome, que se manteve imvel e silencioso ao lado da cama. A calma e a dor envolveram-no e Isambard deixou que se apoderassem de si, sem 
se queixar. O que estava feito, feito estava e nada poderia faz-lo regressar s primeiras horas daquele dia e viver tudo de novo. Era preciso aproveitar o melhor 
possvel o que restara.
- Walter!
- Estou aqui, senhor.
- Walter, quero confiar-vos uma tarefa, mais importante do que humedecer com leite os tampes dos meus olhos. O pobre diabo que est l em baixo... que eu matei... 
trouxe-me uma carta faz alguns dias e dei-lhe a resposta que deveria levar. Mas parece que quis conquistar um trofeu mais aceitvel do que aquele que lhe entreguei. 
O meu anel, o meu anel de rubi, est na posse dele. Ireis entreg-lo em seu lugar?
- Tudo o que me pedirdes, senhor - respondeu Langholme, com fervor.
- A uma dama de quem deveis lembrar-vos. Madonna Benedetta Foscari. Matei-a, mas ela recusou-se a morrer, Walter. Tornou-se galesa e penso que se encontra escondida, 
algures no muito longe do castelo de Llewelyn, em Aber. Infelizmente, no perguntei ao pobre infeliz onde ela vivia nem o que fazia, mas creio que a encontrareis, 
se perguntardes por ela nos arredores de Aber.
- Que deverei dizer-lhe, senhor, quando lhe entregar o anel?
- Dizei-lhe que eu disse: "Sim, vinde, a vossa oferta foi aceite."
Aquelas palavras deram-lhe algum conforto. Chegara o momento de acabar com aquilo: no podia conservar indefinidamente aquela alegria emprestada.
- Apenas isso. Ela perceber. E contai-lhe o que aconteceu com o seu servo. Dizei-lhe a verdade: Madonna Benedetta

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compreender. Conhecia-o melhor do que eu, e eu conhecia-o bem. Que repouse em paz!
- Ele tentou matar-vos - argumentou Langholme, em tom sombrio.
- E eu a ele, por duas vezes. Quem sabe se o mal que me infligiu no ser uma parte da paga pelas minhas dvidas? Contai tudo a Madonna Benedetta.
Langholme hesitou, relutante em abandonar a cabeceira do seu senhor.
- Devo partir j?
- Agora, Walter. Agradeo que me mandeis um dos pajens, mas que fique do lado de fora da porta. Chamarei, se precisar dele.
Ouviu os passos renitentes dirigirem-se para a porta e, ento, chamou-o:
- Walter... depois de recuperardes o meu anel... cuidai de que se ocupem do corpo. Dizei a de Guichet que quero que ele tenha um funeral decente.
Harry, que acabava de regressar da cavalaria, trouxera a sua obra para o exterior da sala de desenho, para trabalhar ao sol, quando ouviu a cavalgada: um grupo 
to grande s podia ser o que sara para caar. Ergueu a cabea para os ver passar, espantando por estarem de volta to cedo. Mau-grado todos os seus defeitos, isambard 
no era caprichoso. Harry j s chegara a tempo de ver alguns dos jovens, que cavalgavam em boa ordem e inusitadamente reservados, sem que nada na sua atitude indicasse 
haver-se dado um acidente. Voltou ao trabalho, mas o pensamento de que Barbarossa fora privado do seu passeio impedia-o de se concentrar. Por isso, tristonho mas 
resignado, poisou o escopro e dirigiu-se mais uma vez  cavalaria, a fim de pelo menos o escovar e fazer-lhe festas ou, se possvel, arranjar-lhe outro cavaleiro. 
Era certo que Barbarossa se entendia bem com Isambard e galopava alegremente com ele; mas qualquer outro podia passe-lo. Durante o dia, devia haver coisas a fazer 
fora de Parfois e Walter daria ouvidos ao seu pedido.
Os estbulos estavam cheios de cavaleiros recm-regressados: uns mostravam-se plidos e silenciosos, outros tagarelavam febrilmente,

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mas nenhum deles se encontrava no seu estado normal. Harry olhava de um grupo para outro, sem perceber nada.
- O que foi? Que aconteceu?
Trs ou quatro jovens voltaram-se e comearam a falar ao mesmo tempo, dando verses to diversas que Harry ficou muito abalado, mas no esclarecido.
- Como? Dispararam uma flecha contra lorde Isambard? De uma rvore? E est ferido?
Era a nica explicao para o seu regresso: Isambard nunca voltaria para trs apenas por causa de uma flecha perdida. Ansioso, Harry olhou em torno, em busca de 
Barbarossa.
- E o cavalo dele? O meu cavalo!
Barbarossa encontrava-se ali, pateando o solo diante da baia, as rdeas seguras por um palafreneiro. Harry abraou a cabea brilhante e soltou um suspiro de alvio: 
nem um arranho, nem uma mancha de suor. Fez um ar de estranheza.
- Ningum ficou ferido? Lorde Isambard no foi atingido?
- Pela flecha, no. O homem que disparou contra ele foi abatido e ele acabou com o que restava do homem com as suas prprias mos. Mas apanhou com uma mo-cheia 
de cal nos olhos. Quando o trouxemos para o castelo, chorava como uma viva, num enterro. Depois, fecharam as portadas do quarto e chamaram o mdico.
- Est muito mal? - perguntou Harry, inseguro.
- Ainda no se sabe. Pelo menos, mal suficiente para se manter quieto durante algum tempo.
- E dizeis que o homem que disparou contra ele est morto? Quem era?
Nenhum deles sabia. Na zona da fronteira, havia muitos homens desesperados que tinham razes de queixa suficientes para matar Isambard. Quem poderia dizer qual deles 
arriscara a vida de um modo to insensato?
- Mas morto... morto  uma maneira de dizer! Se o houvesses visto! Alguns arqueiros lanaram-se sobre o homem, at que ele os afastou e cortou o pescoo do pobre 
diabo. No queria que tocassem na sua presa!
- E foi levado para o leito?

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Aquilo era uma coisa to inconcebvel que Harry se sentiu abalado. Isambard alguma vez se poupara ou fora descansar, a pretexto de estar doente ou fraco? Sem deixar 
de pensar naquele mistrio, Harry escovou o cavalo e, com um estranho aperto no corao, foi ouvindo a confuso de sussurros, rumores e comentrios que zuniam  
sua volta.
Nessa noite, ao jantar, Isambard no apareceu no salo nem to pouco de Guichet ou Langholme. Harry foi em busca de algum que pudesse saber a verdade e estivesse 
disposto a cont-la. Walter encontrava-se ainda no quarto de Isambard. Harry sentou-se ao fundo das escadas e ficou  espera. Viu de Guichet e o mdico descerem 
do quarto do doente e afastarem-se, atravessando o terreiro interior. Falavam em voz baixa e os seus rostos ostentavam expresses sombrias. No lhes perguntou nada: 
no eram amigos seus. Pouco depois, ouviu passos nas escadas, olhou para cima e viu Langholme que se aproximava.
Levantou-se de um salto e interpelou-o:
- Walter! Como est ele? Ouvi contar o que aconteceu. Est muito mal?
- Bastante mal - respondeu Walter, sem rodeios. - Queimado e cheio de dores. Mas, apesar disso, continua senhor de si e continua, tambm, a ser o nosso senhor. Alis, 
incumbiu-me de uma misso. Por isso, no me retenhas.
Langholme comeou a afastar-se, mas Harry correu atrs dele e colocou-se ao seu lado, continuando a fazer perguntas.
- O homem que disparou contra ele... quem era, Walter? O Roger disse que, pelo arco e pelas roupas, devia ser gals. Era mesmo gals?
Ao ver a ansiedade nos olhos azuis-esverdeados de Harry, Langholme parou abruptamente. O jovem sentia e pensava que aquela morte tinha alguma coisa a ver consigo.
- Pode muito bem ser gals mas, na minha opinio, no tem nada a ver contigo. Era portador de uma mensagem de uma dama para lorde Isambard e deveria levar-lhe a 
resposta. Porm, por qualquer razo que s ele conhecia, decidiu ficar e atentar contra a vida do meu senhor. Havia rancores antigos. Nada a ver contigo - acrescentou, 
numa voz mais amena. - Vai talhar as tuas pedras,

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filho, e deixa correr. Ele est vivo e h-de sobreviver, ainda que, por enquanto, isso lhe seja penoso.
Harry insistiu, agarrando o brao que, sem brutalidade, tentava afast-lo. Os ecos que lhe agitavam o corao eram demasiados: um gals, uma dama, velhos rancores.
- Que dama? - perguntou. - Vs sabeis, Walter, tendes de me dizer.
- Uma dama que deves conhecer muito bem, mas garanto-te que isto nada tem a ver contigo.  uma histria antiga, de antes de haveres nascido.
- Que dama, Walter? Preciso de saber o nome dela.
- Madonna Benedetta, j que tanto queres saber.
A cor fugiu do rosto de Harry, que ficou to branco como a cal da parede. Soltou a mo do brao de Langholme para apalpar o seu prprio rosto e olhou-o fixamente, 
os olhos verdes muito abertos, sem expresso.
- Madonna Benedetta - repetiu num murmrio. - John o Frecheiro! Oh, meu Deus! John! E ele matou-o... cortou-lhe o pescoo.
Langholme virou-se e agarrou-o pelos braos com firmeza, obrigando-o a encar-lo. No podia deix-lo naquele estado. Se ficasse a saber tudo o que se passara, poderia 
avaliar melhor a situao e cair em si.
-  verdade que lorde Isambard o matou. Mas, por Deus, ouve o que te digo. Eu vi tudo. Lorde Isambard estava cego e queimado, com os olhos e a boca cheios de cal, 
mas tacteou em busca da garganta do homem e matou-o. No te contaram? O homem havia cado de uma rvore, em cima das pilhas de pedras... seria de espantar que tivesse 
algum osso inteiro... e, ademais, os homens de armas haviam-se lanado sobre ele, com pedras, paus e tudo a quanto puderam deitar a mo. Se queres saber, penso que 
lorde Isambard os afastou  chicotada para tentar salvar o homem mas, quando conseguiu chegar junto dele, era demasiado tarde. Ento, matou-o. Vi tudo e sou eu que 
to digo: foi mais um acto de compaixo para com um animal agonizante, que ele apreciava, do que a execuo de um inimigo. Sabes a ltima coisa de que me

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encarregou? De ordenar a de Guichet que o mande enterrar condignamente. E  isso que vou fazer.
Langholme soltou os braos de Harry e foi s suas tarefas. A tremer de espanto, Harry refugiou-se no seu canto, na sala de desenho deserta, e ningum mais o viu 
nessa tarde. Quando de l saiu, foi direito  Torre da Rainha e, com humildade e um certo constrangimento, perguntou se lorde Isambard poderia fazer o favor de o 
receber.
Harry nunca vira o quarto de dormir de Isambard. Era uma diviso ampla e luxuosa, com as paredes cobertas de tapearias e enfeitadas com ramos de plantas estivais, 
que davam  atmosfera um bom odor a floresta, doce e quente. Pairava tambm no ar um leve cheiro a doena, acre e atemorizante, e, sob o lenol de linho, o homem 
deitado na cama estava to imvel que dava a impresso de haver sido preparado para o sono derradeiro. A cabea magnfica fixava o tecto com uns olhos de linho, 
redondos e brancos, dos quais se escapava um ligeiro vapor. O pano que lhe cobria a boca fora retirado e os lbios deformados, inchados e vermelhos, estavam hermeticamente 
fechados. Harry olhou para o peito, grande e ossudo, que subia e descia, reparando na respirao irregular, cujo ritmo era quebrado pela dor.
Harry no sabia porque viera. No tinha nada para dizer, o importante era estar ali mas, agora, parecia-lhe que s uma loucura incompreensvel o poderia haver levado 
a pensar que vir at ali falaria por si. Fechou a porta atrs de si com suavidade, apesar de o homem deitado no estar a dormir, e, lentamente, arrastando os ps, 
aproximou-se do leito.
- s mesmo tu, Harry? - perguntou Isambard, tartamudeando por entre os lbios rgidos. - Eis uma honra que eu no esperava.
- No viestes ver-me nem me mandastes chamar, senhor - respondeu Harry, na defensiva, desempenhando o seu papel de prisioneiro. - Por isso, vim ter convosco.
- Ah, pensaste que queria o meu relatrio dirio acerca do que fizeste?

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Mesmo distorcida, a voz do senhor de Parfois conservava aquela doura de mel, acariciante e insidiosa, que ele to bem sabia usar; at os lbios inchados continuavam 
a ser capazes de esboar o habitual semi-sorriso.
- Que tal correu o teu dia sem mim, Harry?
- O vosso, senhor, parece no haver sido muito bom - replicou Harry, ousadamente.
No fora sua inteno manter aquele tom. Mas o hbito estava de tal modo enraizado que era difcil abandon-lo e as palavras amargas brotavam-lhe dos lbios, mesmo 
contra vontade. Contudo, no tentou ado-las. Ficou a ver adensarem-se as sombras nas faces cavadas e o leve esgar da boca, que indiciava um sorriso.
- Mais uma razo para o dia correr bem ao meu melhor inimigo. Ento, Isambard lembrou-se de que Harry conhecia o homem
de Benedetta desde que nascera e suficientemente de perto para lhe dedicar afeio.
- Mas correu ainda pior para outra pessoa - acrescentou, com uma ponta de remorso. - Para um amigo teu. Algum te contou?
Da escurido que o rodeava, a voz baixa e amarga respondeu:
- Sim.
Com os olhos da mente, Isambard via claramente o rosto preocupado e grave, um pouco obstinado at, os olhos solenes pousados na cabea do seu inimigo prostrado. 
No havia alegria naquele olhar, antes um ligeiro desconcerto por no sentir alegria. Harry era ainda suficientemente criana para tal, apesar de a criana estar 
j a ceder lugar ao homem.
- Disseram-te quem era? Bem, talvez no, porque nenhum deles sabia quem ele era. Era o homem da Benedetta, o arqueiro que lhe ofereci para a servir. Esqueci o nome 
dele...
- John o Frecheiro - esclareceu Harry, em voz muito baixa.
- Ah, sim. John.
Inspirou penosamente e ergueu-se um pouco sobre as almofadas.
- Vejo que ests ao corrente. - Como no obtivesse resposta, Isambard prosseguiu: - Tambm te contaram que o matei?

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A voz prudente, as palavras laboriosamente articuladas atingiram-no no corao. Era como se, at ento, a morte e a perda se encontrassem alojadas algures na fronteira 
da conscincia de Harry, conhecidas, mas ainda no completamente assimiladas, e Isambard houvesse de sbito atingido o mais profundo do seu ser, para a depositar 
essa afirmao. Harry abriu a boca para responder, mas no foi capaz: tinha os olhos cheios de lgrimas e fazia um enorme esforo para as conter.
- Por minha f, filho, lamento - disse Isambard.
- Tambm eu, senhor.
Harry tinha dificuldade em respirar e mais ainda em falar; mas o pior era o receio de que o homem deitado no leito pudesse detectar as vibraes da luta que se travava 
dentro de si. O rosto de Isambard estava ligeiramente voltado sobre a almofada, os seus olhos tapados erguidos para o visitante, como que apelando a um outro tipo 
de viso. Apesar de privado de um dos sentidos, Isambard continuava a ler demasiado bem na alma dos outros para estes se sentirem tranquilos. Mesmo sem olhos, continuava 
a ver.
- Lamentas que ele no haja atingido o alvo?
A pergunta no obteve resposta. Os cantos da boca do jovem deviam estar um pouco descados, a sua expresso devia ser obstinada e rebarbativa, os olhos deviam estar 
fixos em qualquer coisa inofensiva e inanimada que no pudesse devolver-lhe o olhar: os tapetes de pele, a cadeira dourada, os antepassados normandos representados 
na tapearia, com os seus elmos cnicos e as suas cotas de malha compridas. Isambard sentia que o olhar verde o abandonara, mas no se afastara muito. Comeava j 
a aprender como orientar-se pelos ligeiros movimentos de quem estava por perto; at o ligeiro roar de uma manga possua significado.
- Tenho sede, Harry. H um cntaro em cima da arca. D-me de beber.
Harry assim fez: calma e eficientemente, como um pajem bem treinado, deitou leite numa taa, aproximou-se e soergueu Isambard com um dos braos, enquanto a outra 
mo lhe levava a taa  boca. Por um momento, o senhor de Parfois ficou apoiado no ombro do seu inimigo e sentiu contra a face as batidas impetuosas do corao

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do jovem, que o odiava com franqueza e coragem, mas que honrava fielmente as suas obrigaes.
- Obrigado, Harry, foste muito cuidadoso.
O brao que o soerguia voltou a coloc-lo cautelosamente sobre a almofada assim que Isambard deu sinal de ter acabado e afastou-se, sem manifestar qualquer sinal 
de alvio ou averso. Os olhos - os olhos cujos tons marinhos inconstantes eram contrariados pela fixidez agressiva - haviam voltado a fit-lo. Isambard sentiu-os 
avaliar, com temor e espanto, os pormenores da sua mutilao e os tampes de linho que lhe cobriam os olhos, como as moedas que se pem nos olhos dos mortos.
-  verdade - disse, pensativo. - Deveria haver sido eu a morrer, se cada um de ns recebesse aquilo que merece. A sorte dos maus  que, neste mundo, isso raramente 
acontece. Mas lamento que hajas perdido um amigo. De bom-grado o haveria poupado, se pudesse.
Iria o jovem debruar-se sobre ele e perguntar aquilo que ansiava saber? Harry percorrera um longo caminho, desde o primeiro interrogatrio, numa das masmorras sob 
a Torre da Guarda, durante o qual o jovem mantivera fechada a boca assustada e obstinada, resguardando-se atrs de uma muralha de silncio. Mas no perdera a obstinao 
nem mudara muito. Afinal, o crescimento  mais uma questo de maturao do que de mudana e o que mais se altera  o grau de clareza com que vemos os outros. Foi 
preciso haver perdido os olhos para conseguir v-lo como tanta clareza?, pensou Isambard. No, ele no vai perguntar.
E Harry no perguntou. John o Frecheiro fora portador de uma mensagem de Benedetta e o senhor de Parfois dera-lhe uma resposta para ele transmitir. Mas John no 
a transmitira e agora estava morto. Era tudo quanto sabia. No dispunha de maneira de saber se a mensagem tinha ou no a ver consigo, nem o que iria acontecer agora. 
De momento, o assunto fora posto de lado. Viera at ali com outro intuito. O problema era que, apesar de todos os seus esforos, no sabia dizer com exactido qual 
era esse intuito, nem como lev-lo por diante. Sabia somente que o obrigara a ir at ali, quase contra vontade, e que no poderia aplicar as suas energias a mais 
nada, at haver satisfeito o que lhe era exigido.

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- Lamento o vosso infortnio, senhor - acabou por dizer, em voz baixa, tenaz e brusca. - Lamento muito o vosso sofrimento.
Dizer aquilo representou um enorme esforo, mas conseguiu diz-lo. O grande suspiro que soltou representava bem a medida do alvio que o seu corao experimentava, 
por haver finalmente sido libertado do seu fardo.
Imvel, Isambard esboou um sorriso deformado na direco das tbuas do tecto, onde a obscuridade comeava a adensar-se. A sua mo magra e comprida, semiaberta sobre 
o lenol, ao lado do corpo, acolheu com muita cautela aquela ddiva inesperada, como se esta fosse um pssaro que houvesse ido ao seu encontro por vontade prpria 
e que a honra proibia de encerrar numa gaiola, ou de reter por mais tempo do que aquele que ele decidisse permanecer na palma da sua mo. Mas tambm era preciso 
no se mover ou falar demasiado cedo, para no o espantar. Isambard ficou imvel por tanto tempo que o jovem comeou a sentir-se inquieto e aproximou-se, para ver 
se ele adormecera.
- Harry! - chamou por fim, baixinho, a voz vinda da cama.
- Senhor?
- Lava-me os olhos antes de te ires embora.
Harry foi buscar a pequena tigela de leite e infuso de ervas que se encontrava em cima da arca e, com gestos receosos, sustendo a respirao, retirou os tampes 
dos olhos de Isambard. A viso das plpebras inchadas, vermelhas e em carne viva deixou-o sem respirao, acabrunhado pela destruio de algo onde indiscutivelmente 
houvera beleza. E tambm isso Isambard compreendeu.
- Ah, isto vai curar-se - disse, submetendo-se aos cuidados atentos do jovem.
Os dedos de Harry eram leves e tmidos e a sua respirao regular e contida aflorou a face de Isambard, quando se aproximou. No fim do tratamento, Isambard abriu 
os olhos pela primeira vez e olhou para o rosto de Harry.
Uma forma esbatida e plida, com traos vagamente discernveis e o brilho indefinido de uns olhos grandes. Nada mais que isso. Ento,  guisa de advertncia, a luz 
feriu-o e ele voltou a recostar-se e a fechar as plpebras sobre a imagem fugaz do seu pssaro

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domesticado. No havia dvida de que no era uma pomba: antes um jovem gerifalte, alis bastante selvagem. No era de esperar que viesse ao seu encontro muitas vezes, 
nem que ficasse muito tempo junto de si. Mas se no cedesse  tentao de fechar a mo, talvez antes de levantar voo ele lhe deixasse duas ou trs penas da sua plumagem 
de jovem falco.

CAPTULO CINCO

Parfois: Setembro de 1233

A febre abandonou-o na quarta noite e os seus sentidos despertaram, claros e frios, a mente como uma espada nova, mas o corpo to fraco que, quando tentou erguer 
a mo, esta no lhe obedeceu. A luz de uma vela iluminava o quarto. Para Isambard, essa luz era apenas uma aurola plida e difusa  volta de um ponto branco, a 
separar a escurido da claridade; mas via-a. Algumas formas vagas, to vagas como nuvens, permitiam-lhe identificar os cantos do quarto. Algum dormia e ressonava, 
numa cadeira de madeira, junto  cama. Segundo parecia, a morte ainda no queria nada com ele. Regressava ao mundo sem lamentos, mas tambm sem iluses. Dali em 
diante, este mundo no seria fcil para si.
Os seres humanos eram sombras que se moviam, os objectos eram sombras fixas. E, por vezes, umas e outras confundiam-se; dava-se tambm conta de que algumas sombras 
imveis que se interpunham entre ele e a luz se moviam e dispersavam, mal dava mostras de ter conscincia delas. Ento, compreendeu que era do seu interesse conservar 
e privilegiar os sentidos que lhe restavam, pois ia precisar muito deles; com a satisfao de um jogador, deu graas a Deus por o seu ouvido ser naturalmente to 
apurado como o de um

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gato selvagem, e poder ainda ser melhorado at ao nvel da excelncia agora que dele havia preciso. As tendncias manifestadas pelas sombras mveis constituam 
avisos bem claros: hesitaes em obedecer a uma ordem, o silncio que se adensava na sua presena, aquela ateno palpvel e implacvel de que sentia ser objecto. 
O mais nfimo pormenor adquirira um significado profundo, todos os aspectos do comportamento humano podiam ser esclarecedores, se aproveitasse as oportunidades que 
se lhe deparavam.
Claro que as vozes continuavam a ser ponderadas, inquietas, alerta, obsequiosas; sabiam bem que no perdera a audio. Mas, no segundo dia depois de haver sado 
do delrio, comeou a reparar que o pajem encarregado de o servir no era muito clere a obedecer s suas ordens. Quando lhe pedia gua - pois continuava a ser presa 
de uma sede insacivel - o rapaz, seguro de que ele no lhe perguntaria o nome e de que o seu rosto no passava de uma sombra que podia pertencer a qualquer outro 
jovem da casa, demorava o seu tempo e servia-o com indiferena e desateno. Consciente de que mal conseguia erguer uma mo, e muito menos castigar o rapaz como 
ele merecia, Isambard ia deixando passar. Mas gravou na memria a vozinha aguda, sabendo que seria capaz de a distinguir entre dezenas de outras que, at ento, 
no lhe pareciam muito diferentes. Mais seis ou sete dias de convalescena e um pouco de pacincia para esperar o momento certo, e a dvida seria paga, como exemplo 
para todos quantos pudessem ser tentados a cometer o mesmo erro.
Nessa tarde, deixaram entrar Harry. A cabea que repousava na almofada soergueu-se ao som dos seus passos, o rosto voltou-se para o jovem, alerta como um co de 
caa.
- Harry! - exclamou Isambard com satisfao.
No estava a interrogar-se, mas a afirmar a sua intuio. Depois de ficarem sozinhos e de a porta se haver fechado, acrescentou:
- Ainda bem que vieste. Chega aqui e deixa-me apoiar no teu brao para sair desta cama. J estou mais do que farto dela.
- Podeis matar-vos, senhor - respondeu Harry, espantado, estendendo o brao mais para o reter na cama do que para o ajudar a sair dela. - H apenas dois dias que 
deixastes de ter febre.

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- Ah! Ento perguntaste por mim, enquanto estive inconsciente?
Harry pedira todos os dias para ser admitido no quarto do doente e, de todas as vezes, o seu pedido fora rejeitado; s naquele dia, depois de Isambard haver recuperado 
as faculdades e afirmado a sua vontade, parecera ser melhor poltica no dar a ideia de que estavam a submet-lo a uma vigilncia demasiado estreita. Se queria ver 
o rapaz, deix-lo.
- No podeis pr-vos de p - disse Harry, com firmeza, furtando-se a responder  pergunta. - Deveis ficar deitado uma semana ou mais, antes de voltardes a pr os 
ps no cho.
- No posso permitir-me esperar uma semana, Harry. Daqui a uma semana, vo dar-me autorizao para me levantar e andar, com a bno de mestre Hilliard, e haver 
uns cem pares de olhos  espreita, para me verem fazer tristes figuras. Quero dar-lhes boas razes para pensarem duas vezes. s capaz de guardar um segredo?
O silncio obstinado que lhe respondeu, fez Isambard soltar uma gargalhada.
- Sendo assim, quem melhor para servir os meus propsitos? - prosseguiu. - Dispensa-me um pouco da tua pacincia e da tua teimosia... sei que dispes de mais do 
que as necessrias... e serei capaz de correr, antes de eles se aperceberem de que consigo andar.
Apoiando uma das mos no colcho e a outra no brao de Harry, fez rodar as pernas para fora da cama. Harry sempre conhecera Isambard como um homem de corpo seco 
e msculos rijos, sobre uma ossatura magnfica; a febre consumira metade desses msculos e deixara-lhe cavidades azuladas no pescoo, nos ombros e no tronco. Mas 
o senhor de Parfois levara uma vida rigorosa, de atleta, e a estrutura da sua fora, agilidade e graa no desaparecera: estava preparada e desejosa de ser posta 
 prova.
- Sempre fui senhor do meu corpo - declarou Isambard, vestindo o roupo, sentado na beira da cama. - Vamos ver se ainda sou capaz de o fazer cumprir as minhas ordens, 
antes de as fazer cumprir aos corpos dos outros.
O jovem recuou, indeciso, observando-o. Agora que o fogo nos seus olhos arrefecera e que as queimaduras  volta dos lbios haviam

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desinchado e secado em cicatrizes acastanhadas e lisas, Isambard no parecia muito mudado. Havia marcas idnticas na testa e nas mas-do-rosto mas, sobre o tom 
de bronze da sua pele, no eram chocantes. O seu antigo esplendor era apenas desfeado pelos olhos, ainda inflamados, vermelhos por fora e escuros por dentro, e pelas 
plpebras inchadas e deformadas. Hesitante, o sorriso oblquo aflorava  boca ligeiramente desfigurada. As mos que tacteavam as roupas eram garras de falco sem 
destreza, porque Isambard estava ainda muito fraco e movia-se com a deliberao calculada de quem conhece as suas prprias fragilidades.
Isambard percebera o motivo do silncio persistente de Harry. Ergueu vivamente a cabea, numa atitude de desafio.
- Ests com piedade de mim? - perguntou, numa voz em que transparecia a dureza do ao.
- No, senhor. Conheceis alguma razo para eu haver piedade de vs?
- Conheo todas as razes pelas quais no deverias - respondeu Isambard, taciturno. - Se eu entrevir uma luzinha que seja de piedade nos teus olhos, juro por Deus 
que te chicoteio, sem querer saber se j s um homem ou no.
- Quando puderdes erguer um chicote - replicou Harry, num tom acerbo, para expulsar para longe de ambos a palavra "piedade". - Neste momento, ser-vos-ia difcil 
empunhar um. Quereis ou no o meu apoio?
Harry colocou o ombro e o brao  disposio de Isambard, mas recusou-lhos sem hesitar quando entendeu que o corpo debilitado estava  beira da exausto. No primeiro 
dia, este fez apenas uma tentativa de se manter de p e dar alguns passos hesitantes  volta do leito. Mas, dia aps dia, Isambard sujeitou o seu corpo resignado 
a esforos cada vez mais intensos, at conseguir andar de um lado para o outro no quarto, como um tigre enjaulado. Na altura em que mestre Hilliard o autorizou cerimoniosamente 
a levantar-se da cama, estava preparado para os intimidar a todos com o seu vigor.
Esperavam um invlido titubeante, que se deixaria semi-conduzir, semitransportar para o sol e permitiria que o sentassem numa cadeira almofadada, onde ficaria, to 
prisioneiro como na

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cama onde ardera em febre,  merc das mos que dele cuidavam. Isambard vestiu-se com esmero e elegncia e saiu dos aposentos no seu antigo esplendor, pisando confiantemente 
o cho irregular de madeira e descendo as escadas sem se apoiar nem vacilar. Quando mestre Hilliard protestou que era uma loucura aventurar-se to longe, Isambard 
riu-se-lhe na cara. Quem seria capaz de adivinhar que ele s via uma massa difusa e sombria, recortada contra um halo de luz? Pelo aspecto dos seus olhos, era impossvel 
saber se via ou no; os seus movimentos levavam a pensar que sim. O jovem escudeiro que avanou para lhe oferecer o apoio do seu ombro parecia servir mais como decorao 
do que como amparo.
Para o acompanhar s cavalarias e ao canil, escolheu com todo o vagar o pajem indolente, designando-o com um sinal imperioso do indicador, entre uma dzia dos seus 
companheiros. Quem poderia saber que o escolhera apenas pela voz, localizando uma sombra entre outras sombras, graas a um ouvido apurado? O rapaz ficou um pouco 
espantado e, em parte por bravata e em parte devido  certeza de que no poderia ser detectado, quando se dirigiam para o canil, colocou-se um passo atrs de Isambard 
e divertiu os companheiros com uma breve imitao do porte altaneiro e arrogante do seu senhor. Isambard ouviu o tremor infinitesimal de risos contidos atrs de 
si e, com satisfao, determinou a sua origem. Virou-se com a vivacidade de um galgo e, por pura sorte, agarrou o rapaz pelo brao, que este erguera para proteger 
a cabea, embora o cabelo tambm houvesse servido. Atirou-o de joelhos com um empurro, j a balir como um cordeiro assustado.
- Ests cheio de vontade de nos divertir, meu amigo - observou Isambard com um sorriso melanclico. - Pois bem: ters a oportunidade de o fazer. Vamos ver se tambm 
sabes cantar.
Ordenou que o pajem fosse chicoteado ali mesmo e deixou-se ficar, a fim de se certificar de que a ordem era cumprida.
Da em diante, todos os pajens se mostraram consideravelmente mais diligentes e respeitosos. Foi necessria apenas mais uma demonstrao para restabelecer a qualidade 
do silncio que sempre o acompanhara nas suas deslocaes pelos terreiros do castelo. Quando um dos mestres dos canis maltratou uma cadela de

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caa e se mostrou renitente em justificar os seus actos, Isambard aproveitou a ocasio para o derrubar com um murro que abriu a face do homem. Desferiu o golpe enquanto 
o homem titubeava, guiando-se pela voz para lhe atingir o rosto que quase no conseguia discernir, e o esforo que empenhou no golpe quase o fez cair por cima da 
sua vtima. Conseguiu, todavia, guardar para si o segredo do estratagema e s quando regressou sem contratempos aos seus aposentos e fechou a porta, reconheceu finalmente 
a dimenso da sua insuficincia. Estendeu-se na cama, contemplando as trevas que se adensavam e que nada tinham a ver com o fim daquele dia de Setembro.
Era muito bonito demonstrar publicamente a sua fora, uma ou duas vezes, com uma grande dose de sorte, para provar que ainda era preciso contar com ele. Mas quanto 
tempo mais poderia ganhar por estes meios? No ousava aparecer no salo, no podia comer com os outros, cavalgar ou voltar a manejar a espada: faz-lo equivaleria 
a revelar que no conseguia ver mais do que luz e sombras. Todas as pequenas tarefas que o corpo leva a cabo diariamente, sem pensar - gestos simples como servir 
vinho ou selar uma carta - teriam de ser realizadas fora das vistas dos outros, por trs daquela porta fechada, at ser capaz de aperfeioar uma tcnica intrincada 
que lhe permitisse desempenh-las dissimulando a sua deficincia. E, por mais engenhosos que fossem os seus estratagemas, por mais que treinasse os ouvidos e os 
dedos no desempenho das tarefas que cabiam aos olhos, mais cedo ou mais tarde um pormenor qualquer acabaria por tra-lo. Iria chegar uma altura em que at luz e 
trevas seriam a mesma coisa. Havia sinais infalveis de que assim seria.
Vou ser um velho cego, admitiu, face a face consigo mesmo naquela escurido em que, recorrendo  memria, ainda era capaz de imaginar os contornos e as cores que 
os olhos no captavam. Um velho cego e desajeitado, que tacteia os alimentos e entorna o vinho. Darei ordens e eles diro que sim, educadamente, durante algum tempo, 
mas no obedecero, pois sabem que no poderei persegui-los. Dentro em breve, nem se daro ao trabalho de me responder ou de me prestar ateno. Hoje, consegui abalar-lhes 
as certezas: vo encolher as garras por alguns dias. Por quanto tempo? Uma semana? Duvido.

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No pelo tempo suficiente para Benedetta chegar a Parfois e voltar a partir, com o presente que reservara para ela. At agora, Isambard recusara-se a enfrentar essa 
verdade mas no podia continuar a neg-la. Chegara a altura de limpar o terreno  sua volta, para no arrastar ningum consigo na sua queda. Que proteco podia 
um cego dar a Benedetta e a Harry? Era preciso afastar todas as pessoas de quem eles pudessem servir-se para o influenciar e todas as pessoas contra quem pudessem 
utiliz-lo como arma. Neste ltimo campo de batalha, no podia deixar nada que servisse para o inimigo se aproximar sem ser detectado. Quando Walter voltasse, confiar-lhe-ia 
uma nova tarefa, que o levasse para o mais longe possvel, para o manter afastado do confronto que se aproximava. Harry tinha de partir e Benedetta no podia vir. 
Resolvido isto, postos a salvo os inocentes e pagas as dvidas, poderia dedicar-se a fortalecer a sua posio e apreciar a sua derradeira peleja.
- O que dizem eles de mim, agora? - perguntou, quando Harry foi v-lo nessa noite.
- Dizem que o vosso amigo diabo vos emprestou um novo par de pernas e mais dois olhos - respondeu Harry, com uma admirao involuntria.
- Ah sim? ptimo! Fico contente por no haver arriscado inutilmente a minha vida naquelas escadas. Mas receio que esse emprstimo seja de curta durao.
- O que eles no dizem mas que eu sei - acrescentou Harry intencionalmente -  que, ontem, de Guichet mandou um correio com uma carta ao acampamento do rei, em Usk.
O tom utilizado por Harry fora de tal modo equvoco que Isambard ficou imediatamente alerta e disfarou a reaco que a notcia lhe provocara. Era preciso cuidado 
no modo de lidar com o rapaz. O seu olhar penetrante tornara-se j demasiado inquisitivo.
- Ento tambm sabes disso? Como foi que te deixaram partilhar esse segredo?
Assentou as mos abertas nos braos do cadeiro, a fim de tornar patente a sua tranquilidade. Afinal, pelo menos durante algum tempo, no era muito difcil enganar 
o mundo exterior, atravs de pequenas astcias cuidadosamente planeadas. Mas, dia aps dia,

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Harry ajudara-o a caminhar pelo quarto e tivera boas oportunidades de usar os olhos e a cabea.
- Eu sa tarde da sala de desenho e fui  cavalaria, depois de escurecer, para passar um bocadinho com o Barbarossa antes de ir dormir. O jovem Clifford estava 
l, a selar um cavalo, e deveis concordar que, quela hora, isso era estranho. Uma das correias do selim quebrara-se e ele estava com pressa. Por isso, levou emprestada 
uma das minhas e prometeu devolv-la quando regressasse de Usk. Como era pouco provvel que fosse portador de uma mensagem para entregar ao conde de Pembroke, que 
est preso dentro do castelo, a mensagem devia ser para algum da hoste do rei, que cerca o castelo. O Clifford saiu a correr, para ir buscar o despacho, e no pensou 
mais em mim. Fiquei  espera que voltasse e vi que de Guichet veio despedir-se dele,  porta da torre da guarda. Vi o Clifford guardar um pergaminho junto ao peito, 
por baixo da cota, antes de montar. No escuro - acrescentou Harry, sombriamente - no foi muito difcil aproximar-me. Agora, j conheo Parfois perfeitamente.
- Ests muito interessado nessa carta - observou Isambard, sorrindo. - Queres que te relate o seu contedo?
- No  preciso. Eu mesmo posso faz-lo. Talvez no palavra por palavra, mas com exactido suficiente para se perceber. "Se desejais agir", diz a carta, "este pode 
ser o momento certo. O velho lobo que nos abstivemos de caar foi ferido e j nada h a temer dele... como est cego..."
Harry interrompeu-se, ao ver os dedos esguios de Isambard crisparem-se sobre os braos do cadeiro e o seu rosto empalidecer.
- Cuidveis que eu no sabia? - perguntou, em voz baixa e trmula. - Houve uma noite em que s no queimastes a mo numa das velas porque eu a afastei. Nem vos destes 
conta. Podeis enganar os outros, l fora, conhecendo como conheceis todas as pedras dos terreiros, mas no os deixeis aproximar muito de vs. Alis, que fareis quando 
recuperardes a sade e deixardes de ter uma desculpa para manter junto a vs um pajem em quem vos apoiardes, que vos conte os degraus das escadas e vos demonstre, 
pelos seus prprios movimentos, em que altura deveis dar a volta?

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- Por minha f, filho! - respondeu Isambard, com um suspiro, j relaxado. - Fao a mim mesmo essa pergunta.
Tudo se ajustava para reforar a sua deciso. Era tempo, e mais que tempo, de pr a casa em ordem. Recostou-se no cadeiro dourado, ordenando com calma todas as 
suas faculdades, como um general previdente ordena as suas tropas antes de uma batalha difcil.
-  ento verdade? - perguntou Harry, confuso. - No vedes nada?
Apesar das suas certezas, quase esperou uma negativa peremptria, uma prova de que estava enganado.
- Distingo uma ligeira diferena entre o dia e a noite - respondeu Isambard.
Se dissesse toda a verdade, teria de acrescentar que, de dia para dia, essa diferena era cada vez menor. Afastou este pensamento com um gesto da mo e concentrou-se 
nas armas de que ainda dispunha. Cego ou no, precisava de tomar uma deciso e de lutar. Se de Guichet mandara uma mensagem a William na vspera, hoje deveria haver 
ficado com algumas dvidas quanto  sensatez da iniciativa. Mas bastariam essas dvidas para mandar regressar o mensageiro? No era provvel. Os dados estavam lanados 
e no havia remdio. Limitar-se-iam a observ-lo atentamente at a resposta chegar. De Guichet no corria grandes riscos, pois nunca se expusera publicamente. Quando 
o poder mudasse de mos, seguiria a onda.
- Falaste em Usk - disse finalmente Isambard, franzindo o sobrolho, na expresso habitual de quando reflectia, como se o seu olhar arguto ainda pudesse servi-lo. 
- Pembroke instalou l uma boa guarnio e armazenou provises. Disseste que foi a que o rei resolveu atac-lo?
At ento, os dois lados haviam evitado lanar aces irrevogveis: Henrique provavelmente por indeciso e incompetncia; o conde marechal por lhe repugnar travar 
uma batalha em defesa de uma questo que considerava dever ser resolvida atravs de reformas. No havia homem que menos ambicionasse tornar-se um rebelde, e chefe 
de rebeldes, mas as circunstncias e o seu sentido pessoal do dever haviam-no arrastado para essa situao e no podia recuar.

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- Por aquilo que ouvi dizer, o rei decidiu apoderar-se de Usk como demonstrao de fora, para obrigar o conde a pr-se de joelhos. Antes de haver montado cerco 
ao castelo, denunciou as suas obrigaes feudais para com o conde e todos os seus aliados. Por seu turno, Pembroke renunciou a prestar homenagem ao rei Henrique. 
Basset, Siward e os outros todos fizeram o mesmo.
- Por conseguinte, no se trata de castigar um vassalo rebelde nem de capturar um fora-da-lei - observou Isambard. -  uma guerra, aberta e digna, entre dois homens. 
O rei despojou-se da sua melhor arma, mas percebo que dificilmente poderia lanar a primeira aco, sem cortar esse lao. E Pembroke refreou-se, com grande pacincia. 
Henrique ainda podia haver hesitado e mudado de rumo, mas nunca soubera ficar quieto e esperar.
- Mas no foi bem sucedido em Usk. Pelo menos  o que se diz. Hoje, tambm constou que ele pensara melhor e mandara enviados ao conde, a propor os termos de uma 
paz honrosa. Se o conde aceder  rendio formal de Usk, o rei promete devolver-lha dentro de quinze dias e dar-lhe um salvo-conduto para a reunio do prximo Conselho, 
na qual sero atentamente examinados todos os seus motivos de queixa e decididas reformas onde estas forem necessrias.
- Ah! Esse  o rei Henrique que eu conheo! - exclamou Isambard, com uma gargalhada curta e seca. -  capaz de prometer este mundo e o outro, para que Deus lhe permita 
salvar a face. Mas, quando sentir que a sua dignidade foi salva,  melhor o conde arranjar um bom advogado, para o obrigar a cumprir as suas promessas, e no afastar 
a mo da adaga durante a discusso. Sabes se Richard aceitou a palavra dele?
- No conseguimos saber mais nada, senhor.
- Vai aceitar. Sendo como , no pode fazer outra coisa. Pode duvidar da honestidade do rei, mas no pode deixar escapar a oportunidade. Henrique podia at encerrar 
o assunto sem descrdito e desarmar os seus inimigos, se cumprisse o prometido. Mas aposto a minha alma em como os quinze dias ho-de passar sem ele dizer uma palavra 
sobre a devoluo do castelo a Pembroke. Quanto s reformas, nunca mais voltaremos a ouvir falar nelas. Quando se lhe

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d a mo, por magnanimidade, ele conclui que quem o faz  um imbecil ou um cobarde e agarra o brao todo. J levou algumas palmadas nas mos, por causa disso, mas 
no aprende. Ora Richard no  tolo nem cobarde - acrescentou Isambard, pensativo. - Bem, ento,  assim que as coisas esto, no ? Dentro de um ms, toda a zona 
das Marcas estar do lado do rei e o Pas de Gales no pode ficar de fora. Vo digladiar-se, para ver quem  o primeiro a atear a fogueira. E um castelo de fronteira 
no pode ser deixado em mos suspeitas, quando as Marcas esto a arder.
Isambard sorriu. Era o seu antigo sorriso de lobo: cabea erguida para farejar o fumo, orelhas espetadas para ouvir os sons da batalha. Todavia, guardou para si 
os seus pensamentos.
Em tempo de crise, um castelo de fronteira numa posio avanada como Parfois tinha de estar nas mos de um castelo de confiana. Guerra era guerra e os direitos 
antigos estabelecidos tinham de ceder  necessidade. Em nome do rei, em nome de Inglaterra, em nome da cupidez de William, era preciso que Ralf Isambard, cego,  
beira da senilidade e j comprometido pela defesa que fizera de Hubert de Burgh, o infortunado prisioneiro em Devizes, fosse plausivelmente despojado da sua autoridade 
e confiado  custdia protectora do filho - tudo isto sem a mnima objeco por parte do melhor e mais magnnimo dos monarcas. Cautelosamente, claro; os seus domnios 
eram muito dispersos e era necessria discrio, no fossem algumas das guarnies distantes sentir ser seu dever pr em causa o afastamento do seu senhor. Podiam 
mesmo querer que ele fosse apresentado vivo, o que no seria bom para a reputao do rei, mesmo que este acedesse a esse pedido. Era preciso evitar o escndalo. 
Mas as exigncias da guerra podem cobrir muitas irregularidades.
O rei prestar-se-ia a este tipo de manobra? Era uma pergunta difcil. Henrique seria cauteloso e no quereria ter conhecimento de procedimentos que, na verdade, 
podiam ser considerados criminosos. Cobriria os olhos com as duas mos para no ver as irregularidades, mas era razovel deduzir que espreitaria por entre os dedos. 
Se o pior acontecesse, denunciaria as traies cometidas contra si e manifestaria uma clera santa e honesta, a fim de provar

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que era a parte ofendida. Quem conseguiria descobrir at que grau aquela mente peculiar era capaz de se enganar a si mesma?
- Ainda a ests, Harry?
O silncio que reinava no quarto era tal que, por um momento, Isambard julgara encontrar-se sozinho.
- Estou aqui, senhor.
Era preciso comear pelo princpio. Deixemos Witliam falar ao ouvido de des Rilvaux e des Rilvaux ao ouvido do rei, para combinarem as coisas entre si,  sua maneira. 
O passo seguinte, ali em Parfois, era claro. Isambard culpava-se por no haver pensado nisso havia muito, no prprio dia da morte de John o Frecheiro. Nunca deveria 
haver mandado Walter com o anel, depois de esse caminho lhe haver sido vedado outrora com um sinal to claro e ameaador. Mas o corao recusara-se a reconhecer 
aquilo que, j nessa altura, a cabea percebera muito bem: que no devia ter esperanas e nunca mais devia tentar voltar a ver Benedetta.
- H muito tempo que desejas ir para casa, Harry.
O silncio da desconfiana caiu entre ambos como uma cortina; mas os obstculos no prejudicam os olhos atingidos pela cegueira. Isambard viu o rosto do jovem erguer-se 
e animar-se, viu os seus olhos a observ-lo avidamente, em busca de uma qualquer armadilha por trs daquelas palavras.
- E  isso que vais fazer - acrescentou, com determinao. - Esta noite, prepara-te para partires. Junta as tuas coisas... as ferramentas tambm, se quiseres, pelo 
menos aquelas que possas transportar facilmente... amanh de manh, tratarei de que te abram as portas.
Um cavalo, roupas e todos os seus haveres, escrevera Benedetta. Tudo quanto  dele e mais do que aquilo que trouxera.
- Partir? - perguntou Harry, num sussurro espantado, vindo do outro lado do quarto.
- Partir, sim, filho. Ouviste muito bem o que eu disse. E sabes que estou a falar a srio. Vai preparar as tuas coisas e no receies: desta vez, no se trata de 
nenhuma armadilha. Ests livre.
O silncio pareceu no ter fim. Isambard sentiu o sobressalto e o impulso do jovem corao impetuoso em direco  liberdade,

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ouviu por um instante os batimentos impacientes das asas semiabertas, at estas serem acalmadas, fechadas, silenciadas. A luta que agitava a carne e o esprito do 
jovem vibrou atravs do prprio corpo de Isambard, deixando-o comovido e espantado.
- No vou! - declarou Harry, em voz forte e brutal.
Feliz e contente, para que precisava ele agora dos olhos? Para que precisava de mais anos de vida? Estes no lhe trariam nada melhor nem mais inesperado do que isto. 
Nunc dimittis, pensou, emudecido por um doce espanto e sorrindo para a escurido. Permiti, Senhor, que este Vosso servo parta. Em paz? Duvido, admitiu, continuando 
a sorrir. Alguma vez conhecera a paz? Mas pelo menos distendido e satisfeito.
Portanto, tambm Harry sentira crescer a insegurana e receava-a, no por si mas por aquele homem, velho e cego, subitamente vulnervel entre os seus antigos amigos 
dos belos tempos, que lhe voltariam as costas mal o vento mudasse. Como seria possvel um homem abandonar algum, ainda que fosse um inimigo, numa situao como 
aquela? E como confessar isso a esse inimigo?
- No vou - repetiu Harry, desafiando o silncio.
No era a sua voz mais atraente: era uma voz amarga, obstinada, irracionalmente furiosa, como a de uma criana que se v arrastada para uma situao falsa por meios 
injustos e que descarrega todo o peso da sua m conscincia e do seu desgosto sobre os mais velhos. Uma voz que, na infncia, lhe devia haver valido alguns puxes 
de orelhas. Porm, agora era preciso manobrar com brandura o homem, no a criana. Aquela voz era um recuo e uma defesa. Por trs dela, era possvel chegar ao homem, 
pois as palavras, como o corao indignado de onde estas haviam brotado, eram dele. Harry acabaria por escutar a voz da razo. Era escusado recear uma recusa definitiva. 
Seria demasiada condescendncia ret-lo s por um instante, antes de o deixar ir?
- Vais sim, Harry. No por eu to ordenar, mas porque  preciso que vs. H razes de sobra.
Harry esperara e temera uma reaco de espanto, seguida de vrias perguntas e, no fora as complicaes causadas pela perplexidade

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e pela angstia, estaria preparado para ripostar num tom que poderia ser considerado insolente. De certo modo, ser entendido sem necessidade de palavras era ainda 
mais vexatrio do que ser forado a dar explicaes. Ningum gosta que leiam em si como num livro aberto. Todavia, sentiu-se aliviado por no precisar de justificar 
a sua mudana de atitude, depois de haver lutado com unhas e dentes pela liberdade que agora recusava.
- No h escolha, Harry - disse Isambard, afavelmente. - Houve uma coisa que no te disse. Se te recusares a partir, Madonna Benedetta vir at Parfois, para se 
entregar no teu lugar. Se no estou seguro de poder continuar a assegurar-te proteco, como posso garantir a dela?
Ao ouvir aquelas palavras, Harry atravessou o aposento numa corrida ligeira, ajoelhou-se ao lado do brao do cadeiro e agarrou na mo comprida e esguia.
- Madonna Benedetta? Aqui? Mas como... que acordo  esse? E eu sem saber de nada! De nada! Era essa a mensagem que o John vos trouxe?
Harry tremia de clera e de despeito.
- Como ousastes? No haveis esse direito... nenhum direito!...
- Ela tampouco, mas foi isso que fez. Ofereceu a sua pessoa em troca de ti e eu aceitei a oferta. O teu John, paz  sua alma, quis arrancar-te das minhas mos de 
outra maneira, a fim de anular o acordo. Assim haveria acontecido, se ele fosse bem sucedido, mas no foi e teremos de viver com aquilo que temos. Depois da morte 
dele, mandei o Walter no seu lugar, para oferecer o meu anel e a minha promessa a Benedetta, sem imaginar que, pouco tempo depois, iria desejar reaver um e a outra. 
Penso que o Walter deve haver preferido evitar Aber e desperdiado algum tempo  procura dela mas, neste momento, a sua misso j deve estar cumprida. Se tu no 
a detiveres no caminho, ela vir a Parfois pagar o teu resgate. E logo numa altura em que j no estou seguro da minha capacidade para a manter a salvo. - Fechando 
os dedos sobre a mo lisa e vigorosa do jovem, acrescentou: -  por isso que tens de ir, j que eu no posso.  preciso que a interceptes no caminho, lhe digas que 
tanto tu como ela esto livres de todas as dvidas e compromissos para comigo e que a leves para casa, s e salva.

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- Podeis mandar outra pessoa - objectou Harry, abalado e a tremer.
- No h ningum, nem mesmo entre os mais velhos, que a conheceram outrora, que possa reconhec-la agora com tanta segurana como tu. E mais ningum pode apresentar-se 
diante dela como sendo o prmio que ela vinha resgatar. Quanto ao resto... olha para aqueles que me servem, Harry. Sem ser ao Walter, a quem mais poderia eu confiar 
uma tal misso? No, no podes fugir ao teu dever;  preciso que vs.
Num gesto de impotncia, Harry poisou a testa sobre a mo crispada no brao do cadeiro, enquanto o seu corao tentava precipitadamente, numa agonia, separar o 
que desejava fazer daquilo que devia fazer. Do seu esconderijo, uma voz abafada perguntou, com desespero:
- Mas como posso eu deixar-vos?
A dignidade e a reserva j no faziam sentido e Harry no sentia que houvesse comprometido ou perdido qualquer delas. Simples e cruas, as palavras haviam brotado 
da sua boca e sentia-se aliviado por as haver dito.
- Podes porque  mister que o faas. Se quiseres uma razo mais egosta da minha parte, porque, salvo quanto ao privilgio da tua presena, me arranjarei melhor 
sem ti do que contigo. O Walter no vai tardar e poderei contar com dois ouvidos e uma lngua honesta. Que mais poderias tu fazer, se ficasses aqui? A melhor ajuda 
que me podes dar  salvar Benedetta do perigo. No receies por mim - acrescentou Isambard, espantado com a serenidade da prpria voz. - Eu sou um velho guerreiro. 
Sou capaz de manter a minha posio no meu prprio terreno. Vai preparar as tuas coisas e, amanh, depois do desjejum, vem ter comigo aqui. Eu prprio te porei a 
caminho.
Era necessrio que assim fosse. Quem sabe se de Guichet no se lembraria de que era melhor reter o rapaz, que talvez pudesse depois ser usado como uma moeda de troca 
valiosa?
- Ento, Harry, irs?
A testa macia assente sobre a sua mo moveu-se, o rosto atormentado ergueu-se lentamente para ele. Isambard adivinhou o olhar

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ansioso dos olhos verde-mar que o fitavam e soube que ganhara a partida. Harry partiria porque era mister que partisse. No era preciso tentar confort-lo. A vida 
em breve se encarregaria disso.
- Eu vou - disse Harry.
Chegaram juntos  porta do castelo, no momento em que os raios alongados e dourados do sol da alvorada comeavam a incidir no terreiro exterior. Isambard ergueu 
a mo esquerda e os guardas, que haviam lanado um olhar desconfiado ao prisioneiro, recuaram obedientemente e deixaram-nos passar.
Avanaram sobre as tbuas da ponte; as ferraduras de Barba-rossa produziam um som cavo, que ecoava ao longo do precipcio rochoso, l em baixo. Diante deles, sobre 
a sua plataforma elevada coberta de erva, flanqueada por rvores que cresciam ao longo dos dois lados das escarpas, a igreja de Parfois erguia-se para o cu como 
uma lana dourada. A luz harmoniosa infiltrava-se em todos os desenhos esculpidos na pedra que enquadrava o prtico e o grande vitral de Leste, e fazia vibrar as 
linhas puras da torre como se fossem as cordas de uma harpa.
Foi para aqui que ele avanou, naquele dia, pensou Isambard, mergulhado nas suas trevas. Ela segurava-lhe na mo e, de sbito, soltou os dedos e deixou-se ficar 
para trs. Disse-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele olhou para o alto. Vi claramente o rosto dele, ainda hoje o vejo, admirado e encantado com a sua obra. E depois 
tombou. Tombou aqui, precisamente aqui, e ela amparou-o nos braos e caiu ao cho com ele, apertou-o contra o corao enquanto ele morria. Levou to pouco tempo 
a morrer, mal deu tempo para ela o beijar na boca. Quando o tirmos de cima dela, j nada podia atingi-lo. Despimo-lo junto ao rio. Nu e de pele tisnada, parecia 
um daqueles camponeses das margens do Severn, que aprendem a nadar ao mesmo tempo que aprendem a andar. Esguio, musculado, jovem. E morto.
- Passa-se alguma coisa, senhor? - perguntou Harry, olhando para o perfil de falco, ao seu lado, surpreendido pelo aperto da mo delgada que se cerrara sobre o 
seu brao.
- Nada, Harry. Estava a lembrar-me do passado. Os velhos costumam fazer isso.

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A sua voz continuava a assumir um tom sardnico, quando se referia a si mesmo como um velho. Apesar de todos os golpes que recebera, o seu corpo recusava-se a admitir 
que perdera a juventude. Entre os dois havia ainda uma morte e a profanao de uma sepultura. Talvez o assunto viesse a ser abordado e, apesar de no lhe agradar 
saldar essa conta no momento em que iam separar-se, Isambard no se esquivaria. Mas Harry caminhava ao seu lado em silncio, alinhando as passadas geis de jovem 
pelas passadas calculadas e cautelosas do seu companheiro, desviando-o das pedras e obstculos do caminho. Barbarossa aspirava o ar fresco da manh e resfolgava 
de alegria.
Quando se aproximaram da torre, da cicatriz plida dos alicerces, rodeada pelas muralhas nascentes, ouviram as vozes dos pedreiros, o arranhar das ps na argamassa, 
o som do martelo e do escopro contra a pedra. Encontrava-se ali muita gente: algumas pessoas da casa, alm dos operrios e dos guardas. De Guichet estava l, a falar 
com mestre Edmund. Isambard distinguiu-lhe a voz entre as outras e sorriu. De Guichet esperava a chegada de um homem e no a partida de outro.
- Quando a encontrares, diz-lhe que todas as suas dvidas esto saldadas. Sabes qual  o caminho por onde vir?
- De Aber at aqui s h um caminho bom e directo, senhor.
- ptimo! Ento, posso deix-la nas tuas mos, em segurana. J chegmos ao posto da guarda?
- Faltam umas cinquenta jardas, senhor.
- Leva-me para l do posto, antes de montares, Harry. Quero levar-te alm dos limites do meu senhorio. Que ls tu nas caras deles?
- Penso que ainda vos temem, senhor. Continuam o que estavam a fazer, mas esto a olhar para ns pelo canto do olho. Os guardas afastaram-se para vos dar passagem.
Por conseguinte, ainda era o seu senhor, ainda inspirava receio. E eles ainda no tinham a certeza, a certeza total, quanto ao lado para o qual iria soprar o vento.
- Ainda bem. J passmos?
- Sim, senhor.

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- Ento,  aqui que nos despedimos.
Pararam, estranhamente indecisos. Impaciente, ansioso por galopar, Barbarossa puxava pela rdea. Harry voltou-se, para o acalmar.
- Esto todos a olhar para ns. Alguns pararam de trabalhar. Penso que esto simplesmente surpreendidos.
- Deixa-os estar. Salta para a sela e galopa. No percas tempo. Que Deus te acompanhe. E apresenta os meus respeitos a Madonna Benedetta.
Harry virou-se para montar, mas no foi capaz. Olhou por cima do ombro e voltou atrs, com o corao dividido.
- No posso, senhor...
- Que fedelho mais arrogante - ralhou Isambard. - Pensas que ningum pode passar sem ti? Vai-te embora. No preciso de ti...
Com a sua figura ainda imponente, activa, cuidadosa e ricamente vestida, de rosto acabado de barbear, Isambard conseguira, at ao momento derradeiro da despedida, 
imprimir a todos os seus movimentos a segurana de algum cuja viso se mantivera intacta. Mas, de sbito, vacilou, deu um passo repentino para diante e, no gesto 
impotente de um cego, ergueu uma mo hesitante para o prisioneiro que partia. E, esquecendo tudo menos que aquela mo procurava o seu rosto, Harry agarrou nela e 
guiou-a para a face. A outra mo juntou-se  primeira, sem ajuda, e segurou-lhe o rosto. A bela cabea de perfil de falco inclinou-se e os seus lbios duros e cobertos 
de cicatrizes, afloraram ligeiramente a face do rapaz.
Mudo e tremente, Harry aceitou aquele beijo de parente e, quando Isambard o soltou, avanou impulsivamente o rosto para o retribuir, com o ardor desajeitado de uma 
criana.
- Que Deus vos guarde, senhor.
Nada mais. Nem uma palavra. Explicar era impossvel, justificar-se no era necessrio e a compreenso encontrava-se algures dentro de si, no fundo do corao; quisesse 
ou no, tornara-se parte de si e no podia ser posta em dvida. Colocou o p no estribo e montou. Barbarossa escavou alegremente o solo e lanou-se num galope desenfreado 
em direco ao vale; a deslocao do ar, avivada pela frescura matinal, fustigou a face de Harry, onde Isambard depositara um beijo.

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Haviam partido. Estava terminado. Agora, podia fixar a mente naquilo que ainda faltava fazer. O medo -, pelo menos no sentido em que o concebia - passara. Ainda 
ia disputar um jogo de vida e de morte mas, agora, as paradas estavam sob o seu controlo e o jogo no tinha mais importncia do que a que devia ter. Ficou  escuta, 
at o som das ferraduras sobre o cho coberto de erva se haver esbatido no vale. Ento, voltou-se e deu um passo na direco das torres da guarda avanada: de repente, 
sentiu-se s, sem luz e sem pontos de referncia, num cenrio uniforme e de pesadelo.
Tentou ouvir o som dos martelos, mas os martelos haviam parado; ficou  espera de ouvir vozes, mas estas haviam-se calado. Era preciso subir a encosta. Mas, ao tactear 
cautelosamente com a ponta do p, no foi capaz de determinar em que direco ficava a encosta. Perdera o seu guia e no tomara medidas para o substituir. Contudo, 
aquele silncio ocultava algo mais do que a curiosidade disfarada dos seus homens pelos seus movimentos e caprichos. A intensidade dos olhares deles pesava sobre 
Isambard. As palmas das suas mos ficaram cobertas de suor. Que haveria feito? Um gesto revelador, irrevogvel, que trara a fragilidade da sua situao. Porque 
eles sabiam que se encontrava impotente. Sabiam que estava cego.
Subitamente, compreendeu. Estavam todos a olhar para ele no momento em que levantara a mo e tacteara em busca do rosto de Harry. No fora isso e poderia manter 
a farsa, mesmo agora, chamar mestre Edmund, inventar um pretexto qualquer para o ter ao seu lado, de modo a poder servir-se dele durante a primeira etapa do trajecto 
de regresso, e depois levar consigo um dos homens dele. Mas era demasiado tarde; eles sabiam. Haviam acabado os fingimentos. Harry agarrara-lhe na mo, quando esta 
se desviara num gesto infeliz, e guiara-a para o rosto. Eu no disse que ele ainda havia de ser a causa da minha morte?, pensou.
Agora, podia escolher entre fazer o trajecto a tactear, perigosa e ridiculamente s, ou pedir ajuda, admitindo aquilo que eles j sabiam e a sua prpria perda. Tinha 
conscincia dos muitos espectadores

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que o observavam: nenhum comovido, muitos satisfeitos e nem um nico que acorresse a ajud-lo. Mesmo quando, num tom peremptrio, exigiu um ombro sobre o qual se 
apoiar, apenas o silncio e a imobilidade lhe responderam. Ento, apercebeu-se da medida da sua solido.
- Mestre Edmund! Onde est mestre Edmund? Um de vs que lhe diga que venha ter comigo! Mexei-vos!
Lentamente, contra vontade, mexeram-se. Apenas um homem, algures do lado dos alicerces da torre, deixou cair qualquer coisa que tinha na mo, que produziu um som 
de madeira contra a pedra da muralha nascente, e correu, num passo envergonhado, a segurar-lhe o brao. O contacto daquela mo revelou-lhe uma sensao desconhecida. 
Nunca, at ento, havia suscitado compaixo. Era necessrio um perodo de adaptao para a aceitar, mesmo naquela situao, mas Isambard conseguiu-o logo ao primeiro 
passo que deram juntos. O desconhecido conquistara o seu reconhecimento; s um ingrato lho haveria recusado.
- Por aqui, senhor.
A mo f-lo voltar-se e guiou-o para a parte menos acidentada do caminho.
- Apoiai-vos em mim. Quereis voltar para os vossos aposentos?
Uma voz afvel, de um homem ainda novo que, noutras circunstncias, haveria receado dirigir a palavra ao senhor de Parfois. Os passos cuidadosos que acompanhavam 
as longas passadas de Isambard eram de um homem baixo e o brao em que se apoiava era magro. Os olhos da mente que haviam nascido dentro de si elaboraram um retrato, 
a partir deste contacto: o de um homem novo, de trinta e quatro ou trinta e cinco anos, de altura inferior  mdia, aspecto modesto e simptico e modos suaves. No 
era pedreiro; faltava-lhe a musculatura e os seus dedos no possuam a destreza de quem est habituado a manejar ferramentas. A manga tinha a textura spera do burel, 
mas o pulso era macio.
- Meu amigo... - comeou Isambard.
Novas situaes requeriam um novo vocabulrio; o senhor de Parfois saboreava as lies da velhice com intensidade igual quela com que saboreara as da juventude.

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- Penso que devia conhecer-te. Ests ao meu servio h muito tempo?
- Perto de vinte anos, senhor. Tende cuidado aqui. H muitas pedras.
- Trabalhas na torre, no  verdade? Como escrevente, no ?
- Sim, senhor. -
Se trabalhava como escrevente havia vinte anos nas obras de Parfois, devia ser apenas um rapaz quando mestre Harry Talvace tombara, ferido pela flecha de Deus e 
de John o Frecheiro. Ali, naquele mesmo local, onde o sol matinal iluminava a esplanada verdejante antes da ponte. Houvera um rapaz na sala de desenho, um rapaz 
que andava sempre colado aos calcanhares de mestre Harry, envolvendo-o num olhar de adorao; limpava-lhe os pergaminhos, bebia as suas palavras e os seus golpes 
de cinzel como um idlatra e chorara a sua morte com um desgosto imenso. A delicadeza apaixonada de mestre Harry havia-se transmitido, trmula e muda,  mo que 
guiava o carrasco de mestre Harry de volta ao seu refgio.
- Agora j sei quem s - disse Isambard. - Chamas-te Simon, tanto quanto me lembro. Eras o escrevente dele.
- Era sim, senhor.
Como soubera Simon, sem pensar e sem fazer perguntas, quem era o "ele"? Respondeu prontamente, sem a menor surpresa perante a concluso do seu senhor. O Harry est 
to vivo para ele como para mim, pensou Isambard, espantado. E  igualmente intemporal.
- Chegmos  ponte, senhor. Levantai um pouco mais o p. Mestre Edmund nada fizera para promover Simon. O velho
mestre sempre manifestara averso por aqueles que, outrora, haviam sido prximos de Harry, pensou Isambard. E, enquanto atravessavam o terreiro exterior, ocorreu 
a Isambard reparar essa injustia menor. Todavia, ao chegar diante da porta, a lucidez levou-o a concluir, com clareza, que os seus favores j no fariam nada por 
ningum, a menos que fosse empurr-lo para uma morte prematura.
Nos velhos tempos, Isambard costumava contemplar, do alto da cobertura de chumbo da torre, as colinas azuladas do centro do Pas de Gales, que se estendiam, em direco 
a Oeste, para l do vale

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largo e verde, entrelaado de prata; Pool, a montante, e Strata Marcella, a jusante, defrontavam-se  luz do sol, pedra cinzenta contra pedra cinzenta. Agora, apesar 
da cegueira, um pouco da antiga sensao de liberdade apoderou-se dele. O vento soprava das altas turfeiras e dos brejos de garas das terras altas e trazia consigo 
o cheiro das urzes e das ervas murchas do Outono, cujas sementes haviam amadurecido e cado para a terra.
Algures, para alm daquelas formas fluidas de nuvens e neblina que guardava na memria, Benedetta e Harry cavalgavam agora lado a lado, sem pressas, a caminho de 
casa. No regresso a Parfois, Walter no encontrara Harry, porque viera por Shrewsbury, para colher novas das manobras insidiosas do rei Henrique em Usk. Mas decerto 
que, por aquela altura, a mulher e o jovem estariam j perto de Aber. O corao de Isambard estava descansado quanto a eles.
Walter relatara fielmente aquilo que no compreendia:
"Entreguei-lhe o anel e penso que Madonna Benedetta ficou contente, at lhe haver contado o que acontecera ao seu servo. Ficou calada durante muito tempo, mas no 
chorou nem clamou. Disse que assumia a culpa pela morte dele, que deveria haver sido franca com ele. E tambm disse que haver tempo para falarem nisso."
Mais nada. O resto guardara para quando viesse e prometera pr-se a caminho, logo que tomasse algumas providncias quanto ao velho que morava perto da sua casa. 
Agora, nunca ouviria o que ela tencionava dizer-lhe. Poderia ter havido tempo para falarem de todas as coisas que se encontravam em suspenso entre ambos mas, agora, 
j no era possvel. Pelo menos neste mundo.
Tanto melhor. Ela estava a salvo e havia recuperado o ser que lhe era to querido. Quanto a ele, a casa do seu esprito estava arrumada e a fortaleza da sua solido 
bem aprovisionada. Walter fora enviado para Fleace, a pretexto de preparar a chegada prxima do seu senhor; Simon, o escrevente, fora com ele, recomendado para entrar 
ao servio do canteiro Humphrey Paunton, que trabalhava no novo salo do castelo. Mais um inocente afastado, posto a salvo dos golpes perdidos que podiam cair sem 
olhar onde. Nos dias que se seguiriam, Parfois no seria um local seguro para pessoas que se

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compadecem dos seus inimigos, quando estes ficam velhos e cegos, e os levam pela mo, evitando os caminhos mais perigosos.
O vento tornou-se mais frio e Isambard afastou-se da sua contemplao cega do Pas de Gales. Os degraus superiores da torre eram estreitos e estavam gastos. Em geral, 
era um dos pajens que o levava l acima e depois ficava  espera de que ele o chamasse para descer. Mas, naquele fim de tarde de finais de Setembro, Isambard chamou, 
mas nenhum pajem acorreu.
Esperou e voltou a chamar, menos pacientemente. Apurou o ouvido, mas no escutou qualquer rudo de passos, qualquer voz que lhe respondesse. Mas havia outros sons, 
que subiam do terreiro, numa lenta espiral de esplendor. O rudo cerimonioso de ferraduras em procisso, um murmrio de vozes excitadas e impacientes. Tudo ao longe, 
tudo no mundo l de baixo. Um som filtrado por acres dourados de ar. Chegara uma companhia. Os jovens da casa continuavam a sair a cavalo e a caar. Todos os dias, 
havia grande actividade de cavaleiros no terreiro exterior e junto s cavalarias. Mas estes sons eram diferentes, estranhos e alegres.
Esperou que lhe viessem contar o que se passava mas ningum apareceu. No ficou surpreendido nem despeitado, porque j no esperava nada. Passado um bocado, contente 
por o servo que devia acompanh-lo haver desertado para correr a juntar-se aos outros no terreiro exterior, encontrou o caminho at  porta, tacteando ao longo dos 
merles, e comeou a descer sozinho. Degrau a degrau, com a devida ateno aos degraus gastos, demorou bastante tempo a descer os primeiros lanos, mas no tinha 
importncia. Dispunha de muito tempo.
Entre as paredes espessas, estava isolado do mundo e os nicos sons que ouvia eram os produzidos pelo seu prprio corpo: os seus ps pisando cautelosamente os degraus 
de pedra, gastos, a respirao regular, as batidas cadenciadas do corao dentro do peito descarnado. Diante de cada seteira do poo da escada, uma corrente de ar 
fresco e doce acariciava-o e, em cada novo patamar estreito, a obscuridade parecia mais densa. Agora, j no distinguia formas nem sombras. A escurido era total.
Ao chegar ao nvel dos seus aposentos, estacou, de ouvido  escuta, a cabea lanada para trs. Dentro da torre, no havia agitao

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nem vozes. Do exterior, chegava at ele um rudo abafado, no qual transparecia ainda uma certa nota de excitao. Em seguida, perto de si, sentiu mais do que ouviu 
os movimentos ritmados de uma respirao. No a sua, cujo ritmo conhecia agora intimamente. Vinha de uma diviso prxima, cuja porta se encontrava aberta. Uma respirao 
pausada. A regularidade e calma daquela respirao indicavam que quem ali se encontrava tinha conscincia da sua presena.
Isambard tacteou ao longo da parede e atravessou o espao at  entrada do seu quarto. A porta que ele fechara ao sair, cerca de uma hora antes, estava semiaberta. 
Abriu-a por completo e entrou, sem se esconder e em passadas seguras, porque, ali, conhecia todos os ns e irregularidades das tbuas do cho. Com toda a calma, 
caminhou at ao centro do quarto e, lentamente, voltou o rosto imperioso, aquela lanterna apagada de ossatura magnfica, para a esquerda e para a direita, at se 
fixar na direco onde sentira uma presena palpvel. Ento, imobilizou-se, seguro de si, com uma calma infinita, e sorriu ligeiramente.
Estava algum sentado no seu cadeiro, num acto de usurpao que, pelo menos, assinalava o fim do fingimento. O seu sorriso acentuou-se. Sem pressas, ponderou sobre 
as identidades possveis do usurpador. Uma respirao forte e confiante, a sensao de volume, de um corpo de boa estatura e robusto; mas pouco -vontade sob o olhar 
cego, pois mexera-se ligeiramente sobre as almofadas, at que, num movimento que surpreendeu e fez rir Isambard, se ps de p. Ento, Isambard pensou hav-lo reconhecido. 
Ocupar a cadeira do seu senhor e, em seguida, abandon-la, coadunava-se perfeitamente com o seu carcter e era bastante revelador.
- De Guichet? - perguntou, desapontado e desdenhoso.
- No - respondeu uma voz, vinda das trevas diante de si, uma voz suave, sorridente, controlada. - No  de Guichet.
- Ah, s tu? - observou Isambard, com um longo suspiro de contentamento. - Meu bom e querido filho. Porque demoraste tanto? H dez dias que estou  tua espera.

CAPTULO SEIS

Aber: Outubro de 1233

O SANTO CLYDOG ACORDOU RENITENTEMENTE do seu longo sono e deparou com um cu encoberto por nuvens baixas e cinzentas sobre Moei Wnion, o gemido desolado e distante 
do mar, uma cabana vazia, uma lareira apagada, um corao desabitado e um jovem muito agitado, acocorado diante de si sobre a erva alta. O jovem segurava-lhe os 
joelhos com umas mos grandes e tisnadas e fitava-o com uns olhos suplicantes que ele j vira em tempos, num outro rosto. Uma voz desesperada martelava insistentemente 
os seus sentidos relutantes, repetindo um nome, obstinada, suplicante, ameaadora, sedutora, arrastando-o de volta para um mundo de que o santo j no queria saber. 
Tentou tapar os ouvidos e fechar o esprito, mas aquelas mos agarravam-no cruelmente, enquanto a voz batia como o punho de uma adaga nas portas fechadas, recusando-se 
a deix-lo em sossego.
- Onde est Madonna Benedetta? Ouvi! Ajudai-me! Preciso de a encontrar. Onde est Madonna Benedetta?
O velho abriu os olhos e, com uma dor infinita, regressou aos frgeis limites do seu corpo, aquela pequena gaiola onde, com o corao prestes a explodir, a grande 
ave esvoaava fracamente, com

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as asas dobradas e o corao prestes a explodir. Ento, lembrou-se daquele rosto: era o rapaz por causa de quem Benedetta partira.
- Foi-se embora - respondeu, encolhendo-se sob as mos jovens que o apertavam, inconscientes da prpria fora.
- Eu tenho olhos, j percebi que ela se foi embora.
A manta spera estava dobrada em cima da estreita enxerga de palha, a pedra da lareira estava fria, a janela em arco voltada para Sul estava fechada.
- Quando partiu? Porque foi que no me cruzei com ela no caminho?
Ajoelhado sobre as ervas, Harry prendia os joelhos idosos do santo entre as duas mos e perscrutava-lhe o rosto, que no passava de uma mancha fluda e acinzentada, 
sob a barba que fazia lembrar uma sebe de cardos, iluminada por dois olhos azuis plidos e distantes.
- Ajudai-me, meu bom santo! Preciso de a encontrar. Trago uma mensagem para ela.
- Foi para Parfois - disse o santo Clydog, numa voz subitamente clara e alerta. - Esteve aqui um escudeiro com uma resposta  mensagem que Benedetta havia enviado. 
Ela pediu um rapaz para cuidar de mim e, depois, seguiu viagem.
- Para Parfois? Mas eu venho de Parfois. Perguntei por ela em todas as quintas e hospedarias do caminho e ningum sabia de nada. No passou por aquela estrada. Pensei 
que ainda estivesse aqui.
Harry debruou-se sobre o santo e agarrou-lhe nas mos, pequenas e frgeis como borboletas, que este tinha pousadas no colo.
- Foi sozinha? Por certo que levou uma escolta de Aber! O prncipe nunca a deixaria...
Harry interrompeu-se a meio da pergunta. Melhor do que ningum, Benedetta sabia o que o prncipe a deixaria ou no fazer. V-la abandonar o seu retiro voluntrio 
seria o mesmo que ver o Sol inverter o seu curso do znite para a aurora. Os seus mais nfimos movimentos suscitariam uma torrente de perguntas.
- Ela nem sequer se aproximou de Aber - acrescentou em voz alta, amargurado, furioso com a sua prpria estupidez. - Dizei-me depressa, bom santo, que caminho tomou 
ela? Quem a acompanhou?

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Em Aber, nem sequer deveriam saber que Benedetta partira.
- Foi pela estrada da montanha, por Bangor - respondeu o santo Clydog, olhando por cima da cabea do jovem, como se estivesse a v-la caminhar pela encosta da montanha. 
- Pediu ao bispo Martin um rapaz para cuidar de mim e, para ela, um cavalo e um servo a cavalo para a acompanhar at Parfois. E no voltei a v-la. Mas o rapaz veio 
ter comigo. Est l em baixo, junto ao regato, a pescar.  um bom rapaz, embora jovem e estranho. Eu estava habituado ao John o Frecheiro - acrescentou, pensativo.
- Ento, ela foi pela estrada que sai de Bangor?
O que queria dizer que, depois de Dolgynwal, seguiria pelo mesmo caminho por onde Harry passara a toda a brida. Se Benedetta houvesse partido um dia mais cedo ou 
ele um dia mais tarde, haver-se-iam por certo cruzado.
- Quando foi que ela saiu daqui? - perguntou Harry, puxando violentamente pela manga castanha. - H quantos dias?
- H trs dias... ou seriam quatro? Estava a chover, quando ela partiu. Choveu durante dois dias e, depois, o Sol voltou. Isso foi ontem. Portanto, foi h quatro 
dias.
- E o rapaz... quando chegou ele?
- Ao cair da noite, um dia depois de ela me deixar.  um bom rapaz. Sossegado - acrescentou o santo Clydog, deixando inconscientemente cair tnues lgrimas de velho 
sobre a barba emaranhada. - Onde h mulheres, no h paz. Esto sempre a ir e vir. Eu sempre soube que ela no passaria aqui o resto da sua vida.
Harry ergueu-se sobre a relva como um pssaro prestes a levantar voo. Supondo que dormira uma noite em Bangor, antes de se pr a caminho, Benedetta levava apenas 
trs dias de avano. Por certo que se encontraria agora para l de Dolgynwal, enquanto ele corria para ali, seguro de que se cruzariam no caminho directo. Ainda 
podia alcan-la. Virou-se para agarrar nas rdeas de Barbarossa mas, lembrando-se das boas-maneiras, voltou impulsivamente para trs a fim de se ajoelhar diante 
do santo e pedir a sua bno.
- Rezai por mim, senhor! Para que eu a encontre a tempo! A mo enrugada tocou-lhe na cabea e ali ficou por um momento, como uma folha seca enleada nos seus cabelos 
despenteados.

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-A tempo para quem? - perguntou o santo Clydog, com tristeza. - Para Deus ou para ti?
Harry desceu a encosta escarpada ao longo do curso de gua e a silhueta imponente do castelo do prncipe surgiu diante dos seus olhos, recortada contra as colinas, 
dominando a estreita faixa de rias e prados acima do nvel do mar. A linha escura e extensa da muralha circundava o salo, os estbulos e as zonas residenciais, 
a cozinha, os canis e as cavalarias, a torre baixa dos aposentos reais sobre os subterrneos espaosos e a torre de menagem em madeira sobre o aterro elevado. Fora 
da muralha estendia-se a aldeia, encostada a esta para se proteger, e o ribeiro envolvia o castelo numa fita prateada, antes de se lanar no mar. O corao de Harry 
agitou-se-lhe no peito, sfrego por se encontrar ali.
Poderia ter feito Barbarossa dar a volta e percorrido mais uma vez o caminho por onde viera. Mas ocorreu-lhe a tempo que iria precisar de ajuda e que mais homens 
em cavalos mais repousados tinham maiores hipteses de sucesso. A primeira coisa a fazer, antes de voltar a pr-se a caminho, era contar toda a histria a Llewelyn. 
No haveria a recear a necessidade de longas explicaes, nem de interrupes por pura incompreenso. O seu pai adoptivo apreendia as situaes com a mesma facilidade 
com que as rvores se inclinam para o Sol. Bastar-lhe-ia dizer aquilo de que precisava e as explicaes ficariam para um momento mais oportuno.
Depois do moinho, a estrada alargava e era menos inclinada. Harry esporeou o cavalo e franqueou a poterna a trote moderado. O peso do desafio que o esperava dissipou-se 
perante os gritos de reconhecimento e alegria.  medida que ia passando, inclinava-se para apertar a mo a velhos amigos, gritando-lhes que estava com pressa. O 
escuro portal da alta muralha de madeira engoliu-o, devolvendo-o  luz do dia no terreiro, onde parou diante do salo.
Uma mulher que se encontrava perto do poo reconheceu-o, largou o cntaro e partiu a correr, para espalhar a nova. Acorreram muitos homens, homens com quem Harry 
praticara luta, subira s montanhas e brincara desde a infncia, que o cercaram, fizeram

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apear do cavalo, crivaram de perguntas, tocaram, passando-o de uns para os outros com gritos de jbilo. Harry afastou-os, sufocado.
- O prncipe... primeiro preciso de falar com o prncipe. Preciso mesmo! No me retenhais!
Algures no fundo do seu corao, uma criana turbulenta chorava de alegria e emoo e ansiava por ir ao encontro da me, no do prncipe. Mas iria ter de esperar.
Harry lanou-se numa corrida em direco aos degraus do salo, mas as vozes e as mos orientaram-no para os aposentos privados de Llewelyn, e muitos correram atrs 
dele para o acompanharem com as suas aclamaes. Levado pela impacincia, Harry acabou por se distanciar deles e chegou  porta da torre do prncipe sozinho. Subiu 
as escadas em quatro passadas largas, como um co de caa, abriu a porta pesada da sala de audincias privada, atirando-a contra a parede, e ficou face a face com 
Llewelyn.
Os trs homens sentados  mesa - de cabeas juntas e expresses graves e concentradas - levantaram a cabea ao mesmo tempo, espantados e preocupados. Um deles, um 
desconhecido, levou a mo  adaga com uma rapidez e uma destreza espantosas. Ednyfed Fychan ps-se de p, de sobrolho franzido, e abriu a boca para interpelar aquele 
intruso sem maneiras. Llewelyn, que se encontrava de costas para a porta, voltou a cabea com um trejeito de desagrado e de impacincia; mas, numa fraco de segundo, 
o seu rosto iluminou-se e ele soltou um brado:
- Harry!
Violentamente empurrada para trs, a cadeira bateu contra a parede e Llewelyn correu para Harry, de braos abertos, para o apertar contra o peito.
Harry correu tambm, lanou-se aos ps do prncipe, agarrou-lhe na mo direita que beijou fervorosamente e, por um instante, encostou a cabea aos joelhos de Llewelyn, 
antes de ser agarrado pelos braos e erguido do cho.
- s tu, Harry? s mesmo tu?
Os braos compridos estreitaram-no contra o peito largo, vestido de brocado. Harry sentiu as batidas fortes do corao do prncipe pulsarem no seu prprio corpo, 
abalando-o at  medula dos ossos.

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Os lbios barbudos de Llewelyn beijaram-lhe a face e a testa, as suas mos afastaram-no para poder devor-lo com os olhos negros e penetrantes, que brilhavam de 
riso e de prazer. Uma palma forte ergueu-lhe o queixo, para poder ler-lhe no rosto.
- Levanta-te para te podermos ver, rapaz. Deixa-me olhar bem para ti. Bem, juraria que ests mais alto do que o Owen e quase a apanhar o David!
Voltando-se para o seu senescal, ordenou, de olhos brilhantes:
- Correi, Ednyfed, ide chamar a minha senhora e dizei-lhe que traga a dama Gilleis consigo... dizei-lhe que o Harry est aqui, so e salvo. Chamai tambm o David 
e o Owen... e o Adam Boteler, se conseguirdes encontr-lo. Depressa!
Em seguida, dirigindo-se ao desconhecido, que se afastara cortesmente para um canto da cmara e que os observava com um sorriso grave e interrogativo, acrescentou:
- Perdoai-nos, mas no  todos os dias que se recupera um filho. Este  o meu filho adoptivo, Harry Talvace, que h muito se encontrava prisioneiro de Ralf Isambard, 
em Parfois. H quase dois anos que no o vamos e nunca houve uma palavra ou um sinal de que poderamos voltar a v-lo entrar por aqui dentro, desta maneira... to 
impetuoso como sempre. Sada Alan Delahaye, meu filho.  o enviado do conde de Pembroke.
Harry fez uma vnia e apresentou as suas desculpas, ainda mais excitado e confuso pela meno do conde marechal. Que poderia Pembroke querer discutir com o prncipe 
de Aberffraw que no fossem questes da paz e da guerra?
- Peo-vos que me perdoeis por vos haver interrompido to abruptamente, senhor. No deveria haver-me permitido entrar aqui sem ser anunciado, mas h um assunto que 
no pode esperar. Posso falar, senhor? - perguntou, dirigindo-se ao prncipe.
- Podes e deves - respondeu Llewelyn. - Estou  espera de te ouvir. A que devemos o prazer de te ter de volta? Ests livre de vez? Fugiste?
- Seria o primeiro a fugir de Parfois - observou Delahaye, num tom seco.
- No, no fugi.

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Ao todo, tentara sete vezes e no era preciso nenhum ingls para lhe ensinar que Parfois era inexpugnvel.
- Ele libertou-me, mas...
- O qu? Ainda h algum "mas"? Que foi que Isambard engendrou desta vez, para te magoar? Se as coisas continuarem assim, sou eu quem vai ajustar contas com ele.
- No  o que supondes, senhor. Mas fui encarregado de uma misso que ainda no pude cumprir e, at l, no estou livre. Madonna Benedetta... partiu do seu retiro 
e preciso de a encontrar.
- A Madonna Benedetta saiu do seu retiro? O que vem a ser isso? Uma misso? Ele encarregou-te de uma misso? - vociferou Llewelyn, caindo sobre aquela palavra como 
um falco sobre a sua presa. - E junto dela!
Voltou para a sua cadeira e obrigou Harry a sentar-se num tamborete, aos seus ps, sem lhe soltar as mos.
- Conta-me!
Harry respirou fundo e contou a histria toda. As mos grandes e poderosas do prncipe nunca soltaram as suas, no estremeceram nem se crisparam.
Contudo, antes de a histria ter terminado chegaram aqueles que o prncipe mandara chamar, ansiosos por confirmar com os prprios olhos que Harry estava de volta, 
por lhe tocarem e por o abraarem. Gilleis parecia vir a voar, com as saias puxadas para cima como uma rapariga endiabrada, e lanou-se sobre ele, numa torrente 
de lgrimas de alegria e incredulidade. Harry abraou-a sem interromper a sua histria e Llewelyn soltou-o, continuando a escut-lo com toda a ateno. Gilleis ajoelhou-se 
ao lado do filho, beijou-lhe a boca entre duas palavras entarameladas e ficou abraada a ele at ao fim da histria. Em seguida, entraram Owen, radiante com a boa 
nova, e David, corado e de olhos brilhantes de alegria, depois apareceu Adam Boteler, que se inclinou e beijou docemente a testa do enteado. Por fim, chegou a princesa 
e o jovem, distrado, ia erguer-se para se ajoelhar aos seus ps, mas Joan levantou a mo, indicando-lhe que se deixasse estar onde estava, e ele beijou-lhe as pontas 
dos dedos entre as slabas do nome de Benedetta.

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- Cometi um erro. Agi demasiado depressa e sem pensar. Se houvesse cavalgado mais devagar, por certo que me haveria cruzado com ela no caminho. Como vedes, preciso 
de voltar para trs, no posso descansar enquanto no a encontrar e trouxer para casa. Oh, me, permiti que me ausente por mais uns dias...
Gilleis f-lo calar, poisando-lhe a palma da mo sobre os lbios. A altura de Harry e a largura dos seus ombros, a penugem castanho-dourada do seu queixo e a sua 
voz grave, a expresso dos olhos, mesmo quando lhe sorria por entre as lgrimas, perturbado pelo acolhimento caloroso de que estava a ser alvo, haviam-lhe indicado 
que, se quisesse conserv-lo, teria de lhe dar liberdade plena e total. Os anos que perdera nunca poderiam ser substitudos. E mesmo aqueles que iria ganhar agora 
seriam, em breve, demasiado cedo, cedidos a outra mulher. Mas cada coisa a seu tempo. Harry estava livre, era senhor de si prprio e, para que tanto o corao dele 
como o seu encontrassem a paz, era preciso encontrar Benedetta.
- Cuidas que h alguma coisa que eu possa negar a Benedetta? Vai com a minha bno. Eu prpria iria, se conseguisse ser mais rpida do que tu.
- Deixa-me ir a mim, no teu lugar - ofereceu Owen, vendo o cansao que se ocultava por trs do brilho ardente dos olhos de Harry. - Tu no descansaste. J dormiste, 
depois de haveres sado de Parfois?
- Deixa-o ir - interveio Llewelyn, que conhecia bem os jovens. - Esta misso  dele e no tua. Vai com o David escolher seis homens valentes que conheam a mulher 
santa e cuida de lhes arranjar boas montadas.  melhor mandar dois pelo caminho de Bangor Hal, para lhe seguirem a pista na estrada que tomou. E levas os outros 
quatro contigo, pelo caminho da montanha, para apanhar a estrada em Dolgynwal. Se conseguires saber que ela passou por ali, tanto melhor. Se no, segue em frente 
com dois homens e os outros que se juntem aos que vo por Bangor, at obterem a confirmao da sua passagem. Levareis uma ordenana minha, para obterdes os cavalos, 
os homens e a ajuda necessria, at  fronteira. Vai. Vai  cavalaria escolher um cavalo e podes pedir tudo o mais

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que quiseres ou precisares. Com a ajuda de Deus, no havemos de perder Benedetta.
- Um bom rapaz - disse Llewelyn, pensativo, olhando para a porta que acabara de se fechar. - Apesar dos seus defeitos,  um dos melhores rapazes que j conheci.
- Segundo parece, um dos melhores aliados do rei na vossa fronteira est a braos com problemas prprios mais do que suficientes - observou Delahaye. - Se decidirdes 
avanar para Sul, senhor, e aliviar o flanco das tropas do conde nada havereis a recear de Parfois.
- Parfois no me faz medo. Jurei perante Deus que, quando chegasse a altura, conquistaria e destruiria Parfois para vingar os Talvace.,. pai e filho. E no estou 
a ver nada que me liberte dessa jura. O filho est livre, mas o pai est morto e a sua sepultura foi violada. Ainda assim... cego! - disse Llewelyn, abanando a cabea 
e franzindo o sobrolho. - Preferia que Isambard estivesse em plena posse das suas faculdades.
- No precisais de o atacar, a menos que o desejeis - observou Delahaye. - Para ns basta que Isambard esteja fora de jogo; parece que o pobre diabo que ele matou 
tratou disso. O conde preferiria que imobilizsseis Brecon, deixando-lhe assim as mos livres para limpar o vale do Usk. Todavia, se optardes por cumprir o vosso 
juramento, o facto de vos juntardes a ns dar-vos- pelo menos essa oportunidade.
- No acreditais que seja possvel? - perguntou Llewelyn. Os seus olhos reflectiram um brilho dourado, como os de um
falco, e ergueu a cabea com altivez, como se contemplasse com prazer antecipado a doce tentao de um feito quase impossvel. Mas expulsou a tentao do esprito. 
Havia outras consideraes a ter em conta. Se partisse para a guerra pela ltima vez - e seria por certo a ltima vez, pois os derradeiros anos da sua vida teriam 
de ser totalmente dedicados a consolidar o reino que forjara para o filho - teria de ser por razes mais srias do que a satisfao de um desejo pessoal e pueril. 
Havia ainda coisas a conquistar e a acrescentar  herana de David: era necessrio consolidar mais firmemente

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a sua posio como vizinho da Inglaterra e afirmar de forma incontestvel o seu direito de nascimento. Os Ingleses possuam um gosto notrio e um grande apreo pelos 
precedentes e pelos princpios de direito e do costume; era por essa tradio que Pembroke lutava, fossem quais fossem os erros pessoais que haviam desencadeado 
aquela guerra inesperada. Por ela e por um modelo de integridade nas relaes entre os homens e os governantes, to solidamente estabelecido e respeitado que seria 
impossvel um rei cata-vento desrespeit-lo.
Para alm de todas as outras razes de interesse, era esta a razo decisiva e irrefutvel para aceitar a proposta de aliana de Pembroke: ao contrrio do rei Henrique, 
Pembroke havia por si a razo. Para alm da atribuio das culpas menores, como quem desferira o primeiro golpe ou quem sofrera o primeiro revs, olhando o conflito 
no seu conjunto, Pembroke estava dentro da razo.
- Deus dispe, senhor - disse Delahaye, sorrindo. - Eu no diria que haja alguma fortaleza que no possa ser conquistada.
O pensamento de Llewelyn estava j to longe da questo do carcter inexpugnvel de Parfois que lhe foi necessrio algum esforo e alguma reflexo para voltar a 
ela.
- Duvido que a questo alguma vez venha a pr-se - disse, um pouco decepcionado. - Se Deus quiser, o Harry h-de trazer a Madonna Benedetta de volta s e salva e, 
ento, j no haver nada que justifique atacar Parfois. Deus, que tudo ordena, ter de decidir o que fazer de mim e do meu juramento. Um arqueiro armado com uma 
mo-cheia de cal viva pode revelar-se to eficaz como um anjo armado de uma espada flamejante. - Afastando resolutamente estes pensamentos perturbadores, Llewelyn 
acrescentou: - Estais seguro de que o aviso que o conde recebeu, quando ia a caminho do Sul, para o Conselho, e que o fez voltar a Gwent...  fundamentado? O rei 
hav-lo- destitudo? Havia-lhe dado garantias h to pouco tempo que no podem haver sido j esquecidas.
- O rei tambm deu garantias a de Burgh, sob juramento prestado sobre a relquia de Bromholm, menos de um ms antes de o derrubar como quem derruba uma rvore. E 
quem mandou o aviso disse a verdade sobre as intenes do rei quanto a Usk. O tempo

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estipulado j passou h muito e ele no fez sequer meno de devolver o castelo. E isto era algo que tambm havia garantido. Uma boa medida para o valor das suas 
promessas.
- Isso  certo. Mas, apesar de o rei no haver conseguido conquist-lo - acrescentou Llewelyn com um sorriso radioso - Usk no  inexpugnvel.
- Penso que foi por isso que Turbeville de l saiu e o conde conseguiu recuperar aquilo que lhe pertencia. Cansou-se de esperar que Henrique cumprisse a palavra 
dada. Todavia, o descrdito do rei  tal - comentou Delahaye, raivosamente - que nenhum homem honrado pode deixar de pr em dvida a sua palavra. Talvez isso no 
seja verdade em todos os casos, mas ningum ousaria correr o risco, com receio de que pudesse ser verdade. A que ponto chegou a coroa, para se poder dizer isto sobre 
ela!
Um homem no  necessariamente melhor advogado de uma causa por acreditar apaixonadamente nela. Mas a sua confiana ou a sua aliana estreita com Richard Marshall 
dotara Delahaye de uma convico que, aos ouvidos de Llewelyn, suplantava a eloquncia. Havia uma outra prova, que se podia comparar  primeira, e o contraste era 
notrio. Se Pembroke lhe houvesse feito uma promessa, mesmo sem jurar sobre o crucifixo de Bromholm ou sobre qualquer outra relquia, ele, Llewelyn, acreditaria 
sem hesitar no seu cumprimento. E se algum o viesse advertir de que Pembroke se preparava para o trair, na sua prpria corte, ele haver-se-ia rido e seguido o seu 
caminho sem hesitar. A prova da honestidade de qualquer homem  poder-se apostar a prpria vida nela. Quem apostaria a vida na honestidade do rei Henrique?
Ainda estava a tempo de reconsiderar. Se se aliasse a eles, segui-los-ia at ao fim. No haveria condies separadas, no haveria uma paz separada. Que aconteceria 
se todos os senhores das Marcas tomassem o partido do rei? Que aconteceria se Henrique mandasse vir cada vez mais mercenrios estrangeiros, como o conde de Guisnes 
e os seus Flamengos? Des Rivaulx velara por que todas as fontes de receitas convergissem para as suas mos e, enquanto detivesse o cargo, Henrique podia permitir-se 
comprar tropas no estrangeiro. Bem financiado, o rei faria tudo quanto

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estivesse ao seu alcance para impor o seu domnio, libertando-se do Conselho, do costume e da tradio. E, se levasse a melhor, trataria os seus inimigos sem piedade.
Era preciso pensar no fim do conflito antes de este comear. No era a sua prpria vida nem o seu prprio destino que estavam em jogo agora; era o reino de David, 
o sonho do Pas de Gales. Se se aliasse a eles agora, segui-los-ia at ao fim, venceria ou seria derrotado com eles. Seja! E agora, pensou, satisfeito com a sua 
deciso, concentremo-nos nos pormenores, para sermos ns os vencedores e no os vencidos.
- Vou precisar de algum tempo para colocar o meu exrcito no terreno - disse, calmamente. - Mas no de tanto como Henrique ir precisar para reunir os senhores das 
Marcas. No fim do ms, estarei preparado para cobrir o flanco do vosso senhor contra um ataque lanado a partir de Shropshire e Herefordshire, sem deixar as minhas 
terras desprotegidas.
Feliz, entusiasmado e pronto para a aco, Llewelyn assentou as mos sobre a mesa e empurrou a cadeira para trs.
- Podeis dizer ao conde de Pembroke que a minha resposta  sim. Antes do fim de Outubro, anunciarei a minha aliana com ele e conduzirei Gwynedd para a guerra.
- Eu sabia que podamos contar convosco, senhor - declarou Delahaye, inflamado como uma fogueira de tojo.
Restava apenas garantir que seriam bem sucedidos. De olhos brilhantes, Llewelyn pensou nas semanas seguintes, avaliando as hostes de Corbett, Lacy e FitzAlan, nas 
suas fronteiras. Todas menos as de Parfois. Se Harry estivesse certo - Harry era bastante esperto e no lhe havia faltado oportunidade de avaliar a situao - Parfois 
abrigava no seu seio as sementes de uma guerra interna. Se Ralf Isambard mantivesse a sua posio, Henrique nunca o chamaria para o seu servio: no sabia avaliar 
os homens e no confiava nele. Mas se Ralf Isambard deixasse a sua autoridade escapar-lhe entre os dedos...
- Cego! - exclamou Llewelyn, chocado com a imagem inconcebvel de uma escurido total. - Deus sabe que nem nos piores momentos lhe desejei tal sorte!

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A brisa fria do cair da tarde sobre os contrafortes de Moei Wnion trazia consigo o odor salgado e o lamento melanclico da mar vazante sobre as areias de Lavan. 
Do outro lado do estreito, todos os sinos dos oratrios de Ynys Lanog repicaram, num coro tnue e hesitante, que era uma vaga reminiscncia de um sonho distante 
de sinos.
O santo Clydog estava junto  soleira da porta quando os ouviu e, por um momento, ficou ali parado, sem saber se lhe diziam que avanasse ou recuasse. O som possua 
uma doura semelhante  de uma promessa de felicidade, ainda que muito distante, mas tambm possua uma tristeza semelhante  da derradeira convulso de um desgosto 
no esquecido. O santo Clydog perscrutou a obscuridade, na qual palpitava a promessa de luz, mas os seus olhos eram ainda demasiado terrenos e no conseguia ver 
a claridade para alm dela. Olhou por cima do ombro, para o antro crepuscular, mas a sua viso fora j perturbada por aquela imagem de luz irreal e as formas do 
mundo real escapavam-lhe.
Afinal, j no havia qualquer razo para continuar ali. As formas do mundo eram as formas do vazio e da perda. No havia luz na cabana de pedra, nem rudo de passos 
na soleira da porta, nem vozes de madrugada. No havia mais nada para dizer, mais nada para fazer, mais ningum por quem esperar. Fora intil haver esperado por 
Harry.
O mar lamentava-se, a noite caa, o frio, a solido e o desgosto montavam guarda, silenciosamente, nas suas costas. E o anjo que vigiava o seu sono e o seu despertar 
f-lo passar a soleira da porta, confortando-o ternamente, dizendo-lhe que a mulher o seguiria em breve. O santo Clydog no voltou a olhar para o local desolado 
onde ela vivera. Seguiu em frente, surdo s vozes que o incitavam a voltar, insensvel s mos que o seguravam, liberto de todas as preces, aliviado das ofertas, 
viglias e vises. Franqueou a porta das trevas, cruzou o limiar do seu tmulo ainda por abrir e o tempo fechou-se atrs de si, to suavemente que ningum soube 
o momento exacto em que o trinco se fechou.
Uma hora mais tarde, ao chegar l acima para o deitar, o rapaz que o servia encontrou apenas um monte de ossos de passarinho, cados sobre a erva.

CAPTULO SETE

Parfois: Outubro a Novembro de 1233

ENCONTRARAM-LHE O RASTO EM DOLGYNWAL e seguiram-lho ao longo de uma boa parte do caminho, galopando a toda a brida e tirando todo o partido da ordenana de Llewelyn, 
para trocar de montadas sempre que as suas se mostravam cansadas e houvesse outros cavalos disponveis. Em Meifod, Madonna Benedetta levava apenas algumas horas 
de avano e Harry comeou a acreditar que acabariam por alcan-la. Porque ia ela to depressa? Era-lhe difcil acreditar que uma mulher pudesse manter o avano 
que levava, tendo ele cavalgado Gales fora de dia e de noite, sem dormir, a no ser por alguns breves instantes de repouso roubados aqui ou ali. O corao dizia-lhe 
que ela se apressava assim por sua causa e isso ainda o impelia a ir mais depressa.
De repente, em Strata Marcella, perderam-lhe o rasto. Seria possvel que a houvessem ultrapassado, enquanto ela descansava numa quinta? Harry mandou dois dos seis 
homens voltar atrs, para procurarem por ela de um lado e do outro do caminho; ordenou a outros dois que seguissem em frente, directamente para o sop da rampa que 
conduzia a Parfois, e observassem de perto todas as pessoas que se aproximassem do posto avanado da guarda. Ele

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prprio e os dois homens que restavam rumaram a Sul, em direco a Castell Coch, para l de Pool, no fosse dar-se o caso de ela haver escolhido atravessar o Severn 
pelo vau sul e no pelo vau norte. Furioso contra si mesmo, culpando-se pela pressa, pelo ardor e pela devoo de Madonna Benedetta e pelo seu prprio atraso, Harry 
chegou a Castell Coch ao cair da noite, oscilando sobre a sela. Sim, Madonna Benedetta passara por l; no, j l no estava. No quisera dormir ali e voltara a 
partir um pouco antes do crepsculo, ou seja, fazia uma hora.
Harry fez o cavalo dar meia volta e seguiu para o vau de Pool. O Severn ainda mal ultrapassava o seu nvel habitual de Vero. Passaram para a outra margem e atravessaram 
os charcos prateados da zona alagadia; mal o solo se tornou mais firme, Harry lanou-se novamente a galope, pelo caminho verdejante que subia do rio at aos contrafortes 
de Long Mountain, e depois pela rampa que ia dar a Parfois. A, um dos seus homens saltou do meio das rvores e fez-lhe sinal para parar.
A despeito de toda a sua pressa, haviam chegado tarde demais. Madonna Benedetta estivera sempre  frente deles e j entrara em Parfois.
- Meu querido e amado filho - suspirou Isambard. - Ests a desperdiar o teu tempo e o meu. No que esteja a queixar-me: disponho de todo o tempo e, em boa conscincia, 
posso dispensar-te algumas horas de boa vontade. Mas, se esperas obter de mim aquilo que ambicionas, no vais consegui-lo por estes meios. Avisei-te, logo que chegaste, 
de que no te darei nada... aquilo que queres de mim, s o poders obter pela fora. Pedir no te serve de nada. Pensa bem, carssimo: se assinasse e selasse a tua 
herana ficaria privado destes consolos dirios, da tua doce companhia, da tua solicitude filial. Gosto de ouvir a tua voz, mesmo que o assunto seja sempre o mesmo. 
- H mais de uma maneira de fazer perguntas, como ainda podereis vir a aperceber-vos, meu bem-amado pai. O vosso av legou-nos uma bela panplia de meios de persuaso, 
e eles ainda ali esto, debaixo da torre da guarda. Pode acontecer eu ver-me na necessidade de recorrer a eles.

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- No me parece. Se ousasses faz-lo, j os haverias utilizado h muito. No que houvesses ganho alguma coisa com isso, garanto-te eu. No, penso que renunciaste 
a partir-me os ossos ou a flagelar-me a carne pela mesma razo que te impede de me atirar para um buraco, onde eu me transformaria num velho tonto e mal cheiroso, 
ou de me fazer passar fome at eu ouvir a voz da razo.  porque, a qualquer momento, podes ser obrigado a mostrar-me aos olhos do mundo, so, salvo e reconhecvel. 
Se Paunton, d'Enville ou qualquer outro dos meus casteles no exigir ver-me, pode muito bem acontecer que essa exigncia seja feita por um enviado do rei Henrique 
que por aqui passe. Em qualquer dos casos, ficarias numa posio embaraosa, se no me mantivesses apresentvel todos os dias, a toda a hora.
- Estais mal colocado para me ameaardes com o rei Henrique - observou William, com um sorriso sardnico. -  bem sabido qual de ns goza dos seus favores. O rei 
autorizou-me a tomar Parfois e a colocar aqui uma guarnio para lutar contra os Galeses, com ou sem o vosso consentimento. Ainda pensais que ele mexeria um dedo 
por vs?
- Por mim no, William. Por mim no... mas por ele prprio, como hs-de ver. Ah, claro que Henrique no ficaria desagradado, se me maltratasses um pouco. Mas ficaria 
certamente embaraado, se fosses obrigado a mostrar-me ao mundo numa padiola, por alguns dos meus ossos estarem fora do stio. Ele comprometeu-se contigo, William, 
ao nomear-te seu castelo em Parfois, mas  melhor que no o comprometas muito, nem de forma demasiado irrevogvel.
Isambard passou os dedos compridos sobre o queixo bem barbeado, bocejou, continuou a fitar a cadeira do filho e, com um sorriso exasperante, acrescentou:
- Envolve-o num assassnio quando ele, expressamente, s te autorizou a cometer um roubo e vers como o cordeiro se transforma em tigre, para se defender. Ainda 
no o conheces to bem como eu, William. Se o comprometeres, ele perseguir-te- at  morte.
- Isso poder no ser necessrio. H muitas maneiras de justificar um ferimento. Uma queda... s vezes, os cegos aventuram-se

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demasiado e caem - replicou William, num tom pensativo e bem
disposto.
Os ecos daquele quarto, pequeno e nu, no alto da torre, ainda no se haviam tornado familiares aos ouvidos de Isambard, acostumados aos vastos aposentos do andar 
de baixo que durante tantos anos ocupara. Era caracterstico de William haver-se apropriado precisamente desses aposentos, entre tantos que poderia haver escolhido; 
mas no se tratava s de vaidade ou despeito. Daqueles aposentos, era possvel controlar aquela escada isolada e o quarto bem guardado que ficava ao cimo delas. 
Ningum tinha acesso a ele, sem autorizao de William.
- E, quando caem, costumam deslocar os pulsos e os tornozelos, ou esborrachar alguns dedos? No, tu no s nenhum imbecil. O rumor de um escndalo bastaria para 
o rei te tirar o tapete de debaixo dos ps e te deixar pagar o erro sozinho. Sabes disso. Ademais, no  o que desejas. Tu queres o ttulo e o direito de o usar, 
de um modo to claro que ningum te possa apontar o dedo. O rei pode entregar-te o comando do meu castelo, em nome da segurana de Inglaterra, mas no te pode conceder 
o ttulo. Enquanto for vivo, s eu to posso dar. S eu! - repetiu Isambard, com enorme contentamento.
Em seguida, soltou uma gargalhada, ao ouvir o rugido da seda, quando William saltou da cadeira e comeou a andar de um lado para o outro. O rosto cego acompanhou-lhe 
os movimentos.
- E no to darei - acrescentou Isambard.
- Tendes a certeza, meu bem-amado pai? Juro que acabareis por faz-lo e ainda me agradecereis por isso. Ceder-me-eis os vossos direitos, em vida e em plena conscincia, 
por um documento assinado e selado. Ofereci-vos boas condies: um retiro honroso em Erington, Mormesnil ou outro domnio  vossa escolha, uma casa com pessoal suficiente 
e tudo quanto pudsseis precisar. Mas retiro a oferta.
Os passos nervosos pararam abruptamente. Uma mo agarrou o pulso do velho e sacudiu-o com fora. Isambard sentiu a sombra corpulenta do filho inclinar-se sobre si.
- Agora, ceder-me-eis os vossos bens, pertences, terras e homens, segundo as minhas novas condies, e vivereis o que vos

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resta viver da minha caridade. Hei-de ver a vossa assinatura e o vosso selo apostos ao documento, por mais tormentos que isso vos possa custar e por mais aborrecimentos 
que isso me possa trazer. Estais a ouvir?
Mas William sabia que no o faria. Ameaar era fcil, mas havia uma boa dose de verdade nas palavras do velho. Henrique podia desejar que Isambard morresse mas, 
para sua prpria proteco, voltar-se-ia contra quem o matasse; Henrique podia acariciar a ideia de infligir um sofrimento salutar ao homem que o admoestara diante 
da sua corte, mas seria o primeiro a soltar exclamaes de horror perante o acto consumado e, se os factos viessem  luz do dia, soltaria os ces para dar caa a 
quem o consumara. De que outro modo poderia furtar-se  vergonha e ao perigo de se ver envolvido num assassinato? Henrique nunca fora de fiar quando as coisas corriam 
mal, e tambm no seria de fiar agora.
Isambard libertou-se da mo desagradvel de William com uma toro violenta e limpou o pulso, para eliminar os vestgios daquele toque.
- J ouvi as tuas fanfarronadas - disse, com desdm. -Vamos ver se s capaz de as pr em prtica. Aqui me tens. Obriga-me a fazer o que queres!
Havia quantos dias desafiava a mesma ameaa? As trevas em que vivia haviam-no feito perder a conta dos dias e os criados que o vestiam, lavavam e barbeavam escrupulosamente, 
que lhe davam de comer e de beber e lhe satisfaziam as necessidades haviam recebido ordens para no lhe fornecer nada que no fosse necessrio. Uma notcia, uma 
mensagem do exterior, uma arma - que, alis, nunca pedira pois sabia que no lha dariam. Alguma vez pedira favores a algum? Podia muito bem subsistir tal como estava, 
sem amigos. Era melhor assim. Quaisquer que fossem as presses, seriam exercidas apenas sobre si. Por isso, o impasse era total. No podia impedir William de estabelecer 
a sua autoridade sobre Parfois e William no podia arrancar-lhe a concesso que daria a fora do direito quela expropriao ilegtima. No assinara nada nem colocara 
o seu selo em documento algum. Na torre de menagem do seu esprito solitrio, continuava a ser o senhor de Parfois.

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Bateram  porta. Duas batidas leves, como era costume de de Guichet. Isambard foi o primeiro a ouvi-las e susteve a respirao para captar e decifrar os sons, que 
eram agora as nicas formas de comunicao do seu ser mergulhado nas trevas com o mundo exterior. Ningum suspeitava de como o seu ouvido se tornara apurado, seno 
evitariam sequer sussurrar perto dele.
- O Blount diz que tem notcias para vs, senhor. Uma coisa importante...
- Agora no. Ele que espere.
- Senhor, diz respeito a...
A frase ficou em suspenso, a menos que o significado do silncio a conclusse. Um olhar lanado na sua direco, um arquear de sobrancelhas. Isambard agarrou com 
fora os braos da cadeira, tenso como um arco. Diz-me respeito a mim; diz respeito  questo entre mim e o William. Porque poterna esquecida tentam eles entrar 
agora?
A porta fechou-se atrs de William e de Guichet. Isambard ps-se de p de um salto, como um gato, e atravessou o quarto, estendendo a mo esquerda para detectar 
e contornar a mesa, a palma da mo direita bem aberta diante de si para encontrar as almofadas da porta. Encostou o ouvido  madeira e ficou  escuta, mas eles haviam 
tomado a precauo de se afastar da sua priso, e apenas conseguia ouvir o ligeiro movimento da sentinela, que deslocava o peso do corpo ora para um p ora para 
outro, diante da porta. Com todos os sentidos alerta, tentou captar o menor rudo, uma mera palavra. O murmrio no era muito distante, mas era demasiado baixo para 
possuir qualquer significado. Ento, de sbito, a voz de William ergueu-se, colrica, acima dos sussurros:
- Idiota! Que sabes tu disso? Ainda mal havias nascido. Por mais que te esforces s o fars rir. Que mal poders fazer-lhe que ele no haja j feito a si prprio?
Thomas. Sempre Thomas, o incansvel Thomas, o ambicioso Thomas! Graas a Deus, a voz dele era aguda como a de uma rapariga, tornando-se esganiada quando sentia 
medo ou indignao, e ouvia-se muito melhor do que a voz de baixo de de Guichet. Naquele momento, Thomas estava assustado e indignado, pipilava como um pssaro espavorido 
e eriado.

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- Eu estava l, senhor. Vi muito bem a cara dele.
Uma voz de quem sente esperana, veemente, segura de si apesar das dvidas que inspirava.
- Se aquilo era dio...
A voz de Thomas foi abafada, algum lhe ordenou que baixasse o tom. Mas, um instante mais tarde, voltou a gritar:
- Pelo menos, ponde isso  prova!
Um silncio, uma imobilidade, que no era necessrio tentar interpretar: ponde isso  prova... fosse o que fosse, porque no? Fosse o que fosse, eles no tinham 
mais nada.
Iam voltar. A sentinela colocou a mo na fechadura, fez rodar a chave pesada. Era aviso suficiente. Isambard tacteou o caminho de volta ao assento e, cautelosamente, 
afixou no rosto uma mscara inexpressiva, destinada a convenc-los a eles e a si prprio. Ningum melhor do que ele sabia at que ponto as tenses do corpo nos podem 
trair.
Quando entraram, estava preparado. O rudo da tranca de madeira, o estalido surdo e denso da porta, os passos. Quantos? Isambard contou trs maneiras de andar diferentes. 
O jovem Thomas ganhara a sua recompensa: fora autorizado a entrar, colado aos calcanhares do seu novo senhor, para regalar os olhos perante a impotncia do seu antigo 
senhor. J era um grande favor, mas se a sua armadilha - fosse ela qual fosse - desse resultado, no havia alternativa seno passarem a confiar nele; se no resultasse, 
ento, podiam amea-lo ou descartar-se dele. Seria melhor William no subestimar Thomas, pensou Isambard, com um sorriso um pouco amargo, recordando-se do aviso 
de Harry. Ao seu inimigo, santo Deus! Os doutores de todas as escolas encontrariam matria de debate para uma vida inteira, se tentassem compreender como podia a 
substncia do combate de um homem escapar-se-lhe de debaixo dos ps, levando-o a defender o seu inimigo contra o mundo inteiro; mas Harry deixara-se arrastar pelo 
seu corao confiante e fizera aquilo que este lhe aconselhara, e a sua sabedoria e simplicidade estavam para alm do alcance dos filsofos. Isambard tacteou a face 
magra com a ponta dos dedos e apercebeu-se de como o seu sorriso era crispado. Pouco importava. Com as janelas

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dos olhos fechadas, as possibilidades de se trair eram menos numerosas e menos perigosas.
- Parece que perdemos o nosso tempo a discutir formas e meios - disse Wlliam, numa voz suave, calculada, sorridente.
Justia lhe fosse feita, se duvidava da arma de que dispunha, no o deixava transparecer; movia-se com o -vontade e a calma de um senhor.
- Chegou uma visita que vai alterar o vosso estado de esprito, sem qualquer esforo da minha parte. Uma visita para vs, meu querido pai. Lembrais-vos de a haver 
convidado? Uma certa dama que, em tempos, vos conheceu demasiado bem para sua prpria segurana e que achou melhor refugiar-se em Gales. Ah, estou a ver que vos 
lembrais!
William no via nada, porque no havia nada para ver. Nem um msculo da mscara de bronze se moveu, at Isambard permitir que as suas sobrancelhas arrogantes se 
erguessem numa interrogao muda; nada mais.
- No  teu hbito falares por enigmas, William. Vamos directos ao assunto, para eu te poder responder com conhecimento de causa. No estou  espera de nenhuma visita 
e no convidei ningum.
- Foi na igreja, senhor, eu ouvi tudo - interveio Thomas, impaciente. - Ele mandou-lhe uma mensagem, dizendo-lhe para ela se entregar, no lugar de Harry Talvace. 
E mandou-lhe o anel como penhor. Como o mensageiro foi morto, ele deve haver enviado outro.
Outro mensageiro! Ento, eles no sabiam de nada e, graas a Deus, as informaes de que dispunham no haviam sido dadas por Walter. O incansvel Thomas, por trs 
do portal da igreja, com o ouvido colado  porta, armazenando todas as migalhas que, talvez, um dia pudessem servir para destruir o seu bem-amado senhor. Era essa 
a origem da informao, pensou Isambard, na esperana de que eles s dispusessem de informao. A armadilha era bastante grosseira, uma vez que bastava um olhar 
arguto para perceber o que significara para si ouvir o nome dela e ver o seu anel. "Eu estava l, senhor. Vi bem a cara dele. Se aquilo era dio..." E William, que

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algumas vezes se sentara  mesma mesa que Benedetta e lhe guardava rancor pelos presentes que o pai lhe oferecia, William que sabia como tudo terminara: "Idiota! 
Que sabes tu disso? Ainda mal havias nascido. Por mais que te esforces s o fars rir. Que mal poders tu fazer-lhe que ele no haja j feito a si prprio?"
Isambard reconheceu a verdade do ataque, mas respirou melhor: quase de certeza que se tratava de um truque. No ia precisar de ceder uma polegada. No chegara nenhuma 
visita. Como seria possvel? O Harry encontrara-a no caminho e levara-a a salvo para casa.
- Ela trouxe de volta o vosso penhor - anunciou William, numa voz doce como o mel.
Agarrando na mo do pai, abriu-a. Isambard sentiu uma coisa pequena e dura cair-lhe na palma da mo e, involuntariamente, os seus dedos fecharam-se sobre ela. O 
reconhecimento foi imediato e doloroso. As facetas do rubi morderam-lhe a mo como presas de um animal. Como era possvel? Walter entregara o anel; como voltara 
ele at ali? Haveria alguma outra explicao, alm daquela que se recusava a admitir? E se Benedetta se encontrava em Parfois, qual o melhor modo de manipular a 
relao ambivalente de amor e dio de forma a convenc-los de que haviam errado os clculos e o seu instrumento era ineficaz?
- Ah, isso! - disse, recuperando o controlo das mos e fazendo girar o anel na palma da mo, antes de o colocar no dedo. - Havia-me esquecido. Agora, as pequenas 
vinganas j no importam muito. Quase no valia a pena vingar o meu agravo contra ela. Acabei por libertar o Harry, sem exigir resgate. Que mensagem mandou ela 
com o anel? Disse que me perdoa? Se a memria no me falha, sempre quis ser ela a ter a ltima palavra.
Riu-se. No foi difcil: o silncio deles parecia-lhe to estpido, os seus sobressaltos de dvida to palpveis. O anel no passava pela articulao do dedo. F-lo 
rodar, com um gesto indiferente, voltou a tir-lo e, suavemente, f-lo rolar sobre a mesa.
- As minhas articulaes esto velhas e inchadas. Afinal, sempre vais herdar qualquer coisa. Trouxe este anel de Acra, quando regressei da Cruzada... a pedra  boa. 
Fica com ele, se te servir.

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Ou podes d-lo como paga ao Thomas, se achares que a histria dele vale isso. Quanto a mim, seria uma recompensa excessiva.
Assolados pela dvida, os trs perscrutaram-lhe longamente o rosto; o prprio Thomas estava abalado.
- Idiota - disse William, lanando um olhar carrancudo ao jovem pajem. - Eu no te disse que isto no ia abal-lo?
- Ele est a mentir, senhor - defendeu-se Thomas.
A apreenso tornara ainda mais aguda a sua voz efeminada: no eram propriamente rubis o que poderia esperar, se a sua histria se revelasse intil.
- Eu vi a cara dele e ouvi a sua voz, na altura. Sei que ele estava inquieto por causa dela. Seja o que for que haja acontecido entre ambos, outrora, seja o que 
for que ela lhe haja feito ou ele a ela, ainda a traz no corao.
- Ainda podemos pr isso  prova - disse de Guichet, em voz muito baixa.
Aquelas palavras destinavam-se apenas ao seu senhor, mas Isambard ouviu-as. O mais terrvel era que, no lhe sendo destinadas, deviam ser verdadeiras. Era ento 
verdade que Benedetta estava ali, nas mos deles? Ou seria aquele sussurro destinado aos ouvidos de Isambard? No, a subtileza de de Guichet no ia to longe.
-  verdade - concedeu William, mais calmo. -  muito fcil pr a vossa indiferena  prova, meu querido pai. No podemos deixar marcas em vs, mas nada nos impede 
de as deixar nela. Que direis de irdes connosco s celas da torre da guarda, para convencermos a dama a implorar a vossa assinatura e o vosso selo? Assim, poderamos 
descobrir at que ponto ela vos  indiferente.
- Julgava que j sabias - suspirou Isambard, bocejando. - Disseram-se muitas coisas curiosas a meu respeito, mas penso que nunca ningum afirmou que era meu costume 
atirar os amigos ao Severn.
- Ento, se a vossa disposio continua a ser a mesma, podemos passar todos uma ou duas horas bastante agradveis.  certo que os vossos olhos j no vos permitem 
ver, mas cuidaremos de que oiais bem. E - acrescentou William, ternamente - levaremos

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connosco o documento de cesso, para o caso de a emoo vos aconselhar a assinar de livre vontade, por caridade para com uma mulher que odiais.
William poria em prtica a ameaa? Porque no, uma vez que desejava a todo o custo obter aquilo que queria? Ela estava  merc de William e nada o impedia de se 
servir dela; alis, por entre o rebulio da guerra civil, quem viria alguma vez a questionar suficientemente os seus actos para o fazer pagar por eles? Talvez, naquele 
momento, William j soubesse que no precisava de ir muito longe.
Por um momento, Isambard manteve-se em silncio, ponderando, a coberto de uma expresso calma e fechada, os caminhos que lhe restavam; e pareceu-lhe que as suas 
defesas exteriores haviam cado por terra, no momento em que Benedetta franqueara a porta do castelo. Poderia comprar-lhe mais do que uma segurana precria, renunciando 
ao ttulo? Duvidava. Se descobrissem o valor de Benedetta como arma, nunca a deixariam partir, enquanto precisassem de manter o domnio sobre ele; e, enquanto ela 
estivesse nas mos deles, poderiam obter de si tudo o que quisessem. Eles ainda no sabiam isso, mas sabia-o ele e tinha de levar em conta esse facto. Isambard sorriu. 
Se lhe fosse concedido um tempo de vida suplementar, talvez aprendesse a seguir a voz do corao to impetuosamente como Harry, e, como este, sem a questionar ou 
contrariar.
S havia duas coisas a fazer. Em primeiro lugar, certificar-se, sem margem para dvidas, que Benedetta se encontrava em poder deles; em segundo lugar, dar o que 
fosse necessrio para a proteger, se no conseguisse libert-la. Entregar o seu feudo, em documento selado e assinado. Prometer-lhes a sua prpria submisso e o 
seu bom comportamento, enquanto eles a tratassem bem e lhe dessem provas disso.
- Ainda no acredito que Madonna Benedetta esteja aqui - disse, em voz decidida. - Se assim , trazei-a  minha presena.
- Ah, no! Isso no, meu querido pai. Respeito demasiado os vossos talentos para vos deixar falar com ela.
- Santo Deus, William. Cuidava que possuas controlo suficiente sobre mim. Que mal posso fazer, se falar com ela?

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- Isso no sei e  esse o problema. Se me permitis, no vou correr o risco de vos ver trocar segredos debaixo do meu nariz. Perdoai-me a crueza mas, no estado em 
que vos encontrais, no vo-la posso mostrar de uma janela.
- Ento, tr-la aqui para eu poder ouvir-te falar com ela e dar-me-ei por satisfeito.
- Porque no? - interveio de Guichet, aps um instante de reflexo silenciosa. - Ela est l em baixo, na sala grande. Levamo-lo at ao cimo das escadas e assim 
poder ouvir-lhe a voz, sem ela desconfiar. Ide l a baixo, ao encontro dela e deixai a porta aberta. Assim, ele ter a prova que deseja.
Chamaram os guardas para o agarrarem pelos braos, antes mesmo de ele se levantar da cadeira, pois ainda temiam a sua fora e a sua argcia. Isambard acompanhou-os 
docilmente, desceu com hesitao a escada de pedra em espiral, tacteando com os dedos dos ps em busca da parte mais larga dos degraus, apoiando-se nos guardas; 
mais valia mostrar-se mais impotente do que na realidade estava. Thomas ia  frente, num passo ligeiro, satisfeito consigo mesmo e j seguro da sua recompensa.
Obrigaram o prisioneiro a parar junto  balaustrada de pedra do lance inferior das escadas, diante da porta do que outrora fora o seu quarto e, com uma simpatia 
maquinal, um dos guardas guiou-lhe a mo hesitante para o corrimo. Isambard ouviu William descer os ltimos degraus sem pressa, ouviu abrir-se a porta da sala grande. 
Mentalmente, reviu as tapearias desbotadas que absorviam e amorteciam a luz que entrava pelas frestas, as cadeiras trabalhadas, altas e pesadas, que mais pareciam 
espectros, nos cantos mais escuros. E Benedetta, no meio da sala, voltada para a porta,  espera do homem que no iria ver.
Naquele momento, viu-a claramente: uma figura alta e imponente, de movimentos amplos e generosos, de uma calma rgia, que imprimia grandeza e valor a tudo quanto 
fazia, pensava ou dizia; uma mulher, uma torre, um mundo.
- Sede bem-vinda a Parfois, senhora - saudou William, numa voz que ecoava ligeiramente no vasto aposento, de tectos altos.

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Ela disse: - Agradeo-vos.
Foi quanto bastou. Mesmo aps uma to longa ausncia, a sua voz inconfundvel no mudara, continuava clara.
- Vim por desejo do vosso pai. No esperava encontrar-vos aqui. Ele ainda est muito doente?
- No gravemente - respondeu William, por certo com um sorriso dissimulado nos olhos, se ela soubesse como interpret-lo. - O seu correio no vos disse o que lhe 
aconteceu? O meu pai perdeu a viso.
- Disse-me que era de recear que isso acontecesse - disse Benedetta, em voz baixa. - Posso v-lo?
- Lamento, mas por ora no. Ele ainda no est suficientemente bem para receber visitas e eu estou aqui, como castelo do rei, no seu lugar. Vou mandar preparar 
os vossos aposentos e, se fordes paciente e esperardes um pouco, por certo que ele ir ficar melhor.
Um momento de silncio; no de indeciso, mas de reflexo. Depois, a voz clara observou calmamente:
- Todavia, a sua mensagem era bem lcida, uma mensagem de algum consciente dos seus actos. E isso foi no dia em que foi ferido.
- Sofre de febre desde ento - replicou William, um pouco depressa demais. - Logo que esteja restabelecido, podereis v-lo.
- Vindes agora da sua cabeceira? - perguntou Benedetta, num tom to doce e to seco, que a ironia era manifesta. - Fico satisfeita por ele poder contar com um filho 
to devotado, que o aliviou do fardo dos seus deveres.
Benedetta estava desconfiada, no acreditava em William. No se esquecera de nada, no perdera a sua sagacidade, continuava a ser capaz de ler num homem como num 
livro aberto e de o pr a nu.
- Lorde Isambard fez um acordo comigo - disse ela. - Espero que o honreis em seu nome. Prometeu que, se eu viesse para Parfois para ocupar o seu lugar, libertaria 
Harry Talvace. Perguntai-lhe e ele confirmar. Perguntai-lhe e mandai o rapaz embora.

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As mos de Isambard crisparam-se sobre a pedra. Ela no sabia. Em qualquer ponto do caminho, Benedetta e Harry haviam passado um pelo outro sem se verem. Por que 
obra do acaso, no era capaz de adivinhar. E viera para libertar o jovem, acabando por encontrar o captor feito cativo. Que angstia no estaria ela a experimentar 
agora, pela criana recm-nascida que, tantos anos antes, levara nos braos at Shrewsbury, a fim de a colocar sob a proteco de Llewelyn! E William nada lhe diria! 
Iria guardar a nova arma em reserva, no arsenal das suas armas invisveis, para usar mais tarde, se necessrio.
- Por certo, poderemos discutir isso amanh. Agora, deveis estar fatigada e mais um dia ou dois no far diferena. Amanh poderemos falar com o meu pai acerca do 
rapaz.
- O Harry est bem? - perguntou Benedetta, irritada e receosa.
- Est muito bem.
- Posso v-lo?
- Mais tarde, depois de haverdes descansado.
Iria Benedetta contentar-se com aquela resposta, dormir descansada e repetir a mesma pergunta, dia aps dia, obtendo apenas por resposta um "talvez", "mais tarde", 
"amanh", at as evasivas resultarem na certeza de que algum mal acontecera a Harry? Podia pelo menos poup-la, tranquilizando-lhe o esprito e o corao quanto 
 sorte do jovem. Isambard calculou os segundos e as palavras, o tempo que uma mo demoraria a deslocar-se do seu brao at  sua boca. Quantas palavras poderia 
conter a frase da sua derradeira comunicao com ela? Talvez estivesse a aumentar ligeiramente o perigo que Benedetta corria, mas aquilo que agora se perdesse poderia 
ser recuperado, quando ele entregasse o seu selo e se despojasse de tudo; e, entretanto, ela poderia dormir serenamente e dar graas a Deus por Harry se encontrar 
longe daquela guerra.
Isambard debruou-se sobre a balaustrada e, de sbito, abriu os braos, fazendo desequilibrar os seus guardas. Ento, em voz sonora, gritou para o poo das escadas:
- O Harry est a salvo. Eu mandei-o...

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Apenas aquelas palavras e logo uma mo lhe tapou a boca. Sacudindo-a, conseguiu acrescentar:
- ... mandei-o ao encontro...
Foi tudo. Arrastaram-no para trs, pelos dois braos, um brao forte dentro de uma manga de tecido amordaou-lhe a boca. De Guichet agarrou-o pelos cabelos, puxando-lhe 
a cabea para trs. Benedetta gritou:
- Ralf!
Isambard ficou pelo menos a saber que ela o ouvira. L em baixo, soaram passos apressados, uma porta bateu. Em seguida, foi derrubado de costas sobre as lajes de 
pedra e eles lanaram-se sobre ele; com as foras que lhe restavam, riu-se, apesar de ter a boca tapada com uma prega do seu prprio pelote. Uma mo atingiu-o no 
rosto, num golpe to pattico e maldoso que s poderia haver partido de Thomas. Porque haveria Thomas de privar-se daquele pequeno prazer?
Levaram-no em peso pelas escadas acima, sem grandes delicadezas. Atiraram-no para cima da cadeira e, tremendo, amaldioando-o em voz baixa e rancorosa, fecharam 
a porta.
Isambard limpou um fio de sangue do canto dos lbios e endireitou o pelote. Mal havia recuperado o flego suficiente para voltar a falar e j William estava  porta 
e se precipitava sobre ele. A sua raiva era perceptvel, embora conseguisse domin-la. Numa voz baixa e sufocada pelo esforo de controlo, limitou-se a dizer:
- Pensais que o que fizestes foi sensato?
- Sensato no foi mas, pelo menos, foi honesto - concordou Isambard, continuando a limpar o lbio. -Agora, estou pronto para me dedicar  sensatez, se conseguires 
provar-me que vale a pena. Onde alojaste Benedetta?
- Onde no voltareis a ouvi-la - respondeu William, com a respirao pesada.
- Ah, mas vou precisar de a ouvir ou no obters nada de mim. Prometo que no volto a falar-lhe nem a tentar chamar a sua ateno se, pela tua parte, me deres garantias 
de que est viva e de boa sade e de que no foi molestada. Leva-me at onde eu a possa ouvir falar uma vez por semana e isso bastar.

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- Pensais que podeis permitir-vos impor condies?
- Penso e posso. Se sou obrigado a ceder-te o meu ttulo e tudo quanto possuo, preciso de obter em troca uma garantia tua e, tambm, que jures que agirs de acordo 
com ela.
Isambard ouviu o filho respirar fundo, satisfeito, j seguro do seu poder e do valor da sua refm.
- A minha palavra no basta? - perguntou William, com uma indignao hipcrita.
- No, meu muito querido filho - respondeu Isambard, docemente. - J que mo perguntas, no arriscaria a vida de um co contra a tua palavra.  mister que me jures 
que no fars mal a Madonna Benedetta, que a tratars como deve ser e que lhe dars alguma liberdade de movimentos... ah, no te preocupes, no estou a falar de 
uma liberdade que lhe permita vir ter comigo. No te prometi j que no me aproximava dela?
Nem sequer ia pedir a libertao de Benedetta. Sabia que esta no seria nem poderia ser concedida; pelo menos enquanto a abdicao dos seus direitos no fosse pblica 
e aceite, talvez mesmo no antes de ele estar manifesta, notria e respeitavelmente morto.
- Jura que satisfars as minhas exigncias em relao a Benedetta - disse Isambard com determinao - e poders entrar na posse dos meus bens, quando quiseres. Assino 
o documento e entrego-te o meu selo.
Harry teria entrado em Parfois atrs de Madonna Benedetta, no fora uma dvida surda que lhe queimava violentamente o corao, como se fosse uma ferida, e que o 
levou a esperar pela manh. Se as coisas em Parfois estivessem como as havia deixado, nada o impedia de l ir e de a trazer de volta consigo. Mas o desespero que 
o impelira a correr atrs dela como correra constitua, em si mesmo, um sinal de que no acreditava que as coisas em Parfois no houvessem mudado.
Passou a noite enrolado no manto, debaixo de uns arbustos, dormitando de vez em quando, por alguns minutos, voltando a acordar em sobressalto e a recriminar-se mais 
uma vez por cada instante perdido. Aos primeiros raios de luz da alvorada, levantou-se e trepou

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por entre os arbustos, para fazer o reconhecimento do posto avanado da guarda. Os homens que ali se encontravam eram desconhecidos; tambm nunca vira antes o oficial, 
apesar de haver vivido quase quatro anos da sua vida naquele castelo e aprendido a conhecer todos os homens da guarnio. Passou toda a manh de vigia; era j mais 
de meio-dia quando viu um cortejo colorido, que descia alegremente por entre as rvores, e se abrigou por trs de vegetao mais densa para os ver passar.
Trs falcoeiros - dois dos quais conhecidos e um desconhecido - cavaleiros, escudeiros e pajens, cujos rostos reconheceu; a corte de Parfois rodeava o seu novo senhor, 
numa postura bastante cerimoniosa. No centro de todo aquele esplendor vinha o homem que Harry j avistara  luz de uma tocha, a subir para a sela, no terreiro exterior, 
depois de haver dado um beijo de despedida ao pai, como qualquer filho afectuoso.
Imponente e confiante, como senhor e proprietrio de pleno direito, voltando a cabea para passear os olhos pelo seu domnio e sorrindo perante a excelncia deste, 
William Isambard partiu para uma caada, na crista de Long Mountain. Ao seu lado, atento e devotado, presenteando o seu senhor com sorrisos e conversa, vinha Thomas 
Blount. Thomas, que nunca dava ponto sem n. Um e outro irradiavam glria.
Por conseguinte, no devia precipitar-se para Parfois, sob risco de, se os seus receios fossem fundados, se transformar em mais um refm, em mais uma espada apontada 
 garganta do velho. Isso no ajudaria Madonna Benedetta nem serviria para a libertar; apenas a privaria de um aliado que ainda podia vir a ser til, se conservasse 
a liberdade de aco. Tentar salvar a prpria conscincia, atravs de um acto de herosmo desprezvel e vo, serviria apenas para agravar o perigo que corriam as 
pessoas que desejava proteger.
Haveria William destitudo o pai da sua posio? Ou estaria a agir com prudncia, contentando-se por enquanto com ser apenas o seu mandatrio, agora que o velho 
senhor j no podia ocupar-se dos seus prprios assuntos? A atitude de William era a de um conquistador. Em qualquer dos casos, os oportunistas cortej-lo-iam como 
seu senhor de facto. Haveria ele ousado ir ao ponto de depor

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to depressa o pai? Antes de mais, Harry precisava de certezas. No podia ser ele mesmo a entrar e sair de Parfois para ouvir os rumores, mas havia quem pudesse 
faz-lo. Alguns homens das aldeias tinham parentes dentro do castelo. Harry no sabia quem eram nem como conquistar a sua confiana, mas conhecia quem soubesse.
Harry mandou os seus homens descansar e esperar por ele em Castell Coch e seguiu sozinho pelo carreiro junto ao rio, que to bem conhecia. Ao avistar, ao longe, 
entre as rvores, o pequeno cercado verdejante, e quando um ligeiro odor a fumo da lareira lhe aflorou as narinas, Harry deteve-se em silncio, no caminho. Aelis 
estava no ptio, a tirar as cinzas do lume, sob o forno de tijolo onde cozera o po.
Ao v-la, o corao encheu-se-lhe de uma imensa ternura, to densa que se sentiu revigorado e exaltado por ter de a carregar, como um homem incumbido de transportar 
o mundo aos ombros. O cabelo louro escuro de Aelis caa-lhe sobre o ombro, preso numa trana grossa. Estava mais alta e a sua figura esguia, inclinada para a tarefa 
que executava em gestos amplos, suaves e ligeiramente cansados, era agora a figura de uma mulher, bela e intimidante. O seu rosto pensativo apresentava uma expresso 
misteriosamente triste. Com um misto de humildade e vaidade, juntou aquela tristeza ao rol das suas culpas. Alguma vez lhe dera alegria ou conforto? Desde o dia 
em que ela e o pai o haviam acolhido, s lhe causara preocupaes, desgostos e trabalhos.
Harry desejava cham-la mas, por qualquer razo que no era capaz de compreender, a ideia de perturbar a concentrao delicada com que ela se dedicava  sua tarefa 
provocava-lhe medo e vergonha. Como se esperasse que Aelis se voltasse para ele  primeira palavra, como se ela devesse deixar o que estava a fazer e correr a ajud-lo. 
Sabia que estava prestes a descarregar sobre ela todas as suas preocupaes, toda a sua fadiga, para que o confortasse, quando deveria haver-lhe trazido um presente 
mais agradvel, algo que lhe desse prazer e lhe iluminasse o rosto, em vez de querer as atenes dela. Apesar de demasiado orgulhoso ou demasiado egosta para o 
fazer abertamente, vinha sempre pedir-lhe alguma coisa; e, todavia, o seu ser ansiava por dar em vez de pedir.

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Aelis ouviu estalar um ramo sob a ferradura do cavalo, ergueu-se vivamente e voltou-se para a cancela, alerta, de cabea erguida, os olhos bem abertos e fixos na 
abertura entre a vegetao onde o cavaleiro iria aparecer. O cavalo era de Meifod e ela no o reconheceu. Imvel e atenta, esperou at poder ver melhor o cavaleiro. 
Por um momento, as folhas e as sombras ocultaram-no mas, de seguida, percebeu quem era. Por que movimento do seu corpo cansado sobre a sela, por que inclinao da 
sua cabea, por que gesto ou postura, quem poderia saber? Harry continuava a ser apenas um vulto em cima de um cavalo malhado, a umas trinta jardas de distncia, 
no carreiro estreito. Todavia, Aelis reconheceu-o.
Deixando cair a p que conservara na mo, por breves instantes Aelis pareceu alongar-se e crescer, como que para se libertar das altas ervas do tempo que o haviam 
ocultado dela. Ento, de sbito, o seu rosto iluminou-se de alegria, uma alegria silenciosa, mas to intensa que Harry no quis acreditar ser ele a sua causa directa 
e tentou encontrar um motivo melhor: piedade fraterna pelo prisioneiro e contentamento por este haver sido libertado, felicidade altrusta pela sua boa sorte. No, 
nem mesmo a sua me olhara para ele daquele modo ou ficara imobilizada por um tal arrebatamento de alegria, uma alegria que tinha de ser para ele, pois no podia 
ser por causa dele. Por que haveria algum de sentir uma alegria to pura por causa de Harry Talvace?
Sempre que atingia o auge da arrogncia ou da aflio, os elogios perturbavam-no. Perante a exaltao que leu nos olhos que o contemplavam com deleite, o cho pareceu 
fugir-lhe de debaixo dos ps e todo o seu corpo estremeceu, num arroubo de humildade. Desceu desajeitadamente da sela, devido  pressa e ao cansao, correu para 
ela e caiu-lhe aos ps como um pssaro ferido em pleno voo. Aelis lanara-se ao seu encontro, mas Harry deixou-se escorregar entre os seus braos, agarrou-lhe as 
mos e encostou-as s faces,  testa, s plpebras.
- Oh, Aelis! Aelis! - murmurou Harry, numa voz que no passava de um sopro quente sobre a palma da mo dela.
- s mesmo tu, Harry? Desta vez  verdade? Foste libertado?

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Num acesso de ternura, soltou as mos das dele para melhor lhe acariciar o rosto e, num gesto maternal de mos que, no muito tempo antes, eram as de uma criana, 
afastou-lhe da testa uma madeixa de cabelo castanho.
- Ainda no. No completamente. Havia uma coisa que me incumbiram de fazer e eu falhei. Agora, preciso de reparar o meu erro...
- Mas no precisas de voltar para l, pois no? - perguntou Aelis, numa voz premente e assustada em que transparecia o cime, pegando-lhe no queixo e erguendo-lhe 
o rosto para o fitar nos olhos. - No foste libertado s para ires para a guerra, como da outra vez, pois no? Ah, porque foi que mentiste nessa altura? Esperei, 
esperei, e nem uma palavra. No serias capaz de me fazer isso outra vez, pois no? Se tivesses de voltar para Parfois, dizias-me?
- Dizia, sim, claro que te dizia. Mas, desta vez,  diferente. Foi-me concedida a liberdade, mas no estou livre.
Eram tantas as coisas que tinha para lhe contar que o sentido das palavras que Aelis pronunciara s lentamente lhe penetrou no esprito. Quando por fim as compreendeu, 
o choque de excitao e ardor foi brutal, levando-o a pr-se de p de um salto.
- Ir para a guerra, disseste tu? Ento rebentou? J estamos em guerra?
- Era o rumor que corria hoje em Castell Coch. O moleiro foi l levar farinha e trouxe a notcia. Dizem que o teu prncipe tomou o partido do conde marechal e levou 
a sua hoste para Sul, para Builth. Achas que  verdade? Pode ser verdade?
- Pode - respondeu Harry, momentaneamente distrado, absorvido pelas incertezas do futuro.
Se o prncipe pegara em armas, o seu filho adoptivo tinha um exrcito atrs de si.
- Sim, pode ser verdade - acrescentou, estremecendo.
S demasiado tarde reparou na tristeza serena, de mulher, visvel nos olhos de Aelis que, sem se queixar, se preparava j para uma nova espera. A princesa avisara-a. 
Se quisermos conserv-los,  preciso aceit-los como eles so.
-  melhor entrares e contares-me o que tens de fazer - disse ela, num tom determinado. - O meu pai foi a Forden, mas deve

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estar em casa daqui a uma hora ou duas, vai ficar contente por te ver inteiro e em liberdade. Podes passar aqui a noite, pelo menos? E se precisares de alguma coisa 
de ns, antes de partires...
- Ah, no! - exclamou Harry, subitamente abalado pelo peso da ternura, que quase lhe fazia explodir o corao. - No vou deixar-te j! Ainda no! Preciso da tua 
ajuda para saber aquilo que preciso de saber mas, mais do que isso, preciso de ti, minha pomba, minha querida.
Tomou-lhe o rosto entre as mos e voltou-o docemente para si. Presa naquele gesto, Aelis corou e estremeceu. Harry beijou-lhe a curva suave da face, da tmpora ao 
queixo, beijou-lhe as plpebras fechadas, alisou com os lbios o arco dourado das suas sobrancelhas.
- Se voltar a partir, ser por pouco tempo. Por mais longe que precise de ir, vou voltar. Amo-te... - murmurou, deixando a boca deslizar-lhe pela face, at  dela, 
que beijou como um homem esfomeado.
E, ao sentir o gosto salgado das lgrimas de Aelis, fechou os olhos para conter as suas. 
Uma mo a tocar-lhe ao de leve no ombro arrancou Harry a um sonho de perseguies vs. Acordou instantaneamente, como um co de caa, os ouvidos atentos, as narinas 
frementes, sentindo o cheiro de um estranho. Antes de Aelis conseguir segurar-lhe no pulso, para o tranquilizar, j levara a mo ao punho da adaga e dobrara o joelho, 
pronto para se levantar.
- Calma. No h perigo. Chegaram notcias para ti.
A chama de um coto de vela tremeluzia perto da lareira, lanando sombras flutuantes sobre as traves enegrecidas do tecto. Robert estava a p e fechava cautelosamente 
a porta sobre a escurido profunda da noite de Novembro. Enrolado em mantas, diante do fogo da lareira, abafado para durar toda a noite, encontrava-se um homem a 
tremer de frio, com um brao nu estendido para a caneca que Aelis lhe oferecia. Enquanto bebia, os seus dentes batiam contra o bordo da caneca. O cabelo e a barba 
lisos estavam folhados. Os trapos que despira haviam formado uma poa de gua

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nas tbuas do cho. Por cima do bordo da caneca, os seus olhos alucinados fitavam Harry, hostis e amedrontados.
- Calma - aconselhou Robert, ao ver a reaco de ambos. - Estamos entre amigos.
- Quem  este? Que se passa?
- Ele  de Leighton. Veio rio abaixo, como outrora o teu pai, mas vivo.  um dos trs que, ontem  noite, foram apanhados na coutada privada de Isambard. Conseguiu 
fugir, mas partiram-lhe um brao antes de se lanar  gua. Ajuda-me a segur-lo, enquanto volto a pr-lhe o osso no lugar.
Harry ajoelhou-se e soergueu o corpo gelado do homem, apoiando-o contra si. No era o primeiro ferido que Robert tratava nem o primeiro fugitivo a quem dava guarida, 
antes de o levar para a outra margem do Severn, durante a noite.
- Um dos couteiros bateu-me com o basto, quando comecei a correr - disse o homem, por entre os dentes cerrados, para os impedir de bater. - Se no fosse isso, eu 
haveria conseguido atravessar o rio sem precisar de um barco. Mas, s com um brao, no podia nadar contra a corrente. A nica coisa que pude fazer foi deixar-me 
levar pela corrente e arrastar-me at  margem, assim que fiquei longe das vistas deles.
- Vo persegui-lo - observou Harry, lanando um olhar alarmado a Robert.
- No. Pensam que me afoguei. Fiquei escondido debaixo de uns arbustos, at eles se irem embora.
L fora, a noite estava gelada. O homem bem poderia haver morrido de frio, ao fugir para o rio.
- Pelo menos por um dia, vai ficar a salvo, aqui - disse Robert, cujas mos grandes manejavam suavemente o brao do homem, to tisnado e musculado como o seu. - 
Segura-o bem agora! E tu, Aelis, pe a ligadura aqui.
Aelis estivera a rasgar e a enrolar um pano de linho, junto  vela. Aproximou-se, ajoelhou-se ao lado de Harry, e colocou a ligadura no stio indicado. O osso rangeu 
ligeiramente e o corpo ferido arqueou-se entre os braos de Harry, enquanto o homem voltava a cabea e cravava os dentes numa prega da manta em que estava

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enrolado. Depois, voltou a distender-se e suportou o resto sem um estremecimento ou um queixume.
- Amanh  noite, levamos-te para Gales - disse Robert, apertando-lhe firmemente a ligadura  volta do antebrao. - Este teve a sua conta dos senhores de Parfois, 
Harry. Diz-lhe que te conte o que sabe. Foram estranhos, e no homens de Shropshire, que o apanharam com a caa.
- Estranhos? - repetiu Harry, com brusquido. Num relance, percebeu tudo. - Homens de William!
- Homens de William, que afirmavam ser os couteiros de Parfois. E prontos para o provar.
- Levaram-nos para Leighton - contou o caador furtivo, rolando a cabea fatigada contra o ombro de Harry. - A mulher do Wilfrid viu-nos chegar e teve a boa ideia 
de ir chamar o intendente. Ele veio e tentou defender-nos, dizendo que no era direito deles atirarem-nos para as masmorras de Parfois, pois no possuam mandato 
do velho senhor. Que a coutada era dele e no do filho e que, sem verem uma ordem dele com o seu selo, no os deixariam levar-nos. "Mandaremos chamar o juiz", disse 
ele. "E quem quiser acus-los dever faz-lo de acordo com a lei." Toda a aldeia viu e ouviu o que se passava, eram uns quatro para cada um dos homens deles, por 
isso foram obrigados a pensar duas vezes. Afirmaram que lorde William era o castelo do rei em Parfois, mas o velho Harald, que Deus o abenoe, no quis saber disso; 
disse que s o senhor do feudo podia levar-nos sob custdia privada. Ento, eles afirmaram que tambm haviam esse direito, porque lorde Ralf cedera o feudo ao filho. 
E Harald disse abertamente que s acreditaria nisso se lhe fosse apresentada a prova, com a assinatura e o selo do velho senhor. At l, disse, ficaramos  sua 
guarda e s nos entregaria quando lhe fosse mostrado o devido mandato. Harald no podia fazer mais nada: quando eles nos apanharam, levvamos connosco os dois animais 
que havamos caado. No podamos negar. S um homem corajoso iria to longe como ele foi. Nos ltimos tempos, havamos sido deixados em paz nos bosques e abusmos 
da sorte. A verdade  que o velho Harald pensava que aquilo no passava de uma fanfarronada dos homens do filho de lorde Isambard, que estava a tirar

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partido da doena do pai. Por isso, no nos deixou ir e os outros foram-se embora, proferindo ameaas.
- Mas voltaram - interrompeu Harry, mudando de posio para colocar o ferido numa posio mais confortvel.
Harry olhou para Aelis, que o observava com uma expresso inquieta e pesarosa: ela j sabia como aquilo iria terminar.
- A noite. E o senescal de Guichet vinha com eles. Trazia consigo um pergaminho, que quis que Harald lesse em voz alta, diante de toda a aldeia. Depois, levaram-nos. 
Ningum podia fazer nada sem correr o risco de ser enforcado, e Deus sabe que no queramos tal coisa. Ento, pensei nas masmorras de Parfois, em como um homem pode 
apodrecer por l e, quando amos a passar pelo souto, fugi. Se no fosse o golpe que sofri, haveria atravessado o rio sem problemas.
- Ento o vosso intendente obteve a prova que pedira? Ele sabe ler? Disseste que foi ele mesmo quem leu o pergaminho.
Para qu agarrar-se quela nfima parcela de dvida, quando o seu corao sabia j o que acontecera e como? Eles haviam-se apercebido do valor de Madonna Benedetta 
e estavam a servir-se dela. De que outro modo poderiam haver arrancado tais concesses a Isambard? Se fosse a sua prpria segurana que se encontrasse ameaada, 
ele haver-se-ia rido na cara deles.
- Sabe ler, sim. E melhor que muitos escreventes. Se houvesse encontrado a menor justificao para tal, haveria mandado algum chamar o juiz. Mas no havia nada. 
Leu em voz alta, como lhe haviam dito, com o de Guichet atrs dele e mostrou o selo e a assinatura para que todos os reconhecessem. No  mentira. O velho lobo fez 
aquilo que nunca pensei que fizesse, doente ou no... dar todas as suas terras ao filho... de livre vontade, escreveu ele, de sua prpria e livre vontade. Abdicou 
de tudo quanto possua a favor de lorde William, assinou o documento pelo seu prprio punho e ps-lhe o selo. Agora, est sentado num canto qualquer, ao calor, como 
um velho co cego,  espera de morrer.

CAPTULO OITO

Brecon, Aber, Parfois: comeos de Dezembro de 1233

HARRY PENSARA ENCONTRAR LLEWELYN EM Builth mas O prncipe partira j para Sul, para cercar o castelo e o burgo de Brecon e, assim, imobilizar dentro das muralhas 
a grande guarnio que o rei pretendia usar como reserva para as suas devastadas companhias. A fronteira encontrava-se em estado de alerta, embora de momento se 
mantivesse numa imobilidade surda e inquietante. Todavia, Basset e Siward haviam j avanado sobre Devizes para arrancar de Burgh da priso e haviam-no passado para 
o outro lado do esturio do Severn, instalando o conde marechal a salvo no seu castelo de Striguil, enquanto o prprio conde Richard avanava por Gwent, como o fogo 
numa mata. Abergavenny, Newport e Monmouth haviam cado nas suas mos e, numa madrugada glacial de Novembro, o conde atacara o acampamento do rei, obrigando-o a 
fugir de Grosmont. John de Vonmouth enfrentara srias dificuldades para reorganizar as foras do rei e, naquele momento, mantinha-as prudentemente na retaguarda, 
enquanto o conde marechal consolidava as suas conquistas e reabastecia os seus castelos. Apesar de precoce, o Inverno no conseguira extinguir o fogo.

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A camada de neve era delgada sobre Mynydd, semelhante a um vu de renda estendido sobre a cabeleira invernal e descolorida da montanha. As quedas de neve ainda no 
eram suficientemente fortes nem o vento suficientemente glido para desviar Harry para os caminhos do vale. Seguiu pelo caminho do planalto to depressa quanto pde 
e, antes do crepsculo, do alto dos penhascos acima de Usk, avistou o brilho das chamas e a cortina de fumo sobre o burgo de Brecon.
O fumo coroava os contornos escuros e denteados do castelo, que se desenhavam contra o brilho palpitante das chamas que devoravam o burgo, l em baixo. Como um leno 
de gaze a flutuar levemente ao sabor do vento, o fumo agarrava-se  torre compacta e s paredes slidas da igreja do priorado. Harry seguiu com o olhar a linha extensa 
e elevada do telhado da igreja e ficou contente por este se encontrar intacto; todavia, sentiu-se envergonhado dessa alegria pela sobrevivncia da pedra, ao ver 
as runas fumegantes das casas das pessoas. Tudo quanto a populao de Breacon construra depois da ltima destruio fora arrasado e os destroos enegrecidos jaziam 
junto s guas glidas do rio. Era um cenrio desolador, povoado apenas pelos mortos. Amontoados e encurralados nos terreiros do castelo, os sobreviventes juntavam 
a gua e os alimentos que lhes restavam,  espera do socorro que os mercenrios flamengos do rei Henrique no deixariam de lhes trazer de Gloucester. Dia aps dia, 
mantiveram-se de vigia junto s muralhas, mas no avistaram qualquer sinal de estandartes ou de lanas reluzentes nas colinas cobertas de neve.
Naquele crepsculo triste, os pequenos fogos esmoreciam e extinguiam-se, crepitando por vezes em sbitas chamas espasmdicas, quando as traves calcinadas tombavam 
sobre eles. Nas colinas sobranceiras  margem do Honddu, cercando de perto o castelo renitente, as linhas de contravalao e circunvalao (1) do campo de Llewelyn 
desenhavam-se a negro sobre a neve e as catapultas e trabucos,

1 Rede dupla de trincheiras e paliadas construdas pelos sitiantes. As primeiras (linhas de contravalao) destinavam-se a proteger os sitiantes de ataques de eventuais 
reforos e a impedir as sadas dos sitiados; as segundas (linhas de circunvalao) destinavam-se a bloquear a fortificao alvo do cerco, impedindo as comunicaes 
dos sitiados com o exterior. (N. da T.)

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de silhuetas sinistras, continuavam a massacrar intermitentemente as muralhas danificadas. Era intil aumentar a presso do assalto, porque a ajuda no podia chegar 
aos sitiados e os campos circundantes haviam sido despojados de todas as provises. Ademais, Llewelyn, tal como agora os sitiados, no acreditava no desejo do rei 
de os socorrer. Podia perfeitamente mant-los imobilizados, sem perder homens seus, enquanto o conde Richard prosseguia a sua avanada pelos vales do Usk e do Wye, 
levando tudo diante de si.
Os cavaleiros vindos de Builth foram bruscamente detidos nos limites do acampamento, pois chegavam a galope, com as capas puxadas para o rosto e os capuzes descados 
sobre os olhos, para se protegerem da neve fina que caa. Harry desceu da sela, os membros rgidos de cansao e pediu para ser recebido pelo prncipe. A sentinela 
reconheceu-o de imediato e saudou-o alegremente. Abrindo caminho por entre os muitos amigos que lhe davam as boas-vindas, seguiu pela ruela estreita - atulhada de 
provises, armas, gado e cavalos - que circunscrevia o burgo sitiado e chegou  tenda de Llewelyn.
Da noite fria e escura, desembocou num espao onde reinava um calor abafado e acre. Sentados no leito de campanha baixo e coberto de mantas, os seus dois irmos 
adoptivos gritaram o seu nome e levantaram-se alegremente para o receber. Apesar de o acolhimento lhe haver confortado o corao, Harry afastou-os quase rudemente, 
lanou-se de joelhos aos ps de Llewelyn e beijou a mo que se estendera para o levantar.
- S bem-vindo, Harry, e d-me um abrao! Muito nos fizeste esperar por notcias tuas!
Harry ergueu para ele um rosto marcado pelo cansao da viagem. Sob as plpebras inchadas e vermelhas devido  falta de sono, os olhos verdes fitavam o prncipe, 
aterrorizados. De sbito, sentia-se confrontado com a impossibilidade de exprimir aquilo que vivera sem compreender. Llewelyn reparou na sua expresso de desorientao, 
desespero e splica e beijou-o afectuosamente.
- Como correu a tua misso?
A sensao de impotncia, que se colara  lngua de Harry como geada, derreteu, e as palavras saltaram-lhe da boca sem subterfgios ou calculismos.

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- Muito mal, senhor. Deixei que Madonna Benedetta se me escapasse entre os dedos. Fomos o mais depressa que pudemos, mas Madonna Benedetta conservou sempre o avano 
que levava. Apesar de todos os esforos, ela est em Parfois.
Com desagrado, apercebeu-se de que aquelas palavras soavam como uma desculpa e no era seu desejo atenuar minimamente a culpa que sentia.
- A culpa  minha - acrescentou, rejeitando orgulhosamente a compaixo deles.
- A julgar pela velocidade com que saste de Aber - observou David com simpatia - se Madonna Benedetta foi mais rpida do que tu,  porque cavalgou como uma noiva 
a caminho do casamento.
-  verdade que fui depressa - admitiu Harry, a tremer. - Pelo menos pensava que assim era. Perdemo-la, por no mais de uma hora, mas perdemo-la, e aquilo que eu 
fiz pode haver sido bem-inten-cionado, mas no foi o suficiente. E isto no  o pior. Eu poderia haver entrado em Parfois e perguntado por ela... ele deixava-me 
traz-la de volta comigo... mas tambm era tarde demais para isso. Quando l chegmos, os homens que se encontravam no posto avanado da guarda eram estranhos. Escondemo-nos 
e ficmos de vigia  porta e, de manh, vimos William Isambard sair a cavalo, rodeado pelos seus falcoeiros e cavaleiros, como um prncipe. Todos aqueles que mais 
bajulavam o pai voltaram as suas atenes para o filho. Vimos tudo e calculmos o que acontecera, mas no podamos ter a certeza. Portanto, esperei at dispor de 
provas, antes de vir contar-vos.
Harry quisera reparar, com a sua energia e devoo, aquilo que considerava ser culpa sua, quisera recuperar pelas suas prprias mos aquilo que perdera. Levara os 
cavalos quase at ao esgotamento e ele prprio no descansara pelo caminho, pensou Llewelyn. Vai encarar como um inimigo qualquer um que tente confort-lo.
- Envimos homens s aldeias, mas ningum a sabia mais do que ns. Estavam tambm  espera de obter respostas. Pensei que podia ficar a saber alguma coisa atravs 
de um homem que a Aelis conhece e que entra e sai de Parfois, onde vai buscar o entulho da

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torre velha. Pedi-lhe que procurasse Langholme e lhe entregasse uma mensagem mas, na volta, ele disse que Langholme partira, que fora mandado para um lado qualquer, 
tratar de assuntos do seu senhor, e no voltara. O Walter nunca haveria deixado Isambard por vontade prpria. E, se ele o mandou embora, sei muito bem porqu. No 
queria nenhum de ns por perto, para no virmos a sofrer por sua causa. Se ele ainda mandasse em Parfois, haveria mandado Madonna Benedetta de volta a casa, com 
uma escolta para a acompanhar e proteger pelo caminho. O corao dizia-me que as coisas iam de mal a pior no castelo. Foi ento que apareceu aquele homem, de noite. 
Era um caador furtivo, apanhado em flagrante com dois companheiros, na coutada de Isambard. Depois disso, ficmos com a certeza.
Harry respirou fundo, antes de contar a histria do caador furtivo, que abreviou.
- Foi o prprio intendente quem leu o pergaminho em voz alta e reconheceu o selo e a assinatura. A ordenana do rei, nomeando William castelo, no lhe haveria bastado. 
Mas aquilo era um documento de abdicao assinado por Isambard. E a Madonna Benedetta foi o instrumento de que eles se serviram para o obter. Foi para proteco 
dela que ele cedeu o feudo ao filho e, enquanto a tiver em seu poder, William poder obrigar o pai a fazer o que quiser.
- O que ests a dizer  muito estranho - observou Owen, franzindo o sobrolho, confuso. - Vais desculpar-me, Harry, mas a tua conversa mudou. Eu pensava que Isambard 
queria fazer mal a Madonna Benedetta. Todos ns assim pensvamos. As dvidas antigas nunca foram pagas. De tudo quanto sabemos acerca dele e de tudo o que nos contaste, 
ela s podia esperar dele uma nova humilhao e a morte.  certo que ele desistiu dos seus piores intentos, visto que te mandou ao encontro dela para a levares para 
um lugar seguro. Mas queres que acreditemos que ele se despojou de tudo para a proteger?
Harry ergueu os olhos verdes ansiosos para Llewelyn e respondeu apaixonadamente:
- S Deus sabe, senhor, se era inteno dele fazer mal a Madonna Benedetta, quando aceitou a proposta dela e a sua vinda para Parfois. Mas eu sei que ele era capaz 
de morrer para impedir

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que ela sofresse s mos de William. E, se William ainda no sabe isso, sab-lo- em breve e tirar partido da situao. Abdicar de tudo para a proteger... sim, 
posso jurar que Isambard o fez. E receio que ele prprio seja neste momento prisioneiro, por causa dela. Se os outros quiserem obter mais alguma coisa dele, vo 
voltar a servir-se dela para o pr de joelhos.
- Se Isambard j abdicou de tudo quanto era seu, que mais podero eles querer dele? - observou David, com toda a razo. - Que importncia tm para ns as querelas 
dos Isambard? Parece-me que podamos muito bem negociar directamente com esse novo senhor de Parfois e acordar com ele a libertao de Madonna Benedetta. J no 
precisa dela. Porque haveria de querer mant-la refm por mais tempo?
- No! - protestou Harry.
Tinha a cabea entre as mos, porque a sentia to pesada do calor e do fumo da braseira que mal conseguia mant-la direita.
- Se lhe propusermos um resgate, William vai comear a interrogar-se sobre o que j saberemos sobre as suas manigncias e o que mais poder ela contar. Pensais que 
ele hesitaria em matar, se receasse que a sua traio viesse a lume?
- Ests a sonhar, Harry! - tranquilizou David, colocando-lhe um brao sobre os ombros e sacudindo-o, num gesto fraternal. - Mesmo que receie o que ela possa contar, 
William recear ainda mais mat-la, depois de o prncipe de Aberffraw a haver reclamado. Nunca ousaria tocar-lhe.
- A ela no! A ele! - Furioso, Harry afastou o brao afectuoso. - Quanto tempo pensais que ele viveria, se eles temessem que algum fizesse demasiadas perguntas 
sobre ele? - perguntou, a tremer de clera, desconforto e desespero. - Uma iniciativa nossa, um visitante enviado pelo rei, um velho amigo que por l passe e pea 
para o ver, qualquer destas coisas pode ser a sua morte. Estou cheio de medo, cheio de medo de que isso possa acontecer em breve! Nos seus outros castelos, h pessoas 
que no acreditaro facilmente que Isambard haja cedido o feudo. Apesar da assinatura e do selo, essas pessoas vo querer que seja ele a diz-lo pessoalmente e de 
livre vontade. Enquanto ele for vivo, William no ter

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paz. E basta um passo em falso num degrau... no  muito difcil matar um cego.
Os outros fitavam-no com os olhos dilatados de espanto, prontos a pronunciar dolorosas palavras de estranheza e dvida. Amavam-no e no queriam mago-lo mas que 
sabiam eles de Parfois? Que sabiam eles do longo, estranho e difcil companheirismo que se desenvolvera e afirmara nele,  sua prpria revelia, e que o levara a 
voltar para trs e a confrontar, como se fosse a primeira vez, o seu velho inimigo? Como poderia esperar que eles compreendessem, se ele mesmo no compreendia? Harry 
seguira o que lhe ditava o corao e confiara em que este sabia o que estava a fazer. Que mais poderia fazer?
- O Harry est certo! - atalhou Llewelyn, erguendo a cabea.
Os seus olhos haviam comeado a brilhar, perante a perspectiva de aco. Estendeu a mo para o ombro de Harry, puxou-o para si e acrescentou:
- Ao primeiro gesto nosso para resgatar a refm, a vida de Isambard no duraria mais de uma hora. Mas ns podemos fazer melhor. William Isambard diz ser o guardio 
desta Marca em nome do rei, no  verdade? Vamos pr  prova as suas qualidades de comando.
David e Owen lanaram-lhe olhares de consternao e incompreenso profundas, idnticos aos que haviam lanado a Harry ao ouvi-lo. O prprio Harry fitou o prncipe 
com espanto quase igual, ao qual se juntava porm uma centelha de esperana e de ardor que lhe aqueceu o corao.
- Vai procurar Madoc, Owen. Pede-lhe que venha ter comigo dentro de meia hora e que traga os seus capites. Amanh, vou mand-lo embora de Brecon. Penso que esta 
guarnio j sofreu um cerco suficientemente longo. Vo ter muito trabalho para fazer aqui e isso afast-los- do caminho do conde Richard pelo menos durante umas 
semanas. S h uma maneira, ou pelo menos eu s conheo uma maneira, de me aproximar de Parfois sem levantar suspeitas: em armas.
O prncipe voltou os olhos brilhantes para o filho, deparou com a sua expresso de surpresa e sorriu.

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- Vai com ele, David. Deixai-nos a ss por algum tempo. David e Owen obedeceram sem discutir mas, tambm, sem
compreender. Aceitavam e aprovavam a deciso de Llewelyn mas o raciocnio por trs dela estava para alm da sua compreenso.
- No te preocupes com eles - aconselhou Llewelyn, depois de os dois jovens haverem sado. - Quando Deus entender que chegou a altura, ficaro a saber o que no 
disseste. Ainda so novos e procuram uma explicao e uma razo para tudo. Mas gostam demasiado de ti para discutir. Confia neles, sempre que precisares, e eles 
apoiar-te-o.
- Eu sei, senhor - respondeu o jovem, tremendo.
Que poderia, contudo, dizer do prncipe, que vencera o fosso da incompreenso de um s salto e at o aliviara do fardo das interrogaes e da angstia? Sentou-se 
no cho, ao lado da cadeira de Llewelyn, e, com um enorme suspiro de gratido, apoiou a cabea nos joelhos do prncipe, sem dizer palavra. Ao cabo de um momento, 
o corpo agitou-se-lhe suavemente em soluos silenciosos.
Llewelyn acariciou-lhe os cabelos castanhos e manteve a mo sobre a cabea de Harry.
- Eu sei! Eu sei! Os teus esforos no bastaram, mas ningum podia haver feito melhor. Nenhum homem consegue atravessar a vida sem falhar. Precisas de aprender a 
viver com os teus erros. Como fazem os prncipes. Como eu fao.
Harry ergueu a cabea, num gesto de negao breve e violento. Llewelyn tranquilizou-o, segurando-lhe a cabea com ternura entre as palmas das mos e sorrindo com 
alguma amargura ao recordar as suas prprias memrias.
- Como ele faz - acrescentou Llewelyn, suavemente, comovendo-se ao ouvir o suspiro de alvio e apaziguamento que lhe respondeu. - Pensas que ele te acusaria por 
haveres falhado?
Nunca era preciso contar-lhe nada: Llewelyn possua o dom especial de penetrar no corao das pessoas que amava. Naquele momento, sentia na prpria mente os anseios 
e as angstias que agitavam o ser fechado daquele seu filho emudecido. Todavia, certa vez, essa clarividncia do amor faltara-lhe, o que custara a todos eles um 
ano de desolao. Harry tambm se lembrava.

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- Se a tua interpretao estiver correcta, ela est em segurana. Se ainda precisam dela como refm para obterem a aquiescncia de Isambard, vo cuidar bem dela. 
E, mesmo que Madonna Benedetta j haja servido os fins deles, no h nada que possam lucrar se lhe fizerem mal, nem motivo para lhe desejarem mal. Quanto a Isambard... 
penso, Harry, que, se no aparecer ningum a pr em causa o ttulo e o direito de William ou a imiscuir-se nos seus segredos, ele no vai apreciar a ideia de mandar 
j o pai deste mundo para o outro. No precisas de te preocupar com o tal passo em falso nas escadas. Isso aconteceria demasiado depressa, logo aps a abdicao, 
e levantaria dvidas em muitos espritos. O rei Henrique no pode estar rodeado de homens comprometidos e no daria um cargo nem seria tolerante para William, se 
comeassem a ouvir-se murmrios a seu respeito. No, se puder, ele vai deixar passar algumas semanas ou mesmo alguns meses. No nego que deseje a morte do pai. Tal 
como a ti, parece-me evidente. Mas com alguma discrio, por medo de chamar sobre si as atenes que pretende evitar. E no agora! Ainda no!
- Senhor! - exclamou Harry, agarrando-se a Llewelyn como quem se agarra a um rochedo, num mar agitado. - Vejo as coisas to mudadas! Ele nunca me fez mal nem deixou 
que ningum fizesse. Nem faltou  palavra dada.
Numa voz surpreendida, que soava abafada pelas pregas da capa do prncipe, Harry ia soltando pequenos pedaos da verdade,  medida que os ia descobrindo.
- Uma vez, bateu no de Guichet. Por minha causa. Quando eu estava prestes a desesperar, ele impedia-me. Quando eu estava abatido, dava-me nimo. E todavia... e todavia, 
ele...
- E, todavia, arrancou o teu pai da sepultura - concluiu Llewelyn, pronunciando docemente aquilo que Harry no era capaz de dizer.
De sbito, o jovem comeou a chorar desesperadamente. Aquilo era a nica coisa que no mudara, a nica coisa que ele no suportava.
- Filho, filho - murmurou Llewelyn, acalmando-o com carcias um tanto rudes, como faria a um co de que gostasse muito. -

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Pensas que s o nico que no entende? Estamos todos s escuras. Espera at Deus decidir clarear o cu. Tu podes, porque dispes de tempo.
- Sinto-me to perdido, senhor! No percebo nada!
- Espera a tua hora, Harry, espera a tua hora. Tens muito tempo  tua frente. Mas tempo  uma coisa com que William no poder contar. Porque, antes de ele se dar 
conta, ns estaremos junto s suas muralhas e vai ter mais em que pensar do que na herana roubada. No pediremos a libertao da nossa mulher santa. No
vamos oferecer um preo; tu e eu, no vamos dar-lhes o menor sinal
de que sabemos o que se passa ou nos importamos com a sorte de lorde Isambard. Apresentar-nos-emos em armas e apoderar-nos-emos do castelo, dos prisioneiros e dos 
usurpadores. E ser das tuas prprias mos que Isambard receber, primeiro a sua liberdade e depois tudo o que lhe pertence. Ficas contente assim?
. As graas de Deus so maravilhosas, insondveis, apropriadas, pensou o prncipe, contemplando a cabea do jovem, que repousava sobre os seus joelhos. Foi a isto 
que Ele reduziu a tua vingana, Harry, e a minha. Eu jurei conquistar e destruir Parfois por tua causa e, se Deus quiser, assim farei, mas no do modo como pensei 
quando fiz o juramento. E quantas promessas o teu corao no fez ao teu jovem pai de vingar a sua morte, matando Isambard? Sem nunca pensares na estranha emoo 
que se apossaria de ti, quando finalmente tiveste a vida dele nas mos e lha devolveste de livre vontade, juntamente com um pedao do teu corao, metamorfoseado 
num traidor. Traidor pelas regras deste mundo, mas eu penso que abrigas no peito um guia melhor do que qualquer outro que o mundo te pudesse dar. No o ponho em 
questo. Deus sabe o que faz.
Harry no respondera, a menos que se considerasse resposta o suspiro profundo que soltara e o facto de haver soltado das mos as pregas da capa de Llewelyn e de 
o seu corpo, encostado aos joelhos de Llewelyn, se haver tornado menos rgido. Justificado, tranquilizado, aceite, encorajado, Harry deixou de resistir e mergulhou 
num sono prodigioso, que o aguardava e lhe estendia os braos desde o dia em que sara de Parfois. Estava plenamente confiante. Estava satisfeito.

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Llewelyn inclinou-se e pegou no jovem ao colo, com a mesma brusquido e afecto que, muito tempo antes, mostrara ao pegar na criana cansada de tanto brincar para 
a deitar na sua prpria cama, seguro de que nem mesmo um trovo o acordaria.
- Como tu cresceste, rapaz! - observou, ao erguer Harry do cho, para o deitar no leito de campanha. - Nem sequer admitiste que ele te ultrapassasse em algumas polegadas?
Com um enorme suspiro de prazer, Harry estendeu-se na cama e enterrou o rosto nas mantas. O calor da voz distante chegou at ele e ele arrastou-o consigo, sorrindo, 
para o poo sem fundo do sono. Cobriu o rosto com um brao, para o proteger da claridade, estremeceu da cabea aos ps e, depois, no se mexeu mais.
- Bem podes ficar quieto! - disse Llewelyn, tapando-o. - Nenhum dos meus filhos de sangue me deu tantos trabalhos como tu. S Deus sabe, filho, se conseguiremos 
salv-lo, como tu queres - acrescentou, observando a respirao suave e compassada de Harry, com um sorriso triste. - Mas juro por Deus que vamos tentar.
Llewelyn sentou-se ao lado da cama, reflectindo sobre o empreendimento to confiantemente entregue nas suas mos. O homem prope e o homem executa; mas Deus faz 
abanar o cho sobre o qual o homem assenta os ps e leva-o a fazer coisas que nunca pensara fazer. O homem parte para destruir o seu inimigo e chega para o libertar. 
Ento, que assim seja. Deus sabe o que faz.
Os aspectos prticos de tal cometimento no estavam em discusso: capites e engenheiros diriam, a uma s voz, que o assalto a Parfois era impossvel. ptimo, est 
decidido, pensou Llewelyn, exaltado e inquieto, fitando o rosto calmo e confiante do jovem. Agora, vamos ver como levar a cabo a tarefa.

- Pois ! - disse Gilleis, dividida entre o riso e a irritao, dirigindo-se  princesa, por cima do ombro do filho. - Que vos havia eu dito? O prncipe devolve-me 
o meu filho por uma hora e depois leva tambm o meu marido. Que havemos de fazer com estes homens?
- Melhor dizendo - respondeu Joan, com um sorriso pesaroso - que vamos ns fazer sem eles? Passamos mais tempo

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sem eles do que com eles. Vs e eu, Gilleis, vamos preparar as nossas bagagens e vamos ao encontro deles a Castell Coch, pelo Natal. Se ficarmos aqui,  bvio que 
passaremos o Natal sozinhas.
- Se no fosse por Benedetta, no vos emprestaria o Adam. Ele  um mestre canteiro e no um soldado. Mas por ela... se me pedsseis o sangue das minhas veias, que 
poderia eu fazer seno estender o brao para a faca? Oh, Harry, se ao menos pudesses lembrar-te daquela cavalgada que fizemos juntas at Shrewsbury, quando tu tinhas 
apenas duas ou trs semanas. Ela vestida com as roupas de Robert e tu a dormir nos braos dela, como quem dorme numa cama. Confiavas tanto nela... e bem podias confiar. 
- Puxando-o contra o peito, Gilleis acrescentou: - Oh, Harry, tira-a de l s e salva!
Ter o filho junto de si, apesar de to mudado e amadurecido, de to menos dependente dela, rejuvenesceu Gilleis em vrios anos: os seus olhos grandes e negros brilhavam 
e o seu rosto estava corado como o de uma rapariguinha. Harry sentiu-se mais velho do que ela e amou-a ainda mais por isso.
- Faremos o que estiver ao nosso alcance, me. O prncipe diz que, por algum tempo, Madonna Benedetta estar em segurana em Parfois. E est a avanar bastante depressa 
em seu socorro. A vanguarda partiu de madrugada, antes de eu acordar. Madoc e os seus homens devem estar agora a atravessar o Severn, a montante e a jusante de Parfois, 
e o prncipe e o seu exrcito j partiram de Brecon para se lhes juntar.
No seu esprito reapareceu a imagem do casco vazio, calcinado e fumegante do burgo, as muralhas destrudas do castelo, tambm a fumegar. Mais de metade das foras 
galesas deveriam estar j em marcha, antes de os sitiados se aperceberem que a longa provao por que haviam passado chegara ao fim e ousarem aventurar-se em prudentes 
exploraes entre as cinzas do burgo. Pouco ou nada haveriam de encontrar ali, tal como pouco ou nada haveriam de encontrar nos campos das redondezas. De Brecon, 
no seria lanada qualquer perseguio, nenhuma surtida que ameaasse a retaguarda. Os defensores teriam apenas foras suficientes para caar o que comer, no podendo 
desperdi-las contra os seus inimigos.

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- Faremos o que for humanamente possvel - garantiu Harry. - E vamos precisar do Adam como engenheiro. Foi o prncipe quem pensou nisso e mandou-me aqui busc-lo. 
Disse que o Adam conhece a pedra, conhece Parfois e sabe guerrear to bem como qualquer outro homem. Se no conseguimos subir at eles, vamos faz-los descer at 
ns, com castelo e tudo, foi o que disse o prncipe. Os homens que precisaram de pedra para construir edifcios derrubaram montanhas e transformaram em cavernas 
penhascos maiores do que Parfois. Porque no havemos ns de fazer outro tanto por Madonna Benedetta? Como vedes, me, no podeis recusar-nos o Adam. "Durante quatro 
anos", disse-me o prncipe, "tentaste arranjar uma maneira de escapar de Parfois. Se existir um ponto fraco no interior, hs-de encontr-lo e, se existir um acesso 
a partir do exterior, o Adam indicar-nos- o caminho. Pensai bem os dois, pelo caminho, e quando atravessardes o Severn trazei muitas ideias alinhavadas ou ponho-vos 
a trabalhar nas cozinhas do acampamento, pois no servis para mais nada."
- E tem toda a razo - disse Gilleis afectuosamente, abraando-o com o corao cheio de orgulho, dor e felicidade. - Claro que o Adam vai em socorro de Madonna Benedetta 
e da melhor boa vontade. Vai, filho, vai procurar o teu pai e conta-lhe tudo. Ele est nos redis.
Harry deu-lhe um beijo rpido e saiu, a correr como um galgo.
- Pai, irmo adoptivo - murmurou Gilleis, ternamente, vendo-o afastar-se. - Santo Deus! Hoje em dia, nem sei com qual deles estou a falar!
Atravessaram o Severn pelo vau de Pool, s primeiras horas de um dia glido e escuro. Os primeiros neves e os primeiros degelos haviam feito subir o nvel das guas, 
que agora cobriam todos os charcos da zona alagadia. Depois disso, a geada, que se tornava mais dura noite aps noite e que, durante o dia e mesmo ao meio-dia, 
quase no fundia, havia transformado os charcos em placas de gelo. O curso principal do rio, ladeado nas duas margens por faixas de algumas jardas de gelo escuro 
e traioeiro, corria com violncia, castanho e sombrio, arrastando pedaos de gelo quebrado, o que

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tornava arriscada a sua travessia. A meio da corrente, os cavalos perderam o p e foram obrigados a nadar. Conduzi-los para a margem foi uma tarefa perigosa, porque, 
em todos os stios onde o experimentaram, o gelo se quebrava sob o seu peso, deixando-os a debater-se contra superfcies denteadas, que formavam verdadeiras barreiras 
de facas  altura do peito dos animais. Harry desmontou com dificuldade sobre a superfcie escura e procurou um stio abrigado onde uma salincia de terra emergisse 
da corrente. Encontrou-o e, com toda a cautela, Adam e Harry conseguiram fazer avanar os animais extenuados sobre gelo slido e, por fim, conduzi-los a resfolegar 
at  margem.
A tremer, Barbarossa deixou-se levar ao longo da lngua de terra slida e, encontrava-se praticamente a salvo sobre a erva alta e coberta de neve, quando, de repente, 
deu um salto para o lado, ao ver uma mancha de cor na gua gelada. Harry teve srias dificuldades em acalm-lo e faz-lo passar por aquilo, no lhe restando tempo 
para se interrogar ou olhar, at essa tarefa estar cumprida. Mas, quando foram ver o que espantara o animal, ficaram sem respirao, to assustados como aquele.
Por baixo do gelo, brilhava um escudo com as cores vermelho e ouro de Isambard e um rosto fitava-os, de olhos esbugalhados, os longos cabelos grisalhos colados  
cabea partida. A pouca luz que havia quela hora reflectia as cores e assinalava pequenos pontos brilhantes, sobre o ombro de uma cota de malha. Foi assim que descobriram 
o primeiro dos mortos de Parfois. Perscrutando ento as proximidades com um olhar mais atento, detectaram os vestgios da breve batalha travada junto ao vau.
Um elmo aqui, uma espada quebrada ali, jazendo na margem do Severn. Arrastados para a margem, num ponto onde a corrente abrira uma cova funda, jaziam mais quatro 
corpos, todos ingleses. Se houvera mortos galeses, os galeses haviam-nos levado para os enterrar, enquanto os ingleses haviam abandonado os seus. Ao chegarem s 
ervas altas, Harry e Adam tropearam num arco, de corda esticada, semienterrado na neve. Flechas quebradas, um pedao de tecido ensanguentado de um pelote branco, 
rgido como ao, cujas manchas haviam desbotado para um rosa plido. Finalmente,

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na orla da floresta, no meio de um macio de arbustos, depararam com um corpo forte e musculado, arqueado sobre uma espada quebrada, na posio em que ficara depois 
de se ter arrastado at ali, a rastejar, antes de morrer. Viraram-no para lhe ver o rosto e o corpo voltou-se todo, inteirio, como se fosse um bloco, uma grgula 
grotesca de pedra: a barba farta e a expresso severa pertenciam ao velho Nicholas Stury, o mestre de armas.
Harry contemplou-o longamente e, no seu corao, abriu-se um minsculo vazio de consternao, que lhe doa como uma ferida. Todavia, a imagem que contemplava nada 
tinha de novo: j vira outros corpos, alguns de homens que ele prprio matara, e nunca pensara muito neles. Porque haveria de perturb-lo a viso de um rosto que 
lhe era familiar, agora que se encontrava em territrio ingls? Porqu chorar por Stury, um homem de quem nunca gostara, por quem nem sequer sentira simpatia, um 
velho fanfarro com mau feitio, que sentia prazer em castigar os discpulos mais tmidos, durante os exerccios, e no suportava ser vencido? Todavia, os dois haviam-se 
cruzado todos os dias, durante cerca de quatro anos, na rotina ordeira de Parfois, e, mesmo contra as respectivas vontades, haviam feito parte da vida um do outro. 
Um homem com quem, durante tanto tempo, se partilharam idas e vindas passa a ser um dos nossos, com as suas excentricidades e humores, e, queiramos ou no, -nos 
mais prximo do que um estranho. Harry fez-lhe o sinal da cruz sobre a testa fria e afastou-se, deixando-o ali.
- Algum teu conhecido? - perguntou Adam, j na sela, ao reparar no olhar fixo e sombrio de Harry.
- Sim - limitou-se a responder Harry.
- Ele foi bom para ti? - perguntou Adam, num palpite bem distante da realidade.
- No. Nem para nenhuma outra pessoa, que eu haja dado por isso, Mas estava vivo e,  maneira dele, gostava tanto de viver como qualquer homem bondoso...
Com um encolher de ombros, Harry lanou o problema do velho Nicholas para trs das costas, montou e atravessou a faixa de pradaria, em direco ao bosque. Era melhor 
habituar-se  ideia de que iriam encontrar outros mortos.

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As nuvens eram to baixas, espessas e escuras que, da margem inglesa, no se avistava a margem galesa, e a silhueta da Long Mountain era apenas uma massa prpura 
escura de rvores, que se dilua na bruma. Porm, as suas narinas agora apuradas estremeciam com o odor forte que pairava sobre a floresta: Harry e Adam aperceberam-se 
de que pelo menos metade da obscuridade que cobria o mundo no era devida  bruma, mas ao fumo. O frio glacial podia impedir que os cadveres cheirassem mal, mas 
nada podia contra o odor acre do fogo. Sob a neve fresca, os dois comearam a pisar mato queimado e, aqui e ali, as rvores eram apenas troncos enegrecidos com restos 
de ramos quebrados. Espinheiros, silvas e fetos haviam sido queimados em muitos stios e os animais haviam fugido daquela desolao. Alguns pssaros j estavam de 
regresso, saltitando e debicando na neve: eram as primeiras criaturas a fugir de medo e as primeiras a arranjar coragem para voltar, os mais frgeis e mais resistentes 
filhos da floresta.
Harry e Adam passaram por uma quinta incendiada, onde os restos escurecidos das paredes da casa se destacavam sobre a neve. Encostado a ela, polvilhado de branco 
pela ltima queda de neve, jazia o campons, com uma flecha galesa partida cravada nas costas. Aquilo era um pressgio bastante claro do que iriam encontrar  chegada 
ao lugarejo abaixo de Leighton: um amontoado de esqueletos carbonizados de casas, estbulos vazios, dois ou trs ces mortos e um infortunado aldeo que preferira 
ficar e defender as suas provises de Inverno, do que fugir a sete ps. Os outros haviam procurado refgio em Parfois, antes da passagem dos invasores, ou abalado 
para os confins da floresta, com os seus animais, para sobreviver como pudessem ou morrer de fome. Todos os gros de trigo, todas as vacas e todas as galinhas haviam 
sido levados para engordar a manuteno militar do acampamento de Llewelyn. O primeiro posto avanado do exrcito gals f-los parar e deu-lhes notcias do prncipe.
Este dispusera as mquinas de cerco e o grosso das suas tropas de modo a simular um ataque frontal pela encosta de Parfois e manter a guarnio na expectativa e 
no receio da queda do posto avanado da guarda, enquanto os homens das montanhas inspeccionavam

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o rochedo sobre o qual se erguia o castelo. As linhas de contravalao e circunvalao haviam sido instaladas em volta da nica via de acesso e seria l, na aldeia 
de cerco, que encontrariam o quartel-general do prncipe. A toda a volta de Parfois, estendiam-se linhas mveis de posies fortificadas galesas, que isolavam o 
castelo do mundo. Ningum podia l entrar, mas tambm ningum podia de l sair. Mesmo que dispusessem de vinte poternas por onde sair, como coelhos das suas tocas, 
os sitiados iriam sempre encontrar-se no meio do cordo de estrangulamento das tropas inimigas e teriam de combater para passar por ele.
- No deixmos um porco, uma galinha ou uma mo-cheia de trigo para eles comerem - contou a sentinela, sorrindo. - Camos sobre eles to depressa que nem tiveram 
tempo para fornecer a despensa. Se no conseguirmos obrig-los a sair de outra maneira, ho-de sair pela fome.
- E a populao? Que foi feito deles? - perguntou Harry, olhando para as runas das casas.
- A maior parte deles fugiu. Alguns para o castelo, onde vo aumentar o nmero de bocas a alimentar, outros para os bosques. Fomos obrigados a matar os tolos que 
nos enfrentaram.
Que outra coisa seria de esperar? Era a guerra e fora ele quem a desencadeara. Uma guerra eficaz, uma guerra com uma finalidade mortal e j no um jogo de estratgia. 
Saltara de alegria, quando o prncipe propusera aquela ofensiva: vira nela um meio de cumprir as suas obrigaes e aliviar a alma. Mas eram outros quem pagavam por 
ela. Assistira  rendio de Cardigan, vira Brecon a arder mas, a, aceitara as coisas de nimo leve, entrara no jogo, e s ocasionalmente o seu corao se sentira 
perturbado pela revelao da vida e da morte. Assistira a tudo como criana e como estranho. Agora, ali, era um homem, um vizinho, e todas as mortes o perturbavam.
Lanou um olhar desnorteado aos celeiros saqueados, aos estbulos pilhados. Adam contara-lhe, em tempos, que ele e o seu pai haviam ajudado os camponeses daquelas 
aldeias nas colheitas, quando muitos dos homens haviam sido recrutados  fora para servir no exrcito do rei Joo. O seu pai defendera corajosamente os direitos 
daqueles mesmos camponeses, rendeiros livres e servos,

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contra o seu senhor, sofrera com as injustias cometidas contra eles e imortalizara na pedra a afirmao da sua humanidade. Agora, vinha o filho despejar-lhes os 
celeiros, matar-lhes o gado e pregar o campons  porta da sua prpria casa, com ao. E no podia recuar. Ele, mais do que qualquer um, estava comprometido: tudo 
aquilo comeara por sua causa.
- E as gentes que vivem na floresta? - perguntou, com o corao apertado de medo.
I Aelis estaria por certo a salvo. Por certo? Se David, que s a vira uma vez, se esquecesse, Owen cuidaria de que ela e o pai sassem inclumes de tudo aquilo e 
lev-los-ia para um lugar seguro, como prometera. Todavia, no podia descartar-se das suas responsabilidades descarregando-as sobre Owen. Deveria haver previsto 
o que significariam a guerra e o cerco, as courelas destrudas, a floresta em chamas.
- Fugiram para buracos que s eles conhecem - respondeu a sentinela, encolhendo os ombros despreocupadamente. - Alguns dos que viviam na floresta preferiam viver 
em tocas de raposa do que procurar abrigo em Parfois. Outros talvez houvessem ido para l, mas faltou-lhes a oportunidade. Atravessmos o rio antes de eles darem 
por isso. Apanhmos-lhes os animais, antes de poderem mud-los de stio. Se vivessem com to pouco como ns, disporiam de mais tempo para fugir.
Harry fez Barbarossa dar meia volta e afastou-se, angustiado pelo medo. E quando, sem fazer perguntas, forou o andamento para acompanhar o de Harry e lhe olhou 
para o rosto, Adam leu nele o desgosto e um enorme arrependimento.
- Eu devia haver-te avisado - disse Adam, quando abrandaram porque o caminho se tornara ngreme.
- Eu devia saber. De que outro modo se poderia cercar e conquistar Parfois? Oh, Adam - acrescentou. - Comeo a aperceber-me de que nasci ingls.
- Agora, j no h nada a fazer, Harry - disse Adam, com tristeza. - Temos de ir em frente.
J chegaste a esse ponto?, pensou para consigo. O Harry havia de te amar ainda mais por isso.

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- Precisamos de libertar Benedetta - acrescentou, contendo-se a tempo de evitar referir o nome de Isambard.
- No me esqueci. Fui eu quem comeou isto e vou ter que o levar at ao fim.
Gostaria de falar de Aelis para aliviar o corao, mas no foi capaz, nem mesmo com Adam, que a conhecia, que dormira na casa de Robert e que comera po amassado 
por ela. O medo secou-lhe a boca, impedindo-o de pronunciar o nome dela. Ento, cravou as esporas no cavalo e partiu, colina acima, em direco ao troar fortuito 
e abafado dos trabucos. Nos stios onde precisavam de proteco, os galeses haviam deixado ficar as rvores e s o portentoso e ininterrupto duelo entre catapultas 
e balestras quebrara alguns ramos que juncavam de fragmentos o solo coberto de neve. Em menos de nada, Harry e Adam chegaram s linhas exteriores e viram-se rodeados 
por paliadas que os conduziram  estreita aldeia de cerco, fervilhante de homens e animais. E l estava Owen, saudando-os alegremente, de um alpendre encostado 
 muralha.
Harry saltou da sela ao seu encontro. Sem ouvir uma palavra do que Owen comeara a dizer, perguntou brutalmente:
- Onde est a Aelis?
- S Deus sabe, Harry! - respondeu Owen, com toda a honestidade, a alegria do reencontro j apagada do rosto. - E Deus sabe que lamento no haver uma melhor resposta 
para te dar. As coisas no correram como havamos planeado e no a encontrei. Mandei alguns dos meus homens procur-la...
- Devias ter tomado providncias - gritou Harry, sacudindo-o furiosamente. - Tu prometeste! Ou achas que eu podia vir com a vanguarda e ir a Aber, ao mesmo tempo? 
Pensava que ias  procura dela, mal atravessasses o Severn. Pensava que a punhas a ela e ao pai a salvo em Castell Coch, antes de soltares os teus homens. Santo 
Deus! Que foi que os deixaste fazer?
- Mas eu tambm no vim com a vanguarda. Como podia prever o que se passou? As ordens deles eram esperar e cobrir o vau, at eu me juntar a eles mas, por mero acaso, 
esbarraram com uma companhia de soldados de Parfois, que perseguia um servo fugitivo, na margem galesa. Lutaram com eles e empurraram-nos para

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o lado de c. O efeito de surpresa estava perdido, que mais poderia Madoc fazer seno avanar em fora e lanar mos  obra? Quando atravessei o vau, na manh seguinte, 
a floresta estava em chamas e as aldeias em runas.
- E no tentaste encontr-la - arquejou Harry. - Deixaste que a perseguissem como uma raposa, at  toca... no te preocupaste com ela...
Soltou Owen e, num gesto de angstia e descrena, juntou as mos que ardiam de desejo de esmurrar a cara ansiosa de Owen. Este agarrou nos punhos cerrados, passou 
um brao nos ombros de Harry e puxou-o para si, para o acalmar.
- Deus  testemunha, Harry, de que me preocupei com ela e que fui procur-la, logo que pude. Mas o mal j estava feito. A casa estava reduzida a cinzas e a vaca 
morta... Que querias tu? Os nossos homens tiveram de agir depressa e no havia nada que distinguisse a courela de Robert de qualquer outra.
A verdade daquelas palavras atingiu Harry, como uma facada. Na realidade, em que diferiam a sua amargura e a sua perda das de qualquer outro homem? A mulher do campons 
morto, l em baixo, havia tantas razes de estar triste como ele. Por cada morte, havia algum que sofria a mesma clera e a mesma dor que agora o revolviam.
- E eles haviam partido? Tentaste encontr-los?
- Que espcie de homem pensas que eu sou, Hal? Por mais de dois dias, os meus homens procuraram-nos e a courela continua sob vigilncia, para o caso de eles voltarem. 
Havia rastos e tentmos segui-los...
- No foram para Parfois? Claro que no, eles sabiam...
- No, foram para a floresta. Ambos, juro, Hal. Eu vi as pegadas. Mas havia cado neve nessa noite e perdemos-lhes a pista. Peo desculpa. Acalma-te. Dava uma mo 
para os trazer de volta sos e salvos.
- De que serviria isso? - perguntou Harry, num tom cortante. Libertando-se de Owen com um gesto tenso, afastou-se de
ambos. O seu rosto estava to cinzento como a neve espezinhada.
- Onde est o prncipe? Preciso de lhe pedir licena para partir. Preciso de ir ter com ela.

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- Ter com ela? Onde, santo Deus? Por esta altura podem j estar em Shrewsbury.
Acreditaria realmente nisso? Harry no acreditava. Os galeses ocupavam os dois flancos de Long Mountain; quem ousaria tentar atravessar as suas linhas, depois do 
que j se passara?
- Onde est o prncipe? - repetiu Harry, num tom agressivo. Mal ouviu a resposta, rodou sobre os calcanhares e afastou-se.
- Espera. Eu vou contigo - gritou Owen, transtornado e aflito.
- Deixa-o - interveio Adam. - Julgas que no quero ir com ele? Mas ele no quer nenhum de ns.
- No! - gritou Harry, voltando-se para os deter com um gesto furioso. -No quero ningum. Vou sozinho.
No havia tempo para suavizar a recusa: eles que pensassem o que quisessem. Perseguida, despojada de tudo e cheia de medo, Aelis no apareceria a ningum seno a 
ele, e mais facilmente ainda, se viesse de mos vazias e sozinho. Harry fugiu de Adam e Owen e chegou  presena de Llewelyn tenso e sem flego. De joelho em terra, 
pronunciou apenas as palavras estritamente necessrias.
- Cumpri a misso que me confiastes, senhor. O Adam est aqui. E aqui haveis as cartas da minha senhora. Agora, senhor, dai-me permisso para ir em busca de Robert 
e Aelis, que me alojaram e ajudaram quando aqui estive sozinho. Eles fugiram para a floresta, para escapar aos nossos homens, e a casa deles foi queimada. Dispensai-me 
at eu os encontrar e lhes dar abrigo, como eles me deram a mim.
Harry ergueu a cabea e fitou os brilhantes olhos de falco que o fixavam sem espanto, compreensivos e perspicazes; no havia nada que no se pudesse dizer a um 
homem que era imune  surpresa.
- No  um pedido feito de nimo leve, senhor - acrescentou Harry, arrebatadamente grave. -Amo Aelis do fundo da minha alma e pretendo casar com ela.
A cerca fora deitada abaixo, a horta arrasada pela neve e a courela abandonada. Da pequena casa, restavam apenas as vigas encurvadas do telhado, queimadas e enegrecidas, 
alinhadas como dentes partidos. Os dois homens de Owen haviam quebrado o forno

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de argila de Aelis para fazer uma lareira, e alimentavam o fogo com o que restava das gaiolas das galinhas.
- Vigimos dia e noite e nem sinal de vida - lamentaram-se. - Estamos aqui a perder tempo. Eles no vo voltar.
Harry era da mesma opinio: no voltariam, pelo menos enquanto aqueles dois ali estivessem.
- Deixai este local e ide ao encontro dos vossos companheiros - disse Harry.
- No quero arriscar a pele, se Owen ap lvor ouvir falar em tal - objectou o mais velho dos dois, ftando-o com um ar carrancudo. - As ordens dele eram ficarmos 
aqui de vigia.
- No vos preocupeis com isso. Ide e dizei-lhe que Talvace vos dispensou da vossa misso. Eu responderei por vs e Owen no vos acusar de nada. Apagai o fogo antes 
de partirdes e levai tudo convosco. Se estiver algum  espreita, quero que perceba que a vigilncia acabou.
Satisfeitos com aquela garantia, os dois homens no se fizeram rogar: apagaram o fogo no forno quebrado, pegaram nas provises que lhes restavam e partiram alegremente 
em direco ao acampamento. Harry ficou sozinho no local, agora desolado, onde Aelis vivera.
Naquele momento, era intil cham-la, pois ela no viria. Se Aelis estivesse viva e escondida num qualquer lugar daquela floresta violada, seria preciso persegui-la 
e apanh-la como se apanha um animal selvagem. A princpio, pensou Harry angustiado, Robert e Aelis deveriam haver encarado sem receio a chegada dos galeses, calculando 
que fora ele quem os trouxera e que nada havia a temer. Mas depois, antes de terem tempo de perceber o que lhes estava a acontecer, os soldados haviam desembainhado 
as espadas, disparado flechas e lanado tochas contra o telhado. Talvez, antes de ceder ao medo, Aelis houvesse visto a vaca ser levada e as primeiras galinhas degoladas. 
Talvez Robert lhes houvesse gritado que os deixassem em paz e se houvesse atravessado no caminho dos soldados; talvez estivesse ferido quando, finalmente, fugira. 
E ela... No, porque viriam eles de livre vontade ao nosso encontro, depois de tamanha traio? Nem mesmo ao meu encontro! Muito menos ao meu encontro,

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se ela no me amasse. Pobre Aelis! Sou eu a causa de tudo isto. Que Deus me perdoe e me ajude a reparar os meus erros.
Para onde haveriam fugido quando, por fim, o terror se apoderara deles? No para o topo de Long Mountain, porque a ficava Parfois e, ento, estariam encurralados 
entre o diabo e o inferno. Aqueles dois fugitivos tinham to bons motivos para se manterem longe de Parfois como para fugirem dos galeses. Tampouco haveriam seguido 
os carreiros habituais, situados nos terrenos planos abaixo do topo, porque a os cavaleiros podiam circular facilmente e em breve seriam apanhados. Deviam ter ido 
na direco do rio, onde ficariam longe dos dois exrcitos, numa estreita faixa de terra que ningum cobiava. Ali, podiam pelo menos ter esperana de escapar  
terrvel contenda, mesmo que isso lhes custasse dias e noites de marcha. Ou podiam atravessar o vau em Buttington e procurar refgio em Strata Marcella, onde os 
frades no interrogariam um necessitado, antes de o recolher.
A floresta densa ao longo do rio, onde no havia caminhos, no fora atingida pelo fogo. Harry prendeu Barbarossa, embrenhou-se no mato e, com uma pacincia mesclada 
de receio, comeou a busca ao longo da margem, em direco a jusante. Por duas vezes, avistou corpos que jaziam entre emaranhados de ervas geladas, para onde a corrente 
os arrastara, emparedados pelo gelo, e, com o corao na boca, aproximou-se. Mas nenhum desses corpos era das pessoas que procurava; respirando fundo, seguiu em 
frente, tenazmente. No voltaria sem ela.
O moinho no escapara aos galeses: fora saqueado e incendiado e o corpo do moleiro jazia no charco gelado da azenha. Porm, os soldados no haviam esperado at a 
destruio ser completa e um vento contrrio havia poupado a cave e o telhado. Aquele era o primeiro abrigo que encontrava e Harry percorreu as runas febrilmente, 
mas estas no abrigavam qualquer ser vivo. Algumas jardas adiante, sobre o gelo escuro, encontrava-se o barco, imobilizado, encalhado e intil.
Durante todo o dia, hora aps hora, sem conscincia da fome, da sede, do frio e do cansao, Harry prosseguiu a busca: em direco a jusante, para alm de Buttington, 
at o corao lhe dizer

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que aquela esperana se esgotara e era preciso voltar para trs, procurar noutro lado. No entanto, ao dirigir-se para montante, manteve-se junto  margem do rio, 
como antes, confiando no seu raciocnio: mesmo confuso e em pnico, Robert saberia o que fazer e manter-se-ia  beira do rio, o nico caminho onde podia esperar 
escapar  perseguio e evitar encontros fortuitos. Apesar de gelado de corpo e de esprito, Harry continuou obstinadamente a procur-los. Quando a luz do dia quase 
desaparecera j e o crepsculo pesado do Inverno comeava a instalar-se, chegou mais uma vez s proximidades do moinho, a uma lngua de terra onde a vegetao densa 
no fora atingida pelo fogo e onde podia movimentar-se sem ser visto.
Harry parou subitamente e ficou a olhar. Uma frgil silhueta escura saiu do barco e dirigiu-se para o moinho. Aelis, sempre to direita, gil e ousada, caminhava 
curvada sobre o gelo, coxeando, como uma criana doente ou um aleijado. Mas Harry reconheceu-a pela estocada instantnea de dor, que lhe atingiu o corao e lhe 
fez chegar as lgrimas aos olhos, e pela alegria por trs da angstia, que o levou a murmurar silenciosamente, entre os lbios trementes, palavras de agradecimento 
a Deus.
Ela estava viva e mexia-se. Por mais que lutasse, ele apanh-la-ia e amans-la-ia, segur-la-ia com as mos, impedindo-a de fugir, apert-la-ia com fora nos braos, 
para no deixar que se magoasse a estrebuchar de terror, at o seu contacto a enternecer e apaziguar, mesmo contra a vontade dela, at ela o ouvir e ficar quieta, 
demasiado cansada para continuar a ter medo, demasiado esgotada para continuar a lutar; at as suas palavras e as suas carcias atingirem a percepo dela e conseguirem 
alisar as penas eriadas, at o corao e o corpo dela o reconhecerem e se voltarem para ele. Mesmo contra a vontade dela!
Com o maior cuidado, avanou por entre as rvores, perdeu-a de vista antes de ela chegar a terra, apressou o passo com uma angstia surda e voltou a avist-la, quando 
ela subiu do gelo para a margem. Em pequenas passadas cautelosas, sempre com medo de ser trado pelo estalido de um rebento ou pelo movimento de um ramo, aproximou-se 
dela e chegou  cerca periclitante que rodeava o terreno  volta do moinho.

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Porque no examinara aquele local com o mesmo cuidado com que examinara o moinho, quando se dirigira para jusante? Se o houvesse feito, no poderia deixar de notar 
os sinais de ocupao humana e haveria sabido que Aelis estava ali e se escondia dele, se escondia de todos os homens horrveis, que tanto mal lhe haviam feito. 
Agora, Aelis julgava-se sozinha, protegida pela noite que caa, e sara do esconderijo para continuar o seu trabalho. A tremer e quase cego pelas lgrimas, Harry 
viu que Aelis trouxera uma picareta do moinho e estava a tentar fender o solo duro como pedra. Quanto tempo trabalhara ela j naquilo, para haver conseguido escavar 
aquela irrisria trincheira superficial, desenhada a preto sobre a neve?
Enrolara as mos e os ps em pedaos de serapilheira e, sobre os ombros, por cima do vestido grosseiro, os farrapos de uma saca de farinha; devia ter fugido sem 
sequer pegar na capa. O cabelo comprido estava descuidadamente enrolado na nuca, para no lhe dificultar os movimentos. No conseguia ver-lhe o rosto, em parte por 
causa da obscuridade, em parte por causa da sombra do cabelo. Harry saiu do seu esconderijo por trs dela, saltou por cima das estacas de madeira e aproximou-se 
como um gato.
Apesar de todas as cautelas, Aelis ouviu-o. Rpida e silenciosa, virou-se, deu um salto para trs e brandiu a picareta para lhe bater na cabea. Os seus olhos, enormes 
no rosto torturado e magro, apresentavam um brilho selvagem, que tornava impossvel dizer se ela o reconhecera ou se ainda possua senso suficiente para se lembrar 
dele. O rosto rgido e sem expresso da rapariga parecia um pedao arrancado ao gelo que cobria o rio, os seus olhos eram chamas azuis de medo e horror. Harry desviou-se 
da pancada, mas o cabo da picareta bateu-lhe no ombro, deixando-lhe o brao dormente. Os dedos de Harry s conseguiram agarrar a bainha da saca que servia de capa 
a Aelis e esta desviou-se violentamente, deixando-lhe a saca na mo. Em seguida, largou a arma e correu a toda a velocidade, como um veado ferido, para o abrigo 
das rvores.
Harry desatou imediatamente a correr atrs dela e nem mesmo o desespero poderia levar Aelis a correr mais do que ele. Alcanou-a junto  cerca e deitou-lhe a mo 
ao vestido, agarrando ao mesmo

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tempo uma mo-cheia de cabelo, o que a fez soltar um grito queixoso, que encontrou eco num soluo estrangulado da garganta de Harry. Mas ele no podia nem ia solt-la. 
Aelis voltou-se e cravou-lhe os dentes no pulso, e os dois caram sobre a neve. Ela caiu com a leveza quase imaterial de uma folha de rvore, to franzina e delicada 
sob o seu corpo que Harry se sentiu inundado por uma torrente inconsolvel de desgosto, horror e vergonha. Todavia, no tinha outra opo; continuou deitado por 
cima dela com todo o seu peso, pregando-a ao solo at ela ficar cansada, lutando com ela at conseguir domin-la; apenas a cabea da rapariga continuava a oscilar 
de um lado para o outro, para evitar o olhar dele, como se tambm aquele olhar tivesse o poder de magoar e matar.
Ao sentir que, debaixo de si, o corpo de Aelis se aquietava, Harry abrandou um pouco a presso e, num pice, ela libertou um brao e as suas unhas rasgaram arranhes 
profundos no rosto dele. Harry prendeu-lhe o pulso e voltou a assentar todo o seu peso sobre ela, no ousando correr risco igual. Encostou mesmo a cabea  dela, 
face contra face, e assentou a testa na neve, para a manter quieta. Aelis suspirava e respirava em arquejos longos e trementes e o contacto com a fraqueza, a frieza 
e o dio dela desencadeou em Harry uma convulso de desejo e angstia, uma nsia quase insustentvel do seu corpo por ela.
- Aelis! Aelis!
Harry quase no tinha voz para lhe pronunciar o nome, mas repetiu-o uma vez e outra, num murmrio, junto ao ouvido da rapariga. Nenhum tremor de conhecimento, nenhum 
afrouxamento, nenhum reconhecimento no corpo rgido por baixo dele. No entanto, Aelis estava consciente de uma coisa que ele no sabia: Harry chorava em grandes 
soluos, que entrecortavam as slabas do nome dela. A curiosidade penetrou atravs da estreita fenda do seu espanto humano e a piedade que a seguiu de perto hesitou, 
intimidada. A intensidade da imobilidade de Aelis alterou-se. Quando Harry ousou erguer a cabea e voltar a fit-la, nos olhos grandes, fixos e dilatados pelo choque 
despontava uma pequena chama de dvida e entendimento, que o encorajou a acreditar que a alma e a mente de Aelis ainda viviam dentro dela.

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- No me reconheces, Aelis? O Harry? No lutes comigo, no fujas. Vim procurar-te para te levar comigo. Aelis, meu amor, minha querida, no tenhas medo de mim...
Ainda era demasiado cedo. Para ela, aquelas palavras no passavam de um som distante, no desagradvel e, por uma vez, no era um som ameaador. Seria preciso esperar 
muito tempo antes de Aelis voltar para ele mas, pelo menos, deitara a primeira olhadela por cima do ombro.
Por fim, sempre com muita precauo, tirou uma das mos de cima dela, soltou a corrente que lhe prendia o manto e deixou-o cair sobre ela. Em seguida, deslocando 
cautelosamente o prprio peso, soergueu-a com um brao antes de Aelis se dar conta do que ele fazia, bloqueou-lhe os dois braos acima do cotovelo e enrolou o manto 
 volta dela, apertando-o bem para a impedir de se debater. Aelis assustou-se e, novamente assolada pelo pnico, tentou lutar, mas o esforo no durou muito. A sensao 
de calor penetrou no seu esprito e confundiu-a; pela primeira vez, Aelis sentiu que talvez as mos que a envolviam e os braos que a mantinham prisioneira fossem 
gentis.
Harry conseguira por fim domin-la, ela estava impotente. Pegou-lhe ao colo e levou-a para a cave do moinho. Encontrou os restos de um monte de palha, a um canto; 
sentou-se no cho com ela, arranjou um ninho para a acomodar, procurou tranquiliz-la com palavras doces, sem deixar de a segurar bem nos seus braos, com medo de 
que ela se libertasse e voltasse a fugir dele.
- Vim logo que pude, logo que soube. Agora, mais ningum vai fazer-te mal. Tomarei conta de ti. Vou levar-te para um lugar seguro. Vou levar-te para o p da minha 
me...
Disse-lhe o que lhe ia no corao, uma e outra vez; acariciou-a e amimou-a, uma e outra vez. A rigidez do corpo dela abrandou um pouco; a palidez glida do seu rosto 
atenuou-se. Harry beijou-a na testa e ela estremeceu e ergueu para ele um olhar espantado e nostlgico, lembrando-se de outras carcias. Ento, lenta e suavemente, 
Harry beijou-a nos olhos, nas faces, na garganta e, por fim, na boca. A boca dela despertou ao toque dos lbios dele, moveu-se e, com grande suspiro, comprimiu-se 
contra a dele.

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Agora, o corpo de Harry estava mais tranquilo, tomado por uma onda de ternura e j no de paixo. Ia saber esperar a sua hora. Abraou-a com fora, at a exausto 
e a surpresa a submergirem como uma onda do mar e Aelis adormecer nos seus braos. Depois disso, Harry esperou muito tempo, at ter a certeza de que ela no iria 
acordar, e ento aconchegou-a na palha e saiu silenciosamente do abrigo. As dobradias da porta estavam partidas, mas esta era pesada. Harry barricou-a, certo de 
que Aelis no seria capaz de a deslocar. Havia coisas que precisava fazer.
Primeiro, avanou prudentemente sobre o gelo, com a luz da lua que despontava a indicar-lhe onde se encontrava o barco. Sobre os bancos estava estendida uma velha 
lona, com uma das pontas levantada, como ela a deixara. E Harry descobriu aquilo que, no fundo, j sabia que iria encontrar: o corpo hirto de Robert jazia ali, onde 
morrera, com as feridas no peito e no brao coladas aos pensos que Aelis rasgara da prpria camisa. A capa dela tambm l estava, ternamente colocada sobre o corpo 
do pai. Seminua, naquele frio glacial, Aelis empreendera a rdua tarefa de cavar uma sepultura para o pai na terra gelada. Podia pelo menos poup-la a isso. Robert 
tinha agora um filho; demasiado tarde para o ajudar em vida, mas pelo menos a tempo de o enterrar.
Harry ajoelhou-se sobre o gelo e rezou uma orao pela alma do defunto. Ento, de repente, o fardo das suas responsabilidades e o peso da culpa esmagaram-no por 
um momento e os soluos sacudiram-no como o vento sacode uma faia. Mas foi um momento breve, que o deixou mais calmo e senhor de si. Ergueu-se, regressou  margem 
e, to depressa quanto lhe foi possvel, voltou ao lugar onde deixara Barbarossa. Levou o animal consigo at ao moinho e f-lo entrar - impaciente, nervoso e indignado 
- no abrigo onde Aelis dormia. Os alforges continham po, carne e vinho e o grande corpo do cavalo faria as vezes de fogueira, contra o frio da noite.
Aelis dormia na posio em que a deixara. Harry tocou-lhe, porque j no havia luz que lhe permitisse v-la, e ela no se mexeu. Contudo, quando levantou um pouco 
o manto, se deitou ao lado dela e voltou a enrol-lo bem  volta de ambos, Aelis espreguiou-se e suspirou. E quando a tomou nos braos, puxando-a para si a

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fim de partilhar com ela o calor do prprio corpo, ela voltou-se para ele cnfiantemente e aninhou-se contra o seu peito.
Harry ficou acordado toda a noite, com Aelis nos braos. De manh, ela abriu os olhos inchados, que o sono fizera recuperar o azul lmpido e puro das flores do campo, 
e, num tom de incerteza e melancolia, como se houvesse sonhado com ele, exclamou:
- Harry!
- Estou aqui - respondeu ele, tenso mas vibrando de esperana. E depositou-lhe na face um beijo suave, tranquilizador, um
beijo igual ao que daria a uma criana.
De sbito, Aelis lanou-lhe os braos  volta do pescoo e puxou-o para si com toda a fora. A barreira da solido, que a impedira de chorar, fora quebrada e as 
lgrimas brotaram, numa torrente de desgosto que escorreu com gratido sobre o peito de Harry.
Harry cuidou dela, alimentou-a, acendeu fogueiras para a aquecer, tomou-a nos braos durante a noite e, durante o dia, escavou a cova de Robert na terra gelada, 
como penitncia. Ao fim da tarde do segundo dia, depois de haver construdo uma espcie de tren e nele haver transportado o corpo para terra, para o enterrar, Aelis 
levantou-se e foi ao seu encontro, de livre vontade. De rosto plido, mas maravilhosamente calmo, ajudou-o a colocar o pai na sepultura. Rezou ao lado de Harry, 
e o seu desgosto era um desgosto humano e suportvel, as lgrimas corriam-lhe suavemente pelo rosto, no devido a um horror inconcebvel, mas devido a uma mgoa 
compreensvel, que o tempo ajudaria a sarar.
Ao terceiro dia, abandonaram o moinho e atravessaram o vau em Pool. Agora, j no era difcil: a superfcie do rio estava gelada entre as duas margens. Harry enrolou 
as ferraduras de Barbarossa em pedaos de pano e conduziu-o para a outra margem, sem perigo.
Chegaram s portas de Castell Coch perto do meio-dia. Um quarto de hora antes, haviam chegado outros viajantes e, no terreiro, reinava uma grande actividade de descarga 
das bagagens. Harry avistou o braso de cores vivas de Gwynedd, contou o nmero de palafreneiros, escudeiros e camareiros e concluiu que a princesa cumprira a sua 
promessa e viera cedo para a fronteira, a fim de

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passar o Natal perto do seu senhor. O facto tirava-lhe um peso dos ombros e deixava-o contente, porque, assim, poderia confiar Aelis  mais segura de todas as guardas. 
Mas, ao mesmo tempo, despontara nele um novo e inesperado instinto, que o fazia sentir-se constrangido e preocupado, e o advertia de que no era assim to simples 
comunicar  me que j era um homem e tinha uma noiva, sem previamente a haver advertido e sem haver pedido a sua permisso.
Gilleis, que sara dos aposentos da princesa para orientar o transporte da bagagem pessoal de Joan, parou nos degraus da casa senhorial, ao avistar o cavalo alazo 
que se aproximava, carregando duas pessoas. Esqueceu-se do que viera fazer, esqueceu-se dos aborrecimentos da viagem e do alvio da chegada. Viu apenas aquele homem 
jovem, forte e galante, um estranho de olhar grave e resoluto, de queixo coberto por uma barba loura de trs dias, que abraava a rapariga que transportava diante 
de si como se esta fosse um clice de ouro do qual receasse deixar cair uma gota de nctar. Gilleis ficou a v-lo desmontar, afastando o brao da figura esguia com 
enorme doura e relutncia, e teve um repente de exasperao ao ver que, com o tempo que fazia, Harry vinha sem manto... uma exasperao que duplicou, quando se 
apercebeu de que, na verdade, ele trazia um manto, mas que era a rapariga quem o usava. Apesar da palidez, da magreza e da sua idade, a rapariga usava-o como se 
este fosse prpura e, quando Harry lhe estendeu os braos para a ajudar a descer, inclinou-se para ele com uma adorao total e confiante, que mesmo os reis raramente 
inspiram. A despeito da dor que sentia, esta devoo provocou em Gilleis um impulso de ternura.
A hora que receava chegara demasiado cedo. Harry ainda no completara dezanove anos, estivera privada dele durante quatro anos e, agora, ia perd-lo para aquela 
jovem de cabelos dourados, rosto esquivo e inocente e olhos azuis como flores silvestres numa seara por ceifar.
Harry poisou a rapariga no cho com toda a delicadeza, como se a terra pudesse mago-la. Entregou as rdeas a um palafreneiro e voltou-se para a casa senhorial, 
com um brao sobre os ombros da companheira. Ento, viu a me ali parada e compreendeu que ela estivera a observ-lo.

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Gilleis apelou a toda a sua coragem e a todo o seu amor, e avanou para ele para o abraar.
- Ainda bem que estais aqui, me - disse Harry. - Trago comigo uma pessoa que gostaria de confiar aos vossos cuidados, uma pessoa que foi boa para mim e ficou rf 
por minha culpa. Esta  Aelis, filha de Robert, de quem j vos havia falado. Acabmos de enterrar o pai dela.
Aelis recuara um pouco, para no se intrometer no reencontro dos dois, e Harry voltou a passar-lhe o brao sobre os ombros e, com uma expresso grave no rosto corado, 
f-la avanar de novo.
-  a minha noiva que trago para junto de vs, me. Acolhei-a e cuidai dela at eu voltar. Tirando vs e eu, no tem mais ningum neste mundo.
Harry exprimira-se num tom prudente, orgulhoso e sereno mas, por um momento, Gilleis viu espreitar nos olhos dele a criana que j desaparecera, dividida entre o 
desafio e a splica; depois, o homem voltou a enfrent-la com o seu olhar altivo e imperioso. Deus abenoe este rapaz, pensou Gilleis, salva pelo riso irresistvel 
que as atitudes solenes e ingnuas dos homens sempre lhe provocavam, ser que pensa que eu ambicionava cas-lo com alguma princesa galesa que trouxesse um ou dois 
feudos como dote? Ou ser que Deus lhe ensinou esta astcia de se apresentar assim diante de mim, sabendo que eu s o entregaria de bom-grado a uma pobre criatura 
sem nada de seu? Se isto tinha de acontecer, que me resta fazer seno aceitar?  melhor entreg-lo de livre vontade do que v-lo ser-me arrancado  fora.
Olhou para a rapariga e viu-lhe as olheiras, a palidez das faces enregeladas, a pobreza do vestido. To jovem e to s, sem nada de seu, sem famlia, quem poderia 
censurar a forma decidida como se agarrava ao mundo,  esperana,  promessa de felicidade?
- E a quem havias tu de a confiar seno a mim? - perguntou Gilleis vivamente.
Afastando Aelis de Harry, abraou-a, beijou-a afectuosamente e acrescentou:
- Bem-vinda, minha filha. Deus sabe que lamento a perda que sofreste, mas estou contente com o que acabo de ganhar.

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Que Deus inclua esta mentira na conta dos meus mritos e no na dos meus pecados, pensou. E me ajude a transform-la em verdade.
- Sa do frio, vs dois, e vinde aquecer-vos  lareira, pois pareceis enregelados. Vinde ver a princesa e contar-lhe as novidades. Ela vai ficar contente.
Aliviado de um peso e ansioso por ir cumprir o seu dever, Harry recusou. Mas Gilleis teve direito a uma recompensa: Harry abraou-a e beijou-a com a exuberncia 
da alegria por os seus problemas haverem terminado e tudo estar a correr bem.  como todos os homens, pensou Gilleis: alegre e radioso, quando leva a sua avante. 
E riu-se, de si mesma e de Harry, tomada pela sua velha alegria de viver, ainda viva e pura. Que levara Harry a ter dvidas? Que a levara a si a ter medo? Acaso 
o pai dele pedira autorizao a algum, quando a escolhera para sua mulher? E havia ela esquecido a sua prpria audcia, quando, entre todos os homens, elegera Harry 
Talvace e apostara a vida em como o conquistaria, correndo o risco de perder tudo?
- No posso ficar, me. Preciso de voltar, pois tenho trabalho  minha espera. Eu conheo Parfois por dentro e eles precisam de mim l. Tomai conta de Aelis e eu 
ficarei contente. E amai-a, minha me - acrescentou num murmrio suplicante, junto ao ouvido de Gilleis. - Porque eu amo-a do fundo do corao.
- Quem melhor poderia tomar conta dela do que uma me? - replicou Gilleis, abraando-o ternamente. - Quem poderia am-la mais? Vai, ento, se  mister que vs, e 
no te preocupes connosco. Ficaremos muito bem juntas, a dizer mal de ti at tu voltares. H muitas coisas que preciso de lhe ensinar a teu respeito! Vai, filho, 
pe-te a caminho, j que precisas de ir. D-lhe um beijo e deixa-a ao meu cuidado.
Harry beijou-a, pegou no manto e, satisfeito com o destino das suas mulheres, ps-se a caminho, ao encontro dos homens entrincheirados  volta de Parfois, que procuravam 
uma falha, uma fenda no rochedo por onde o calor, o frio ou o ferro pudessem penetrar.
Gilleis e Aelis ficaram a v-lo afastar-se, num silncio breve e perigoso e, quando ele desapareceu da vista, olharam pela primeira vez uma para a outra, de um modo 
atento e inquisitivo.

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- Obedecer-vos-ei e ser-vos-ei grata, senhora - disse Aelis, medindo aquela que poderia vir a revelar-se uma adversria de peso. - E aprenderei convosco a melhor 
forma de o servir. Mas desde j vos digo que no vou desistir dele.
Quem diria,  primeira vista, que o corao daquela rapariga abrigava tanta coragem? Gilleis estudou-a longa e pensativamente e, por trs da palidez provocada pelo 
frio, pelas privaes e pela dor, detectou a determinao e a serenidade daquele rosto de traos puros, o brilho intenso dos olhos que sustentavam to honestamente 
o seu olhar, reparou no modo como a boca em forma de boto de flor formava e terminava cada palavra, pronunciando-a com a clareza cortante de uma espada. Aelis sabia 
o que dissera e era isso mesmo que queria dizer. O desafio fora lanado e restava apenas aceit-lo ou deixar correr: ela no mudaria. O aviso fora honesto, sem ressentimento 
nem malcia; mas, se tivesse de lutar por Harry, no daria trguas.
- Porque penso - acrescentou Aelis, numa voz ponderada, os olhos azuis brilhantes e directos como duas espadas - que no sou aquela que escolhereis para ele.
- Deus  testemunha, minha filha, que comeo a pensar que s - respondeu Gilleis com um sbito sorriso resplandecente.

CAPTULO NOVE

Parfois: Dezembro de 1233

De noite, no silncio enganador da natureza esttica e gelada, Parfois repousava, to imvel e imaculado como as estrelas do cu. Apesar da escassez das reservas 
de velas, havia bastante luz no salo; e apesar de terem de poupar nos alimentos, na cerveja e no vinho, para fazer face s necessidades de uma guarnio excessiva, 
no passavam muito mal. Na sua viglia nocturna, William Isambard passeava de um lado para o outro, no terrao da Torre da Rainha, observando a luz fraca das fogueiras 
distantes, no sop da montanha, minsculos elos de uma cadeia que o mantinha prisioneiro no interior das suas prprias defesas, deixando-lhe todavia aquela aparncia 
de paz. A prpria espera era difcil de suportar. Por trs vezes, tentara reduzi-la, atravs de sadas em fora de soldados bem armados, mas as baixas sofridas haviam-no 
ensinado a abster-se de procurar alvios to gravosos. O posto avanado da guarda era defendido a todo o custo: a torre danificada fora reforada com uma barreira 
tripla, erguida  pressa com as pedras destinadas  construo de mestre Edmund e era guardada por metade da guarnio. Se ocupasse a rampa de acesso, o inimigo 
poderia trazer as mquinas de guerra para o planalto da igreja e atacar o prprio castelo de perto. Mas, enquanto as

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primeiras defesas no cedessem, Parfois continuaria a ser inexpugnvel e a sua conquista impossvel. Dali do alto, William contemplava-o: intacto, em boa ordem, 
tranquilo, inviolado, inviolvel.
L em baixo, quais coelhos, quais toupeiras, os galeses martelavam incansavelmente no rochedo sobre o qual se erguia a fortaleza, devorando pedaos de rocha, palmo 
a palmo. Que quereria aquilo dizer? Que esperavam conseguir fazer? Mais valia tentar vazar o rio com conchas de sopa.
Ficava furioso, quando o mestre canteiro insistia em lhe apresentar um relatrio dirio sobre a sua obsesso persistente e quando de Guichet o seguia at ali,  
noite, e achava necessrio referir-se tambm quela actividade ridcula. Que lhe importava se os tolos dos galeses partissem os dentes a britar a terra? Toda a gente 
sabia que os galeses eram hbeis em escaladas, toda a gente reconhecia que eram capazes de escalar o rochedo e passar o barranco que separava a plataforma de Parfois 
da plataforma da igreja. E depois? No podiam trazer para ali as mquinas de guerra e tambm no havia posies praticveis, mesmo para os seus arqueiros. E, ainda 
que conseguissem chegar at  base das muralhas, no poderiam encostar as escadas. Deix-los escavar!
- O mestre Edmund diz que continua a ouvi-los, senhor. Por baixo das torres de vigia e, com maior clareza ainda, por baixo da armaria e da sala de desenho. Ele jura 
que os galeses esto a escavar por baixo dos nossos ps.
- Deix-los! Que benefcios podem tirar disso? A nica abertura que poderia ser perigosa est selada com pedras e as portas c dentro esto bem guardadas. Se o louco 
do meu pai no a houvesse usado para as suas artimanhas, nem isso haveramos tido preciso de sacrificar. Eles nunca dariam com ela, do lado de fora, se o rapaz 
no a conhecesse j. E no h mais poternas.
- Pois no, senhor. Mas h fendas e grutas. E o prncipe de Aberffraw tambm dispe de pedreiros, que sabem cortar a pedra to bem como o mestre Edmund.
- E cuidais que eles so capazes de abrir um tnel para entrar em Parfois? Em quantos anos? Deix-los escavar! Dai cabo deles sempre que puderdes e parai de me importunar.

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No topo das torres de vigia, no caminho da ronda e, at, em todas as galerias da muralha daquele lado, haviam sido colocados arqueiros em permanncia. De tempos 
a tempos, um homem dos cls mais incauto aparecia a descoberto e pagava por isso mas, ultimamente, haviam aprendido a manter-se sob proteco e as salincias proporcionavam 
uma boa cobertura. Pelo menos uma vez, durante a noite, os galeses haviam-se aproximado em nmero superior ao habitual e haviam sido detectados; os sitiados haviam 
lanado leo e depois tochas para o barranco, ateando um fogo que arrancara vrios homens em chamas dos seus esconderijos, para serem alvejados com toda a facilidade 
pelos arqueiros postados nas muralhas. Mas eles aprendiam depressa. Agora, mantinham-se colados ao rochedo e saam um a um, em silncio. Talvez houvessem alargado 
os seus buracos o suficiente, para se manterem longe do alcance do fogo. Todavia, que importncia tinha isso? Deix-los andar s apalpadelas, no escuro, at ficarem 
to cegos como o velho. Que mal podiam fazer l em baixo?
- Como desejardes, senhor. Fazemos o que nos  possvel. O rapaz, se bem estais recordado, senhor, tambm  pedreiro. Aprendeu com o mestre Edmund...
- Deixai isso, disse eu. H mais alguma coisa para contar?
- Nada de novo, senhor. O velho senhor, vosso pai, voltou a pedir para passear um pouco, no terreiro interior, durante a manh. Eu disse que vos perguntaria. Est 
a ficar doente por estar fechado h tanto tempo, depois da vida que levou. Bem podeis deix-lo apanhar um pouco de ar, de vez em quando - respondeu de Guichet.
O breve mas significativo olhar que lanou a William acrescentava "... se quereis que ele continue vivo."
Esta observao provocou um sorriso de alvio. O facto de aquele demnio de arrogncia haver sido obrigado a solicitar os seus favores representava o reconhecimento 
de que os papis se haviam invertido.
- Meu pai pode sair, desde que seja vigiado de perto. J ningum se deve importar com ele. E no  preciso ningum para o acompanhar. Se quer passear, que passeie 
sozinho, como puder.

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Mas cuidai de que no saia do terreiro interior. A mulher est bem segura no terreiro exterior e no pode ir ter com ele. Ela costuma perguntar por ele?
- No pergunta por ele nem pede nada.
Benedetta nunca pedia nada. No parecia uma prisioneira; passava os seus dias em silncio, mergulhada nos seus pensamentos, serena, totalmente insensvel  tormenta 
que se desenrolava  sua volta. Por vezes, quase tinham medo dela. Os seus olhos afastados denotavam uma tranquilidade assustadora e uma profunda sabedoria acerca 
da loucura dos homens,  qual ela era imune. Se a morte viesse procur-la, ela encar-la-ia com a mesma impassibilidade e acompanh-la-ia prontamente. A mulher santa 
de Aber, a cortes veneziana, a aventureira trazida para Parfois como trofeu de guerra das Cruzadas - vira e vivera tanto que o espanto no conseguia j atingi-la. 
Agora, j no tinha qualquer valia. A braos com aquela guerra, William ficaria contente por se ver livre dela, mas ela estava ali e no havia nada a fazer. Alis, 
talvez pudesse ainda vir a ser til: Benedetta era o nico aguilho capaz de forar a mo ao velho, se este voltasse a tornar-se obstinado.
- Cuidai de que ele se mantenha afastado dela.
- Assim far, senhor, porque foi o que prometeu.
- Cuidai disso, disse eu. No confio nele nem nela. Com quem passa ela o tempo?
Com ningum. Ou com toda a gente. Respondia prontamente quando falavam com ela e, todavia, no precisava da companhia de ningum.
- Umas vezes com as mulheres, outras com os msicos. Ela toca e canta. Dizem que bem. E com aquele velhaco de Reichenau, que parece ter alguns conhecimentos... fala 
com ele acerca de livros.
Mais um hspede sem o qual passariam muito bem, aquele monge desertor, com a sua lngua afiada e os seus olhos manhosos, que viera de Sul, de Chester, com o seu 
bornal e as suas histrias, para vender ao velho um fragmento duvidoso da cruz de So Pedro. Nos seus tempos, Ralf Isambard tornara-se conhecido como coleccionador 
daquele gnero de relquias e qualquer homem de boas

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falas conseguia obter dele alojamento, comida e uma recompensa generosa, mesmo que a mercadoria fosse suspeita. Directamente da Terra Santa, dizia ele, acabado de 
desembarcar e ainda plido devido  acidentada travessia desde Frana, em pleno Inverno. Viera at Parfois e em Parfois continuaria, por fora das circunstncias, 
at os galeses baterem em retirada. E como ele se lamentava, alto e bom som, da sua m fortuna por vir cair num tal vespeiro, mal pusera de novo os ps em Inglaterra, 
ao fim de tantos anos.
- Nunca suportei essas mulheres letradas. So obra do diabo. Mas, a despeito de toda a sua f de cruzado, o meu pai sempre mostrou gosto pelas obras do diabo.
De sbito, William voltou-se para as escadas da torre.
- O que  isto? Quem vem l? No vos ordenei que no os deixsseis incomodar-me a esta hora?
- Todos sabem dos vossos desejos, senhor. Ningum ousaria... Algum subia os degraus de pedra a toda a pressa e os seus passos provocavam um eco cavo.
- ... sem um forte motivo - acrescentou de Guichet, apressando-se a ir ao encontro do intruso.
Na estreita abertura das escadas, apareceu um camareiro, quase sem flego, que tropeou ao chegar ao lintel e se apressou a fazer uma vnia humilde, diante de William.
- Perdoai, senhor!  demasiado urgente para poder esperar. O poo... o poo grande, aquele no terreiro exterior...
- Imbecil! Ser preciso dizeres-me onde ficam os meus poos? Que se passa com o poo?
Dentro de muralhas, havia dois poos: um deles, o mais antigo e que, havia anos, era insuficiente para as necessidades do castelo, situado no centro do terreiro 
interior; o segundo, mais recente e com mais gua, ficava no terreiro exterior, no muito longe das torres de vigia, e era sobretudo dele que a guarnio dependia.
- Est seco, senhor!
- Seco? Como pode estar seco, idiota? Alguma vez esteve seco?
Roxo de fria, William agarrou o homem pelos ombros e virou-o, de forma a este ficar iluminado pelo luar.

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- Ests bbedo, para vires at aqui com tamanho disparate? Quem foi que te disse?
- Os moos de cozinha que foram l buscar gua contaram ao mordomo chefe, que me contou a mim, senhor. Mas no me fiei neles e fui eu mesmo ver. Infelizmente  verdade, 
senhor. Fizemos descer o balde cada vez mais e no encontrmos nada seno rocha. No fundo do poo, h apenas uma poa de gua. Vinde comigo, senhor, e vereis por 
vs mesmo.
Mas William j o soltara, correra para as escadas e descia os degraus quase em voo, como um falco que se lana sobre a presa.
No seu cmodo fechado e guardado, o cego ouviu o clamor que passava e voltou a cabea, de ouvido  escuta, para apanhar as poucas palavras que deixassem escapar 
ao passar diante da sua porta. Era to rpido a ouvir como a compreender. Por vezes, a sua capacidade de percepo causava medo aos homens que o guardavam. Bastou-lhe 
captar a palavra "poo" e o tom agitado das vozes deles para saber o que acontecera. Na escurido em que vivia, dispunha de tempo para raciocinar e no precisava 
de correr para confirmar. Pensou nas pessoas da casa, mais de mil almas, com a gua racionada a dedais, na resistncia dos homens, limitada aos recursos do poo 
velho. Houvera grandes problemas, mesmo em Veres pacficos, antes de haverem aberto o segundo poo.
Quem, de nimo leve e com desprezo, troara das laboriosas escavaes dos galeses, chamando-lhes coelhos e toupeiras? Os frenticos gritos de raiva de William, amaldioando-os, 
soavam agora bem alto. Que podiam os galeses fazer, no era? Pois bem: eles haviam-lhe mostrado o que eram capazes de fazer. Eram capazes de calcular a posio exacta 
do poo porque, entre eles, contavam-se homens que a conheciam, mais jarda menos jarda. Eram capazes de colocar os seus pacientes artesos no barranco e de os pr 
a trabalhar a coberto da salincia das torres de vigia, escavando a rocha, alargando com ps-de-cabra todas as fendas, todas as fissuras, que pudessem lev-los na 
direco do poo, abrindo caminho a martelo at l chegarem. E o primeiro fio de gua dir-lhes-ia que haviam atingido a nascente. Depois, era fcil alargar a

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abertura e deixar escorrer a seiva vital de Parfois, numa srie de fios prateados, sobre o rochedo, a caminho do regato e do rio, l em baixo.
Quando amanhecesse, talvez os sitiados pudessem ver, das torres de vigia, o novo afluente do Severn correndo sobre a rocha, mais abaixo, longe do seu alcance e da 
sua sede. Por uma noite ou duas, at a presso abrandar e restar apenas o dbito regular da nascente, a corrente deveria ser suficientemente forte para no gelar.
- Bem pensado, Harry! - comentou Isambard, rindo no escuro. - De toupeira para toupeira, foi um trabalho bem feito.
Trs dias depois de o poo haver sido esvaziado, o monge renegado de Reichenau, que fora obrigado a trabalhar, carregando tbuas para reparar as barricadas do posto 
avanado da guarda, caiu duas vezes sob o peso da carga, a queixar-se de dores e mal-estar. Foi forado a levantar-se  ponta de lana, por haverem pensado que ele 
estava a fingir para escapar ao trabalho, porque fugia do trabalho como o diabo foge da gua benta. Mas quando, por fim, o grupo atravessou a ponte para entrar em 
Parfois, o monge renegado encostou-se  beira do poo vazio, dobrado em dois com cibras terrveis e, passado um bocado, endireitou-se e caiu para a frente, rgido 
como um toro, fez ressalto e rolou, tambm como um toro, de boca aberta e a escorrer saliva, sobre a neve.
Um pajem, suficientemente jovem e inocente para sentir piedade, correu para ele, mas um homem de armas puxou-o para trs por um brao.
- Deixa estar! No lhe toques! No sabemos qual  o mal dele. Outros que haviam hesitado recuaram apressadamente, ao
ouvir isto, olhando, pouco  vontade, para o homem cado, que se rebolava e gemia debilmente. O homem abriu os braos e os que se encontravam mais perto deram um 
salto para trs. Sobre a neve, ao lado da sua boca, via-se agora um fio de sangue.
Madonna Benedetta, que saa da torre da guarda, atravessou o terreiro com as suas passadas longas e decididas e ajoelhou-se ao lado do doente. Ningum disse "deixa 
estar" nem tentou ret-la. Embora prisioneira, os seus actos s a ela diziam respeito.

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- Paulinus!
O monge renegado usava o nome de um dos mais doces cantores do mundo antigo, embora Benedetta desconfiasse de que era o nome que ele escolhera para si e no o nome 
que os pais lhe haviam dado no baptismo. Na verdade, a despeito das suas velhacarias, Paulinus era ainda dotado de uma certa doura sem graa e a sua voz tinha um 
toque de verdadeira frescura que, por vezes, at o surpreendia. Benedetta tocou-lhe no ombro e ele abriu os olhos. No crculo da antiga tonsura, o cabelo era mais 
grisalho e ralo, o cabelo irregular de um velho. O seu rosto apresentava as marcas da vida que levara; era verdade que fugira do convento e se tornara um vagus, 
mas o mundo fora bastante cruel com ele.
- Que se passa, Paulinus? Onde  que vos di? Paulinus encostou a cabea  manga dela, incapaz de falar.
- Ajudai-me - ordenou Benedetta, olhando com ar autoritrio para os que os rodeavam. -  preciso lev-lo para a cama.
Eles fitaram-na com desconfiana e, em vez de avanarem, recuaram, em pequenos movimentos furtivos. Um deles disse:
- No sabemos de que mal ele sofre.  melhor deix-lo como est. Vs podeis ser a prxima, senhora.
E comearam a murmurar entre si.
No se podia contar com eles e, se Paulinus ficasse ali, no gelo, de certeza que morria. No havia tempo a perder em conjecturas nem discusses. Agarrando-o pelas 
axilas, ergueu-o energicamente e, baixando a cabea, passou-lhe um brao  volta do pescoo e amparou-lhe o corpo.
- Conseguis levantar-vos? Apoiai-vos em mim e tentai. No  muito longe e eu ajudo-vos. No podeis ficar aqui.
Paulinus fez o melhor que pde. Com dificuldade, ajoelhou-se e colocou um p por baixo do corpo. O seu rosto estava escuro, como se, por baixo da pele, o sangue 
houvesse adquirido um tom prpura. Gemeu e levou uma das mos  garganta e ao peito, abrindo a tnica, como se no conseguisse respirar. Foi ento que se viram claramente 
as manchas vermelhas sobre a sua pele. No peito e pelo pescoo acima, as manchas vermelho-vivo alastravam e inchavam e ele coou-as e fez sangue.

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A multido recuou ainda mais, por entre uma balbrdia de gritos e advertncias. At quele momento, Benedetta no se apercebera de que eram tantos, a toda a volta, 
todos a olhar para ela; e outros acorriam, vindos de todos os lados; at o prprio de Guichet apareceu a correr, para ver o motivo de tamanha agitao. Estava a 
abrir caminho, em direco a eles, quando algum murmurou, pela primeira vez:
- Peste!
A palavra produziu o mesmo efeito que uma fasca sobre a palha. Num instante, propagou-se e foi repetida por todos os cantos, em gritos enlouquecidos. J no era 
uma palavra, mas um rugido animal. De Guichet conseguiu chegar junto deles, vociferando, e recuou mais depressa do que viera, ao ver o corpo sarapintado e o rosto 
coberto de manchas. Ento, foi agarrado por vrias mos, de pessoas que protestavam e imploravam.
- Peste! Ele trouxe a peste de alm-mar. Deus haja piedade de ns, a peste est entre ns!
- Isto no  peste - gritou Benedetta, em tom categrico, continuando a amparar Paulinus, que oscilava ao seu lado. - Eu sei o que  a peste, j vi peste e no  
isto. Deixai-me lev-lo para dentro e perguntai ao vosso prprio mdico.
Estas palavras foram acolhidas com um grito de "no". J era suficientemente mau o homem estar dentro de muralhas; no podia ser alojado no meio deles, como um homem 
so.
- E ela tambm no - guinchou uma das mulheres. - Ela pegou nele, tocou-lhe, est to suja como ele. Deus nos ajude a todos, se a deixarmos andar  vontade entre 
ns.
- Ponde-os l fora - comearam a gritar vrias vozes, que o terror tornava quase inumanas. - Fora de Parfois! No os queremos dentro de muralhas. Expulsai-os l 
para fora!
- Isto no  peste - repetiu inutilmente Benedetta. - Se o expulsardes, a culpa da sua morte recair sobre vs. Morrer de frio e no da peste e Deus pedir-vos- 
contas pela sua vida.
Os gritos abafaram a sua voz. Benedetta viu,  sua volta, uma dana fantstica de rostos aterrorizados, foi atingida por uma vaga de gritos agudos e excitados. A 
cabea do doente rolou sobre o seu

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ombro. Ela manteve-o de p, ao mesmo tempo que, com os seus olhos enormes e ardentes, afastava os inimigos assustados. Mas viu a morte aproximar-se de Paulinus e 
a sombra desta atingia-a tambm a ela. Voltou rapidamente a cabea, em busca de um rosto, um s, que se mantivesse calmo e no houvesse perdido a humanidade, algum 
que pudesse ser um aliado, a quem ela pudesse apelar. Contudo, o demnio do pnico, mais contagioso do que a peste, apoderara-se de todos aqueles rostos, transformando-os 
em mscaras grotescas e annimas.
-  peste, senhor... - disse, por trs de si, a voz trmula e horrorizada de de Guichet - temos a peste entre ns.
Benedetta voltou-se e viu William Isambard. Por certo ouvira o burburinho e sara, furioso, para perguntar o motivo, em voz portentosa e com bastante aparato; todavia, 
deparara com um clamor terrvel, que no lhe permitira fazer-se ouvir. Quando comeou a distribuir murros ao acaso, como era seu costume, os atingidos perceberam 
quem bramava nas suas costas e afastaram-se para lhe dar passagem. Foi assim que William Isambard desembocou bruscamente na primeira fila, cara a cara com Paulinus 
e ainda sem saber o que o esperava. Benedetta voltara-se a tempo de o ver recuar de um salto, to violento que fez oscilar os que se encontravam mais perto. Viu-lhe 
o rosto, no momento da compreenso, empalidecer e imobilizar-se num esgar de asco, viu os olhos dele ficarem vidrados, quais lanternas vazias, at o medo tomar cor 
e voltar a ilumin-los.
Perante isto, Benedetta sorriu e William viu-a sorrir. Aquela mulher, que estreitava a pestilncia com um brao e tinha a mo da morte poisada no seu ombro, aquela 
mulher ainda tinha a coragem de se rir dele. A clera regressou para coabitar com o medo. Mas que importava? William no tinha qualquer poder, ia para onde era obrigado 
a ir, para onde as circunstncias o empurravam. Ningum podia esperar a sua ajuda.
- Como foi que isto aconteceu? H quanto tempo est ele assim?
- S Deus sabe, senhor! Talvez haja sido contaminado no navio. Foi s agora, quando ele caiu, que ns vimos...

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As gentes agrupavam-se  volta do seu senhor e aqueles que tal ousavam agarravam-se s mangas dele, suplicantes.
- Salvai-nos, senhor! Mandai-os embora, antes de nos contaminarem a todos.
- Pelo amor de Deus, senhor!
- Olhai para ela! Agora, a marca dele tambm est nela e ningum pode limp-la. Mandai-os embora depressa... mandai a peste embora daqui ou estaremos perdidos como 
ela.
- Que devemos fazer com eles, senhor? - perguntou de Guichet, a tremer. - Se  na verdade peste...
A multido clamou que era peste, que esta se espalharia por Parfois como fogo em palha seca, e transformaria o castelo num cemitrio, para mais estando este cercado 
e sendo a comida e a gua escassas. William gritou, a impor silncio, e fez calar os balidos mais prximos a murro.
- Tende tento nessas lnguas tolas! Cuidais que eu quero a pestilncia na minha casa? Hei menos a perder do que vs? Seja peste ou no, no quero dar-lhe abrigo. 
Vamos p-los daqui para fora num instante.
- Este homem vai morrer, se o deixardes ao frio - argumentou Benedetta. - Pelo amor de Deus, dai-lhe pelo menos um abrigo onde eu possa cuidar dele. Uma cabana fora 
das muralhas, onde no possamos contagiar-vos, qualquer coisa, desde que haja um tecto sobre a cabea dele.
- Vai ter um tecto sobre a cabea e bastante espao - replicou William.
Os seus olhos frios e assustados, que se haviam enchido de dio quando ela se rira, encontraram algum conforto, ao v-la inclinar-se numa splica, apesar de esta 
ser feita no tom de algum que se julga com direitos.
- Levai-os e fechai-os na igreja, de Guichet. Trancai bem as portas. Todas as portas. E entaipai as janelas mais baixas.
- Sim, senhor.
- Se eles fugirem, pagareis com a vossa cabea. Levai-os, pois, levai-os para fora do castelo, no importa como. Contais com homens suficientes para tal.

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Aliviado, William recuou, sem desviar os olhos da mulher e do seu fardo arquejante. Benedetta viu-o estremecer, tomado pelo mesmo medo e pela mesma repulsa que transformara 
em monstros os homens de Parfois - homens que no eram piores do que os outros homens, quando no estavam mortalmente assustados. William enrolou bem o manto de 
pele  volta do corpo e colocou uma distncia segura entre si e a fonte de contgio, mas ficou  espera de ver cumpridas as suas ordens. No tinha apenas uma vida 
a perder, como qualquer outro homem: competia-lhe proteger e resguardar uma guarnio em guerra e tanto o seu castelo como o seu poder dependiam de ele ser capaz 
de os manter a salvo, no apenas da doena, mas tambm do pnico da doena. No fundo, Benedetta no o culpava muito; e, apesar de haver aberto a boca para formular 
nova splica, acabou por no dizer nada. Os uivos da multido no permitiriam que ele a ouvisse e, mesmo que a ouvisse, William no a atenderia.
- Erguei-vos, meu amigo, pelo bom-nome de todos os letrados - disse ao ouvido do monge renegado, ao mesmo tempo que colocava o ombro por baixo do ombro dele, para 
o amparar.
Os olhos de Paulinus rolaram e fitaram os dela: a mente arguta continuava a habitar o corpo debilitado. No rictus que lhe contorceu os lbios, Benedetta reconheceu 
um sorriso irnico, um sorriso igual a quase todos os sorrisos que o destino lhe arrancara durante a vida e muito apropriado para saudar a sua morte.
- Irei para onde fordes - prometeu Benedetta. - At um stio gelado parece mais quente, quando  partilhado.
Como era possvel a crueldade indesejada do medo transformar-se to rapidamente no fogo brutal do dio? Os homens de armas haviam corrido em busca de lanas e, a 
despeito do terror, aproximavam-se quase com regozijo, brandindo o ao. Benedetta virou-se, interpondo o seu corpo entre eles e o doente, arreganhando os dentes 
para os que estavam mais perto, como um co de guarda.
- Sereis homens? Afastai-vos! Se lhe tocardes, juro por Deus que soprarei a peste pelas vossas gargantas abaixo, nem que seja preciso trepar pelas vossas lanas 
para vos alcanar. Cravai as vossas lanas em mim e, com peste ou sem ela, havereis de pegar no

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meu cadver com as vossas prprias mos. Deixai-nos em paz e partiremos o mais depressa que pudermos. Se usardes as vossas armas, sereis obrigados a enterrar-nos.
Apesar da balbrdia, eles ouviram-na e hesitaram. As lanas ficaram em suspenso, algumas a tocar-lhe no peito. Em vez de recuar, Benedetta avanou ligeiramente, 
tanto quanto lho permitia o peso que assentava sobre o seu ombro, e comprimiu o corpo contra as pontas das lanas, de olhos muito abertos e brilhantes fitos nos 
rostos dos guardas mais ansiosos. O ao recuou diante dela, sem lhe fazer um arranho sequer. Se Paulinus estivesse sozinho, eles hav-lo-iam espetado, porque era 
a nica maneira de o empurrar para fora de portas. E se morresse pelo caminho, haveriam de o trespassar com as lanas, atirando-as depois com o cadver para o barranco, 
para propagar a peste entre os galeses. Mas com ela o caso era diferente. Com a ajuda dela, seria capaz de caminhar para o seu tmulo, poupando-os  necessidade 
de lhe tocar, mesmo  distncia de uma lana. No havia dvidas de que Benedetta os obrigara a pensar duas vezes. Quem poderia saber? Afinal, a mulher podia ser 
santa, como afirmavam os galeses. A clera de Deus podia desabar sobre eles por intermdio dela. Rodearam-na, com as lanas em riste, enquanto ela iniciava a melanclica 
jornada para fora de Parfois, mas, apesar dos gritos e ameaas, evitaram derramar sangue.
Ao lado de Benedetta, Paulinus arrastava os ps, a respirao arquejante e rouca. Caminhava o melhor que podia e, quando era obrigado a parar por alguns instantes, 
Benedetta rodeava-lhe o corpo com os braos e apoiava-o contra si, os olhos a flamejar avisos por cima do ombro, at ele estar preparado para se arrastar por mais 
algumas jardas, no caminho da morte. Foi uma jornada lenta, difcil e amarga, com os perseguidores colados aos calcanhares e o coro de vozes excitadas e cruis a 
entrar-lhes pelos ouvidos. Todas as gentes de Parfois correram atrs deles, seguiram-nos pela ponte-levadia, apinharam-se nos bordos do caminho estreito que conduzia 
 igreja. At alguns homens dos postos da guarda dispostos a toda a volta do planalto abandonaram a vigilncia e correram, arfando de excitao, para ver e fazer 
perguntas, juntando as suas vozes quele burburinho ensurdecedor.

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Assim os conduziram  porta ocidental e os foraram a entrar, to Benedetta voltou-se para os encarar e, com um olhar calmo e uma voz tranquila, disse:
- por caridade, dai-nos ao menos comida e gua.
gua? Restava-lhes apenas um poo, insuficiente para manter vivas mil almas, porqu desperdiar uma gota que fosse com duas j condenadas  morte? Comida? Quem sabia 
por quanto tempo mais iria o cerco durar? No podiam dispensar nada.
Fecharam-lhe a porta na cara. A toda a volta da igreja de mestre Harry, os homens de Parfois afadigavam-se a entaipar as portas, indo buscar tbuas, pregos e martelos, 
a fim de isolar o interior da igreja do mundo exterior, selando o tmulo.
O jovem Thomas Blount voltou do enterramento e, a coberto dos merles da muralha, aproximou os lbios do ouvido do seu senhor.
- Est feito, senhor - informou, em voz doce, satisfeita e orgulhosa da prpria esperteza. - Esto to bem fechados que nunca conseguiro sair.
- Ainda bem - respondeu William.
Sem desviar os olhos do vale do rio, onde reinava uma calma enganadora, ficou  espera do resto. O tom de voz de Thomas indicava que havia mais novidades.
- Todavia, senhor... - acrescentou Thomas, aproximando mais a cabea loira, para sussurrar -... l dentro, ficaram trs e no dois.
S ento William voltou a cabea por um instante, para lanar um olhar penetrante e gelado ao rosto resplandecente. Os arqueiros que patrulhavam a muralha no estavam 
muito longe. William olhou-os pensativamente e, quase sem mover os lbios, perguntou:
 Quem  o terceiro?
- Quando o alarme foi dado, senhor, o velho cego estava a dar
o seu passeio. Os homens que vigiavam a porta esqueceram-se dele e correram atrs dos outros. Ele ouviu e seguiu-os. Vi-o colado  retaguarda da multido. O velho 
percebeu quem havia as lanas apontadas contra si e para onde eram levados. No voltei a v-lo nem a pensar nele, at havermos rodeado a igreja. Eu fui o primeiro 
a chegar  porta Sul e vi o que mais ningum viu.

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Sorridente e seguro do efeito que ia produzir, Thomas Blount pronunciou docemente as palavras, junto ao ouvido impaciente que se inclinara para ele:
- Ele foi ao encontro dela. Eu vi-o entrar. Est fechado na igreja com os portadores da peste.
Houve um momento de silncio, durante o qual o rosto barbudo de William manteve uma impassibilidade de pedra. Depois, por um instante, os seus olhos brilharam de 
interesse e satisfao. Em voz baixa, perguntou:
- Ests certo disso?
- Absolutamente certo, senhor.
- E mais ningum reparou nele?
- Ningum, senhor. Toda a gente estava de olhos postos naquilo que era preciso fazer.
Ningum. Ningum a no ser o sagaz Thomas Blount, que via tudo e sabia muito bem como fazer uso daquilo que via, para cair nas boas graas do seu senhor.
- No contaste a mais ningum?
- No, senhor, juro que no.
- No  preciso, rapaz, no  preciso. A tua palavra basta. Portanto, isto  um assunto s entre ns dois. E ns no vimos nada... pois no, Thomas?
- Absolutamente nada, senhor. Quando os guardas finalmente se atreverem a confessar que no sabem do prisioneiro, vou tremer tanto como eles.
- Assim  que , Thomas! No me esquecerei da tua dedicao.
- Sirvo-vos o melhor que posso, senhor.
- E no deixars de obter a tua recompensa. Vem ter comigo  torre, esta noite, e dar-te-ei a prova da minha gratido. Vem sozinho e cedo, antes de o de Guichet 
subir para me apresentar o
relatrio. No quero que ele fique ao corrente do nosso segredo.
- Confiai em mim, senhor! Mais vale dois que no viram nada do que trs.
E o jovem afastou-se, contente por haver cumprido bem o seu dever e por haver conquistado a merecida gratido do seu senhor.

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Que mais poderia desejar do que continuar satisfeito consigo mesmo, at ao fim dos seus dias?
A MO QUE APONTAVA PARA AS FOGUEIRAS GALESAS, l em baixo, no
vale, a mesma mo que, apenas uns momentos antes, lhe oferecera um presente generoso, deslizou de repente pela beira de uma fresta entre os merles, onde a capa 
do ltimo nevo atingia uma altura considervel, abatendo-se depois como ao sobre o seu rosto, enchendo-lhe a boca e as narinas de neve gelada. O brao pousado 
amigavelmente sobre os seus ombros desceu, agarrou-o pelas coxas e levantou-o do cho. Thomas nem teve tempo para se segurar  pedra, quando foi iado sobre ela. 
Sufocado pelo frio, caiu sem soltar um grito. Durante a queda, as palavras de louvor e de afecto ainda ecoavam nos seus ouvidos.
William debruou-se, perscrutando a escurido, ligeiramente prateada pela luz das estrelas, antes de a Lua nascer. Comps as mangas e ficou  escuta,  espera de 
ouvir o impacto, l em baixo, mas este tardou a chegar e, quando veio, soou abafado e surdo. Era pouco provvel que chegasse a quaisquer outros ouvidos. Com todo 
o vagar, William apagou os traos dos seus dedos sobre a neve, voltando a dar a forma primitiva  aresta da fresta, limada pelo vento. A Torre da Rainha erguia-se 
a pique sobre a falsia. Os galeses, acoitados l no fundo, na orla de arbustos e rvores, eram os nicos que talvez viessem a tropear nos restos mortais de Thomas 
Blount e a interrogar-se sobre a forma como deixara este mundo. Era uma pena perder a fbula: no precisava de haver sido to generoso. Talvez dali a uma semana, 
houvesse um gals a usar uma fbula de ouro a prender a sua capa esfarrapada.
 uma pena, mas no importa. Agora, no h ningum que possa acusar-me de estar ao corrente do acto suicida do meu pai e nada haver feito. Estou inocente. O velho 
tolo obstinado recusou-se a aceitar uma morte limpa e incua, apropriada  sua idade; foi uma escolha sua. E quem sou eu para me intrometer nos desejos do meu pai? 
Serei por acaso seu senescal, para ir interromper-lhe as oraes? Ou seu confessor, para me interpor entre ele e a amante? Acaso dei alguma ordem relacionada com 
ele, que no fosse para

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lhe proporcionar mais liberdade? Estava l, quando ele se escondeu na igreja? Toda a gente em Parfois sabe que no estava. No vi nada e no sei de nada.
E j agora, Thomas, mais vale um do que dois.
Quando de Guchet subiu para apresentar o seu relatrio de todas as noites, William estava sozinho e andava de um lado para o outro no terrao da torre, como era 
seu hbito, mergulhado nos seus pensamentos.
Caminhando penosamente, Benedetta chegou ao portal Oeste, o corpo dorido por ter vindo a arrastar o peso do moribundo. Todavia, quando entrou e as mos da nave central, 
erguidas em orao, formaram um arco sobre a sua cabea, Benedetta endireitou as costas, como se uma fora a impelisse a tal, abriu a boca e bebeu, at se saciar, 
o inesgotvel esplendor do ar dentro daquele espao.
Sob o altar-mor, o coro de crianas, esculpido na grande pedra frontal, enchia os pulmes jovens e fortes e erguia para a luz os belos rostos arrebatados e as bocas 
abertas, redondas como mas rosadas. Mais acima, as grandes janelas lanceoladas elevavam-se como flechas acabadas de disparar. A todo o comprimento da nave central, 
dos pilares esguios brotavam as folhas maravilhosas e vivas, em espirais e em cachos, as folhas da rvore sagrada, a rvore da esperana, a rvore da promessa, a 
rvore do amor. As vigas do telhado pareciam irromper da tenso trmula de energia das folhas e arquear-se para conter aquele espao imenso, um espao de beleza 
e orao; uniam-se na arquitrave e as bossagens luminosas que as ligavam pareciam notas de msica, gritos de alegria, o som inaudvel do calor de mos enlaadas.
Os martelos haviam cessado o seu coro de picapaus contra as portas exteriores, os coveiros haviam partido; agora, j chegavam at ela sons mais suaves, como o apelo 
ansioso dos pssaros, frio e , lamentoso, o fragmento de uma cano de bbedo, vindo de um dos postos de guarda sobre a escarpa, os passos lentos e vacilantes de 
um homem, o deslizar hesitante do couro sobre a pedra.
Ento, Benedetta ergueu a cabea e prestou ateno, porque aquele som era prximo e estranho; vinha de algures  sua frente e

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no atrs. Paulinus no podia hav-la ultrapassado, sem ela dar por isso, e tambm no acreditava que, alguma vez, ele voltasse a andar com passos to cadenciados 
e firmes. Mas no havia mais nenhum homem; no podia haver. Benedetta esperou e os passos recomearam, voltaram a parar, como a respirao que algum retm, num 
compasso de espera idntico ao dela prpria.
Foi ento que o viu. Viera da porta Sul e confundia-se de tal modo com uma das esguias hastes ascendentes da balaustrada que os olhos de Benedetta s deram por ele 
quando se mexeu. Alto, to magro que parecia emaciado, sobriamente vestido em tons de castanho, ouro no cinto e ao peito, o corpo sem idade ainda erecto como um 
junco, a cabea ainda bela, bem moldada, orgulhosa. Nem mesmo a idade conseguira estragar a forma daquela ossatura imortal, nem adulterar os contornos imaculados 
da massa de cabelo grisalho que cobria o crnio altivo. O rosto, descarnado e imvel, interrogava s cegas o espao, procurando localiz-la. Lia-se nele uma pacincia 
terrvel e admirvel que, pela sua humildade e simplicidade, assentava de forma estranha naquelas feies arrogantes e esplndidas. Exceptuando os olhos, mergulhados 
nas trevas, ele no mudara: apenas as chamas se haviam extinguido e transformado em carvo, sob a testa alta e tisnada.
- Senhor?
A abbada absorveu a voz baixa em que Benedetta pronunciara a palavra e difundiu-a por todos os cantos, como se a pedra falasse.
Isambard voltou de imediato a cabea na direco onde ela se encontrava. Benedetta pde ento ver-lhe por completo o rosto: os olhos sem vida que se voltavam para 
ela, os lbios a abrirem-se num sorriso.
- Senhora!
Isambard largou o apoio da balaustrada e, com a cabea ligeiramente lanada para trs e uma expresso concentrada, avanou para ela, mas parou a curta distncia, 
de novo  espera, em sinal de cortesia, receando poder parecer querer impor os seus direitos sobre ela, ele que j s recebia do mundo aquilo que lhe era oferecido 
por caridade.
- Que fazeis aqui, senhor?

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- Vim para escutar a vossa voz, senhora, e louvar a Deus.
E tambm para morrer, segundo creio.
Era a mesma voz, a antiga voz mas, por vontade prpria, aquela voz abandonara o tom de comando, em favor dos argumentos da alma. No por penitncia: Benedetta j 
vira penitentes e Ralf Isambard no o era. Aceitava a velhice como uma experincia e uma riqueza, com a mesma paixo sincera com que vivera os feitos da juventude; 
e examinava com uma curiosidade total, sem recuar, tudo quanto era novo e estranho para si, mesmo a humilhao e a morte. Os penitentes retrocedem; ele ia em frente. 
E aquilo que ia deixando pelo caminho era perdido porque ele lhe passava adiante e no porque se arrependesse.
- Graas a Deus, no podeis mandar-me embora - comentou, sorrindo. - Tocai-me, respirai na minha direco, contagiai-me.
- Porque haveis desprezado a vossa vida? - protestou Benedetta, em tom de acusao. - No bastavam dois?
- Eu no desprezei a minha vida. Conserv-la-ei o melhor que puder, enquanto puder. Limitei-me a dep-la onde Deus poder lev-la, se lhe aprouver. E, se Ele a poupar, 
retom-la-ei com alegria e transport-la-ei por mais uma milha ou duas. No quereis aceitar a minha mo, Benedetta?
Ao ouvir o seu nome da boca dele, Benedetta sobressaltou-se, como se algum havia muito ausente a houvesse chamado. Poisou a mo na dele, porque no podia deix-la 
ali, estendida e vazia, e, quando os dedos compridos e magros dele se fecharam sobre os seus, a paz voltou a invadi-la.
Isambard escolhera morrer com ela; era algo que ela sabia. Embora cego, fizera aquela escolha de olhos bem abertos. Ningum lhes traria comida nem gua, ningum 
lhes abriria as portas. No era possvel fazer Parfois render-se pela fome a tempo de eles se salvarem, e continuava a acreditar que o castelo no podia ser tomado 
de assalto. Tudo o que ela sabia, Isambard sabia ainda melhor, porque ele era Parfois, o sangue e a vida de Parfois, independentemente de quem lho houvesse arrebatado.
- Este  o nico lugar suficientemente grande para eu poder estar de p e que me proporciona ar suficiente para encher o corpo

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- disse Isambard. - No me recrimineis por esta fuga, pois estive confinado durante demasiado tempo. Ademais, haveis um homem doente de quem cuidar e bem precisais 
de algum como eu, que arrasta consigo os seus prprios flagelos e no receia quaisquer outros. Onde o deixastes?
- A entrada. No consegui traz-lo mais longe. Vim ver onde poderia instal-lo.
- Dispomos de um mundo inteiro - respondeu Isambard, abarcando com o olhar vazio o seu ltimo domnio. - Dispomos da casa dos arcanjos e das florestas do cu. De 
capelas suficientes para escolhermos um leito de morte para ele, um retiro para vs, com toda a privacidade de que necessitardes, e um local de encontro, o mais 
belo de Inglaterra. Graas a Deus que, nos meus tempos, fiz grandes ddivas, embora se por piedade ou por orgulho, s Ele poder saber. Seja como for, poderemos 
beneficiar delas agora. H um ba cheio de vestes sacerdotais, toalhas de altar e panos ricos. Vinde, tirai aquilo de que precisardes para o deitar e escolhei o 
stio onde quereis instal-lo. Eu transportarei o doente.  peste?
Soltando-lhe a mo, Isambard comeou a caminhar  frente dela, com a segurana de um homem no seu reino, mas voltou-se para trs, com um sorriso obliquo, quando 
ela tardou a responder.
- Para Deus e para mim, tanto faz. Limitei-me a perguntar.
- Penso - respondeu finalmente Benedetta, seguindo-o - que ele trouxe consigo do Oriente uma febre intermitente e que o mal se agravou por haver ingerido comida 
estragada. Mas  quanto basta. Penso que vai morrer.
- Como todos ns, livres ou prisioneiros - replicou Isambard. - Quanto a isso, no podemos lamentar-nos. Mas, pelo menos, que morra tapado e quente. Vai fazer muito 
frio aqui, durante a noite.
Com a segurana de quem conhece cada pedao gasto de cada pedra da sua igreja, conduziu-a at junto do grande ba trabalhado, onde estavam guardados os panos do 
altar. Ergueu a tampa e voltou para ela o rosto cego, permanentemente inquisitivo.
- Tirai o que quiserdes.
Benedetta no hesitou em encher os braos de panos.

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- Paulinus est cheio de sede. Geme por gua.
- Mas temos gua - respondeu Isambard de imediato. - H gua nas pias de gua benta e as paredes no a deixam gelar. Melhor ainda: h vinho na sacristia.  uma pena 
no haver comida. Se ele puder morrer menos penosamente bbedo do que sbrio, porque no, santo Deus? Penso que a misericrdia divina no vai culp-lo, se disser 
o ltimo acto de contrio numa voz mais pastosa. Vinde ver onde quereis deit-lo e eu trago-o. Os olhos so a nica coisa que me falta. Utilizai as minhas mos 
como desejardes.
Benedetta assim fez. Lado a lado, os dois trataram, com uma simplicidade um pouco irreal, dos assuntos da vida e da morte. Juntos, fizeram um leito largo de tapearias, 
brocados e bordados, na pequena capela das missas encomendadas, do lado Sul do altar-mor, protegida das correntes de ar por paredes, onde a soma do calor dos trs 
poderia pelo menos temperar o rigor do frio. Juntos, transportaram Paulinus de Reichenau, deitaram-no e envolveram-no em veludos, cujo toque nunca a sua pele gasta 
de aventureiro havia sentido. Juntos, foram buscar clices e velas  sacristia e, preparando-se para a noite, levaram-nos para o seu refgio, Isambard tentou desajeitadamente 
esfregar um pedao de slex contra um pedao de ferro, mas Benedetta tirou-lhos das mos e foi ela mesma quem soprou a fasca que acendeu a mecha e conseguiu obter 
uma pequena chama. Comoveu-a que isambard houvesse pensado em luz para eles, quando ele prprio j no precisava dela.
- H um lamparinrio de pedra, l ao fundo, no coro, e outro na entrada Ocidental, mas duvido que haja mais leo do que aquele que ainda contm, pois costumam guardar 
o leo l fora. Posso trazer o mais pequeno aqui para o canto. Sempre d calor, alm de luz.
Isambard trouxe o lamparinrio de pedra, arrastando-o atrs de si sobre um pedao de veludo, por receio de riscar ou quebrar os ladrilhos de mestre Harry. O lamparinrio 
tinha treze taas, entre as quais haviam sido cinzeladas folhas de videira.
- Obra dele, como tudo quanto h aqui - disse Isambard, passando suavemente as pontas dos dedos pelos contornos das folhas. - Tudo quanto possumos agora  duplamente 
emprestado: primeiro por Deus, tal como as nossas vidas, e depois por ele.

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Vamos acend-lo? Emprestai-me os vossos olhos. No sou muito de fiar com o fogo.
- Se isto  tudo com quanto podemos contar - disse Benedetta, com sentido prtico - faramos melhor em poupar para um momento pior. Vamos ficar aqui bastante tempo.
Isambard voltou ligeiramente a cabea, como se estivesse a olhar para o doente, que tremia, deitado, de olhos muito abertos e em silncio, envolto nos tecidos principescos. 
A sua respirao rouca e entrecortada e a sua carne escaldante eram suficientemente eloquentes mesmo para quem no via.
- Pode ser. Mas penso que o tempo dele  curto. Guardai-o, pois, para quando ele houver maior preciso.
Num movimento desprendido, mediu a altura do leo nas taas redondas com a ponta do dedo, que depois limpou aos tecidos bordados a prpura e ouro.
- Pouco podemos fazer por ele mas, pelo menos, podemos poup-lo a morrer no escuro.
Ao sentir sobre si o olhar perspicaz e arrependido de Benedetta, acrescentou:
- A verdade  que eu no vou precisar de luz. O que so as trevas para mim? Coabito com elas e no as receio. No hei medo de nada, Benedetta - disse ainda, em voz 
baixa e calma. - Excepto de ainda poder acordar noutro stio qualquer, sem vs, e de concluir que isto foi apenas um sonho que sonhei no cativeiro.
- No  um sonho - respondeu Benedetta, em voz branda e comovida. - Eu sei que estou aqui e vs sois um homem bem real, pois posso ver-vos e tocar-vos. Tambm creio 
que, para o bem e para o mal, no nos separaremos enquanto formos vivos.
- Ouvir-vos  um conforto para mim - disse Isambard. Onde estavam agora os anos que os haviam separado, de corpo,
alma e esprito, onde estavam as tenses e os terrores, os ressentimentos e as vinganas? Para onde haviam ido as recordaes irrenunciveis de ofensas e desgostos, 
o amor no retribudo, os agravos no ressarcidos? Os dois ocupavam-se tranquilamente dos arranjos do seu derradeiro lar e nos cuidados para com o seu ltimo hspede, 
sem sentir necessidade de falar do passado. O perdo fora

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mtuo, se  que era perdo olhar para trs sem sentir qualquer dor, sem fazer perguntas nem dar respostas, sem nada a expiar.
Benedetta e Isambard estavam para alm de tais necessidades, sentiam-se apaziguados, depois de todos os dios e todas as angstias haverem desaparecido. De todos 
os amores tambm? S Deus sabia! O amor tem tantos rostos...
Paulinus de Reichenau passou dois dias e duas noites a arder em febre, enquanto a carne escaldante se evaporava dos seus ossos trementes; Benedetta e Isambard cuidaram 
dele, velaram-no sem interrupes e mantiveram-no bem agasalhado nas coberturas. Ao terceiro dia, a febre baixou perante a aproximao da morte e Paulinus abriu 
os olhos, maravilhado com o estranho paraso que era a sua cela. Os esguios pilares de pedra da capela arqueavam-se sobre a sua cabea, formando uma abbada semelhante 
a uma estrela dupla. Estava envolto em veludos e sedas, prpuras, dourados e azuis, tudo cores dignas de um rei. Ao seu lado, ardiam velas, em altos candelabros 
de ferro e, a um canto, no lamparinrio de pedra luziam treze pequenas chamas, alimentadas pelas ltimas gotas de leo. O ligeiro odor do fumo fez-lhe tremer as 
narinas que, todavia, no sentiam o cheiro forte do prprio suor e da prpria doena. De um lado, estava sentada a mulher, que segurava entre as dela uma das suas 
mos. Do outro, um desconhecido, de rosto altivo e distante como o da morte, fitava-o com uns olhos velados e sem brilho, mas a sua atitude austera era calma, e 
no ameaadora. Apesar disso, sentiu medo.
Murmurou um pedido e a mulher debruou-se para o ouvir, porque a sua voz era apenas um fio, que o silncio quase absorvia.
- Um padre... quero aliviar o meu fardo.
- No h aqui nenhum padre - respondeu Benedetta. - Apenas Deus. Falai comigo e no temais. O ouvido de Deus  mais apurado do que o meu.
Paulinus apertava-lhe a mo com todas as suas foras e, todavia, Benedetta tinha a sensao de segurar apenas na pata de um pssaro morto. J perto do silncio final, 
Paulinus conseguiu falar numa voz que havia mais substncia do que o seu corpo diminudo.

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- No fui um grande pecador... s um pecador perseverante... estudei muito para me aperfeioar.
Viu Benedetta sorrir e aquele sorriso tranquilizou-o. Por mais miservel que seja, qualquer homem deve ter vergonha de ter vergonha da obra do seu criador. Paulinus 
fez a sua confisso dbia palavra aps palavra, conforme as foras lho permitiam, e arrastou-a por muito tempo.
- At aquele meu crucifixo... uma falsificao, embora uma boa falsificao... um trabalho meu. Para dizer a verdade, era um fragmento de um tonel de vinho que encontrei 
em Angers. Lorde Isambard... nunca haveria notado a diferena. Todos esses fidalgotes so uns tolos...
O homem que se encontrava ao seu lado lanou a cabea para trs e soltou uma gargalhada sonora, como qualquer estrina, ao ouvir uma histria das que se contam nas 
tabernas, ou uma criana, encantada ao ver um cavaleiro pretensioso cair do cavalo, num dia em que o cho estivesse lamacento. Que haveria a recear, se a morte se 
ria daquela maneira? Atnito mas reconfortado, Paulinus tentou rir tambm e engasgou-se. Benedetta soergueu-o e ele morreu nos seus braos, apagando-se to suavemente 
como uma vela que chegou ao fim.
- Foi-se - anunciou Benedetta.
Estava contente por haver sido assim: Paulinus no estava preparado para uma morte difcil.
Juntos, rezaram por Paulinus. Depois, usando como alavanca a ponta de um dos gigantescos candelabros de ferro, Isambard abriu o tmulo do coro onde, havia dois anos, 
repousava o velho padre Hubert e, juntos, depuseram o monge renegado e falsificador de relquias ao lado do capelo de Parfois, sepultando-o ali.
- Duvido que o velho padre apreciasse a companhia - comentou Isambard, corado e quase sem flego depois de haver baixado a pedra. - Mas no lhe dar abrigo em sua 
casa no seria cristo. Que repouse em paz! Morrer a rir no  uma m morte.
Agora, tinham ficado ss.

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- O que  isto? - perguntou Benedetta, que acordara a meio da noite, devido ao rudo surdo de rocha a deslizar e a cair.
- Nada que nos possa causar receio. So s as toupeiras galesas a roer as fundaes de Parfois.
Isambard ajeitou melhor as coberturas  volta dela e afastou-lhe os cabelos do rosto magro e marcado pelo tempo.
- Se continuarem a roer assim, acabaro por deitar abaixo as muralhas. O peso das torres de vigia pode ser fatal. E  l que o barranco  mais raso. Se a entrada 
fortificada cair, abre-se uma brecha na muralha e eles podem us-la como escada e entrar por a.
- E se as torres carem em cima deles? - perguntou Benedetta, aterrorizada.
- Que vergonha, minha querida! Cuidais que Adam Boteler no sabe do seu ofcio? Quantos anos passou ele a talhar pedra para mim, na pedreira de Byrn? Alguma vez 
ouvistes dizer que ele houvesse perdido um homem que fosse?
Com espanto e esforo, Benedetta concentrou-se nas tenses que agitavam o mundo exterior, onde continuava a haver recontros e contendas entre exrcitos e prncipes.
- Sero capazes de acelerar as coisas desse modo?  possvel conquistar Parfois dessa maneira?
- Totalmente impossvel. Mas tambm era impossvel abrir uma brecha no poo e sec-lo, mas eles conseguiram. Quem sabe se no desafiaro de novo as previses?
A leve respirao que lhe aquecia a garganta era pausada e calma, o corpo dela permanecia tranquilo nos seus braos mas, receando que Benedetta voltasse a cair no 
suplcio da esperana, Isambard acrescentou, doce e cautelosamente:
- Mas no chegaro a tempo de nos libertar, minha querida. No podemos acreditar nisso.
- Eu estou bem - respondeu ela. - No espero qualquer libertao.
Desejaria na verdade a libertao? Benedetta sondou o seu corao e no encontrou nele qualquer desejo, a no ser, talvez, o impossvel anseio de voltar a ver o 
jovem Harry. No entanto, dia aps dia, ela - os olhos - e Isambard - as mos - haviam explorado

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todas as aberturas da sua priso, tentando libertar-se, como criaturas empenhadas em viver, se isso fosse possvel. Mas todas as portas estavam seladas e todas as 
janelas baixas entaipadas: no havia qualquer sada. Quando ainda tinham foras e a fome apertava mais, aquela pesquisa ajudara-os, nos piores momentos, a ocultar 
delicadamente um ao outro as dores provocadas pelos lobos que lhes roam as entranhas. A matilha j se retirara, saciada, deixando atrs de si apenas uma dor surda 
e um langor que lhes dizia que os seus dias estavam a esgotar-se. Durante a noite, deitavam-se, estreitamente apertados nos braos um do outro, num abrao casto, 
enquanto se entregavam a um sono leve e povoado de sonhos.
- Perdoai-me por vos haver conduzido a isto - pediu Isambard. - Deus sabe que no me deveis uma segunda morte.
- Eu vim por minha prpria vontade - respondeu Benedetta. - No h nada a perdoar. Fui eu quem vos pediu que voltsseis a abrir-me a vossa porta. Limitastes-vos 
a conceder-me o que vos pedi. Mais do que pedi! Nunca ousei supor que me aceitareis de novo na vossa cama.
A boca sardnica comprimida contra o cabelo dela tremeu por um instante, num riso breve e silencioso.
- Ah, Benedetta, Benedetta! Nunca ousei esperar que visseis. Era minha inteno entregar-vos o Harry livremente. Hav-lo-ia levado ao vosso encontro,  porta do 
castelo, sem ele suspeitar. No precisareis de passar a soleira da minha porta, a menos que vos aprouvesse, por vossa iniciativa, conceder-me essa honra.
- Acredito em vs. Seja como for, penso que haveria entrado. E pago o preo que oferecera por ele, quissseis vs ou no.
- Porque sois como o rapaz e no quereis ficar a dever-me nada? - perguntou Isambard com brusquido. - Ou porque eu estava velho, ameaado e cego e haveis d de 
mim?
- D de vs? No. O meu juzo nunca esteve mal a esse ponto. Foi mais porque estava a ficar velha, seca e estril, sem vs. E porque o corao me dizia que chegara 
a hora e que vos encontrveis na mesma encruzilhada que eu. No conseguia tirar da cabea que ainda havia qualquer coisa que teramos de fazer juntos, antes de a 
histria dos nossos dias chegar ao fim. S no sabia que era morrer.

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Mas morro de melhor grado convosco do que com qualquer outra pessoa - concluiu, dizendo o que lhe ia na alma, com a antiga generosidade, grandiosa e resoluta.
Benedetta sempre possura o dom de usar as palavras com majestade. Se houvesse um canteiro para as gravar na pedra, pensou Isambard, seriam estas as palavras que 
mandaria gravar no meu tmulo. Morro de melhor grado convosco do que com qualquer outra pessoa! Na vida, na morte, minha querida, minha bem-amada, no cu ou no inferno, 
antes convosco do que com qualquer outra pessoa!
- Benedetta!
- Senhor?
- Gostaria de vos dizer duas ou trs palavras, agora, durante a noite, estando vs to cega quanto eu. Ainda h uma coisa que me pesa na conscincia.
- Estou a ouvir - respondeu Benedetta. - E estou cega.
- Nunca me perguntastes - disse Isambard, em voz baixa e neutra, junto ao ouvido dela - o que fiz com ele, depois de o haver retirado da sepultura.
Benedetta permaneceu imvel e susteve a respirao por um instante. Sbita e suavemente, como se algum houvesse afastado uma cortina que se interpusesse entre ela 
e a luz, a verdade surgiu diante de si. Fora assim que passara aquela noite distante, deitada, com Harry nos seus braos, enquanto a morte esperava pacientemente 
 porta. O tempo completara outro crculo incomensurvel e restabelecera o equilbrio perdido do amor.
- Eu sei o que fizestes com ele - respondeu, com simplicidade. - Ele est onde devia estar. Est aqui connosco, debaixo do altar.
Isambard deixou escapar um profundo suspiro e a presso das suas mos tornou-se mais suave. No lhe perguntou como soubera. Naquela eloquncia maravilhosa de silncio 
e imobilidade, deixara de ser necessrio. Cada inspirao trazia-lhes maior compreenso e tranquilidade, at que todas as perguntas desapareceram, como sombras tragadas 
pela luz.

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- Abri o tmulo sozinho, com estas mos - disse, ao cabo de um silncio longo e perfeito. - Era o lugar que deveria ser meu mas cedi-lho, porque tinha mais direito 
a ele do que eu. Ergui a pedra com uma das alavancas de ferro que haviam sido dele e bem surpreendido fiquei ao ver quanta inteligncia e arte so necessrias para 
tal, quando se faz o esforo sozinho. Levei-o nos meus braos, depositei-o no lugar que lhe cabia, dei-lhe uma mortalha de ouro e fechei o tmulo para que repousasse 
em paz.
Benedetta sentiu a paixo que tremia sob a imobilidade das mos compridas de Isambard, como se, naquele momento, elas no abraassem a sua carne frgil e branca, 
mas os ossos jovens, esguios e resistentes de Harry.
- Sei que era vosso desejo que, um dia, as mos do amor o colocassem ali - disse Isambard, com amargo arrependimento. - Perdoai-me ao menos por isso.
- No  necessrio - replicou Benedetta. - Dou-me por satisfeita.
As pontas dos dedos dele percorreram-lhe docemente a face, detendo-se nos seus lbios.
- Vs sorris - observou, maravilhado.
- Prefereis que chorasse? - perguntou ela. - Era bem capaz de chorar.
- Ah, no! Alguma vez vos vi chorar? Vs ristes, quando me destrustes e fostes ao encontro dele. Vs ristes, quando fostes arrastada para a morte por ele.
- Chorei quando me arrastaram de novo para a vida.
- Acredito. A vida sem ele no apresentava muitos atractivos. S Deus sabe se eu vos invejava mais a vs por causa dele ou a ele por causa de vs. Depois de ele 
morrer, nunca mais senti prazer com a morte de ningum. Nunca derramei sangue que no fosse o sangue dele, nunca enforquei nem mesmo o criminoso mais infame sem 
que a corda fosse apertada  volta do pescoo do Harry. Nunca estive prestes a desapossar um vassalo ou a chicotear um servo, sem o ouvir discutir comigo e sem que 
ele me sustivesse a mo. Se me esquecia do seu rosto, aqui, ele enfrentava-me constantemente e, se me esquecia do prazer que lhe dava o contacto com os

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outros homens, voltava a v-lo nas pedras desta casa e no havia modo de lhe escapar. O Harry, que no era capaz de parar de cortar e esculpir mesmo depois de morto, 
contaminou-me o sangue. Quantas vezes o amaldioei por isso e lutei para me livrar dele! Em vo.
"E sabia que o havia destrudo. Apesar de no sentir culpa, sabia que o havia roubado ao mundo e me mutilara a mim prprio. Em troca da vida que lhe tirara nada 
havia que pudesse oferecer, seno a minha. Se era uma dvida, queria pag-la mas faltava-me a clarividncia para julgar e a coragem para abandonar cobardemente aquilo 
que talvez no fosse devido, embora no retirasse dela a menor alegria. Mas, sempre que pude, ofereci-a, de modo a que Deus a tomasse, e nunca estendi a mo para 
a reter. Uma vez e outra, Ele recusou-a.  estranho, Benedetta, mas, de cada vez que a oferecia para ser levada, mais valor lhe dava e mais a queria. Depois de morto, 
o Harry ensinou-me a amar a vida e a aprendizagem foi dura. Quanto mais ela se me tornava cara, maior era a agonia quando a expunha, mas no podia recuar. Por isso, 
feitas as contas, talvez eu haja pago algumas das minhas dvidas."
No silncio momentneo, a estrutura da igreja e a rocha por baixo dela foram abaladas por mais um desmoronamento lento e ressonante. Benedetta e Isambard sustiveram 
a respirao e ficaram  escuta, at tudo haver acabado.
Enquanto o tremor abrandava, os dedos dele percorreram-lhe o rosto e tocaram-lhe nas plpebras bem fechadas, nas pestanas hmidas.
- Benedetta! Ah, minha querida, por mim no! Porqu?
- Continuai - disse ela, numa voz que mais parecia um sopro suave contra a palma da mo dele. - Haveis outras coisas para me dizer.
- A vs ou a Deus, embora Deus j saiba de tudo antes de eu falar. E agora vejo que h bem pouco de mim que no saibais.
Apesar disso, Isambard recomeou a falar docemente, com grandes pausas, como se o afluxo das recordaes oscilasse entre o deslumbramento e o esquecimento, arrastando-o 
para longe de tudo, mesmo dela.

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- Depois, surgiu o jovem Harry. Apareceu de sbito, aqui, diante de mim, uma rplica perfeita do pai. No podia deix-lo partir. Precisava de descobrir se ele possua 
o mesmo valor, se eu estava a viver aquela agonia em vo, se Deus estava a brincar comigo. S lhe bati uma vez, quando ele tentou sacrificar a prpria vida, para 
me tirar a minha... com quinze anos apenas, o mundo ao alcance da mo e ele a dar-lhe to pouco valor! Mas penso que, no fundo, ficou at contente pelas palmadas 
que lhe dei, porque lhe doeram e o fizeram sentir bem vivo. Nunca mais precisei de o disciplinar desse modo mas,  minha maneira, fui duro para com ele. Por vezes, 
fui mais violento do que queria, mas Harry nunca se deixou vergar. Magoei-o, e ele a mim, o melhor que sabia, mas nunca consegui domestic-lo. E, por fim, a roda 
deu a volta completa porque, tal como o pai, ele arriscou a vida e a liberdade para no abandonar uma criana ameaada, que no lhe era nada. Mas desta vez... oh, 
Benedetta, imaginai bem... desta vez a criana era eu! Concedi-lhe a liberdade, pedi-lhe que se fosse embora. Mas ele no queria! Recusava-se a abandonar-me, por 
estar em cuidados por minha causa, por haver medo por mim, que estava cego e indefeso perante os meus inimigos.
A longa noite estava a acabar, o primeiro lampejo de forma e proporo desenhava-se e aumentava sobre as cabeas de ambos. Antes da viso, surgia a forma, a dilatao 
da paz, a marca da tranquilidade. Em breve, a altura da abbada penetraria na sua conscincia: Benedetta v-la-ia, Isambard senti-la-ia atravs das mos, do corpo 
e do sangue, lembrar-se-ia do que ela estava a ver e partilharia o seu deleite. Os pormenores viriam depois, quando a aurora voltasse a esculpi-los, como todos os 
dias acontecia.
- Agora que vivi um milagre, sei que estes acontecem doce e naturalmente neste mundo. Tornei-me parte do Harry contra minha vontade e o Harry tornou-se parte de 
mim contra sua vontade. Uma boa parte do que sabe fui eu quem lho ensinou. Fui eu quem fez parte do que ele . Estou-lhe no sangue como o seu pai estava no meu e, 
se Deus quiser, para um destino feliz. Porque, Deus  minha testemunha, fiz dele herdeiro de tudo quanto de bom possua para legar. - Sorrindo, o rosto denotando 
uma alegria tranquila, Isambard concluiu: - E Deus sabe quanto o apreciei e o amei.

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Benedetta abriu os olhos ao meio-dia, quando a luz do sol lanava reflexos trmulos sobre a abbada da nave principal. Nas bossagens, os anjos batiam as asas douradas 
e cantavam louvores a Deus.
Repousava sobre brocados e sedas j sujos, o seu rosto era apenas um vu de pele difana que deixava ver a ossatura saliente da face, os olhos grandes refulgiam, 
arrebatados, o corpo estava reduzido a um pequeno monte de ossos e o esqueleto brilhava atravs da pele. A luz celeste inclinava-se para ela, fremente como tule, 
resistente como a pedra. No, mais duradoira do que isso, longa como a memria, resistente como o amor.
Porque a criao no residia na pedra, apesar de a pedra haver florido sob as mos dele. Ainda que o invlucro que contm esta forma de esplendor se quebre, pensou 
Benedetta, maravilhada, o milagre continuar aqui para sempre porque, um dia, ele o concebeu e lhe deu vida. Tal como a alma sobrevive ao corpo, a sua obra sobreviver 
 pedra. Os olhos que alguma vez a contemplarem passaro a encarar todas as coisas de um modo diferente, pois havero ficado a conhecer a dimenso da plenitude. 
E aquilo que aprendemos vamos decerto transmitir a outros, e as revelaes que recebemos vamos de algum modo comunicar a outros, num dar de mos perptuo. Se esta 
igreja for arrasada, nem por isso o Harry haver deixado de mudar o mundo, numa medida ainda desconhecida.
Para o esprito audacioso de Benedetta, o mais maravilhoso de tudo era ver que a perfeio no  o fim da energia, que a paz no  o fim da ousadia. Uma e outra 
so o princpio, no da estagnao nem da fadiga, mas de um ardor inconcebvel de paixo, que eleva a fora ao mximo e estende os anseios do corao para alm da 
derradeira fronteira do conhecimento. Nem uma nem outra conhecem limites, prolongam-se at ao infinito; o tempo no tem significado para elas, o agora  sempre, 
o aqui est em toda a parte. No ir a lado nenhum, no fazer qualquer esforo, esperar: aqui, todas as coisas vm ao nosso encontro, entram dentro de ns, formam 
uma unidade connosco.

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O corpo de Benedetta estava gasto e enfraquecido, mas a sua mente continuava clara e calma como a gua de um lago da montanha, reflectindo as mudanas vibrantes 
da luminosidade. Sonhava muitas vezes com gua, desde que, a despeito do muito que pouparam, as pias de gua benta haviam secado, restando-lhes apenas umas gotas 
de vinho para enganar a sede. Agora, s se mexia quando era necessrio; dormia muito e sonhava muito. Conhecia a precariedade das suas foras e guardava-as para 
os esforos que era preciso fazer. O esforo de alisar e prender o grande volume dos seus cabelos extenuava-a, falar era o mesmo que levantar chumbo, as roupas que 
vestia pesavam tanto como o mundo. Refugiava-se na imobilidade e o seu esprito conservava a capacidade de se maravilhar. Espera, no vs a lado nenhum, aqui todas 
as coisas vm ao teu encontro e formam um todo contigo.
Com os olhos ainda ofuscados pela luz celeste e deslumbrante, que parecia pux-la para a abbada, estendeu a mo frgil e procurou Isambard, ao seu lado. Nenhuma 
mo, rpida e atenta, veio ao encontro da sua. Ento, olhou em volta e os contornos das coisas terrenas tremeram na claridade que a rodeava: o rendilhado dos ornamentos 
da capela, o lamparinrio de pedra havia muito apagado, as cores quentes do leito, agora na sombra. Isambard no estava a seu lado. Havia quanto tempo? Benedetta 
perdera a noo do tempo; sabia apenas que se estava a meio do dia, mas de que dia, s Deus podia dizer.
Ficou  escuta e ouviu sons que fizeram vibrar uma corda interior e despertaram uma memria de solenidade e piedade. O arranhar do metal contra a pedra, uma respirao 
longa e profunda, que alternava com um silncio profundo, um arquejar violento, que terminou num gemido de esforo e alvio. Uma pausa e, mais uma vez, o tactear 
e o arranhar por baixo da pedra e, desta vez, polegada a polegada, a pedra saiu do seu lugar e Benedetta ouviu o arrastar de pedra contra pedra. Ento, compreendeu. 
Isambard deixara-a a dormir e fora abrir uma sepultura para ela.
Sozinho, no consegue, pensou Benedetta, consternada, agarrando-se a um dos pilares esguios da capela para se pr de p. Vai partir os ossos, rebentar o corao 
e morrer.

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Agarrando-se e abraando um pilar aps outro, saiu da capela para o coro e, instintivamente, os seus olhos voltaram-se para o local do tmulo do velho padre Hubert, 
que abrigava tambm o inesperado hspede de Reichenau. Onde, seno ali, poderia Isambard procurar um local de repouso eterno para ela? A pedra ainda mal assentara 
e podia ser encostada  madeira slida do cadeiral sem grande risco de se partir. Mas o canto estava deserto e a pedra intocada. Mais adiante, do lado do altar, 
uma outra pedra estava a ser cuidadosamente erguida, polegada a polegada. Benedetta ouviu o arfar profundo que o esforo arrancava a um corao extenuado, as longas 
pausas durante as quais ele recuperava foras para mais um assalto. E tudo isto sem ver, usando os dedos como olhos, em movimentos dolorosos, pacientes e perigosos! 
Os olhos de Benedetta, que nunca chorava, encheram-se de lgrimas. s cegas, dirigiu-se para o local onde ele se encontrava, segurando-se ao cadeiral e, ao chegar 
aos degraus do presbitrio, as suas escassas lgrimas secaram, deixando-lhe novamente clara a viso, e avistou-o.
A fugaz luz do sol, fria e gelada como neve, atravessava as lancetas da janela oriental e entornava pedras preciosas sobre as lajes do cho. Entre aquela cascata 
de verdes, dourados e escarlates, Isambard cara de bruos sobre as suas ferramentas improvisadas, inspirando penosamente. Quebrara dois candelabros pesados, ferira 
e rasgara os dedos at ao osso, que j furava a pele, mas levara a termo o que decidira fazer.
Sob o altar-mor, sob a grande pedra frontal ornada com o coro de crianas, a pedra central fora erguida e encostada s outras pedras e as estrelas e losangos de 
luz cintilante caam como flores ' de Inverno sobre o tmulo de pedra de Harry Talvace.
Nas escadas, o corpo traiu-a e Benedetta caiu de joelhos; de joelhos, arrastou-se pelo espao amplo at junto de Isambard. O latejar do sangue nos ouvidos impediu-o 
de a ouvir chegar. A arquejar, Isambard estava deitado de bruos, com a testa encostada  pedra; a sua mo aberta deixara cair uma gota de sangue sobre a beira da 
sepultura. S ergueu a cabea quando ela lhe tocou, voltando para ela a runa brilhante e orgulhosa da sua beleza, a mscara esbatida e ambgua de demnio e de anjo, 
amarela como lato, os olhos sem

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vida, sob as plpebras arrogantes e descarnadas, todo o esplendor petrificado da morte, que todavia, mesmo  beira do fim, continuava a irradiar vida e paixo.
- Ides mandar-me de novo partilhar o leito com ele? - perguntou Benedetta, aflorando-lhe a testa coberta de poeira com os dedos frgeis como hastes de flores fanadas.
- Para onde mais poderia ser? - replicou ele. - Onde poderia eu depor-vos para o repouso eterno? Se partirdes antes de mim, perdoai-me... perdoai-me!
Isambard deitou a cabea no colo dela, rodeou-lhe o corpo com os braos esquelticos e ficou imvel. Benedetta envolveu com as mos a coroa grisalha dos seus cabelos 
e olhou para dentro da sepultura, por cima do ombro dele. No era muito funda. A pedra estava perfeitamente seca e o fulgor do tecido dourado permanecia quase inalterado. 
Sob a mortalha brilhante viam-se os contornos dos ossos delgados; a cabea, visvel sob o vu principesco, mostrava o rosto de um homem adormecido. Benedetta lembrou-se 
da masmorra de Parfois e da cabea amada, de cabelos escuros, que repousara contra o seu peito durante toda a noite.
Agarrou a cabea de Isambard entre as mos cansadas, ergueu-lhe o rosto e beijou-o na testa.
- Outrora, quisestes o corao dele - disse. - Estendei a mo e tomai-o. Agora, ele no vo-lo recusar.

CAPTULO DEZ

Parfois: Dezembro de 1233 a Janeiro de 1234

Durante trs dias o fogo devorou as profundezas da rocha sob Parfois. Do caminho da ronda, entre as torres de vigia, os sitiados ouviam, no silncio da noite, o 
estalejar contnuo e abafado dos ramos e arbustos a arder, o silvo e o sopro do vento,  medida que as chamas consumiam o ar. Durante o dia, embora estes sons longnquos 
se perdessem na agitao quotidiana da vida debaixo de cerco, havia outros sinais que lhes recordavam o prodgio. Logo na primeira manh, antes mesmo de a aurora 
ter qualquer reflexo de cor a anunci-la, uma das sentinelas correra, aos gritos, a avisar o seu oficial de que saa fumo do poo vazio, que debaixo de Parfois havia 
um inferno a arder e era chegado o Dia do Juzo. Irromperam pelos aposentos de William Isambard com esta histria e este insultou-os, chamando-lhes idiotas, mas 
correu a ver o que se passava. A chamin de Adam fumegava em direco ao cu cor de chumbo, cuspindo ar quente numa coluna negra, e os estalidos do fogo vindos do 
interior da rocha eram aterrorizadores, como uma ameaa do Demnio. Durante a noite, um brilho tnue pairava sobre a abertura, redobrando a inquietao de todos. 
Por mais que explicasse e tentasse faz-los compreender, William no conseguia convencer a

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guarnio de que tudo aquilo eram fenmenos naturais e, quando se fechou no quarto, a ss com os seus pensamentos, tampouco ele prprio estava muito convencido.
O vento agreste e moderado que se infiltrava pela ravina favorecia Llewelyn, mantendo o fogo a arder e o calor intenso por mais tempo do que Adam ousara esperar. 
Na segunda noite, Parfois foi abalado por sbitos e retumbantes desmoronamentos no corao da rocha. S ento as gentes de Parfois se aperceberam do que estava a 
acontecer  fortaleza. A terra tremia sob os seus ps. Atemorizados, continuaram as suas tarefas sobre aquele cho periclitante, tentando evitar que o peso dos prprios 
corpos assentasse completamente nele, baixando a voz com receio de que um grito fizesse desmoronar as muralhas. O fumo rolava ao longo do barranco e no lhes permitia 
ver o vale. O regato gelado voltara a correr, mas mudava de curso a cada dia,  medida que os desabamentos de terra se estabilizavam, e todas as noites o gelo aprisionava 
no silncio mais uns ps de gua, enquanto o fogo abrandava e a rocha ia arrefecendo.
Na quarta noite, a geada recuperou os seus direitos e agarrou-se com ferocidade aos locais j devastados pelo fogo. Era o vigsimo segundo dia de Dezembro e a pior 
noite daquele inverno. J quase de manh, toda a gente em Parfois saltou da cama, aterrada, ao ouvir o rugido da rocha e da alvenaria que ruam ao mesmo tempo, quando 
a falsia sob a entrada fortificada se fendeu como que atingida por um raio e a torre ocidental, cujos alicerces foram subitamente arrancados, se abriu de alto a 
baixo e se abateu quarenta ps mais abaixo, sobre o barranco. A torre oriental ficou de p, com a ponte-levadia pendendo, como que embriagada, de uma s corrente; 
mas as muralhas abateram e comearam a abrir grandes fendas em ziguezague e, quando o vento afastou o p da derrocada, ficaram  vista por baixo delas grandes blocos 
de rocha em equilbrio precrio, prontos a desabar a um simples toque.
William arrastou os sobreviventes para fora e,  fora de pancada e improprios, conseguiu pr a guarnio a trabalhar na construo de uma nova ponte, reforou 
o posto avanado da guarda e colocou junto  brecha todas as criaturas disponveis capazes de empunhar uma arma, numa expectativa febril, temendo que Llewelyn

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lanasse um ataque enquanto reinava a confuso. Ainda que se sentisse tentado, Adam no era parvo e Llewelyn tinha a sensatez suficiente para se deixar guiar, num 
domnio que para ele era novidade. A rocha ainda no arrefecera: haveria novos desmoronamentos antes do fim do dia e estaria a desafiar a morte, se mandasse os seus 
homens escalar aquela massa instvel e vacilante, antes de a deixar assentar pelo menos um dia. Deste modo, William teve um dia de trguas e tempo para meditar sobre 
o carcter inexpugnvel de Par fois.
No alto da sua torre, roeu as unhas at ao sabugo, sentindo aquela massa altaneira ainda a vibrar sob os seus ps. Era tempo de admitir a dvida que, at ento, 
nunca fora real: a muralha sofrera uma brecha, o poo fora furado e a sua guarnio encontrava-se em estado de choque. William enfrentava um amanh to sombrio como 
o vale gelado, l em baixo. Se Parfois se aguentasse, ainda poderia enfrentar a situao, conservar o ttulo e esfreg-lo nas barbas do desconfiado Humphrey Paunton 
- qual haveria sido o seu erro, que haveria levado o velho idiota de Fleace a eriar-se todo e a exigir garantias? - descobrir o terceiro cadver na igreja que abrigava 
a peste com protestos convincentes de inocncia e desgosto, enterr-lo diante de todos com grande pompa e continuar a ter a bno do rei, e a sombra protectora 
do rei a justificar os seus actos. Depois do encargo que Henrique lhe confiara, com as fronteiras de Inglaterra para defender a todo o custo, esta falha no seria 
posta em causa. Como poderia ele, William, adivinhar onde haveria o velho tonto ido esconder-se, quando fugira durante o alarme? Como haveria podido ir procur-lo, 
fora das muralhas de Parfois, se estava preso dentro delas, cercado por um forte cordo gals? Supusera que o pai cara das rochas, na sua cegueira, e chorara a 
sua morte - havia-se dado ao trabalho de criar uma boa imagem de ansiedade filial. Como poderia imaginar que Isambard se escondera na igreja? Ningum podia acus-lo, 
William tomara as medidas necessrias. Se Parfois se aguentasse, se William continuasse a ser til ao rei e acautelasse o seu castelo, tudo poderia compor-se.
Mas ali estava ele, sbita e duramente confrontado com a realidade de que Parfois no era inexpugnvel.

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E depois? Que aconteceria se Llewelyn conquistasse Parfois e abrisse a igreja selada? Quando encontrasse o corpo de Ralph Isambard, faria um tal alarido que nenhuma 
eloquncia conseguiria abafar o primeiro grito de parricdio. A bela alegao que William elaborara e sabia na ponta da lngua seria desmistificada logo  partida 
e a sua causa estaria perdida antes mesmo de ser defendida. O velho sabia bem do que estava a falar, quando dissera que, ao primeiro rumor de escndalo, Henrique 
retiraria a sua proteco e deixaria o seu servidor pagar as custas sozinho. No haveria futuro para um homem acusado de parricdio pelo prncipe de Aberffraw. Ainda 
lhe parecia ouvir a voz do pai, irritantemente confiante e divertida, dizer: "Se o comprometeres, h-de perseguir-te at  morte."
Dentro de si, uma resoluo comeou a fortalecer-se: os corpos que se encontravam dentro da igreja no podiam ser encontrados, pelo menos sob uma forma identificvel. 
Poderia mandar tirar os selos das portas e enterr-los em segredo? No, a guarnio ir-se-ia abaixo, se o terror renovado da peste viesse juntar-se aos que j eram 
obrigados a suportar.
Contudo, j que os galeses haviam utilizado o fogo porque no poderia aproveitar-se disso e atribuir-lhes as culpas? Dentro da igreja, havia madeiramentos suficientes; 
com aquele frio, arderiam to vivamente como a fornalha subterrnea de Llewelyn. Mesmo ao lado, estava guardado o leo para as lamparinas e os lampari-nrios. O 
vento soprava de Oeste e era bastante forte. Dois ou trs homens, escolhidos por no serem muito espertos, podiam fazer o trabalho, a partir das janelas do lado 
ocidental, sem entrar na igreja, e julgando estar a expurgar os ltimos vestgios da peste. Depois, Llewelyn poderia fazer o que entendesse com os ossos carbonizados 
e irreconhecveis.
Antes da alvorada, na vspera de Natal, os homens de Llewelyn, j levantados, armados e prontos para o ataque, ergueram os olhos para a fortaleza mutilada de Parfois 
e viram uma nova e alta lngua de fogo a elevar-se com o vento, desenrolando-se como um comprido estandarte, orlado de fumo. Ficaram estticos, a observar; Llewelyn 
saiu  pressa da tenda, ao ouvir o alarido, e Harry, semi-

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armado, correu a agarrar-se ao brao de Adam, com um grito de fria e desespero:
- A igreja! Deitaram fogo  igreja, Adam!
Como uma tocha ou um farol, a altiva torre de mestre Harry destacava-se naquela aurora enevoada, carregada de uma luz irada. Das suas janelas mais altas, emergiam 
flmulas de chamas ondulantes, que eram arrastadas para Oeste pela brisa e se assemelhavam a longos cabelos ruivos.
Nessa vspera de Natal, os galeses tomaram Parfois.
O ataque em trs frentes havia sido planeado com preciso, mas foi levado a cabo algumas horas antes da hora prevista, com grande pressa. Llewelyn, com aproximadamente 
um tero do total das suas tropas, lanou por fim o ataque frontal havia muito aguardado; sem qualquer bombardeamento prvio pelas mquinas de guerra, as fileiras 
dos seus cavaleiros lanaram-se sobre a torre e as barricadas do posto avanado da guarda. A coberto da escurido, David e as suas companhias haviam trepado pela 
boca da ravina e os seus melhores arqueiros haviam procurado nichos na rocha de onde pudessem controlar a brecha aberta na muralha e alvejar qualquer defensor que 
se expusesse. Para os atacantes, o principal perigo era a insegurana do terreno, a massa oscilante que podia, com toda a facilidade, rolar sob os seus ps se algum 
atirasse um pedregulho l do alto. Os restantes homens de David abrigaram-se como puderam, prontos a lanar uma segunda vaga de assalto assim que os seus camaradas 
da frente Oeste completassem a escalada. Estes, que constituam o principal corpo de ataque, mantiveram a sua posio at o alarido na rampa haver feito acorrer 
reforos, que se amontoaram na ponte improvisada para repelir as cargas repetidas e arrasadoras de Llewelyn, e o clamor entre as rvores se haver transformado na 
msica selvtica e constante do auge da batalha. Ento, Owen mandou-os avanar e eles saram dos abrigos e lanaram-se, como um enxame, para o barranco cheio de 
rochas amontoadas.
Harry foi o primeiro a atingir as orlas traioeiras da derrocada e, sem hesitar, comeou a trepar pelo monte oscilante de rochas, seguindo pela encosta ngreme em 
direco  brecha na muralha. L

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no alto, os defensores no se atreviam a aproximar-se do bordo do desmoronamento com medo da falta de solidez; das posies recuadas que ocupavam a sua pontaria 
no era muito precisa. Para Harry, era mais perigosa aquela escada de pedra vacilante por onde trepava do que os ataques do inimigo. Por duas vezes, assentou o p 
numa pedra que cedeu e o fez cair e, de outra vez, provocou um deslizamento, que comeou a arrast-lo e o haveria feito cair, espatifando os ossos nas pedras cadas 
mais abaixo, no fora algum, que o seguia de perto, hav-lo puxado para o lado e agarrado com unhas e dentes, at o p assentar e a superfcie vacilante estabilizar.
- Calma, rapaz, calma! - aconselhou a voz de Adam, ao seu ouvido. -  melhor cuidares de manter vivo o filho do teu pai. A igreja pode esperar.
Com o resqucio de conscincia que podia dispensar naquele momento, Harry perguntou a si mesmo o que faria Adam ali colado a si, to oportuno, Adam que era artfice 
e no soldado, e que no tinha nada que se lanar no ataque  muralha com os homens de armas. Contudo, no teve tempo para mais do que uma olhadela e uma palavra 
rpida, antes de se levantar e recomear a trepar como um esquilo.
Se os homens de de Guichet, postados l no alto, no terreiro, no receassem aventurar-se perto da beira, poderiam, embora com algumas baixas, haver enfrentado muito 
mais homens do que os que Owen lanara contra eles, pois bastava-lhes fazer rolar as primeiras pedras para varrer os galeses, como se fossem seixos arrastados pela 
corrente. Mas estavam desalentados e abalados: a terra firme do terreiro exterior estava rasgada por fendas que, a cada choque, alargavam a olhos vistos e bastava-lhes 
pr o p naquela superfcie gretada para a sentir tremer. S quando Harry e os seus companheiros da vanguarda j estavam a tentar encontrar pontos de apoio para 
os ps e as mos, para galgar a borda instvel, os defensores conseguiram ultrapassar um terror para enfrentar outro, mais premente: os mais ousados avanaram para 
golpear as mos e as cabeas desprotegidas, que se iavam sobre a borda e entravam no seu campo de viso, e para soltar os blocos de pedra e alvenaria ainda em equilbrio, 
na orla do desmoronamento.

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Demasiado tarde. L de baixo, os arqueiros, que haviam estado  espera deles com uma conteno febril, dispararam contra todos os alvos possveis e foi um corpo 
a rolar, no uma pedra, que desencadeou o primeiro desabamento. Harry no conseguiu apoiar-se e escorregou uma ou duas jardas, ferindo o rosto; lanou-se de novo 
para cima e viu um dos blocos aparelhados da torre da guarda a oscilar por cima de si e, de relance, viu o prprio de Guichet, inclinado, apoiando-se sobre o ombro, 
a tentar empurr-lo. Por momentos ficaram a olhar um para o outro, olhos nos olhos, atravs da grelha das viseiras fechadas, e a Morte hesitou entre um e outro. 
Mas um dos arqueiros de David disparou, sem pressa, de um nicho na parede oposta da ravina e de Guichet caiu e ficou abraado ao seu projctil, com uma das mos 
pendentes, inerte. Devido  presso do seu pulso, levantou-se uma pequena nuvem de poeira, que deslizou inofensivamente, como um sopro de vento. A pedra oscilou 
suavemente e permaneceu no lugar.
Ao cabo daquele instante de puro terror, Harry respirou de alvio e escapuliu-se para o lado, para deixar caminho aberto ao obstculo, ao mesmo tempo que gritava 
avisos aos que se encontravam mais abaixo. Nem todos haviam tido tanta sorte como ele: ouviu,  sua direita, o tropel de rochas a cair e rezou pelos homens de David.
J completara a subida, j galgara a borda num remoinho de poeira. Naquela manha clara, esta espalhara-se por todo o lado, como um nevoeiro cerrado de fumo, de p 
e de fedor a queimado. O fogo fendera a rocha e a geada estava a pulveriz-la. O sabor do grs agarrara-se  sua garganta, quando atravessou a correr as poucas jardas 
de solo fissurado que o separavam das fileiras de Parfois. Colados aos seus calcanhares, assim que desembainhou a espada, os homens de Gwynedd acorreram para lhe 
proteger os flancos e reforar o ataque, conduzindo-o para l do terreno perigoso e mantendo  retaguarda um espao por onde os companheiros pudessem ir subindo 
sem perigo.
Quando o solo firme fosse conquistado, Parfois estava conquistado. Foi apenas uma questo de continuar em frente, de lutar at a resistncia ser vencida e de no 
recuar um passo diante das surtidas desesperadas que procuravam empurr-los por cima da borda.

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Atrs vieram os homens de David, com mais calma e maior cuidado, pois j no teriam de enfrentar o perigo mais imediato. No barranco, os arqueiros abandonaram as 
suas posies, atravessando a ravina e procurando abrigo do lado de dentro, de onde podiam varrer o planalto da igreja ou, pelo menos, acertar em qualquer um que 
fosse suficientemente tolo para se expor perto da borda. Os defensores postados no topo das muralhas e das torres tinham a tarefa dificultada pela batalha campal 
no terreiro abaixo deles, onde amigos e inimigos se misturavam de modo inextrincvel e as setas poderiam ferir uns ou outros, sem distino. Antes do meio-dia, o 
combate travava-se corpo a corpo. Escudo contra escudo, peito contra peito, os galeses abriram caminho atravs da brecha, como crculos provocados por uma pedra 
atirada a um lago. Esvaziaram o terreiro exterior e podiam levar o seu tempo a esvaziar as torres. O arco que desembocava no terreiro interior esteve teimosamente 
bloqueado durante algum tempo, at que os invasores conseguiram abrir caminho para a torre da guarda e, espalhando-se rapidamente ao longo da muralha, encarregaram 
os seus arqueiros de varrer o terreno de todos os ngulos. Arrombaram a porta do castelo e conseguiram entrar.
Seguros do seu controlo, separaram-se: Owen seguiu em frente para limpar o terreiro interior, enquanto David mandava metade das suas tropas voltar atrs, atravessar 
a ponte e atacar a retaguarda das foras que ainda opunham resistncia ao avano de Llewelyn. A batalha j se deslocara do meio das rvores para o terreno aberto 
do planalto e bastou o alerta da aproximao de David para lhe pr fim. Do que restava das foras de Parfois, uma parte dispersou e fugiu e outra deps as armas 
e rendeu-se ao primeiro adversrio que parou o tempo suficiente para aceitar a rendio. O castelo estava perdido e nenhum herosmo de ltima hora poderia recuper-lo.
Harry foi um dos primeiros a passar pelo arco e a entrar no terreiro interior e, palmo a palmo, dirigiu-se para a Torre da Rainha. Empurrados para os braos dos 
inimigos, lutaram pelo terreiro fora numa amlgama confusa, num corpo a corpo to prximo que tiveram de pr de lado as espadas e de utilizar os braos como se fossem 
lutadores. Os brases de Parfois, as cores dos cavaleiros e o

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tom pardo das vestes dos homens de armas danavam diante dos olhos encandeados de Harry. Afastou violentamente um ombro revestido de malha metlica que se atirara 
contra o seu peito e fez espao para manobrar a espada; o homem que afastara avistou o brilho do ao e girou instintivamente, de cabea baixa, para evitar a estocada. 
A sua viseira e uma comprida tira do gorjal de malha metlica haviam sido arrancadas e o seu rosto estava manchado de sangue. Harry encontrou-se cara a cara com 
William Isambard.
Encararam-se, enraivecidos como ces, e atiraram-se um ao outro como ces. Harry deixou de ver a confuso  sua volta, a sua viso concentrada naquele combate singular. 
Estavam os dois ss neste mundo, em torno deles no havia ningum, apenas objectos que limitavam e obstruam o terreno de luta, frustrando o maior alcance do homem 
e dificultando a velocidade e a ligeireza arrebatadas do jovem.
William Isambard era um espadachim temvel, para quem o combate no era uma brincadeira, mas um jogo mortal; porque se permitira aquele momento de fraqueza e deixara 
que a lmina oscilante passasse to perto da sua anca? O fsico do adversrio, os seus movimentos longos, o equilbrio dos golpes que o mantinham  distncia, tudo 
lhe despertava nos sentidos uma sensao de familiaridade que era quase uma dor fsica. Harry conhecia aquela esquiva rpida, a estocada fulminante que se lhe seguia 
inesperadamente, e o mergulho instantneo sob a parada semiconseguida. Mas tambm conhecia as respostas. Ambos haviam aprendido com o mesmo mestre, agora ia saber-se 
qual dos dois fora o aluno mais dotado e aplicado.
Aquela estocada inicial, que lhe provocara um instante de hesitao em memria do pai, havia valido ao filho o primeiro sangue. A manga da sua cota de malha deixara 
a descoberto o pulso estendido e, agora, a luva estava cheia de sangue, o punho da espada escorregadio. Por instantes, alguns rostos destacaram-se entre a multido, 
corpos aproximaram-se e estorvaram-no, movimentos de luta dificultaram-lhe os movimentos do brao que empunhava a espada. Harry afastou-os a todos e concentrou-se 
no adversrio, com um olhar fixo e feroz e uma pontaria rpida e elaborada.

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Quando sentiu a confuso da batalha afastar-se, nas suas costas, recuou um passo, como se estivesse cansado ou intimidado. O adversrio acompanhou-o de perto, com 
um olhar ardente, animado por este sinal. Harry lanou um ataque experimental ao flanco esquerdo de William, mas este afastou o ferro e girou subitamente com todo 
o seu peso.
Harry deu um salto e passou por baixo da espada, cruzou punho com punho para manter a lmina afastada do rosto e lanou o homem e a espada para a frente, ao mesmo 
tempo, por cima da anca bem apoiada. No havia tempo, no havia espao para o golpe bem medido com que, certa vez, Isambard o desarmara. Em vez disso, o jovem atirou-se 
com todas as suas foras sobre o adversrio cambaleante, f-lo cair por entre os ps dos combatentes e esmagou sob o seu corpo o brao que no largara a arma. Harry 
havia largado a espada para libertar as mos e, antes que William conseguisse empurr-lo, empunhara a adaga e encostara a ponta ao pescoo do adversrio, abaixo 
da orelha, onde a cota de malha fora arrancada.
- Onde esto eles? - arquejou, furiosamente. - Que lhes haveis feito? Onde est a Madonna Benedetta?
Sentiu um joelho agitar-se debaixo de si, tentando atingi-lo no ventre, mas o peso da cota de William dificultou-lhe o movimento. Harry carregou no ao at sentir 
a carne encolher-se sob o contacto.
- Onde est ela? E o vosso pai? Falai ou morrereis! Se lhes fizestes mal...
William cuspiu as palavras por entre os dentes:
- Procura-os!
Silvou e gemeu ao sentir a ponta da adaga enterrar-se, mas esta
no se desviou e os olhos verdes, to prximos, nunca vacilaram.
- Por Deus, hei-de descobrir! Haveis de confessar! Onde?
- Na igreja!
As palavras foram arrancadas, num gemido mordaz, aos lbios contorcidos num esgar de raiva e dio. Que loucura haver admitido qualquer conhecimento! Porqu dizer 
a verdade? Lia-se a morte na voz e nos olhos do rapaz, estava decidido a matar ou a saber - e a carne anseia por viver.

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- A igreja! - exclamou Harry, soerguendo-se num sobressalto horrorizado, vendo de novo as chamas diante dos olhos.
Largou a garganta desprotegida, tirou o peso de cima do brao ainda capaz e traioeiro, esqueceu tudo menos o horror que o dominava. Ps-se em p de um salto, afastando-se 
do seu prisioneiro sem um palavra, sem se lembrar da sua existncia, tentando abrir caminho por entre a multido e correr para o invlucro resplandecente da igreja 
de seu pai.
Uma mo estendida agarrou-lhe no tornozelo e f-lo tombar pesadamente, tirando-lhe o flego. Instintivamente, rolou sobre a adaga para a manter fora de alcance com 
o prprio corpo at conseguir libertar o brao. Em vez de soltar a adaga, permitiu que as mos vingativas lhe agarrassem o pescoo e meio-cego, meio-sufo-cado, tacteou 
com os dedos encurvados o pescoo de William e atingiu-o sob o ngulo do maxilar, enterrando profundamente a lmina. Agora, em conscincia, no queria matar ou sequer 
ferir algum, apenas libertar-se de forma definitiva e ir procurar os seus.
O sangue jorrou-lhe sobre a mo e o brao, o corpo que o abraava agitou-se e contorceu-se numa imensa convulso, as mos que lhe agarravam a garganta abrandaram 
a presso e descaram, inofensivas, ficando a estremecer no cho. Ainda a arquejar, com os olhos turvos, Harry libertou-se e conseguiu furar por entre a multido, 
lanando-se a correr, desesperadamente, passando por baixo do arco para o terreiro exterior. Uns braos detiveram-no e agarraram-no: por momentos lutou para se libertar, 
at que reconheceu a voz de Adam e ergueu para ele uns olhos enormes e frenticos.
- A igreja! Eles esto na igreja!
- Eles quem? -perguntou Adam, apanhando a pergunta no ar,
- Benedetta... e Isambard... obriguei-o a contar-me... Agora corriam os dois juntos, Harry chorando sem se dar conta
- e mesmo que se houvesse apercebido disso no se importaria. As foras de Llewelyn estavam a atravessar a ponte para entrar em Parfois, a pouco e pouco e com grande 
cuidado, para no obrigar as traves de madeira a suportar grandes esforos. Harry atravessou-a a correr, lanado, nas barbas dos cavaleiros cheios de precaues, 
e prendeu as rdeas de Llewelyn.

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- Meu senhor, ele matou-os... a igreja... estavam na igreja... No conseguia falar por causa da garganta ferida e foi Adam
quem gritou a notcia de modo a que todos compreendessem. Llewelyn saltou da sela e comeou a gritar ordens, ainda antes de Adam acabar de falar; com espadas, machados 
e todas as ferramentas a que conseguiram deitar mo, apressaram-se a deitar abaixo as barricadas que selavam as portas da igreja.
O incndio extinguira-se enquanto lutavam, pois o vento mudara e empurrara as chamas em direco a Oeste. Os vitrais da nave central estavam quebrados, as canaletas 
de chumbo pareciam riscar a pedra, o fumo enegrecia-a; l dentro, o que restava das vigas ainda ardia. Quando abriram a porta e tentaram entrar, o calor empurrou-os 
para trs, mas conseguiram ver o cu a olh-los, onde uma parte da abbada abatera. A torre era uma casca vazia, sem janelas, sem telhado. O incndio devia haver 
atingido o coro antes de o seu mpeto diminuir, quando o vento mudara. Quando deram a volta aos despojos fumegantes para o lado Leste, viram que os vidros das grandes 
lancetas da janela do altar se encontravam intactos, a pedra quase no estava mascarrada e a pequena porta que dava para a sacristia inteira e sem qualquer marca.
- Abram aqui - ordenou Llewelyn.
Harry foi o primeiro a enterrar um cinzel na madeira para fazer saltar os pregos compridos. Sujo de cinza, de p e de sangue, arrancou o ltimo obstculo e deparou 
com uma porta trancada e sem chave: foi buscar um machado e atacou-a at rebentar a tranca e ser atirado para dentro da sacristia.
O tecto do presbitrio estava enegrecido e o ar ainda vibrava com o calor, mas no era insuportvel. Tiraram os elmos e entraram, calados e temerosos. Frgeis nuvens 
de fumo enrolavam-se na abbada e o cheiro a queimado que descia do coro envolveu-os. No coro, os contornos do cadeiral carbonizado ainda eram sublinhados por algumas 
brasas ardentes, depois do calor que o destrura. Mas o cho lajeado do presbitrio deixara-os passar inclumes sobre as suas pedras e o altar, com o seu coro anglico, 
mantinha-se belo e imaculado. Por baixo dele, um rectngulo de escurido aberto no cho chamou-lhes a ateno. Espantados e

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assustados, aproximaram-se e olharam, a medo, para dentro do tmulo aberto.
No fundo da cavidade de pedra Benedetta jazia sobre veludo. O cabelo comprido rodeava-lhe a cabea como uma aurola de fogo extinto e o corpo estava coberto com 
uma toalha de altar, bordada a ouro. As mos, finas e tranquilas, assentavam sobre flores coloridas e o rosto era um molde de pele cor de marfim, bem esticada sobre 
o desenho puro dos ossos bem modelados. Algum havia fechado cuidadosamente as grandes plpebras arqueadas e composto, com amor e reverncia, o corpo emaciado. A 
ela, reconheceram-na: todos os que ali se encontravam a reconheceram, apesar de ser agora uma sombra da mulher que recordavam.
Mas de quem seria a forma dourada que jazia ao seu lado, que fora levantada e deslocada para deixar espao para ela? Homem ou mulher? To delgada, no mais alta 
do que ela - e ela no era alta - e morta havia muito tempo j, pois o tecido dourado deixava perceber a forma frgil dos ossos que cobria. Enterrado com grandes 
honras, como um prncipe ou um cardeal, mas com objectos humildes e estranhos a seus ps - um macete de pedreiro, um cinzel, um escopro fino, as ferramentas vulgares 
da sua arte.
E atravessado sobre o brilho destes dois, inesperado e terrvel como um anjo cado, uma forma alongada e escura mergulhara de cabea entre eles: tinha a testa apoiada 
na curva de um brao dourado, as mangas largas estendidas, como asas, sobre os defuntos ilustres, e os braos compridos abraavam-nos, unindo os trs vultos. Nos 
dedos emaciados, que mesmo na morte os agarravam com paixo intensa, os anis pendiam, lassos, entre os ns dos dedos inchados. Demasiado fraco para voltar a sair 
do tmulo depois de terminar a sua obra, ali cara e ali morrera. As mos ainda agonizavam, enclavinhadas, sobre os dois corpos que enterrara mas, sobre o corao 
despedaado no sudrio dourado, a cabea repousava to suavemente como se dormisse.
O fogo, a geada, o Vero e o Inverno nunca mais poderiam perturbar aqueles trs seres ou criar animosidade entre eles.
O rapaz permaneceu mudo e quedo aos ps da sepultura, de olhos baixos, fitando, aturdido e apavorado, a dimenso da sua perda e a magnitude do que ganhara. Ficou 
quieto durante tanto

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tempo que os outros comearam a temer por ele, mas ningum ousou tocar-lhe. Sob a capa de p, suor e lgrimas, a sua palidez extrema s era comparvel  extrema 
calma que o invadira. Quando levantou o olhar, procurou os olhos graves e cheios de comiserao do prncipe, que se inclinavam para ele de uma distncia corts.
- Tens aqui parentes chegados - disse Llewelyn, com doura. - Mais chegados a ti do que a qualquer outra pessoa.
- Sim - respondeu Harry, num sussurro.
Estaria o prncipe a falar de um s ou de dois? Ou de todos eles? Sempre conseguira compreender os meandros dos coraes dos filhos, mesmo quando estes se sentiam 
perdidos.
- E a ti que compete dizer o que queres que se faa aqui. Ns faremos aquilo que entenderes ser melhor.
A cabea de Harry ergueu-se de sbito, para devorar o rosto do prncipe com os olhos verdes angustiados. Abriu a boca para responder e comeou a tremer.
- Com todo o respeito, senhor... h algum em Castell Coch que tem mais direitos do que eu. Gostaria que ela visse o que ns vimos - disse, em voz baixa.
-  bem lembrado e uma prova de devoo filial- disse Llewelyn. - Adam, corre a Castell Coch e pede  dama Gilleis o favor de vir ter connosco. Diz-lhe que, pela 
graa de Deus, encontrmos o corpo de mestre Harry.
Gilleis chegou ainda de dia, plida e silenciosa, acompanhada por Adam.
Abaixo de Parfois ainda perdurava o caos da batalha, com os cadveres cados por todo o lado, mas o prncipe j se encontrava nos aposentos sumptuosos de William 
Isambard e este jazia na capela, num cavalete em frente ao altar, lavado e limpo do sangue que Harry fizera correr, com as moedas dos mortos sobre os olhos. Sem 
um olhar, Gilleis passou pela torre destroada do posto avanado da guarda e foi abrindo caminho por entre os destroos de arreios e despojos humanos que enchiam 
a rampa, sem sequer os ver. Os seus olhos estavam virados para dentro, para o passado. Na vida ou na morte, nunca recordara o rosto de Harry to nitidamente

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como agora. Como mars contraditrias, os velhos dios e amores assaltaram-na de novo, dolorosamente.
No planalto, Llewelyn aguardava e o jovem Harry veio segurar-lhe no estribo e ajud-la a desmontar. Os olhos verde-mar e o abrao reservado foram como punhaladas 
no corao de Gilleis: desde que assumira aquela expresso sria e grave, de homem feito, no havia lugar para dvidas - era bem o filho de seu pai, de corpo e alma. 
Harry beijou-lhe a mo, depois a face, deu-lhe o brao e conduziu-a para o esqueleto da igreja de Parfois. Adam deixou-se ficar para trs, para lhes permitir entrarem 
sozinhos.
Ao chegarem ao p do tmulo, Harry soltou o brao da me e ficou ao seu lado. Gilleis olhou para a cavidade de pedra e susteve a respirao com fora, como que a 
sufocar um grito; em seguida, ficou em silncio, plida e imvel, por longos minutos, com os olhos fixos nas duas formas brilhantes e nos braos abertos que os cobriam, 
como uma cruz.
Viu a luz das tochas vibrar sobre o sudrio dourado, como se os ossos queridos que escondia houvessem estremecido por um instante, perante a evocao da vida, e 
quisessem levantar-se para ir ao seu encontro. Viu o brao delgado e escuro a envolver o corpo do marido, e a mo - a mesma mo que o envolvera no sudrio principesco 
- a agarrar-lhe o brao com os dedos finos, num gesto ciumento e terno. Toda a agonia, todo o dio e todo o amor, as ofensas e as vinganas haviam acabado por se 
concentrar docemente naquele pequeno espao.
Gilleis ergueu por fim o olhar e viu, do outro lado do tmulo aberto, o rosto do filho, plido de emoo, a observ-la. Estava muito mais prximo da plenitude da 
sua herana do que no dia anterior e queria alguma coisa dela, mas dominava-se para no deixar transparecer esse desejo nos olhos, receando que, por amor dele, ela 
consentisse em algo que no desejava. Oh, Harry, pensou, diz-me o que hei-de fazer! Mas ele no o faria. Isto era um assunto que teria de resolver sozinha.
Contudo, a dor pungente que gritava por trs do seu rosto calmo calou-se, envergonhada, quando olhou para o filho. A verdadeira marca de Harry, o nico legado que 
lhe deixara era a

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ddiva. Bastava-lhe d-lo de livre vontade e nunca o perderia ou sentiria a sua falta. E seria ela to pobre que no pudesse dispensar um canto do tmulo de Harry 
queles dois, que tanto necessitavam de repouso?
Teria de continuar a haver expulses, divises e sepulturas violadas?
- Tapai-os! - disse Gilleis.
De imediato viu surgir no rosto do filho um claro de alegria, nos olhos um impulso apaixonado de gratido.
- Tapai-os e que repousem em paz.
No ltimo momento, quando os homens da retaguarda j batiam com os ps gelados na neve, ao cimo da rampa, e David chamava por ele, da ponte, com impacincia, Harry 
tirou o p do estribo e voltou  sala de desenho.
Por essa altura, metade do cho do terreiro exterior estava retalhado por fendas e todos os dias havia pequenos pedaos insignificantes de grs que deslizavam suavemente 
para a ravina. Era tempo de partir. Um novo pedao da muralha desabara durante a noite e, quando chegasse a Primavera, Parfois estaria entregue aos corvos.
Era mais que tempo de partir e eles eram os ltimos a sair. As senhoras haviam iniciado o regresso a Aber no quarto dia a seguir ao Natal, com Adam a acompanh-las, 
e a caravana com as bagagens e o saque de Parfois arrastava-se sobre a neve, atrs delas, por meia milha. Harry cavalgara com elas at ao vau para as ajudar a atravessar 
em segurana e, antes da partida, beijara Aelis diante de todos, para selar os seus direitos. Para dizer a verdade, sentia agora por ela uma admirao ciumenta: 
assumira perigosamente a sua feminilidade, desde que passara a usar o cabelo preso sob o toucado e os vestidos da me de Harry. As duas estavam muito ligadas e partilhavam 
uma certa cumplicidade: costumavam trocar olhares e sorrir por sua causa, quando julgavam que ele no estava a v-las - ou, o que era ainda mais assustador, quando 
sabiam muito bem que estava a observ-las. Teria que ter muito cuidado com elas, pois poderiam aliar-se para lhe controlar a vida.

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Dois dias aps a partida da princesa e do seu squito, a guarnio, desarmada, sara de Parfois com as vestes que trazia no corpo, os seus pertences pessoais e uma 
pequena proviso de alimentos. Para alm de todos os apetrechos militares, tambm os melhores cavalos, falces e ces de caa haviam ficado para os vencedores, mas 
os membros da guarnio sentiram-se felizes por lhes ser permitido partir com vida e em liberdade, depois de haverem jurado no voltar a pegar em armas contra Llewelyn. 
Alguns rumaram a Fleace, levando cartas corteses do prncipe de Aberffraw para Humphrey Paunton, pelas quais lhe dava conhecimento da forma como o seu senhor morrera 
e fora enterrado, de modo a que, em devido tempo, a notcia chegasse na ntegra aos ouvidos do rei Henrique. Outros dirigiram-se a Erington, na fronteira do Herefordshire. 
Os muitos e dispersos domnios de Isambard pertenciam agora ao filho mais velho, Gilles, que estava na Normandia - se o rei entendesse conceder-lhe o ttulo mas, 
depois dos trabalhos que Richard Marshall lhe dera, era pouco provvel que Henrique quisesse atribuir uma posio to poderosa, em Inglaterra, a outro potentado 
normando, vassalo do rei de Frana. Deix-los disputar esses domnios como lhes aprouvesse: Ralph Isambard continuaria a descansar tranquilamente.
Assim terminava uma grande linhagem e fora ele, Harry Talvace, quem cortara o ltimo ramo dessa rvore formidvel. Aps a partida da guarnio, as pompas mundanas 
pareciam vs e efmeras naquele Parfois despovoado.
Depois dos vencidos, os vencedores. Partiram na vspera de Ano Novo, o prncipe e todos os seus capites, dirigindo-se a toda a pressa para Bredden, em p de guerra, 
e deixando David encarregue de se juntar a eles com a retaguarda. Toda a fronteira estava  merc de Llewelyn, pois, no dia a seguir ao Natal, o conde marechal derrotara 
estrondosamente John de Monmouth numa batalha campal, perto da cidade  qual este fora buscar o nome, e no havia agora soldados do rei entre os inimigos deste e 
os seus intranquilos sbditos das Marcas.
- Deixemos o Herefordshire para o rapaz - disse Llewelyn, quando recebeu os despachos. - Bem o mereceu. Iremos para Norte e Leste e conquistaremos o corao do Shropshire. 
Dezanove

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anos depois de Benedetta ter vindo ter comigo a galope, s portas de Shrewsbury, Harry, e te haver entregue a mim, para mal dos meus pecados, est a apetecer-me 
ir bater-lhes  porta de novo, mesmo que isso me venha a custar uma penitncia igual.
Com estas palavras, Llewelyn partira, despreocupada mas decididamente, para a sua razia. Deus ajudasse os aldeos do sop de Breidden e os burgueses preocupados 
de Shrewsbury, pois a guerra implicava morte. A guerra matara Parfois. Mesmo que Gilles aparecesse e tentasse reconstruir a fortaleza arrasada, nunca poderia ter 
xito. A rocha estava estilhaada e o corao silenciado. O homem que havia sido o esprito de Parfois morrera, morrera e fora enterrado sob o altar da sua igreja, 
com a sua amada e o amor da sua amada, com os seus feitos tenebrosos e os seus actos notveis. Deus haveria de acertar essas contas, mais ningum tinha esse direito. 
O seu arqui-inimigo mandara dizer missas pela sua alma, o seu prisioneiro mais implacvel rezara ardentemente pela paz da sua alma.
As ltimas companhias j estavam a partir, os homens dos cls sob as ordens de David, impacientes e ferozes, queriam ir atrs das suas presas e o prprio David no 
lhes ficava atrs: tinha uma fronteira para consolidar e se agora forasse esse reconhecimento pelo terror, mais fcil lhe seria depois manter o controlo. Os derradeiros 
rudos de cascos haviam deixado de ecoar na ponte e foram abafados pela neve do planalto. S Harry Talvace ficara para trs, o ltimo a deixar o terreno inseguro 
do seu cativeiro de quatro anos.
O silncio rodeou-o como uma capa espessa, isolando-o do mundo. A luz crua da manh de Janeiro, trespassada por raios de sol avermelhados que emergiam, oblquos, 
por entre as nuvens, bordava de escarlate os merles da muralha. A porta da torre da guarda e os portais da armaria, dos estbulos e das cavalarias estavam abertos 
para os interiores vazios. No se via ningum em movimento, no se ouvia uma voz, onde antes se ouviam tantas, nem sequer um co ficara para trs para recordar o 
mundo dos vivos. Restava apenas ele, Harry Talvace, a atravessar com cuidado o cho rendilhado, retendo a respirao com receio daquele silncio, empurrando a porta 
da sala de desenho que se abriu para um cho desigual e rachado, permanecendo na soleira do compartimento abandonado 

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olhando em volta, para as compridas mesas de desenho onde mestre Harry havia elaborado os seus projectos ambiciosos, para a bancada onde ele depositara os cinzis 
e os escopros e esboara na pedra as suas ideias. Haviam desfigurado a sua obra pelo fogo, mas nunca conseguiriam destru-la.
Harry ficou parado, a olhar, sentindo a sala cheia de ecos, rpidos e pungentes, que lhe feriam o corao: "No me posso comparar a ele! No confias em ti mesmo 
o suficiente para seres nada menos do que o melhor? Quantos se lhe podem comparar?" E, naquele momento em especial, ecos to significativos, to comoventes: "Os 
desgnios de Deus so sempre justos. Cada um tem os filhos que merece." Porque havia sido tantas vezes incapaz de ouvir ou perceber as coisas que lhe diziam?
As lembranas desenharam, contra a janela, os contornos dos ombros erectos e descarnados, a cabea altiva, o sorriso sombrio e oblquo e reavivaram a voz, na sua 
antiga suavidade atormentadora. Ali, pela primeira vez, havia recebido as ferramentas de seu pai e os fragmentos de pedra que ele deixara para trs, aquando da sua 
morte intempestiva. Ali, havia sido ensinado a trabalhar duramente, sem se sentir compelido pela provocao, e at essa lio aprendera por fim. Se o trabalho que 
fizera no podia comparar-se, nunca poderia comparar-se,  obra do pai, no teria suficiente confiana em si prprio para ser nada menos do que o melhor? Ver-se-ia 
que sim, que sabia trabalhar com humildade e fidelidade onde esta era merecida.
Olhando agora para trs, com espanto, para aqueles quatro anos, no sentia que houvesse sido infeliz, o que era bastante estranho, depois de tanto sofrimento. Mais 
estranho ainda era olhar calmamente para a sua ansiedade, os seus planos, a sua luta pela liberdade e ser incapaz de sentir que havia sido um prisioneiro.
Atravessou a sala em silncio, at  bancada a que lhe fora permitido chamar sua e a, num canto, encostado  parede, encontrou um esboo de pedra que mestre Harry 
havia feito para a ltima cabea que colocara no trifrio da igreja de Parfois. Harry julgara ser um ltimo auto-retrato, mas Isambard  que tinha razo: "Isto no 
 a assinatura na concluso da obra,  uma profecia no seu incio. No te reconheces?"

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No se reconhecera, mas acreditara nele. Mesmo ento, mesmo nessa altura, com vontade ou contra vontade, confiara em Isambard: sabia e estava a dizer-lhe a verdade. 
Ainda agora, Harry no se reconhecia: aquela cabea intimidava-o, desnorteava-o e excitava-o, com a sua promessa e a sua clareza, mas continuava a acreditar. Ainda 
havia caminho a percorrer, mas j assentara os ps no caminho que o levaria quela identidade e, na devida altura, l chegaria.
Estranhamente deslumbrante, pensara ento, ao acariciar os esboos daquela cabea to jovem estranhamente deslumbrante,  uma grande responsabilidade. Mais uma vez, 
rodeou-a com as mos e a mesma mescla apaixonada de orgulho e humildade voltaram a inundar-lhe o corao.
Pegou num grande pedao de pano com que mestre Edmund costumava embrulhar os seus pergaminhos e embrulhou apressadamente a cabea, seguro de que David j estaria 
a ficar impaciente e iria mandar algum busc-lo. O embrulho era pequeno mas pesado, iam ach-lo louco por sobrecarregar Barbarossa com mais vinte libras quando 
tinham pela frente uma dura cavalgada. Pouco importava, no a deixaria ali.
Lanou um ltimo olhar apressado quela sala, sabendo que poderia no voltar a v-la, e saiu com o seu precioso trofu debaixo do brao, fechando a porta atrs de 
si. L estava Owen, a desmontar mesmo ao lado de Barbarossa e a atirar as rdeas sobre o pescoo do cavalo.
- Que diabo, Harry, que te deu para ainda andares a vaguear por aqui? O que querias? O David partiu sem ns.
- Havemos de o apanhar - disse Harry, guardando  pressa o embrulho malfeito na sacola da sela, o que fez Barbarossa agitar-se, indignado, ao sentir aquele volume 
pesado e informe. - Lembrei-me de uma coisa que prefiro no deixar aqui.
- Ento mexe-te, homem, e vamos atrs deles.  melhor sairmos daqui - disse Owen, varrendo com os olhos as rochas periclitantes que se inclinavam para a ravina. 
- Quando vier o degelo, metade desta falsia vai desmoronar-se e nessa altura, prefiro estar longe de Parfois.

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Harry montou e dirigiu o cavalo para as traves estreitas da ponte, j liberto da necessidade de olhar para trs. O passado estava resolvido, o futuro oscilava dentro 
da sacola da sela. Assim que passaram a ponte e se lanaram, a trote, pelo planalto, em direco s rvores, Owen colocou-se ao lado de Harry e inclinou-se, curioso, 
para tocar no embrulho.
- O que levas a, Harry?
Bateu com a mo na sacola e admirou-se com o peso, deu-lhe um murro e praguejou, por ter magoado o punho.
- Cus, que peso  esse que levas no pobre animal? Uma pedra? Que vais fazer com esse trambolho? H pedra em todo o lado, tens mesmo que carregar essa contigo pelas 
Marcas?
-  um esboo do meu pai - disse Harry, apaziguador, contando apenas meia verdade. - Pensei que talvez seja capaz de o copiar, um destes dias.

EPLOGO

Parfois: Julho de 1233

Seis meses mais tarde, Harry percorreria uma vez mais o mesmo caminho.
Voltavam atrs sobre os prprios passos, no regresso da grande reunio de Myddle, onde fora assinada a paz triunfal que coroava os feitos de Llewelyn e sancionava 
a obra de toda a sua vida. A guerra de Richard Marshall fora perdida e ganha, e a sua vida breve, admirvel e tempestuosa - estranha para um homem que apenas desejara 
ordem e justia - terminara na hora da sua vitria. Um prelado, mais eminente e melhor do que Winchester, afastara Winchester do poder; uma ordem, mais slida do 
que aquela que mesmo o eficiente des Rilvaux era capaz de impor, tornara dispensveis os servios distintos de des Rilvaux. De um modo geral, a Inglaterra afirmara 
a sua vontade severa e sensata; e Gales vira confirmadas todas as suas conquistas, gozava de paz no interior das suas fronteiras e de respeito fora delas. No era 
de espantar que David regressasse a Aber, com o seu squito, na melhor das disposies. Passaram por Knockin. Entre Parfois e Shrewsbury, haviam incendiado, morto 
e pilhado mas em parte alguma com maior ferocidade do que ali,  volta do fosso daquele castelo mrtir. Isso

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acontecera em Janeiro; agora, em Julho, metade dos campos estava por cultivar, devido  falta de homens para fazer esse trabalho, e as mulheres labutavam penosamente, 
at depois do anoitecer, para arranjar alguma comida para os filhos. Ao cruzar o olhar com os das vivas de Knockin, Harry no se sentia orgulhoso. Talvez houvesse 
aprendido da maneira mais dura, mas a lio ficara bem gravada; agora, sabia o que queria fazer da sua vida.
Um captulo inteiro de uma crnica fora escrito nas Marcas, desde a campanha de Janeiro. Esta correra to bem, haviam-se estabelecido to solidamente como senhores 
das fronteiras, que o conde Richard sentira que a sua posio no Pas de Gales estava segura e partira para a Irlanda, a fim de recuperar os castelos que os homens 
do rei lhe haviam roubado em Leinster. Entregara o comando de Striguil a Hubert de Burgh, Basset e Siward e fizera-se ao mar rumo a Leinster, em comeos de Fevereiro. 
Nesse mesmo ms, Edmund de Abingdon, tesoureiro de Salisbria, vira confirmada pelo rei a sua eleio para o arcebispado de Canturia e assistira ao Grande Conselho.
Que pensaria Henrique do seu novo arcebispo? Confirmara-o no cargo de bom-grado ou de mau-grado, relutantemente, por falta de coragem para resistir? Porque antes 
mesmo de ser nomeado, Edmund de Abingdon iniciara as suas funes, colocando-se  cabea dos bispos na exigncia de demisso dos odiados ministros de Henrique e 
do retorno ao estado de direito e  Carta. Henrique exaltara-se, protestara e tentara ganhar tempo; mas eles haviam levado a sua por diante e enviado de imediato 
para a fronteira os bispos de Lichfield e Rochester, com a misso de apresentar a Llewelyn um plano de conciliao e paz. No haviam encontrado dificuldades: Llewelyn 
estava disposto a ouvi-los, uma vez que tudo indicava que o ponto para ele essencial iria ser concedido. Aps as necessrias idas e vindas relacionadas com os termos, 
em fins de Maro fora acordada uma trgua e marcada, para o segundo dia de Maio, uma reunio em que seria estabelecido um tratado permanente.
A coberto de tamanho sucesso tctico, fortalecido por esta manifesta tolerncia e boa vontade por parte de um prncipe que poderia muito bem haver explorado a vantagem 
que detinha e

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imposto condies mais extremas, o arcebispo Edmund chegara ao conselho de Abril com todos os bispos da provncia da Canturia a apoi-lo,  excepo do lobo solitrio 
Winchester, que tinham inteno de demitir. Henrique j no podia proteger os seus favoritos sem que isso envolvesse riscos para si prprio e, por outro lado, tambm 
nunca se comprometera ao ponto de no poder voltar atrs. Corria o rumor de que, aps o conselho de Fevereiro, levara consigo para um retiro monstico Winchester, 
des Rilvaux e Segrave, o que, a avaliar pela forma como tratara de Burgh, constitua um indcio seguro de que estes nada podiam esperar de bom, logo que os seus 
prprios interesses o aconselhassem a abandon-los. Fosse como fosse, quando os bispos o pressionaram, Henrique anunciara a demisso dos seus ministros, prometera 
reformas e o retorno  Carta: tudo quanto lhe fora exigido. Ainda sem saber, na altura, pois ningum em Inglaterra o sabia, que o seu inimigo se encontrava j no 
leito de morte.
Porque o conde Richard se deixara persuadir a ter um encontro com os homens do rei, nos prados de Kildare, no primeiro de Abril, e - ningum sabia como nem pela 
mo de quem - fora atacado  espada e ferido mortalmente. Traio, diziam alguns, uma traio que envolvia as mais altas figuras do reino. Outros atribuam o ataque 
a uma exaltao de nimos, quando a discusso se tornara mais acesa, porque Richard queria recuperar os seus castelos e havia quem no quisesse ser desapossado daquilo 
de que se apoderara. Fosse como fosse, Richard Marshall fora transportado de Curragh para uma cama da qual no mais se levantou e, duas semanas depois, estava morto. 
Aquele homem de carcter nobre, que nunca quisera entrar em guerra contra o seu rei, morria, depois de ter ao alcance da mo a vitria, as reformas e os seus senhorios.
A notcia caiu como um raio em Inglaterra, abalando profundamente toda a gente, incluindo o prprio rei Henrique. Teria ele encorajado secretamente o assassinato 
do conde? Ou teriam des Roches e os seus companheiros mais prximos agido por conta prpria, lanando sobre o rei a suspeita injusta de cumplicidade? Fosse qual 
fosse a verdade, Henrique procurou ilibar-se com a maior celeridade, voltando-se como um tigre contra os seus ministros.

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At ento, parecera possvel que estes fossem autorizados a retirar-se honrosamente; todavia, haviam sido obrigados, durante algum tempo, a experimentar o destino 
que haviam reservado a de Burgh, sendo perseguidos por toda a parte, denunciados e proscritos, at os bispos que haviam sido responsveis pela sua queda se interporem 
entre eles e o monarca, arrebatado de rectido, e lhes estenderem a mo para os ajudar a reerguer-se. Foram criadas comisses para ouvir as queixas apresentadas 
contra eles, os investigadores esmiuaram os mais nfimos pormenores da sua conduta enquanto detinham os cargos e verificaram todos os pennies que lhes haviam passado 
pelas mos. De Burgh estava vingado.
Contudo, o conde marechal estava morto. Quando soubera da notcia, Llewelyn decidira no participar na reunio de Maio. O homem que deveria ser o negociador, por 
parte da confederao inglesa, morrera; at todos os seus partidrios haverem obtido termos de paz satisfatrios, Llewelyn no aceitaria nenhuns. E a proteco que 
estendera sobre eles, com este acto, revelara-se efectiva ao ponto de apressar uma conciliao geral. Em Maio, Glbert, o novo conde marechal, passara salvo-condutos 
para ele prprio e para os irmos, para de Burgh, Basset e Siward e para todos os outros confederados, a fim de que todos pudessem deslocar-se a Gloucester, participar 
no conselho, sob a proteco do arcebispo, e pedir a graa do rei. Invalidada a sua proscrio, obtidos o perdo e a devoluo das suas terras e havendo eles prprios 
sido reconduzidos nos favores reais, alguns deles at nos cargos, tinham bons motivos para estarem gratos a um aliado to temvel e leal como o prncipe de Aberffraw.
- Se ele pudesse ver como tudo acabou, rir-se-ia at s lgrimas - disse Harry, de repente, concluindo em voz alta um fluxo de pensamentos que o ocupara, em silncio.
- Ele? - perguntou David, distrado, lanando um olhar inquiridor ao jovem irmo adoptivo. Contudo, ao concluir rapidamente quem devia ser o "ele", prosseguiu: - 
Ests a falar do facto de de Burgh haver sido readmitido no conselho e de Winchester e des Rivaulx haverem apanhado pela mesma medida com que o haviam atacado? E 
de o prncipe meu pai haver voado em socorro do seu mais antigo inimigo, sem deixar de cumprir o juramento de conquistar e

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destruir Parfois... sim, suponho que qualquer homem encontraria bons motivos para se rir de tudo isto, se houvesse coragem para tanto. Sempre ouvi dizer que ele 
era um homem de de Burgh.
- Era um homem de coragem - respondeu Harry, veementemente. - E no era homem de ningum, era senhor de si mesmo.
- O mais engraado - comentou Owen -  que, se vier a reclamar os seus senhorios em Inglaterra, o tal Isambard francs de quem falas ter de passar sem o castelo 
de Parfois. Segundo os termos do acordo, no poder reconstru-lo.
Era verdade: Parfois recebera deles um golpe mortal. O acordo que Llewelyn assinara em Myddle, na presena do arcebispo, baseava-se na situao existente  data 
em que comeara a guerra do conde Richard. Cada uma das partes conservava o que se encontrava na sua posse nessa altura, ainda que recentemente conquistado; Builth 
e Cardigan continuavam a ser propriedade dos prncipes de Gwynedd, o que representava um ganho considervel. Mas no podiam ser construdos novos castelos, nem reconstrudos 
os que se encontrassem em runas. Adeus, Parfois! E talvez fosse apropriado que Parfois no sobrevivesse a Ralf Isambard.
A trgua fora assinada por dois anos apenas; a partir da, poderia ser renovada por consentimento mtuo, ano aps ano. Mas quem ousaria agora tentar arrancar Builth 
e Cardigan das garras do leo? Llewelyn mostrara a Inglaterra, de uma vez por todas, quem mandava ao longo das Marcas, enquanto ele fosse vivo, e fizera tudo quanto 
estava ao seu alcance para garantir que, depois da sua morte, David fosse encarado com o mesmo temor e o mesmo respeito. A sombra do castelo de Myddle, entre as 
tendas coloridas espalhadas pelos prados de Vero, haviam assistido  apoteose de Gwynedd e, sem dvida alguma,  verdadeira concepo de um principado de Gales. 
Faltava apenas que este nascesse em segurana e essa era uma tarefa dos estadistas, no dos soldados.
- Senhor...
Harry aclarou a garganta, preparando-se para fazer a declarao que tinha em mente desde a partida de Myddle. Corou e hesitou, perante o tom formal daquele prembulo, 
quando se encontravam os trs sozinhos, longe dos ouvidos dos outros.

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- Senhor! - troou David, alegre e gentilmente. Alegravam-no o Vero, o bom tempo, o triunfo alcanado, at
mesmo o vesturio de cerimnia, mas sobretudo o prazer de cavalgar sem o incmodo da armadura metlica. No estava com disposio para atitudes graves, mas assumia 
de bom-grado uma atitude gentil.
- Agora que estamos em paz - disse Harry, sem abandonar o tom solene - e que, se Deus quiser, continuaremos a estar em paz nos prximos anos, desejava falar convosco 
acerca do meu futuro. A vossa herana est consolidada. Se alguma vez necessitardes de me chamar, sabeis bem que eu acorrerei do melhor grado. Mas, enquanto no 
necessitardes de mim, peo-vos que me deixeis abandonar a vossa companhia e dedicar-me ao meu ofcio.
No era capaz de exprimir claramente aquilo que mais o perturbava, o mal-estar que sentia perante o preo da vitria: as aldeias incendiadas, os cadveres espalhados 
pelo cho, o gado abatido, os campos que deveriam estar dourados e estavam por cultivar, a terra improdutiva que deveria estar a dar frutos. Ingls por nascimento 
e criado como gals, o seu corao e o seu esprito combatiam dos dois lados. Como poderia derramar sangue gals ou sangue ingls, sem se sentir sangrar? Todavia, 
no se tratava apenas disso. A negao da vida, a frustrao da esterilidade, tudo isso era contrrio aos seus instintos mais profundos. Harry no tinha vocao 
para massacrar; era contra a sua natureza.
- O teu ofcio? - perguntou David, a rir e atnito. - Tantas vezes vi o Adam tentar obrigar-te a pegar nas ferramentas, quando eras mido, em Aber, e tu fugires 
mal ele voltava as costas, para participares numa justa. E at tinhas bastante jeito! Que foi que te deu, assim de repente?
- No foi de repente. Foi h muito tempo e, desde ento, trabalhei com o mestre canteiro de Isambard, em Parfois. Tambm vi a obra do meu pai e isso foi o bastante 
para me dar vontade de seguir os passos dele. No podia pedir-vos para partir enquanto travveis uma guerra, mas agora sei o que quero. A carreira das armas  gloriosa, 
mas no  uma carreira que me satisfaa - disse Harry, com firmeza. - Eu sou canteiro, como o meu pai, e  isso que quero ser. Se mo permitirdes, evidentemente.

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- Como por certo sabes, ters sempre a minha permisso para fazeres o que queres, Hal. E o Adam vai ficar contente por te ver amansado. Mas  uma pena - acrescentou 
David, desconsolado. - Portaste-te muito bem em Parfois. Devias haver ouvido os elogios que o prncipe te fez, quando no estavas por perto. J lhe disseste o que 
tencionavas fazer?
- J sim, senhor, antes de partirmos. Disse-me para falar convosco. Tambm me disse que devia fazer tudo o que pudesse para satisfazer o meu corao e que, desde 
que me empenhasse em dar o meu melhor, poderia contar com a sua bno. Mas vs sois o meu prncipe e meu irmo e desejaria obter a vossa.
- Como poderia eu recusar-ta? - replicou David, calorosamente. - Faz o que o corao te ditar e no te preocupes. Ser um bom espadachim  sempre til, mesmo que 
o espadachim seja tambm canteiro.
- Ouvi ento mais um pedido meu - disse Harry, empalidecendo um pouco, tal era a intensidade do seu desejo. - Posso continuar para Sul, na encruzilhada, e ir a Parfois? 
No vou demorar-me, prometo, s quero voltar a ver Parfois mais uma vez. Antes de chegardes a Oswestry, estarei de novo convosco.
Owen abriu a boca para se oferecer para o acompanhar, mas voltou a fech-la, sem haver formulado a oferta. Sabia quando Harry desejava ficar sozinho. Assim, separaram-se 
na encruzilhada de Knockin: Harry seguiu para Sul, em direco a Breidden; os irmos seguiram para Norte, em direco a Oswestry, acompanhados pelo seu squito. 
O canteiro partiu sozinho, como era devido. Havia muito que Adam dissera haver chegado a altura de ele assumir a sua condio.
Aqueles eram os campos que os galeses haviam arrasado, a caminho de Shrewsbury e, para onde quer que olhasse, a destruio l estava a desafi-lo. Nas aldeias, os 
sobreviventes haviam regressado s runas das suas casas, haviam at erguido cabanas de ramos para se abrigarem durante o Vero ameno; e estavam a trabalhar duramente 
na construo de abrigos mais slidos, para o Inverno. Tanta destruio, tanto sofrimento, tanto desperdcio: tudo afrontas  paixo de afirmao que sentia dentro 
de si, ao seu anseio pela

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vida, pela alegria, pela criao e pela realizao. Prouvera a Deus que no houvesse mais campanhas como aquela! Que aqueles homens e mulheres conservassem aquelas 
casas e reclamassem aqueles campos abandonados! Que tivessem outros filhos e fizessem a terra voltar a dar frutos! A tenacidade com que haviam reatado os fios da 
vida era em si mesma um reconforto. Os seres humanos no se deixam abater assim to facilmente.
Harry atravessou o rio em Buttington: um rio de Vero, agora verde devido aos limos, branco devido aos rannculos que flutuavam  superfcie, sorridente e sonolento. 
Depois, seguiu pela margem, pelo carreiro do moinho, passou pelo casebre arruinado e as recordaes revolveram-se na sua memria, numa momentnea contoro de dor. 
Cavalgou junto ao sop do rochedo de Parfois e, de repente, o caminho desapareceu. Pedaos de rocha e de alvenaria bloqueavam-lhe a passagem. Ento, seguiu pelo 
bosque, junto  gua, contornando laboriosamente o obstculo: a disposio do terreno impedia-lhe de ver mais alm. S ao alcanar as colinas verdejantes abaixo 
do carreiro que conduzia  rampa conseguiu avistar o ondeado das ameias da muralha e da torre, recortando-se contra o cu, e a luz que se filtrava pela ravina que 
separava o castelo da igreja.
O seu corao revoltou-se e gritou, dividido entre o desgosto e a exaltao, to repentina e violenta fora a viso do carcter efmero do poder e da glria deste 
mundo. O dominador das Marcas havia cado. Nenhuma lana de luz atravessava as sombras da ravina; o degelo sbito e a neve pulverizada de Fevereiro haviam feito 
desabar a rocha profanada, por baixo da muralha, at o solo fragmentado deixar de conseguir sustentar o enorme peso que suportava e, jarda a jarda, pedra a pedra, 
o pano da muralha cedera, deslizara e desmoronara-se, tombando pela ravina, enchendo o vo por baixo da ponte e espalhando gradualmente pedaos de rocha e entulho 
pelas orlas da falsia. A ponte deslizara como o resto e detivera-se, inofensiva e intil, alguns ps abaixo do seu nvel normal. Agora, qualquer pessoa podia subir 
a rampa e entrar em Parfois, sem necessidade de pontes. Entrar no que restava de Parfois!

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Contudo, a destruio podia no ficar por ali porque, entre o que restava das construes e os alicerces sobrecarregados por baixo destas, a rocha ainda no estabilizara. 
O equilbrio e a tenso que sustentavam o conjunto haviam sido 
perturbados e a desintegrao no podia ser sustida. Os anos e as intempries iriam erodir pedra aps pedra, as sementes instalar-se-iam entre os degraus periclitantes 
e as rachas do cho, delas nasceriam arbustos que fariam explodir as paredes. Jovens carvalhos cresceriam e lanariam razes nos vastos aposentos de Isambard, os 
corvos fariam ninho no esqueleto denteado da Torre do Rei. Dentro de cinquenta anos, Parfois no passaria de um nome ligado a um local desolado, a um lugar aplanado 
onde, antes, existira um rochedo imponente e uma grande casa.
A torre da guarda cara e, ao morrer, lanara a sua enorme cabea sobre o barranco e enterrara profundamente a testa na superfcie coberta de erva do planalto. A 
sala de desenho rura, juntamente com todas as construes pegadas ao lado Sul do pano da muralha. Os choques sucessivos haviam inclusivamente feito esboroar as 
bermas do planalto e algumas rvores arrancadas jaziam entre o entulho, l em baixo. Do local onde se encontrava, a densa folhagem de Vero das rvores que ainda 
restavam impedia Harry de ver a torre da igreja. Assustado, receoso, com o silncio e a desolao a gelarem-lhe o corao, fez Barbarossa dar a volta e comeou a 
subir o carreiro.
Na curva apertada onde comeava a rampa, Harry reparou - e, por instantes, no conseguiu persuadir o seu crebro atnito daquilo que acabara de ver - nos sulcos 
profundos que rodas de carroas haviam aberto na erva. Porque andariam por ali carroas, quando j no havia homens esfaimados para alimentar e abastecer? Algum 
que viera buscar madeira? No, no havia sinais de que houvesse sido levada madeira; em geral, viam-se lascas e serradura, no stio onde a madeira estivera. Lenha 
para a lareira? Em pleno Vero? No, ningum seria to expedito e previdente, naquelas aldeias enlutadas, onde todos os sobreviventes em condies de trabalhar eram 
forados a labutar incansavelmente para fazer face s necessidades do dia-a-dia. Todavia, as marcas das rodas sobre a erva

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continuavam pelo caminho acima. No eram recentes: nalguns pontos, haviam esmagado a erva e sulcado a terra, at  rocha. Carroas que transportavam cargas pesadas. 
Harry podia agora deduzir o que eram essas cargas. No haviam sido apenas o vento, as intempries, a neve e o degelo a contribuir para a derrocada de Parfois.
A torre solitria do posto avanado da guarda, derrubada durante o cerco, jazia entre escombros de argamassa, sobre a erva alta que havia crescido dos lados do caminho. 
As raras pilhas dispersas de pedra eram demasiado poucas para poderem ser os restos de uma fortificao imponente como aquela. Os contornos da torre nova estavam 
cobertos por silvas e tojos. As pedras talhadas das barricadas, preparadas para a nova construo, haviam desaparecido todas.
Harry chegou ao topo da rampa, onde o arvoredo era menos denso, e deteve-se, sustendo a respirao para no soltar um grito. Ao cair, a torre da guarda projectara 
para longe o seu topo pesado. A esguia torre da igreja recebera o impacto na base e tombara para Oeste, sobre a abbada da nave central, esmagando-a. A haste dourada, 
o caule da rvore sagrada, estava quebrado. Todo aquele esplendor delicado, aquela construo de subtil beleza, estriada de tenses vibrantes de luz e sombra, recuando, 
andar a andar, em propores encantadoras, que arrastavam consigo os olhos e o corao - tudo se perdera, tudo ficara desfigurado para sempre, sem possibilidade 
de recuperao. A grande abbada cara com a torre, e o vitral Oeste, com os seus ornatos de cordas de harpa nas quais a luz tocava tantas melopeias, erguia-se solitrio 
sobre um caos de pedras fracturadas.
Harry desmontou com uma pressa febril, como se, por um momento, as suas mos houvessem sonhado que a recuperao era possvel. Escalou os belos arcos estticos da 
nave central, tocando-os e acariciando-os,  beira das lgrimas, mas a consternao que lhe dilacerava o corao era como um poo escuro, demasiado fundo e medonho 
para lgrimas. Lanou-se, de joelhos, junto ao tmulo de mestre Harry, por cima do qual a abbada do presbitrio ainda permanecia intacta e as nove imagens de Owen, 
quando criana, continuavam a inclinar as suas cabeas serficas sobre os saltrios e instrumentos, cantando e tocando para glria de Deus.

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Mas para qu? Para qu, se aquilo era tudo o que restava? A prece que iniciara morreu-lhe na garganta, quase o sufocando.
Seria preciso to pouco tempo, afinal, para que castelos e igrejas tombassem em runas, depois de os homens os haverem abandonado? Quantas obras-primas do seu pai 
no haveriam j sido levadas pelas carroas? Se houvesse aberto os olhos, haveria visto sinais evidentes do que acontecera. Ao roubarem ininterruptamente as pedras 
do castelo e da igreja, os homens estavam a contribuir para a runa de ambos. Todas as aldeias num raio de dez milhas deviam estar a participar naquele desmantelamento 
discreto. Tudo quanto os habitantes dessas aldeias possuam havia sido perdido durante a campanha do ltimo Inverno: queimado, arrasado, chacinado. Ali, ao alcance 
da mo e pronta para ser carregada, havia uma vasta reserva de pedra j talhada, com a qual podiam construir novas casas, novos redis, novos ptios, novas vacarias, 
novos celeiros - tudo quanto precisavam. Depois de haverem usado o que cara por terra, derrubariam o resto. Sem nenhum Isambard em Parfois, quem poderia impedi-los? 
A demolio iria demorar algum tempo mas, dentro de dez ou vinte anos, tudo estaria arrasado. Tudo dilapidado, tudo perdido, toda a obra do seu pai apagada da memria, 
como se nunca houvesse existido. No seria, afinal, a criao mais duradoira do que a destruio? Seria este o destino no apenas dos destruidores mas tambm dos 
criadores? Para qu ento o esforo, para qu a paixo?
Com uma expresso rgida e dura, sombria como o Inverno sob o sol suave e luminoso, Harry aproximou-se de Barbarossa. Montou, voltou as costas  igreja de Parfois 
e cavalgou rampa abaixo, sem olhar para trs. O facto de os homens a destrurem altera o valor de uma obra? Ser esta menos vlida, se no for reconhecida ou se 
for pervertida? No restaria nada dela? Nem um eco, no fim de uma msica to bela?
No sentia qualquer desejo de seguir pelo mesmo caminho e voltar a ver aquela desolao, l no alto, recortada contra o cu. Assim, seguiu em direco a Leighton, 
para atravessar o rio no vau de Pool, e apanhar a estrada do Norte, em direco a Oswestry, ao encontro dos irmos.

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Agora que os seus olhos estavam preparados para os ver, detectou aqui e ali pedaos roubados  ossatura de Parfois. Ao atravessar a aldeia, viu-os, slidos e incongruentes, 
inseridos nas paredes de novas casas que estavam a ser construdas. Quando o sol batia nela, acordando o dourado suave que dormia no cinzento claro e quente, a pedra 
de mestre Harry, vinda da pedreira de Bryn, era inconfundvel. Descortinou esse brilho, aqui e ali, e a ferida no seu corao reabria-se a cada descoberta. Contudo, 
ao chegar ao extremo da aldeia, um sbito sobressalto de surpresa e deslumbramento f-lo parar e ficar a olhar, sentindo o seu desespero abalado pela primeira vez.
O ferreiro de Leighton decorara os postes do ptio da sua quintarola com dois pequenos capitis: os dois pilares, toscamente construdos, mas no desproporcionados, 
eram coroados por dois grupos gmeos de folhas radiantes e vivas, que haviam sustentado a abbada da capela das missas encomendadas de Isambard. Seria, afinal, uma 
profanao assim to grande? Se no houvesse visto neles qualquer coisa que lhe tocara o corao, o ferreiro haver-se-ia dado ao trabalho de os transportar por uma 
distncia to grande e de os colocar ali, onde apenas serviam para seu deleite?
Pensativo, Harry seguiu lentamente o seu caminho, interrogando-se por igual sobre o que lhe ia na alma e sobre os actos dos aldeos. Mais adiante, numa pequena quinta, 
a parede do estbulo era encimada pelas pedras lavradas das cornijas da torre; e, na entrada, o muro era rematado pelo segmento de uma coluna. Desperdcio? Dessacralizao? 
Perda? Aquilo que Parfois perdera fora encontrado por algum mais humilde.
Ainda desconfiado e contra vontade, o corao de Harry reanimou-se. Ainda magoado no seu amor, guardava-lhes ressentimento por se haverem apoderado de pedaos isolados 
daquilo que deveria ser um todo e propriedade de todos os homens; e culpava-os pela desintegrao a que se haviam associado, ainda que inconscientemente e pressionados 
pela necessidade. As pobres pedras furtadas brilhavam ao sol, douradas como espigas de trigo cadas. Harry seguiu em direco  margem do rio, ainda a debater-se 
com as suas dvidas, apesar de a criana dentro de si arder de desejo de ser consolada.

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Os macios de salgueiros, que comeavam a ficar vermelhos, resplandeciam ao longo da margem do rio, a jusante do vau. Ali perto, havia uma cabana em runas, onde 
um cesteiro praticava o seu ofcio; varas brancas, j sem casca, estavam empilhadas sobre as ervas e, ao lado destas, pregada ao cho, encontrava-se a armao de 
uma canoa, metade da qual j coberta por varas. Pela abertura sem porta da cabana, perpendicular ao rio, Harry divisou pilhas de varas e cinco ou seis nassas compridas 
e esguias para a pesca de eirs, ainda por estrear; mas o som que lhe despertara a ateno era estranho, numa oficina como aquela.
Era um som diligente, absorto e satisfeito, a batida continuada de metal contra pedra. Para que precisariam de um martelo, numa cabana de cesteiros? Orgulhavam-se 
de conseguir prender com juncos tudo o que fosse preciso prender. Por pura curiosidade e porque aquele martelar diligente lhe despertava memrias muito queridas, 
Harry desmontou de Barbarossa e dirigiu-se silenciosamente para a cabana.
Um rapaz magro e de aspecto rude, com no mais de onze ou doze anos, debruava-se concentradamente sobre qualquer coisa que empoleirara num tosco bloco de madeira, 
sob a luz do vo da janela. A cabeleira farta inclinava-se amorosamente sobre o seu trabalho, sem se importar com a canoa abandonada.
Assim que o p de Harry fez estalar os juncos, o rapaz soltou um guincho de medo e virou-se, com um brao levantado para proteger a cabea. Uma das suas mos segurava 
um seixo achatado e pesado e a outra um prego comprido, de ferro.
- Calma, calma! - disse Harry, apaziguador. - No sou o diabo nem o teu amo e no te quero fazer mal.
Sob a massa de cabelo escuro, um rosto moreno e esqulido fitou-o, com desconfiana. Esta criana estava habituada a levar pancada, esperava golpes que podiam vir 
de qualquer lado, mas os seus olhos vivos deixavam transparecer mais do que medo: denotavam uma coragem desesperada e firme. Manteve o corpo mido entre Harry e 
o que quer que fosse que guardava ali, no seu refgio, tal como continuou a empunhar os estranhos objectos que, claramente, no desejava utilizar como armas.

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- Que tens a? - perguntou Harry, alertado e curioso.
-  meu.
O rapaz estendeu os braos, na defensiva, com uma chama a acender-se nos olhos escuros.
- Fui eu que a trouxe para aqui. No roubei. Se os outros as podem tirar, eu tambm posso.
Harry pegou-lhe num ombro e afastou-o com delicadeza. Ao sentir a sua mo, o rosto do rapaz pareceu distender-se, numa ousadia alegre, e ficou de p, tranquilo, 
j sem tentar esconder o seu tesouro- Aqueles de quem habitualmente precisava de se defender no lidavam com ele daquela maneira. No gostara de ser observado e 
interrompido, mas no tinha nada a temer e, se se mostrasse despreocupado, o intruso partiria mais depressa.
Um bloco da pedra amarelada de mestre Harry - com aqueles bracitos, como conseguira o rapaz traz-lo at ali? - estava colocado sobre um tronco de madeira. Os outros 
haviam-se dedicado s pedras talhadas, mas esta criana trouxera uma por talhar. O seixo e o prego faziam as vezes de macete e de formo. Quem lhe haveria ensinado 
quais as ferramentas necessrias ou como comear a dar forma a este material pouco malevel? Aquelas mos pequenas e sujas haviam aproveitado ao mximo os instrumentos 
toscos, haviam-nos empunhado com convico e ardor. Sobre a pilha de juncos, onde decerto os escondia dos mais velhos e dos inimigos naturais, equilibrava-se um 
fragmento quebrado de um dos modilhes da nave lateral Sul: um ramo encurvado, o rosto velhaco de um campons, o focinho de um co de caa, parado, a apontar a presa.
Havia comeado a copi-la, com crueza e vivacidade; mas depois, ao chegar  inclinao da face cautelosa do caador furtivo, a mo ambiciosa do escultor sentira 
um desejo prprio e a sua imaginao desabrochara. O homem agachado ainda parecia irromper de entre os arbustos, o co saltava. Toscos e desastrados, mas vivos, 
saam dos seus refgios para correr atrs da presa e, ainda que desenhados nos traos inseguros de uma criana, havia neles jbilo e manha. Com uma pedra e um prego, 
Deus do cu! E sabendo que, provavelmente, ningum da sua famlia, ningum  sua volta deixaria de lhe dar um sopapo e atirar aquela porcaria ao rio, se fosse

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apanhado em flagrante. Mas o rapaz encontrara algo de que no estava disposto a desistir facilmente. O rosto ardente falava por si, o seu olhar intenso e a sua mo 
hbil eram eloquentes. Descobrira um abismo de fogo dentro de si e no deixaria que o apagassem.
- Quem te ensinou a fazer isto? - perguntou Harry.
- Ningum. Fui tentando. Olhei para o outro e tentei.
- J havias visto coisas destas?
- Como estas, no! J l estivestes? H l caras! Parecem vivas, como a da minha me. Nunca vi outras assim. No consegui tir-las, mas encontrei esta na erva, junto 
da muralha, e escondi-a. Achais que pode haver rvores, animais e pessoas dentro da pedra?
- Pode haver tudo dentro da pedra - disse Harry. - Todas as criaturas de Deus. Quem, melhor do que tu, sabe disso? Fizestes nascer dela dois seres que nunca antes 
haviam vivido.
- Eu queria era fazer coisas destas - disse o rapaz. - Ainda hei-de fazer mais e melhores - acrescentou, e o seu rosto to jovem tornou-se duro como a pedra.
- Se tiveres fora de vontade suficiente, hs-de faz-las. Criaturas to vivas como a tua me e igrejas como aquela.
"E, se Deus quiser", pensou Harry, bebendo profundamente de uma fonte de revelao, de gratido e alegria, "ser bem capaz de as fazer, tem a chama a brilhar dentro 
dele, um olhar puro e a mo ousada."
- Que Deus te ajude no teu trabalho - disse ao rapaz, e saiu para a luz do dia com o corao mais leve.
O rapaz ficou a v-lo montar e afastar-se, de olhos ardentes vagamente agradecidos, mas sempre com um ar distante e independente. Se houvesse trazido consigo algumas 
ferramentas, Harry dar-lhas-ia de boa vontade, mas vestia as suas melhores roupas e no tinha nada para dar - embora, na verdade, esta alma singular e obstinada 
no quisesse nada dele, nem sequer um estmulo. Chegaria aonde pretendia e nada o deteria ou o faria desviar do seu caminho. Era como uma tocha, acesa por uma fagulha 
daquele foco de incndio agora to espalhado, um rebento verde da semente escarlate do sangue, da vida e da paixo de mestre Harry, essa semente indestrutvel que 
fora semeada por toda a regio.

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Este era apenas o primeiro fruto da colheita.
Harry apertou com os joelhos os flancos luzidios de Barbarossa e lanou-se em frente, pelos baixios do vau. A meio da corrente, redes flutuantes de ranncuios agitavam-se 
e oscilavam  sua passagem, as minsculas flores brancas estremeciam nos seus caules delicados. O sol que lhe batia no rosto aqueceu-o at ao fundo do corao; e, 
no seu ntimo, sentiu os mortos agitarem-se, todos os mortos de cuja semente ele era o fruto vivo.
Este pensamento no o afligiu. Pelo contrrio: o seu esprito elevou-se, acompanhando-o, truculento e animoso. Em Aber, estavam  sua espera Aelis e as ferramentas 
do ofcio que escolhera, um bom ofcio, que fora o de seu pai e valia tanto como outro qualquer.
Plcida e verdejante, a margem galesa do rio aguardava-o, convidativa. Atrs de si, o pequeno sino persistente retomara o seu toque indmito.
Fim
